Homens são de direita, mulheres são de esquerda.

Publicado originalmente no Blog do Noblat

As pesquisas não permitem dúvida. Se a eleição norte-americana fosse hoje e apenas os homens votassem, Trump teria uma chance razoável de ser reeleito. Em direção oposta, o vice de Obama, Joe Biden, seria o escolhido com dianteira confortável caso a decisão fosse apenas das mulheres. Nenhuma novidade. Já havia sido assim na eleição anterior.

Algo parecido se deu no Brasil em 2018 quando Jair Bolsonaro ganhou a eleição com 55% dos votos — uma diferença de dez pontos sobre o adversário petista. Segundo pesquisa do DataFolha, na véspera do segundo turno da eleição ele atingia entre os homens 60%. Mas o país teria Haddad como presidente, ainda que por margem apertada de três décimos, se somente as brasileiras tivessem ido às urnas. O “gap de gênero”, designação que a literatura reserva ao fenômeno, continua durante o governo.

Conforme o mesmo instituto, decorridos oito meses do mandato os homens formam a maior parcela (57%) do núcleo duro de apoio ao presidente, enquanto as mulheres despontam com larga maioria (59%) no grupo que mais o rejeita. O que explicaria tal diferença probabilística de comportamento e atitudes?

Vários autores, inclusive eu, chamaram atenção para o fato de que papéis distintos na estrutura da família e da sociedade, incluindo a maior vulnerabilidade econômica, produzem agendas diferenciadas que influenciam as respectivas preferências. Saúde, educação dos filhos, tudo o que incide sobre o orçamento doméstico como energia, preço e qualidade dos alimentos lhes preocupa mais. Segurança pública é um tema comum aos dois segmentos, mas sob perspectivas diferentes: enquanto elas reclamam sobretudo o combate ao tráfico de drogas, eles priorizam o rigor na punição dos criminosos.

Contudo, essa explicação é insuficiente. Ao apostar apenas no comportamento consciente das eleitoras ainda nos deixa no terreno limitado da “teoria da escolha racional”, questionada até no campo da economia que foi seu berço. É necessário avançar mais. Incorporar à reflexão elementos externos às ciências sociais num esforço do tipo que Edward Wilson chamou de “consiliência”. No caso em tela adicionando-se o conhecimento provindo da neurociência.

Tais insights têm quase sempre ficado ausentes na análise da complexa teia de variáveis envolvidas nas diferenças do comportamento eleitoral no tocante aos sexos. Talvez desestimulados pelo receio da alcunha de “reducionismo biológico”. Afinal, algo assim ocorreu quando nos anos 70 do século passado a sociobiologia trouxe à baila a constatação de que dividimos com outras espécies muitas características de nosso comportamento social.

Mas o fato é que o avanço das pesquisas permite conhecermos hoje singularidades decorrentes de diferenças na estrutura cerebral, nos neurotransmissores e no nosso repertório emocional, que são resultados de milhões de anos de evolução desde as comunidades pré-históricas.

Alguns exemplos são eloquentes. Homens atingem conclusões mais rapidamente e têm maior capacidade de concentração porque no caso deles o corpo caloso — estrutura que conecta e permite a troca de informações entre os dois hemisférios cerebrais — é menos denso, com menor número de conexões do que nas mulheres. Cujas avaliações por conta disso processam simultaneamente razão e afeto. Essa característica termina implicando por sua vez em conclusões não tão velozes.

Mulheres levam mais tempo para decidir seu voto e ao longo das campanhas são mais abertas a alterar suas preferências. Sem esse processamento dual os juízos masculinos são mais especializados — ora racionais, ora afetivos. E bem mais rápidos. Eles definem seus candidatos por vezes até mesmo antes das campanhas começarem.

A influência hormonal também é decisiva, com a testosterona desempenhando um papel central. Ela é associada à ambição, competição, autoconfiança e assertividade. Homens e mulheres a possuem. Mas eles têm um nível até 20 vezes superior ao delas. Independência, controle e punição são seus focos primários. Temas típicos da direita como o antiestatismo, a ênfase na liberdade dos indivíduos, penas mais duras e a salvaguarda do modelo familiar clássico são música para seus ouvidos. Ao passo que as mulheres, mais empáticas e buscando permanente interação no seu entorno, têm aumentados seus níveis de occitocina que reforçam a confiança, a cooperação e a solidariedade, inclinando-as ao cuidado com as pessoas e ao fortalecimento dos laços comunitários. Assim, se veem atraídas pelo cardápio da esquerda: politicas sociais, direitos humanos, restrição à posse de armas e ambientalismo.

Nos USA, o Pew Research aponta que entre as qualidades de liderança política vistas como essenciais elas enfatizam traços como civilidade, compaixão e respeito à diversidade. Mulheres reagem mal à retórica política agressiva, não sendo propensas a radicalismos de qualquer matriz ideológica. E isso também é explicado pelos níveis de testosterona.

Homens são menos assolados pelo medo. Quando possuídos pela raiva são mais agressivos e têm maior probabilidade de recorrer à violência física. Não por acaso são responsáveis por 90% do cometimento de crimes violentos. E são mais curiosos e movidos pela excitação dopaminérgica de novidades, sobretudo tecnológicas. Isso contribui para entendermos porque são esmagadoramente masculinas as fileiras do radicalismo político ativado nas redes sociais. Ao passo que, em direção oposta, templos religiosos e movimentos pacifistas são cenários da presença predominante delas.

Contudo, não se deve subestimar a intensidade emocional das eleitoras. Seus sentimentos de atração e de aversão são mais fortes exatamente porque sua empatia e antipatia são mais desenvolvidas. Boa demonstração disso são as respostas femininas a questões de rejeição nos surveys. O certo é que, de uma forma simplificada, é razoável afirmar que no terreno da neuropolítica a empática occitocina é um hormônio de esquerda, enquanto que a poderosa testosterona é um hormônio de direita.

Lembremos que essas diferenças adquirem maior expressão em processos polarizados, centrífugos, com a sociedade dividida, quando os valores verbalizados nas disputas políticas ganham nitidez, despertam ansiedade e aumentam a taxa de envolvimento nas campanhas. Nos cenários onde predominam as forças centrípetas as especificidades podem eventualmente se dissipar. No Brasil, ambos os gêneros por duas vezes apoiaram FHC em proporções semelhantes.

Foi a eleição de 2002 que nos trouxe o fenômeno aqui abordado. E com sinais trocados, por motivos conhecidos. O medo em relação ao histórico de radicalismo do petista que naquela eleição enfrentava José Serra, o exitoso ministro da Saúde, um típico cuidador, levaria Lula, embora vitorioso no total por larga margem, a ter dez pontos a menos entre as mulheres. O gap mesmo diminuindo se manteria até a eleição de Dilma em 2010, enfrentando o mesmo José Serra. Na sua reeleição em 2014, contra Aécio, viria a inversão. Numa campanha com fortes emoções ela chegou às urnas em queda, praticamente empatada entre os homens. E poderia ter sido derrotada não fosse a margem de sete pontos sobre o adversário que as mulheres lhe asseguraram.

Na Europa, mesmo nos países onde os partidos que emergiram no pós guerra seguem funcionando como principais trilhos das opções eleitorais, o fenômeno também comparece. Na Alemanha, principal país do bloco, são os homens que alimentam o crescimento do novo partido que tem atemorizado as forças tradicionais. Nas eleições parlamentares de 2017 a votação masculina da legenda populista de direita (AFD) foi 80% maior que a feminina.

Antonio Lavareda é sociólogo e cientista político, autor dos livros “Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais” (2009, Ed. Objetiva), “Neuropolítica: o papel das emoções e do inconsciente” (2011, Revista da USP) e “Neuropropaganda de A a Z” ( 2016, com João Paulo Castro, Ed. Record).

Observatório Febraban – Bullying e Cancelamento: Impacto na Vida dos Brasileiros

O que emerge da Pesquisa Febraban IPESPE “Bullying e Cancelamento: Impacto na vida dos brasileiros (Observatório Febraban)” é que os problemas de bullying e cyberbullying assumem um quadro dramático para crianças e jovens. E ameaçam o equilíbrio psicológico e a saúde mental deles, com indicativos de que também comprometem o desempenho escolar e as relações sociais. Lembrando que o estresse provocado por essas práticas ainda encontra esses seres em uma fase frágil de desenvolvimento. Confira a íntegra do estudo, baixe o arquivo acima.

A Frente Republicana foi corroída na eleição presidencial, mas implodiu depois das legislativas

Jérôme Fourquet, diretor do departamento de “opinião e estratégias empresariais” do IFOP – (Instituto Francês de Opinião Pública), analisa – em entrevista ao Le Monde – os números de transferência de votos e abstenções por partido no segundo turno das eleições legislativas.

Os representantes eleitos do Rassemblement national (RN – extrema-direita) foram os primeiros a se surpreenderem com a extensão de sua vitória. Como explicar esses resultados?

Estes resultados vêm de longe, fazem parte de uma dinâmica fundamental do RN, que se beneficiou das eleições legislativas como uma espécie de rampa de lançamento. Marine Le Pen obteve 23,15% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial, apesar da concorrência de Eric Zemmour, com seus 7,07%, e esse grande espaço da direita nacional, com 30%, é completamente novo. E, na segunda rodada, sua pontuação de 41,45% contra Emmanuel Macron é um grande evento. Isso significa que os eleitores votaram nela no segundo turno sem tê-lo feito no primeiro e que parte do eleitorado não barrando esse crescimento.

Então, no primeiro turno das eleições legislativas, o RN obteve quase 19% dos votos, um aumento de 5,5 pontos em relação a 2017. Conseguiu assim colocar 208 candidatos no segundo turno, contra 123 cinco anos antes, e aumentar mecanicamente suas chances de vitória. Os lepenistas lideraram este ano em 108 distritos eleitorais, contra apenas dez em 2017: o partido aumentou tanto o número de candidatos presentes quanto o número de candidatos em primeiro lugar, o que prenunciava um resultado bastante favorável. Mas suas pontuações foram ainda maiores do que o esperado.

Como explicá-lo?

Porque o mecanismo da Frente Republicana funcionou muiuto menos, ou de forma muito marginal. O tiroteio, sistematicamente contra qualquer candidato do RN bem colocado no primeiro turno, perdeu muita eficácia – essa é uma das grandes lições desta eleição. Seja duelos com Ensemble! (partido de Macron) ou com a esquerda, o RN teve vitórias divididas com esses agrupamentos, e isso explica sua espetacular vitória. Seus candidatos agora têm chances de vitória comparáveis aos partidos tradicionais. Em 107 distritos eleitorais, o RN se opôs no segundo turno a um candidato do Ensemble!. Ele ganhou 53, ou metade. Em 2017, com aproximadamente o mesmo número de duelos, 104, o RN conquistou apenas 7 vagas.

A erosão republicana é a razão?

De fato. Muitos eleitores de candidatos eliminados não se transferiram para o candidato que enfrentou o RN. No cenário mais comum, duelos entre Ensemble! e o RN, os candidatos da antiga maioria, em média, puderam contar com os votos de apenas 31% – um terço – dos eleitores do Nupes (Jean-Luc Mélenchon). 11% votaram no RN e o restante, 58% se abstiveram, votaram em branco ou nulo. 58% é enorme.

Os mesmos cálculos durante as eleições regionais de 2021 em Provence Alpes Côte d’Azur, onde o candidato apoiado pelo RN tinha boas chances de vencer, mostram que os eleitores de esquerda votaram então mais de 60% no candidato da direita e do centro. A proporção era comparável nos Hauts-de-France, quando a esquerda havia se retirado durante os duelos da direita-RN. Então, durante a eleição presidencial, apenas 45% do eleitorado de Jean-Luc Mélenchon foi para Emmanuel Macron. Hoje, há apenas um terço.

Por detestar o Sr. Macron?

Há, sem dúvida, um sentimento anti-Macron muito virulento entre esses eleitores, este é o primeiro elemento. Então, há menos em jogo em um legislativo do que em um presidencial. Esses eleitores do Nupes dizem para si mesmos: “Não vamos votar em um “governista”, é só um deputado mais ou menos. “Terceiro elemento, mais tático, dizem a si mesmos que votando contra o RN veem um “andador” na Assembleia e dão um tiro no próprio pé se se trata de permitir que Mélenchon vá ao Parlamento. O desejo de privar Macron da maioria prevaleceu claramente sobre a lógica da frente republicana À direita, há outros eleitores órfãos. Nesses duelos do RNEn parece!, eles relataram 41% na maioria, o que não é desprezível, e 26% no RN. Os demais, 33%, se abstiveram. O eleitorado da direita bloqueou assim o RN um pouco mais do que o da esquerda, mas uma parte substancial votou no RN.

E em caso de duelo RN-Nupes?

É também um belo alinhamento de planetas para o RN. Nestes 65 distritos eleitorais onde o RN estava voltado para a esquerda, os eleitorados de ouro ainda estavam à direita, mas também com o Ensemble!. O  La République en marche (LRM) votou muito pouco RN – 1%, quase traço. Mas se 41% votaram à esquerda, 58% se abstiveram: quase seis em cada dez eleitores do LRM, num duelo do Nupes-RN, dizem para si mesmos que está fora de questão votar em um Mélenchonista. Quando o RN enfrenta um comunista, um socialista ou um verde, só vence em 38% dos casos. Mas quando é um “rebelde”, vence em 63% dos casos, sinal de que o eleitorado moderado não se moveu. Os “governistas” diziam para si mesmos: “O Nupese o RN estão fora do círculo republicano, então não votamos”. Para a maioria presidencial, votar contra o RN significa enviar mais um soldado Mélenchonista à Assembleia.

À direita, nesses duelos, 47% dos eleitores votaram no RN, 18% votaram contra e os demais, 35%, se abstiveram. A direita sempre teve mais dificuldade em se acostumar com a frente republicana. Ela poderia votar em um candidato socialista tingido de lã contra o RN. Mas votar em um “rebelde”, um comunista, uma tendência verde de Rousseau, não foi possível. Com diferentes configurações, essas eleições legislativas permitiram que o RN se infiltrasse na Assembleia. A frente republicana não é mais automática. Tinha funcionado até as eleições regionais, tinha se desgastado um pouco, durante a eleição presidencial. Explodiu hoje.

Woodward e Bernstein achavam que Nixon definia a corrupção. Depois veio Trump.

Por Bob Woodward e Carl Bernstein – 5 de junho de 2022 – The Washington Post

O presidente George Washington, em seu célebre discurso de despedida de 1796, advertiu que a democracia americana era frágil. “Homens astutos, ambiciosos e sem princípios poderão subverter o poder do povo e usurpar para si as rédeas do governo”, alertou.

Dois de seus sucessores – Richard Nixon e Donald Trump – demonstram a genialidade chocante da previsão do nosso primeiro presidente.

Como repórteres, estudamos Nixon e escrevemos sobre ele por quase meio século, durante o qual acreditamos com grande convicção que nunca mais os Estados Unidos teriam um presidente que pisoteasse o interesse nacional e minasse a democracia por meio da audaciosa busca do eu pessoal e político. 

E então veio Trump.

O cerne da criminalidade de Nixon foi sua subversão bem-sucedida do processo eleitoral – o elemento mais fundamental da democracia americana. Ele conseguiu isso por meio de uma campanha massiva de espionagem política, sabotagem e desinformação que lhe permitiu determinar literalmente quem seria seu oponente na eleição presidencial de 1972.

Com um orçamento secreto de apenas US$ 250.000, uma equipe de agentes disfarçados de Nixon descarrilou a campanha presidencial do senador Edmund Muskie, do Maine, o candidato mais elegível dos democratas.

Nixon então concorreu contra o senador George McGovern, um democrata de Dakota do Sul amplamente visto como o candidato muito mais fraco, e venceu em uma vitória esmagadora histórica com 61% dos votos e levando 49 estados.

Nos dois anos seguintes, a conduta ilegal de Nixon foi gradualmente exposta pela mídia, o Comitê Watergate do Senado, promotores especiais, uma investigação de impeachment da Câmara e, finalmente, pela Suprema Corte. Em uma decisão unânime, o tribunal ordenou que Nixon entregasse suas gravações secretas, que condenaram sua presidência.

Esses instrumentos da democracia americana finalmente detiveram Nixon, forçando a única renúncia de um presidente na história americana.

Donald Trump não apenas procurou destruir o sistema eleitoral por meio de falsas alegações de fraude eleitoral e intimidação pública sem precedentes de funcionários eleitorais estaduais, mas também tentou impedir a transferência pacífica de poder para seu sucessor devidamente eleito, pela primeira vez na história americana.

Os instintos diabólicos de Trump exploraram uma fraqueza da lei. De maneira bastante incomum e específica, a Lei de Contagem Eleitoral de 1887 diz que às 13h do dia 6 de janeiro, após a eleição presidencial, a Câmara e o Senado se reunirão em sessão conjunta. O presidente do Senado, neste caso o vice-presidente Mike Pence, presidirá. Os votos eleitorais dos 50 estados e do Distrito de Columbia serão então abertos e contados.

Este momento singular na democracia americana é a única declaração oficial e certificação de quem ganhou a eleição presidencial.

Em um engano que excedeu até mesmo a imaginação de Nixon, Trump e um grupo de advogados, legalistas e assessores da Casa Branca elaboraram uma estratégia para bombardear o país com falsas afirmações de que a eleição de 2020 foi fraudada e que Trump realmente venceu. Eles se concentraram na sessão de 6 de janeiro como a oportunidade de anular o resultado da eleição. Antes dessa data crucial, os advogados de Trump distribuíram memorandos com alegações fabricadas de fraude eleitoral que contavam os mortos, cidadãos menores de idade, prisioneiros e residentes de fora do estado.

Assistimos com total consternação enquanto Trump afirmava persistentemente que ele era realmente o vencedor. “Nós vencemos”, disse ele em um discurso em 6 de janeiro no Ellipse. “Ganhamos com folga. Isso foi um deslizamento de terra.” Ele pressionou publicamente e implacavelmente Pence para torná-lo o vencedor em 6 de janeiro.

Naquele dia, impulsionada pela retórica de Trump e sua óbvia aprovação, uma multidão desceu ao Capitólio e, em um ato impressionante de violência coletiva, invadiu portas e janelas e saqueou a câmara da Câmara, onde os votos eleitorais deveriam ser contados. A multidão então foi em busca de Pence – tudo para impedir a certificação da vitória de Joe Biden. Trump não fez nada para contê-los.

Por definição legal, isso é claramente sedição – conduta, discurso ou organização que incita as pessoas a se rebelarem contra a autoridade governante do estado. Assim, Trump se tornou o primeiro presidente sedicioso de nossa história.

Cinquenta anos antes, Nixon pretendia minar e subverter o sistema americano de eleições livres, a pedra angular que mantém nossa democracia unida.

Em 1971, Howard Hunt, um ex-agente da CIA, e G. Gordon Liddy, um ex-agente do FBI, foram contratados para trabalhar para a Casa Branca em uma “Unidade de Investigações Especiais” – conhecida lá como os “Encanadores”. Sua missão inicial: conectar vazamentos de funcionários do governo Nixon à mídia.

Um dos empreendimentos mais notórios dos Encanadores de Nixon foi o roubo do psiquiatra de Daniel Ellsberg, que havia vazado os Papéis do Pentágono para o New York Times e o Washington Post. Hunt e Liddy comandaram o roubo. A esperança, não cumprida, era encontrar sujeira em Ellsberg ou mostrar que ele tinha laços comunistas.

Com o início da campanha, Hunt e Liddy foram transferidos para o comitê de reeleição de Nixon para operações de espionagem e sabotagem.

Os memorandos descobertos durante as investigações de Watergate identificaram Muskie como “Alvo A”, com o objetivo de “impressionar sobre ele algumas feridas políticas que não apenas reduzirão suas chances de indicação – mas o prejudicarão como candidato, caso seja indicado”.

Em um dos esforços de espionagem mais fortes e eficazes, Elmer Wyatt, um agente da campanha de Nixon, foi colocado na campanha de Muskie, onde se tornou o motorista do senador. Wyatt recebia US$ 1.000 por mês para entregar cópias de documentos confidenciais que transportava entre o escritório de Muskie no Senado e sua sede de campanha presidencial. Foi um rendimento espetacular. O volume era tão grande que Wyatt, de codinome “Ruby I”, alugou um apartamento no meio do caminho entre os dois escritórios, equipado com uma máquina de fotocópias.

Cópias dos documentos de Muskie foram transportadas para a sede da reeleição de Nixon, onde o gerente de campanha John Mitchell, ex-procurador-geral, aproveitou a visibilidade quase total dos documentos fornecidos à campanha de Muskie: “itinerários, memorandos internos, rascunhos de discursos e documentos de posição ”, de acordo com o relatório final do Comitê Watergate do Senado em 1974. A campanha de Nixon também recebeu trabalhos sobre debates de estratégia de campanha, captação de recursos, pessoal, operações de mídia e disputas internas.

Enquanto isso, Gordon Strachan, o principal assessor político do chefe de gabinete da Casa Branca HR “Bob” Haldeman, e Dwight Chapin, secretário de nomeações de Nixon, que era como um filho do presidente, contrataram Donald Segretti, um velho amigo de faculdade e ex-advogado do Exército, para implementar esforços de sabotagem.

Segretti, por sua vez, contratou 22 indivíduos para infligir essas “feridas políticas” e recebeu US$ 77.000 em cheques e dinheiro. Herbert Kalmbach, advogado pessoal de Nixon, fez secretamente os pagamentos dos fundos de campanha restantes.

Em março de 1972, um agente de Segretti circulou uma carta falsificada em papel timbrado de Muskie com alegações de impropriedades sexuais envolvendo os candidatos democratas rivais Henry “Scoop” Jackson e Hubert Humphrey. O papel timbrado custou apenas US$ 20 para ser reproduzido, mas Chapin disse a Segretti que os US$ 20 foram um investimento sensacional e obtiveram “US$ 10.000 a US$ 20.000 em benefício para a campanha de reeleição do presidente”, segundo o relatório do Comitê Watergate do Senado.

Ao longo dos meses da corrida primária democrata, provocações, piquetes e placas “MUSKIE soletra o perdedor” seguiram Muskie. Segretti e seus agentes roubaram sapatos deixados pelo candidato e sua equipe do lado de fora das portas do quarto do hotel para polir antes dos eventos de campanha. As chaves foram roubadas sorrateiramente das carreatas de campanha enquanto os motoristas se afastavam para fumar. Sapatos e chaves foram então depositados em lixeiras fora da cidade, impossibilitando que a campanha permanecesse dentro do cronograma e funcionasse sem problemas. Os agentes de Segretti relataram: “Nós irritamos muito sua equipe e o abalamos consideravelmente”.

Muskie e seus funcionários ficaram assustados. Em um comício em New Hampshire, de pé na traseira de um caminhão, o candidato expressou como estava chateado com os insultos publicados sobre sua esposa, Jane. Um editorial de fofocas publicado pelo conservador William Loebin, líder do sindicato de Manchester, intitulado “Big Daddy’s Jane”, sugeria que a esposa do senador bebia, fumava e gostava de contar piadas sujas. A história também foi publicada na Newsweek . Na mesma época, Muskie parecia tolerar o uso da palavra “Canuck”, um termo pejorativo para os canadenses, em uma carta falsificada redigida por um assessor da Casa Branca de Nixon.

Sob ataque, Muskie chorou abertamente na parada da campanha de New Hampshire. David Broder, repórter político sênior do Washington Post, escreveu em uma matéria de primeira página que Muskie desmoronou três vezes, “com lágrimas escorrendo pelo rosto”.

Gota a gota, tudo isso somado à implosão da candidatura Muskie. Mais tarde, Muskie disse: “Nossa campanha foi constantemente atormentada por vazamentos, interrupções e fabricações, mas nunca conseguimos identificar quem estava fazendo isso”.

“Havia muitos atores no drama de Watergate”, escreveu o chefe de gabinete de Nixon, Haldeman, em seu livro de 1978, “ The Ends of Power ”, “e por trás de todos eles espreita a sempre presente sombra do presidente dos Estados Unidos. ”

Haldeman acrescentou: “Essa tendência de atacar com muita força … refletiu uma crença e uma vontade muito grande de aceitar o conceito de que o fim justifica os meios”. Em outras palavras, Nixon acreditava que sua sobrevivência política era um “bem maior”, que valia a pena subverter a vontade do povo.

“Um homem não está acabado quando é derrotado. Ele está acabado quando se demite”, escreveu Nixon em uma nota para si mesmo em 1969. Era um ditado classicamente nixoniano – adotado por Trump, que havia sido derrotado nas eleições de 2020, mas armado com falsidades e um esquema para manter o poder , recusou-se a desistir.

Mesmo antes da eleição, Trump tentou implacavelmente manobrar e alegar que o processo eleitoral foi fraudado contra ele, lançando as bases para um ataque à legitimidade de seu resultado, que continua até hoje.

Em 22 de junho de 2020, por exemplo, quase cinco meses antes do dia das eleições, ele twittou: “MILHÕES DE CÉDULAS POR CORREIO SERÃO IMPRESSAS POR PAÍSES ESTRANGEIROS E OUTROS. SERÁ O ESCÂNDALO DE NOSSOS TEMPOS!”

Às 2h30 de 4 de novembro, enquanto a contagem dos votos presidenciais solidificava o caminho de Biden para a vitória no colégio eleitoral, Trump disse à nação e ao mundo: “Isso é uma fraude para o público americano. Isso é uma vergonha para o nosso país. Estávamos nos preparando para ganhar esta eleição. Francamente, nós vencemos esta eleição.”

Três dias depois, a Associated Press e o resto da mídia declararam Biden o vencedor. Trump, no entanto, disse: “Todos nós sabemos por que Joe Biden está correndo para fingir ser o vencedor e por que seus aliados da mídia estão se esforçando tanto para ajudá-lo: eles não querem que a verdade seja exposta. O simples fato é que esta eleição está longe de terminar. …

“Nossa campanha começará a processar nosso caso no tribunal. …

“Não descansarei até que o povo americano tenha a contagem honesta de votos que merece e que a democracia exige.”

Ao contrário de Nixon, Trump realizou sua subversão em grande parte em público. Ele perseguiu ataques à legitimidade do processo eleitoral de 2020 a partir de pódios de comícios de campanha, da Casa Branca e de seu popular feed no Twitter. No entanto, ele perdeu 61 de suas contestações judiciais, mesmo de juízes que ele havia nomeado.

Após o dia da eleição, Trump iniciou outro ataque mais mortal ao processo eleitoral.

“SEXTO DE JANEIRO, NOS VEJO EM DC!” ele twittou em 30 de dezembro de 2020, de Mar-a-Lago, onde passava as férias.

O estrategista-chefe de longa data Steve Bannon, que esteve dentro e fora do favor de Trump, pegou o assunto em uma conversa por telefone com Trump no mesmo dia.

“Você precisa retornar a Washington e fazer um retorno dramático hoje”, Bannon disse a ele, de acordo com reportagem no livro de Woodward e Robert Costa, “ Peril ”.

“Você tem que chamar Pence da porra das pistas de esqui e trazê-lo de volta aqui hoje. Esta é uma crise”, disse Bannon, referindo-se ao vice-presidente, que estava de férias em Vail, Colorado.

“Vamos enterrar Biden em 6 de janeiro”, disse Bannon.

Se os republicanos pudessem lançar uma sombra suficiente sobre a vitória de Biden em 6 de janeiro, disse Bannon, seria difícil para ele governar. Milhões de americanos o considerariam ilegítimo.

“Nós vamos matá-lo no berço. Mate a presidência de Biden no berço”, disse Bannon.

O ataque de Trump à legitimidade de Biden incluiu uma série de declarações públicas, enganos legais e um foco constante na interrupção da certificação de 6 de janeiro no Congresso.

Em um memorando de duas páginas “privilegiado e confidencial”, datado de 2 de janeiro, o advogado ultraconservador John Eastman definiu em seis pontos como Trump seria declarado vencedor. Era um plano para um golpe. O memorando dizia: “7 estados transmitiram listas duplas de eleitores”.

Se mesmo um único estado tivesse chapas duplas de eleitores, isso poderia causar estragos na certificação do Congresso.

O senador republicano Mike Lee, de Utah, um dos mais fortes apoiadores de Trump, ficou chocado ao ler o memorando que a Casa Branca havia enviado a ele. Eleitores alternativos seriam uma grande notícia nacional se fosse verdade. Ele não tinha ouvido falar de nenhum. Lee lançou sua própria investigação e passou dois meses conversando com Trump e funcionários da Casa Branca e ligando para representantes em legislaturas controladas pelos republicanos. Não havia lousas alternativas. Lee ficou surpreso que o memorando enganoso tivesse vindo de Eastman, professor de direito e ex-funcionário do juiz da Suprema Corte Clarence Thomas.

Lee finalmente foi ao plenário do Senado e, segurando uma cópia da Constituição, disse que passou muito tempo investigando o assunto e não encontrou “nem mesmo um” exemplo de eleitor suplente.

Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York, advogado e confidente de Trump, fez alegações semelhantes de eleições fraudulentas e fraude eleitoral em massa. Giuliani escreveu suas alegações em longos memorandos que enviou ao senador Lindsey Graham, um membro de Trump. Quando Graham investigou as alegações, não encontrou nada. “Conte comigo”, disse Graham dramaticamente no plenário do Senado.

Na noite de 5 de janeiro, um dia antes do processo formal de certificação, Trump se encontrou com Pence. Ele pediu a Pence como presidente da sessão de certificação para expulsar os eleitores de Biden.

Pence disse que não tinha o poder.

“E se essas pessoas disserem que você sabe?” perguntou Trump. Ele gesticulou para fora, onde uma enorme multidão de seus apoiadores havia se reunido. Seus aplausos e megafones podiam ser ouvidos através das janelas do Salão Oval.

“Eu não gostaria que nenhuma pessoa tivesse essa autoridade”, disse Pence.

“Mas não seria quase legal ter esse poder?” perguntou o presidente dos Estados Unidos.

“Não”, disse Pence. “Estou lá apenas para abrir os envelopes.”

“Você não entende, Mike, você pode fazer isso. Eu não quero mais ser seu amigo se você não fizer isso.” A voz de Trump ficou mais alta e ele ficou ameaçador. “Você nos traiu. Eu fiz você. Você não era nada”, disse ele. “Sua carreira acaba se você fizer isso.”

Depois que Pence partiu naquela noite, Trump convidou um grupo de seus assessores de imprensa para o Salão Oval. Ele havia aberto uma porta perto do Resolute Desk. Fazia cerca de 31 graus lá fora, e o ar frio entrava. Trump estava alheio a seus assessores trêmulos e, em vez disso, parecia se deleitar com os aplausos de seus apoiadores do lado de fora.

“Não é ótimo?” ele disse. “Amanhã será um grande dia. Está tão frio, e eles estão lá fora aos milhares. Há muita raiva lá fora agora.”

Trump ameaçou incentivar desafios primários contra aqueles no Congresso que apoiaram a certificação de Biden como presidente.

À 1h da manhã de 6 de janeiro de 2021, Trump twittou: “Se o vice-presidente @Mike_Pence passar por nós, ganharemos a presidência… Mike pode enviá-lo de volta!”

As postagens no Twitter e nas mídias sociais se iluminaram com ameaças de violência. Eu vou matar essa pessoa. Atire nessa pessoa. Pendure esse cara.

Em uma ligação às 10h para Pence, Trump deu mais uma chance. “Mike, você pode fazer isso. Estou contando com você para fazê-lo. Se você não fizer isso, eu escolhi o homem errado quatro anos atrás.”

No comício “Stop the Steal” de Trump naquela manhã, vários milhares de pessoas se reuniram no Ellipse no frio. “Vamos fazer um julgamento por combate”, disse Giuliani enquanto a multidão aplaudia sua aprovação.

Trump seguiu. “Nunca vamos desistir. Nós nunca vamos admitir. … Você nunca vai recuperar nosso país com fraqueza”, ele gritou para a multidão do palco.

“Sei que todos aqui em breve estarão marchando até o prédio do Capitólio para fazer suas vozes serem ouvidas de forma pacífica e patriótica”, disse Trump.

Uma multidão determinada de mais de 1.000 desceu ao Capitólio. Logo depois das 14h, a multidão se tornou violenta. O vidro começou a se estilhaçar, as portas foram arrombadas. Um assalto e uma insurreição sem precedentes estavam em pleno andamento. “Enforque Mike Pence”, eles cantavam, enquanto perambulavam pelos corredores do Congresso. Alguns estavam vestidos com trajes extravagantes. Do lado de fora, uma forca improvisada foi erguida para enforcar Pence.

Na Casa Branca, Trump assistiu ao tumulto na televisão.

Um ano depois, o Comitê Seleto da Câmara sobre o ataque de 6 de janeiro estava adiantado em sua investigação: havia emitido 86 intimações, entrevistado mais de 500 testemunhas e obtido 60.000 páginas de registros. No momento da redação deste artigo, o comitê tinha uma abundância de evidências de que a insurreição foi uma operação de Trump – e os membros do comitê prometeram avançar ainda mais.

Tanto Nixon quanto Trump criaram um mundo conspiratório no qual a Constituição dos EUA, as leis e as frágeis tradições democráticas deveriam ser manipuladas ou ignoradas, os oponentes políticos e a mídia eram “inimigos” e havia poucas ou nenhuma restrição aos poderes confiados aos presidentes.

Tanto Nixon quanto Trump eram estranhos, dados à paranóia, implacáveis ​​em sua ambição, carregando fichas nos ombros. Trump dos bairros externos da cidade de Nova York, não de Manhattan. Nixon de Yorba Linda, Califórnia, não de São Francisco ou Los Angeles. Mesmo depois de conquistar o cargo mais poderoso do mundo, esses dois homens abrigavam profundas inseguranças.

Nossas conclusões vêm cobrindo Nixon e Watergate por meio século. E de reportar sobre Trump por mais de seis anos – Woodward em três livros (“Fear” em 2018, “Rage” em 2020 e “Peril” com Robert Costa em 2021); Bernstein como repórter e comentarista da CNN, analisando Trump, seu comportamento e seu significado de 2016 até este ano. Bernstein informou em novembro de 2020 que 21 senadores republicanos desprezavam e desdenhavam Trump em particular, apesar de expressarem regularmente seu apoio ao presidente em público. Depois que a história foi veiculada na CNN – que nomeou os 21 senadores – outro senador republicano sênior disse que o número estava mais próximo de 40.

Watergate começou para nós quando fomos chamados para trabalhar com uma equipe de repórteres do Washington Post no dia seguinte à prisão de cinco ladrões durante uma invasão na sede do Comitê Nacional Democrata no prédio de escritórios de Watergate em 17 de junho de 1972.

Embora tenhamos demorado meses para estabelecer, Nixon, sua equipe na Casa Branca e sua campanha de reeleição começaram imediatamente um ataque sem precedentes ao sistema de justiça, lançando um encobrimento abrangente envolvendo mentiras, pagamentos de suborno e ofertas de indultos presidenciais para ocultar seus crimes.

Em uma gravação de 23 de junho de 1972, seis dias após a prisão dos ladrões em Watergate, o chefe de gabinete Haldeman disse a Nixon: “O FBI não está sob controle… conseguiu rastrear o dinheiro.”

Haldeman disse que ele e Mitchell tinham um plano para a CIA alegar que os segredos de segurança nacional seriam comprometidos se o FBI não interrompesse sua investigação sobre Watergate.

Nixon aprovou o plano e ordenou que Haldeman chamasse o diretor da CIA e seu vice. “Jogue duro”, orientou o presidente. “É assim que eles jogam, e é assim que vamos jogar.”

Esta foi a fita que foi lançada em 5 de agosto de 1974, e infelizmente foi chamada de “arma fumegante”. Realmente não era pior do que algumas das outras fitas que haviam sido divulgadas anteriormente. A essa altura, o Congresso e o público estavam cansados ​​e enojados com Nixon.

John Dean, o advogado da Casa Branca de Nixon, foi inicialmente responsável pela contenção e acobertamento das atividades de Watergate. Ele encontrou um participante voluntário no procurador-geral assistente Henry Petersen, chefe da divisão criminal do Departamento de Justiça, um cargo poderoso. Petersen concordou em garantir que Earl Silbert, o advogado dos EUA encarregado de investigar Watergate, não investigasse Segretti e outros.

De acordo com o relatório do Senado Watergate, “Petersen instruiu Silbert a não investigar as relações entre Segretti e Kalmbach, Chapin e Strachan porque ele ‘não queria que ele entrasse nas relações entre o presidente e seu advogado ou o fato de que o advogado do presidente pode estar envolvido em algumas atividades ilegítimas de campanha, pensei, em nome do presidente.’”

O encobrimento poderia prosseguir com o que – em termos práticos – equivalia a uma bênção oficial.

Em suas memórias, Haldeman, cinco anos após sua renúncia da Casa Branca, disse que Nixon estava por trás de todo o subterfúgio.

“Percebi que muitos problemas em nossa administração surgiram não apenas de fora, mas de dentro do Salão Oval – e ainda mais fundo, de dentro do personagem Richard Nixon”, escreveu Haldeman.

“Logo percebi que esse presidente precisava ser protegido de si mesmo. Vez após vez eu recebia ordens vingativas mesquinhas”, escreveu Haldeman sobre Nixon. Uma delas era: “ Toda a imprensa está impedida de entrar no Força Aérea Um… Ou, depois que um senador fez um discurso anti-Guerra do Vietnã: ‘Coloque vigilância 24 horas no bastardo’. E assim por diante.”

Em uma das entrevistas que Woodward realizou com Trump para seu livro “Rage”, ele perguntou: “O que você aprendeu sobre si mesmo?”

Trump suspirou audivelmente. “Eu posso lidar com mais do que outras pessoas podem lidar.”

“As pessoas não querem que eu tenha sucesso… Nem os RINOs, nem os RINOs querem que eu tenha sucesso.” (RINOs são “republicanos apenas no nome.”)

“Tenho oposição como ninguém. E tudo bem. Eu tive isso toda a minha vida. Eu sempre tive. E isso tem sido – toda a minha vida tem sido assim.”

Nixon também se sentiu cercado por inimigos.

“Lembre-se de que estaremos por perto e sobreviveremos aos nossos inimigos”, disse Nixon no Salão Oval em 14 de dezembro de 1972, um mês após sua reeleição. “E também, nunca se esqueça: a imprensa é a inimiga. A imprensa é o inimigo. A imprensa é o inimigo. O establishment é o inimigo. Os professores são o inimigo. Os professores são o inimigo. Escreva isso em um quadro-negro 100 vezes e nunca esqueça.”

Como se sabe, Trump disse publicamente que a imprensa era inimiga e inimiga do Estado. Ele até disse uma vez a Woodward durante uma entrevista: “Na minha opinião, você é o inimigo do povo”. Depois que Bernstein divulgou uma das reuniões secretas de Trump, Trump o chamou de “desleixado” e “tolo degenerado”.

A questão paira: por que dois homens que ocupavam o cargo mais alto do país se envolveram nesses ataques à democracia?

O medo de perder e ser considerado um perdedor era um traço comum para Nixon e Trump.

Em entrevista ao The Washington Post em 2015, Trump explicou que achava que sempre teve sucesso com seus imóveis, seus livros, seu programa de TV e seu golfe.

Questionado se tinha medo de perder algum dia, Trump disse: “Não tenho medo disso, mas odeio o conceito disso”.

“O que você odeia sobre isso?”

“Odeio o fato de ser um total desconhecido”, disse ele, dando uma clássica resposta trumpiana de total confiança e acrescentando: “Se há medo, é medo do desconhecido, porque nunca estive lá. antes da.”

Em uma entrevista em 31 de março de 2016, quando Trump estava prestes a garantir a indicação republicana para presidente, surgiu a questão de como ele definiria o poder.

Trump disse: “O verdadeiro poder é – nem quero usar a palavra – medo”.

Depois que Nixon renunciou e embarcamos em nosso segundo livro, “The Final Days”, no último ano de Nixon como presidente, fomos entrevistar o senador Barry Goldwater, do Arizona, o candidato republicano à presidência em 1964. Goldwater foi muitas vezes considerado como a consciência do Partido Republicano.

Em seu apartamento, ele nos ofereceu uísque e pegou seu diário que havia ditado durante anos para sua secretária. Ele começou a ler sua entrada para 7 de agosto de 1974. A chamada fita da arma fumegante havia sido lançada dois dias antes dessa data, mostrando que Nixon havia pedido à CIA que o FBI reduzisse sua investigação de Watergate por motivos falsos de segurança nacional. Ficou claro que Nixon seria impeachment e formalmente acusado pela Câmara dos Deputados. A questão era o Senado.

O líder republicano do Senado, Hugh Scott, da Pensilvânia, o líder republicano da Câmara, John Rhodes, do Arizona, e Goldwater foram convidados a se encontrar na Casa Branca com Nixon. Ficariam a sós com o presidente no Salão Oval. Nenhum assessor ou advogado de Nixon estava presente naquela noite.

Goldwater estava sentado em frente a Nixon, que estava sentado em sua mesa. Mais tarde, ele ditou que Nixon parecia à vontade, quase sereno. Ele achou que o presidente parecia ter acabado de atirar em um buraco. A decepção era audível, no entanto, na voz de Nixon.

“Pedimos a Barry para ser nosso porta-voz”, disse Scott.

“Senhor. Presidente, isso não é agradável, mas você quer conhecer a situação e não é bom”, disse Goldwater.

“Quantos você diria que estariam comigo – meia dúzia?” perguntou Nixon.

Goldwater havia dito que se perguntava se havia sarcasmo na voz do presidente, porque Nixon precisaria de 34 votos em um julgamento no Senado para permanecer no cargo. Uma maioria de dois terços, ou 67, foi necessária para removê-lo, de acordo com a Constituição.

“Dezesseis a 18”, disse Goldwater, ainda bem aquém dos 34 necessários.

“Eu diria que talvez 15”, disse Scott. “Mas é sombrio, e eles não são muito firmes.”

“Maldição sombria”, o presidente disparou de volta.

Em um julgamento no Senado, Goldwater disse: “Não há muitos que o apoiariam se chegar a isso”.

Goldwater nos disse que havia decidido naquele momento ser absolutamente franco em sua mensagem. “Eu fiz uma espécie de contagem de nariz hoje, e não consegui encontrar mais do que quatro votos muito firmes, e esses seriam de sulistas mais velhos. Alguns estão muito preocupados com o que está acontecendo, e estão indecisos, e eu sou um deles.”

Tinha acabado.

Na noite seguinte, Nixon apareceu na televisão nacional e anunciou que renunciaria no dia seguinte ao meio-dia, sexta-feira, 9 de agosto de 1974.

Mais de um ano antes, o Senado lançou uma investigação bipartidária extraordinária de Watergate, votando 77 a 0 para criar um comitê de investigação.

Quarenta e oito anos depois, o clima político havia mudado radicalmente. Apenas dois republicanos da Câmara – os deputados Liz Cheney (R-Wyo.) e Adam Kinzinger (R-Ill.) – se juntaram a todos os democratas na votação de 222 a 190 para estabelecer um comitê seleto para investigar o ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio. O Comitê Nacional Republicano declarou oficialmente os eventos que levaram ao ataque como “discurso político legítimo” e votou para censurar Cheney e Kinzinger.

Outro traço pessoal dominante une Nixon e Trump: cada um via o mundo através do prisma do ódio.

Woodward visitou Trump em 30 de dezembro de 2019, em Mar-a-Lago para entrevistar o presidente. A Câmara, controlada pelos democratas, votou pelo impeachment dele por reter ajuda militar à Ucrânia, ao mesmo tempo em que pedia ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky que investigasse os Bidens.

Depois de uma hora de Trump defendendo seu pedido a Zelensky, o diretor de mídia de Trump, Dan Scavino, se juntou à entrevista. Trump pediu que Scavino abrisse seu laptop e mostrasse um clipe do discurso do presidente sobre o Estado da União em 2019. Em vez das palavras de Trump, uma música de elevador animada tocava enquanto a câmera mostrava tomadas estendidas de membros do Congresso assistindo e ouvindo o presidente.

A primeira foto era do senador Bernie Sanders, de Vermont, que parecia entediado.

Trump estava olhando por cima do ombro de Woodward e estava agitado.

“Eles me odeiam”, disse o presidente. “Você está vendo ódio!”

A câmera parou na senadora Elizabeth Warren, a liberal de Massachusetts. Ela estava ouvindo e tinha um olhar sem emoção em seu rosto.

“Odiar!” disse Trump.

Uma foto da Rep. Alexandria Ocasio-Cortez foi a próxima. Ela não tinha nenhuma expressão em seu rosto.

“Odiar! Veja o ódio!” disse Trump.

A câmera permaneceu muito tempo na senadora Kamala Harris. Ela seria escolhida como companheira de chapa de Biden no ano seguinte. Ela tinha um olhar gentil e educado em seu rosto.

“Odiar!” Trump disse em voz alta a centímetros do pescoço de Woodward. “Veja o ódio! Veja o ódio!”

Foi um momento marcante. Um psiquiatra poderia dizer que era uma projeção de seu próprio ódio aos democratas. Mas foi tão intenso que não se assemelhava à reação contida dos democratas. Sua insistência de que era “ódio!” não foi suportado pelas imagens no computador de Scavino. Muitos democratas, é claro, o odiavam. Eles eram oponentes vocais e raivosos de sua presidência. Mas esse espetáculo de Trump foi inesquecível e bizarro.

No dia em que Nixon renunciou à presidência, 9 de agosto de 1974, ele fez seu discurso de despedida na Sala Leste da Casa Branca. Ele não tinha roteiro. Sua esposa, Pat, suas duas filhas e seus maridos estavam atrás dele. Nixon falou de como sua mãe e seu pai foram incompreendidos e começaram a desencadear mais queixas.

Então, de repente, como se tivesse encontrado uma mensagem maior, ele sorriu gentilmente e ofereceu seu conselho final a todos. “Lembre-se sempre, os outros podem te odiar – mas aqueles que te odeiam não vencem a menos que você os odeie, e então você destrói a si mesmo.”

Parecia um momento ofuscante de autocompreensão. O ódio tinha sido a marca registrada de sua presidência. Mas no final ele percebeu que o ódio era o veneno, o motor que o havia destruído.

Nixon aceitou o perdão total de Watergate do presidente Gerald Ford 30 dias após sua renúncia. Sempre que alguém perguntava a Ford por que ele não havia insistido em uma admissão explícita de Nixon de que havia cometido crimes, Ford dizia com confiança que tinha a resposta.

“Eu tenho isso na minha carteira aqui”, ele respondia, puxando um pedaço de papel dobrado e amassado resumindo a decisão da Suprema Corte Burdick vs. Estados Unidos em 1915 . imputação de culpa; aceitação uma confissão disso.”

Nixon confessou aceitando o perdão, disse Ford. “Isso sempre foi muito reconfortante para mim.”

Em 1977, apenas três anos fora do cargo, Nixon deu uma série de entrevistas na televisão ao jornalista britânico David Frost. Nixon recebeu US$ 600.000. A primeira entrevista transmitida em Watergate atraiu 45 milhões de telespectadores – um recorde para uma entrevista política que permanece até hoje.

Nixon disse que “decepcionou o povo americano”, mas não obstruiu a justiça. “Eu não pensei nisso como um encobrimento. Eu não pretendia encobrir. Deixe-me dizer, se eu pretendesse encobrir, acredite, eu teria feito isso.”

Um ano depois, em seu livro de memórias “RN”, ele continuou sua guerra contra a história. “Minhas ações e omissões, embora lamentáveis ​​e possivelmente indefensáveis, não foram passíveis de impeachment.”

Um presidente, acrescentou ele na entrevista com Frost, tem ampla autoridade e não pode infringir a lei. “Quando o presidente faz isso, significa que não é ilegal”, disse Nixon.

Em um livro posterior em 1990, “In the Arena”, Nixon intensificou suas negações, alegando que era um mito que ele havia ordenado pagamentos de suborno.

Uma fita de sua reunião de 21 de março de 1973, no entanto, mostra que ele ordenou que John Dean recebesse o dinheiro 12 vezes.

O senador Sam Ervin, presidente do Comitê Watergate do Senado, ofereceu um diagnóstico final. Nixon e seus assessores eram movidos por “um desejo de poder político”.

Embora Ervin tenha morrido 32 anos antes de Trump se tornar presidente, o rótulo “desejo por poder político” se aplica.

Nunca um estrategista coerente, Trump pode ser um poderoso propagandista. Ele teceu uma série de afirmações que ganhou em 2020, embora não haja evidências para apoiá-la.

Mais de um ano após a posse de Joe Biden, pesquisas mostram que apenas 21% dos republicanos dizem acreditar que Biden é o presidente legítimo dos Estados Unidos.

O raciocínio deles mostra como a retórica e a cartilha de Trump os convenceram. Entre 74 e 83 por cento dos republicanos que negaram a vitória de Biden foram influenciados pelas falsas alegações de Trump de fraude eleitoral maciça.

As alegações de Trump sempre foram apresentadas com consistência emocional inabalável, revelando pouca ou nenhuma dúvida. À medida que as eleições de 2024 se aproximam, Trump parece prestes a mais uma vez buscar a presidência.

Tanto Nixon quanto Trump foram prisioneiros dispostos de suas compulsões para dominar, ganhar e manter o poder político por praticamente qualquer meio. Ao se apoiarem tão fortemente nesses impulsos sombrios, eles definiram duas das eras mais perigosas e preocupantes da história americana.

Como Washington alertou em seu discurso de despedida há mais de 225 anos, líderes sem princípios poderiam criar “despotismo permanente”, “ruínas da liberdade pública” e “motim e insurreição”.

Tanto Trump quanto Nixon eram forasteiros ambiciosos com fichas nas costas; ambos foram influenciados pela paranóia e pelo medo; e ambos tentaram subverter os processos democráticos para manter o poder. 

Carl Bernstein e Bob Woodward são coautores de “All the President’s Men” e “The Final Days”. O artigo acima aparece como um novo prenúncio da edição do 50º aniversário de “All the President’s Men”.

Bob Woodward é editor associado do The Washington Post, onde trabalha desde 1971. Participou de dois prêmios Pulitzer, primeiro em 1973 pela cobertura do escândalo de Watergate com Carl Bernstein, e segundo em 2003 como repórter principal pela cobertura dos ataques terroristas de 11 de setembro.

Carl Bernstein é coautor de “All the President’s Men” e “The Final Days”. Seu último livro é “Chasing History: A Kid in the Newsroom”. Ele também é analista político da CNN.

Lavareda: ‘As pessoas vão votar em Lula pelo que ele fez, não pelo que faz’.

Entrevista para Daniela Pinheiro do UOL em 4 de junho de 2022.

A quatro meses das eleições presidenciais, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, lidera as pesquisas de intenção de voto com vantagem que chega a 21 pontos percentuais sobre o presidente Jair Bolsonaro. Na semana passada, uma pesquisa Datafolha mostrou que Lula surfava em 48% enquanto Bolsonaro pegava jacaré nos 27% — o que apontaria para uma tendência de vitória ainda no primeiro turno.

Arquivo pessoal – foto: Carlos Ezequiel.

Na mesma semana, a pesquisa da XP/Ipespe divulgou uma diferença entre ambos de apenas 11%. A discrepância entre os números surpreendeu e levantou, mais uma vez, o debate sobre a precisão, e a manipulação, das pesquisas eleitorais. A essa altura em 2018 — fim de maio, começo de junho —, o percentual do então candidato Bolsonaro não alcançava os dois dígitos.

Na terça-feira (31), a bucólica Praça da Alegria, em Lisboa, estava enfeitada com bandeirolas, barraquinhas e banquetas para a festa junina que homenageia vários santos em Portugal. Ali, conversei com o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, presidente do conselho do Ipespe — que tem um apartamento na vizinhança –, sobre as razões da divergência nos números, o favoritismo de Lula, o fator do voto envergonhado em Bolsonaro, a influência das redes sociais nas urnas. Enfim, como as pesquisas devem ser interpretadas. A conversa foi editada e condensada para melhor entendimento.

Daniela Pinheiro: Deve-se acreditar nas pesquisas eleitorais?

Antonio Lavareda: Sim. Primeiro porque têm uma base científica. Desde o século passado, toda a expansão do mercado, dos produtos e das marcas, se deu utilizando intensivamente as pesquisas por amostragem. As pesquisas eleitorais não são nada menos do que pesquisas de opinião quantitativa por amostragem. O erro — e os institutos e a imprensa têm culpa nisso — é que, durante muito tempo, vendeu-se que as pesquisas eram prognósticos de resultados eleitorais. E as pesquisas de intenção de voto, como a própria palavra diz, apenas medem intenções. Intenções não são atitudes. E o voto em si, efetivamente, é um comportamento. A única pesquisa capaz de revelar uma atitude, um comportamento, é a boca de urna. Entre as intenções manifestadas nas pesquisas e o comportamento dos eleitores na urna, há a influência de uma série de fatores.

A culpa é sempre da imprensa?

Não estou dizendo isso. O fato é que a imprensa convenceu o público de que as pesquisas eram prognósticos, como se fossem antecipações dos resultados das eleições. E os institutos ficaram calados e foram omissos em relação a isso porque era bom para a imagem de todos.

Ainda é assim?

Não deveria ser. As preferências eleitorais estão cada dia mais fluidas, mais voláteis. À medida que se tem uma maior desestruturação dos sistemas partidários na maior parte do mundo ocidental, há mais variáveis. Um exemplo é o voto estratégico, também conhecido como voto útil, que é, sobretudo, propriedade dos sistemas pluripartidários. Para evitar desperdiçar o voto, o eleitor, vendo que sua primeira preferência não tem chance efetiva de vitória, vota em alguém para derrotar o candidato que mais rejeita. Isso é uma variável relevante.

As pesquisas eleitorais são cruciais no voto útil.

Sim, é do que se vale esse eleitor, que assume diferentes tamanhos em diferentes países. É curioso porque é como se o eleitor utilizasse a pesquisa de opinião para modificar a sua própria opinião, seu próprio comportamento eleitoral. E há outros fatores também, como a alienação eleitoral.”

O que é isso?

Por exemplo, nas últimas pesquisas do Datafolha, aparecem 11% que dizem votar “em nenhum, branco, nulo e não sabe”. Chamemos isso de alienação. Vamos dizer que esse que “não sabe” não vai saber nunca. No Ipespe, na última pesquisa sobre isso, tivemos 5%. Então, 11 a 5. Sabe qual a chance da alienação ser 11 ou ser 5 nas urnas? Nenhuma. A alienação vai ser muito maior que na eleição passada, que já foi alta: 27% no primeiro turno e 28% no segundo. Há os que dizem que parte dessa alienação tem a ver com mortes de eleitores. Vamos lembrar que quase 40 milhões de eleitores não votaram na eleição passada, não é possível que esses 40 milhões tenham morrido. (risos).

É a abstenção, então?

A abstenção é outra variável também e ela não é homogênea ao longo da sociedade. Os institutos de pesquisa não levavam isso em consideração. Sabe-se que a abstenção é maior nas camadas de renda baixa e de escolaridade baixa nos Estados Unidos, na Europa, mesmo onde o voto não é obrigatório. E no Brasil também é assim.

Como saber se a abstenção é maior se o voto não é identificado?

Quando se perde o voto da eleição passada. Aí vê-se que isso acontece entre os eleitores de menor renda e menor escolaridade, mais os que confessam que não votaram. Provavelmente, Lula perderá mais eleitores para alienação do que Bolsonaro. Daí a importância para a campanha dele fazer um grande esforço de convocação de seus eleitores, a exemplo do que o PT já fez em 2006, quando fizeram até propaganda de TV para estimular as pessoas a ir votar nos moldes do que fazem na América — o go to vote. Na última eleição norte-americana, isso foi tão intenso, tanto entre democratas quanto republicanos, que o número de eleitores surpreendeu a todos os analistas.

De novo, por que um resultado tão diferente: 11 a 5?

Tanto na pesquisa do Ipespe quanto na do Datafolha, todos os resultados estão dentro da margem de erro, de uma com a outra. Menos Bolsonaro. Lula e Bolsonaro. Lula 45 no Ipespe e 48 no Datafolha. A margem de erro de uma é 3 e da outra é 2, e dentro de um intervalo de 5 é tudo igual. O mesmo para os outros candidatos. A única diferença está na alienação potencial. Então, minha hipótese é de que há um voto oculto em Bolsonaro que a pesquisa do Datafolha não apanhou. Porque tudo bate, menos a taxa de indecisão de alienação e o voto do Bolsonaro.

Seria o voto envergonhado em Bolsonaro?

Ele existe e fica mais claro em pesquisas feitas pessoalmente do que por telefone. O Datafolha fala com gente na rua, é alguém abordando alguém cara a cara, pode haver um constrangimento na hora da resposta. A nossa é feita por telefone e isso tem duas vantagens: atinge mais pessoas de classe média e alta que não estão andando na rua e porque não há esse constrangimento. No telefone, fica-se mais à vontade para dizer: “Sim, isso é péssimo”. No cara a cara, essa insatisfação pode aparecer como o “regular”.

Que problemas na precisão das pesquisas na eleição de 2018 não vão se repetir em 2022?

Não houve problemas nas pesquisas em 2018. É preciso analisar o que foi aquela eleição. Aquela era o que chamamos na literatura específica de “eleição crítica”. Ali, houve uma superimposição de crise econômica mais crise moral, policial, judicial, representada pela Lava Jato, mais impeachment de presidente, mais uma colossal rejeição popular ao substituto da presidente. A deslegitimação do sistema político. Um tsunami que acabou com o duopólio político eleitoral vigente desde 1994: PT versus PSDB, que saiu com 4% nas urnas. O eleitor, na véspera da eleição, começa a prestar atenção no candidato que vai poder derrotar o sistema político que causou o tsunami. Foi assim no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Amazonas, Santa Catarina. É aquilo: as pesquisas mostravam intenções. O eleitor, que ainda estava em processo decisório, foi lá e mostrou comportamento. As pesquisas não estavam erradas.

E agora as eleições vão ser “críticas” de novo?

Não, as eleições serão “normais”, que é quando se tem o enfrentamento das forças tradicionais, os protagonistas estão no xadrez da política, fazem coligações, ambos com partidos fortes, com representação parlamentar, com fundo partidário, tempo na TV. É diferente.

Como um eleitor pode saber se confia ou não num instituto de pesquisa?

Soube-se hoje que um deles — o Paraná Pesquisas, citado frequentemente pela imprensa — foi contratado pelo governo dois meses antes de divulgar uma pesquisa que mostrava Bolsonaro e Lula empatados, o que jamais apareceu em qualquer outra sondagem. A princípio, não vejo problema em institutos trabalharem para governos e para candidatos. O problema, se houver, será a inexistência de full disclosure (transparência total). A população e a mídia devem estar informadas disso para poderem tirar suas conclusões. E avaliarem os dados à luz dessa informação. E, também, naturalmente, há que se observar o requisito de absoluta transparência no processo de seleção para a contratação pública.

Quem decide uma eleição no Brasil?

As maiorias: as mulheres, os pobres, a população do Sudeste, os maiores de 60 anos.

Qual o peso de Alckmin na chapa com Lula?

A escolha de um vice é sempre pautada pelo critério de complementaridade. Pode ser de gênero, etária, religiosa, étnica. Nesse caso, foi ideológica. Um candidato de esquerda com um candidato de centro-direita. Mas que, dentro do PSDB, era considerado ainda mais à direita. Desde 2012, o Brasil emite sinais de que caminha para a direita. É uma chapa cheia de simbolismos. É ele quem vai estabilizar as preferências que Lula tem no espectro de centro-direita, ele pode sinalizar algo para o mercado, simboliza a união de dois grandes adversários. Na eleição de 2006, eles tiveram juntos — cada um de um lado –, quase 90% dos votos dos eleitores.

É quase uma ironia que Alckmin saia candidato pelo Partido Socialista Brasileiro?

É uma curiosidade que essa coligação transversal se dê com outro partido de esquerda, mas, com certeza, nenhum eleitor supõe que Geraldo Alckmin tenha se transformado num socialista.

Como as redes sociais impactam as pesquisas?

Elas são mais importantes em momentos de ruptura do sistema político, nas eleições “críticas”, como a de 2018, ou a na Colômbia semana passada, quando um ator tradicional é arrancado fora do sistema porque perdeu legitimidade, caso do uribismo. E as redes ajudam a fazer a propaganda com muita eficiência desse novo personagem. Em 2022, o peso das redes vai ser muito menor do que em 2018 porque essas serão eleições “normais”.

Nunca vi em nenhum outro lugar do mundo uma candidata com 2% de intenção de votos ser manchete dos principais jornais do país. 

E você? 

É a Simone Tebet? (candidata do MDB) 

Sim. 

Acho que o André Janones (candidato à presidência pelo Avante, que tem 1%) também tinha direito a uma capa.

A imprensa ainda elege um candidato? 

Se elegeu em algum momento, certamente terá mais dificuldade hoje. Quem elege presidente é a fórmula do Ortega y Gasset: as circunstâncias. Dificilmente alguém será eleito contra as circunstâncias. O maior adversário de Jair Bolsonaro não é o Luiz Inácio Lula da Silva. São as circunstâncias que se contrapõem a ele nesse momento.

Fome, inflação, violência, desemprego?

É uma situação difícil, o país saindo da pandemia e seu governo desaprovado por larga margem devido à sua atuação durante a pandemia.

O que mais chamou sua atenção ou o surpreendeu nas pesquisas eleitorais recentemente?

Talvez a troca do João Doria. Ele era o candidato mais competitivo, com mais chances de crescer. E como a política inviabiliza o que as pesquisas apresentavam como uma chance.

Onde estava escondido o bolsonarismo nos últimos anos?

Não estava. Estavam representados desde 1989, pelos malufistas, por quem votou no Collor. Mesmo nas eleições de 1994, estava representado na coligação do PSDB com o PFL. A transição democrática foi definida no Colégio Eleitoral, quando disputavam Paulo Maluf e Tancredo Neves, cuja vitória acachapante era sabida. Mas sabe qual foi a votação pela continuidade do regime do Maluf? 27%. E esse percentual sempre aparece por aí. Inclusive, foi o último percentual atribuído a Jair Bolsonaro na pesquisa Datafolha. Ou seja, os números ficam bailando e, vez por outra, pousam na mesa ou pousam na cabeça ou no nariz de alguém como carapuça. Então essa direita sempre houve, mas foi potencializada.

O que Bolsonaro ainda pode fazer para ultrapassar Lula?

Bolsonaro perdeu a grande oportunidade de se reeleger, a despeito de quaisquer dificuldades econômicas do país, quando não conseguiu liderar o país no enfrentamento à covid. Angela Merkel (ex-chanceler alemã) fez isso e saiu de uma aprovação de 45% para 85%. Se ele tivesse feito isso, as pessoas seriam mais tolerantes com ele. O primeiro-ministro inglês, Boris Johnson, pegou covid e mudou a narrativa negacionista. Está conseguindo se manter ainda no governo por conta disso, de certa forma. Líderes de direita que enfrentaram a pandemia ao lado da população tiveram retribuição.”

Que surpresa pode acontecer nessa eleição?

Em maio de 2018, se alguém perguntasse isso, ninguém apostaria em Bolsonaro. Se formos capazes de esboçar os fatores surpresa, eles não são surpresa. É tudo na categoria do imprevisível.

Só se alguém morrer?

Mas aí saímos do plano da realidade. Morre-se por morte natural, um acidente, sei lá. Não é o caso de levar isso em consideração.

Que conselhos daria aos eleitores quando leem as pesquisas eleitorais?

Que eles tentem relacionar as várias informações que aparecem nas pesquisas. Que nunca olhem apenas os resultados de questões estimuladas do primeiro turno ou do segundo. Que olhem o que diz o voto espontâneo. É isso que importa. Que vejam o que a população diz serem os maiores problemas do país. Por exemplo, as pesquisas davam entre 7% a 9% a Sergio Moro, e as pessoas se surpreendiam. Mas quem prestasse atenção no conjunto de informações das pesquisas ia ver o baixo desempenho lá. Em toda pesquisa aparecia que a população considerava como prioridades para o próximo governo as questões econômicas. Combate à corrupção estava lá no final. Então, Moro, que tinha isso como marca principal, era carta fora do baralho. Nunca foi surpresa para mim.

Faltar aos debates televisivos influencia o voto dos eleitores?

Sempre influencia, mas pouco. É muito difícil Lula e Bolsonaro ganharem votos num debate na TV. Isso é bom para Ciro Gomes, Simone Tebet, André Janones. Entretanto, boa parte das análises atribui a não ida do Lula ao debate da Globo em 2006 às dificuldades que ele teve no segundo turno.

Em 1998, FHC também não foi e não me lembro de avaliação parecida. Provavelmente porque a distância dele era muito larga e por má vontade também dos críticos. O que é importante entender é que essa eleição é única porque se tem, pela primeira vez, presidente contra ex-presidente. É um voto prospectivo-retrospectivo. A imagem de Lula é a do ex-presidente que deixou o poder com 84% de ótimo e bom. Os eleitores olham para o retrovisor e projetam o que ele pode oferecer no futuro. Hoje, o governo dele é bem avaliado por 58% dos entrevistados, ou seja, ele já perdeu 26%, mas ainda é um percentual altíssimo.

O Bolsonaro está no poder. Então, o que ele oferece de imaginação para o futuro é uma projeção do retrato que se tem do presente. Se esse presente não é bom, se a realidade é adversa, é difícil imaginar que vá se ter algo melhor ou diferente. Se o modelo teórico estiver certo, as pessoas vão votar pela imagem que elas têm dos governos Lula. A questão de Bolsonaro é: como vai ser a economia? Ele vai ter um remédio para isso?”

Sobre a pesquisa IPESPE divulgada hoje (3/junho)

LULA E BOLSONARO COMEÇAM JUNHO ESTÁVEIS. O EX-PRESIDENTE LIDERA EM QUASE TODOS OS ATRIBUTOS PERCEBIDOS NOS CANDIDATOS, QUE DEFINEM A POSIÇÃO DOS MESMOS NO GRID DE LARGADA DA CAMPANHA.

1. LULA E BOLSONARO OSCILAM, AMBOS, UM PONTO PARA BAIXO NA MENÇÃO ESPONTÂNEA (39% X 29%), E FICAM ESTÁVEIS NA ESTIMULADA NO PRIMEIRO (45% X 34%) E NO SEGUNDO TURNO (53% X 35%).  O terceiro colocado, Ciro (com 5%) subiu um na espontânea, e o mesmo na estimulada (9%); no segundo turno ele aumenta dois pontos a dianteira sobre Bolsonaro (45% X 40%), e cresce um ponto enfrentando Lula (26% X 54%). A quarta colocada, Tebet, não se mexeu na espontânea (1%) nem na estimulada do primeiro turno (3%) mesmo após a saída de Doria; mas nos cenários em que foi testada na segunda volta cresceu três pontos contra Bolsonaro (37% X 41%) e dois contra Lula (20% X 56%). Entre os demais, Janones é o único que continua aparecendo na espontânea (1%). Na estimulada, Vera e Marçal também atingem 1% no arredondamento das respectivas citações.

2. TÍMIDA MELHORA DO PIB E DO EMPREGO PODE TER ALTERADO UM POUCO A PERCEPÇÃO DA ECONOMIA. “CAMINHO CERTO” TEM UM PONTO A MAIS (33%) E “CAMINHO  ERRADO” RECUA NA MESMA PROPORÇÃO (61%). Praticamente todos (96%) reclamam da inflação nos últimos meses, e 63% temem novos aumentos. Os dados não sofreram alteração substancial. Continuam revelando que a população não esquece o achatamento do seu poder de compra, e alimenta pessimismo elevado em relação à escalada dos preços.

3. ESTABILIDADE NA APROVAÇÃO DA MANEIRA COMO O PRESIDENTE BOLSONARO ADMINISTRA O PAÍS: 60% DESAPROVAM CONTRA 35% QUE APROVAM. NO QUESITO DE AVALIAÇÃO, A POSITIVA (ÓTIMO/BOM) PERMANECEU EM 31%, ENQUANTO A NEGATIVA (RUIM/PÉSSIMO) CEDEU UM PONTO (50%). A leitura de que o noticiário recente foi “mais favorável” para o Governo e o Presidente foi de 11% a 13% nessa semana, porém cresceu em igual medida a percepção de desfavorabilidade do mesmo (de 47% para 49%).

4.CARACTERÍSTICAS DO CANDIDATO IDEAL “MUITO IMPORTANTES”: HONESTIDADE, 81%; PREOCUPAÇÃO COM AS PESSOAS, 77%; COMPETÊNCIA, 72%; INTELIGÊNCIA, 66%; EQUILÍBRIO, 65%; PULSO FIRME, 60% E EXPERIÊNCIA, 59% E IDEIAS NOVAS E MODERNAS, 59%. Citei apenas as menções superlativas (“muito importante”) porque se agregarmos a elas as qualificações de “importante” teremos praticamente 100% dos entrevistados.

Gráficos de atributos

5. LULA LIDERA NO ATRIBUTO “RESUMO” DA IMAGEM DOS GESTORES – “COMPETÊNCIA” – COM 43% VERSUS 31% DE BOLSONARO. ASSIM COMO EM TODOS OS DEMAIS, À EXCEÇÃO DE “PULSO FIRME”, ONDE O PRESIDENTE TEM 36% E ELE, 33%. Destaques de Ciro foram “Inteligência” e “Ideias Novas e Modernas”, ambas com 18%. Quanto à Senadora Tebet, seus melhores registros surgiram em “Equilíbrio” (10%) e “Ideias Novas e Modernas” (7%).

FALTAM 121 DIAS PARA O PRIMEIRO TURNO

Três Fatores que explicam por que mulheres serão decisivas na eleição de 2022

Foto: Agência Brasil

Nathalia Passarinho – da BBC News Brasil em Londres – 30 maio 2022

As mulheres são maioria entre eleitores de todas as faixas etárias, têm preferências eleitorais marcadamente diferentes das dos homens na disputa para presidente e compõem a maior proporção dos eleitores ainda indecisos. Esses três fatores fazem com que elas sejam encaradas como grupo decisivo na disputa de 2022.

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, conforme a vantagem entre os dois principais candidatos à Presidência, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, se reduz nas pesquisas de intenção de voto, as eleitoras que ainda não definiram o voto se tornarão o principal alvo das campanhas.

“Esses três elementos — as mulheres serem maioria no eleitorado, terem intenção de voto diferente dos homens e serem maioria entre os indecisos — torna o eleitorado feminino muito importante nessas eleições”, disse à BBC News Brasil a cientista política Malu Gatto, professora da University College London, no Reino Unido, e especialista em participação feminina na política.

Entenda como cada um desses três fatores pode influenciar o resultado da eleição para presidente da República.

Diferença numérica entre eleitores homens e mulheres

Já faz um tempo que há mais eleitores mulheres que homens. Mas, neste ano, elas são, pela primeira vez, maioria em todos os grupos etários, inclusive entre quem tem 16 anos. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, mulheres são 56% dos eleitores de 16 anos e homens são 42%, o que pode revelar um engajamento maior das jovens em voluntariamente participar dessas eleições, já que o voto só é obrigatório para maiores de 18 anos.

Há 20 anos, a população total de eleitoras era 2 pontos percentuais maior que a de eleitores homens. Agora, essa diferença é de 6 pontos percentuais — elas são 53% dos eleitores e eles, 47%.

Mulheres também são a grande maioria num segmento considerado chave nas eleições de 2022: o de eleitores evangélicos. Elas são quase 60% dos evangélicos no Brasil.

Como pensam evangélicas, que podem definir eleição para presidente

Em 2018, esse segmento votou em peso em Jair Bolsonaro — quase 70% dos evangélicos apoiaram o atual presidente no segundo turno contra o candidato do PT, Fernando Haddad. Neste ano, pesquisas de intenção de voto mostram que homens dessa religião continuam com Bolsonaro, enquanto mulheres estão praticamente divididas entre ele e Lula.

Pesquisa Genial/Quaest de maio aponta que 33% das evangélicas atualmente votam em Bolsonaro, enquanto 31% preferem Lula. De olho nesses votos, os dois candidatos têm tentado firmar alianças com pastores e dialogar com fiéis.

“O primeiro fator que faz com que as mulheres sejam relevantes nessa eleição é o númerico. A tendência que a gente está vendo nos dados é de uma diminuição da diferença, em pontos percentuais, na vantagem entre Lula e Bolsonaro ao longo da campanha. Quanto mais essa vantagem diminuir, mais essa diferença numérica fará diferença, assim como o fato de as mulheres serem maioria entre os eleitores indecisos, que podem fazer a diferença ao se incorporarem a um ou outro candidato”, destaca Gatto. “Então, as mulheres podem, sim, decidir essas eleições.”

Divisão de preferência por gênero começou em 2018

O segundo fator relevante quando se fala no papel das mulheres na eleição de 2022 é o fato de elas apresentarem preferência muito diferente da dos homens na escolha do candidato à Presidência.

De acordo com a cientista política Nara Pavão, professora da Universidade Federal de Pernambuco, de 1989 a 2014, não havia uma diferença acentuada na preferência eleitoral de homens e mulheres nas eleições para presidente. Os principais candidatos neste período receberam proporções semelhantes de votos de homens e mulheres.

Mas a partir de 2018, quando Jair Bolsonaro se candidatou à Presidência pela primeira vez, começou a haver uma divisão clara entre intenções de voto de mulheres e homens.

Em relação à disputa presidencial de 2022, as pesquisas têm indicado uma diferença de 11 a 18 pontos percentuais entre homens e mulheres. Por exemplo, pesquisa Genial/Qaest divulgada em maio mostra que 24% das eleitoras pretendem votar no atual presidente, contra 39% dos homens. Já o percentual das mulheres que pretendem votar em Lula é de 50%, enquanto o percentual de apoio entre homens é de 42%.

Além disso, entre as mulheres, 50% têm avaliação negativa do governo Bolsonaro, enquanto essa percepção é compartilhada por 41% dos homens.

“Pela primeira vez, a questão do gênero se destaca na preferência por candidato. Isso surge com a candidatura de Jair Bolsonaro. E, entre mulheres, a rejeição a ele é muito maior que entre homens”, destaca Nara Pavão.

Para a professora de ciência política Malu Gatto, da University College London, há três explicações para isso: o modelo de masculinidade que Bolsonaro representa e que inclui posições criticadas como machistas; a gestão da pandemia; e o estado atual da economia.

“Essa questão da masculinidade pode estar em indo em ambas as direções, ou seja, diminuindo o apoio das mulheres, mas também aumentando o apoio dos homens. Ele tem uma postura que enfatiza soluções tradicionalmente associadas ao masculino, como uma forma de governar mais agressiva, que inclui o culto à violência e às armas”, diz.

“Isso gera identificação com parcela dos homens, mas rejeição entre mulheres. Além disso, muitas vezes o presidente classifica mulheres a partir de critérios estéticos, o que novamente o aproxima de um público masculino, mas pode afastar parte das mulheres.”

Nara Pavão, professora da Universidade Federal de Pernambuco, também destaca que algumas posições do governo Bolsonaro que geram identificação entre homens, como a política armamentista, incomodam parcela importante das mulheres.

“As mulheres se preocupam muito com o combate à criminalidade, mas não a qualquer custo. Muitas são mães solo e têm filhos que estão na criminalidade ou filhos que podem ser alvo da violência policial nas favelas.”

Preocupação com a saúde

Outro tema central para as eleitoras é a saúde e esse pode ser, segundo as especialistas, um dos fatores que acentuam a diferença de gênero na preferência eleitoral.

“Saúde é um tema caro às mulheres, porque boa parte das tarefas de cuidado — e isso está associado a estereótipos de gênero e à forma como somos socializadas — recai sobre elas. E a pauta da saúde não teve centralidade no governo Bolsonaro”, diz Nara Pavão.

Gatto também destaca que a gestão do presidente na pandemia pode ter acentuado esse “gap” (distância) na preferência eleitoral de homens e mulheres.

“Dados de opinião pública coletados durante esse período da pandemia mostravam como as mulheres estavam mais preocupadas e mais dispostas a aceitar políticas públicas mais restritivas. Ou seja, as mulheres estão mais propensas a apoiar o uso de máscara, apoiar medidas de distanciamento social do que os homens e, na média, estavam mais preocupadas com a pandemia”, diz.

“Então, pode ser que um outro fator impactando a maior rejeição das mulheres a Bolsonaro e sua menor propensão a apoiar Bolsonaro nesse cenário de 2022 seja justamente a maneira como ele atuou durante a pandemia.”

O terceiro fator citado como capaz de influenciar a preferência eleitoral das mulheres é a forma como o tema da economia é abordado pelos candidatos a presidente.

Nara Pavão argumenta que, para parcela importante das mulheres, não agrada a defesa de pouca interferência do Estado na economia, corte de gastos públicos, e promessas sobre privatização — discursos muito utilizados pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e Bolsonaro em si.

Pavão destaca que as mulheres são, em muitos casos, as provedoras de suas famílias e principal referência de cuidado para filhos e outros parentes. Portanto, adotam uma postura pragmática em relação a propostas sobre economia e se engajam com políticas que representem mudanças diretas no seu dia-a-dia.

“Não é que as mulheres não se preocupem com a economia. Elas se preocupam. Mas elas pensam a economia não em termos de desenvolvimento econômico. Elas pensam em termos de políticas sociais”, diz a professora da Universidade Federal de Pernambuco.

“O tema da economia não foi debatido pelo governo Bolsonaro em termos que se conectam com as mulheres. Grande parte delas gosta de gasto social. Ela quer educação, quer saúde, porque precisa desse amparo para dar conta de todo o cuidado que recai sobre si.”

Mulheres são mais adeptas à democracia

Nara Pavão acrescenta um quarto elemento possível para a diferença acentuada na opinião de homens e mulheres sobre a eleição presidencial: o fato de as mulheres terem mais apreço pela democracia, segundo pesquisas de opinião.

“As mulheres são muito mais democráticas do que os homens e estão menos dispostas a abrir mão da democracia. Isso se dá porque mulheres, em geral, respeitam mais regras e normas, até porque elas são punidas socialmente num grau muito maior que os homens se desviam das regras”, diz a professora.

Para Pavão, o comportamento de Bolsonaro de criticar instituições, questionar o sistema eleitoral e comprar briga com Judiciário e Legislativo é mais mal visto por mulheres que por homens.

“Pensando que o governo Bolsonaro tem flertado com atitudes antidemocráticas, isso pode, sim, ser um ponto de alienação das mulheres”, diz.

Mas Malu Gatto destaca que o presidente tem tempo para tentar reverter a rejeição entre mulheres e lembra que a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, já está participando de eventos com eleitoras para tentar conquistar esse público.

“Em 2018, essa diferença por gênero era uma novidade. Agora, Bolsonaro e a campanha dele já têm essa informação e podem trabalhar para minimizar esse impacto até a eleição de outubro”, diz.

As mulheres indecisas poderão definir resultado

Por enquanto, pesquisas eleitorais mostram Lula com 44% a 46% das intenções de voto no primeiro turno, e Bolsonaro, com 29% a 32%. Por enquanto, grande parte da movimentação nas pesquisas tem vindo da transferência de votos de candidatos da chamada terceira via que desistiram de disputar, como o ex-juiz Sérgio Moro.

Nesta segunda (23), foi a vez de o ex-governador de São Paulo, João Doria, anunciar que não vai concorrer. Mas, conforme a campanha avança e as candidaturas se consolidam ou deixam de existir, a principal disputa por votos vai se dar no âmbito dos indecisos.

E aí, novamente as mulheres têm papel fundamental. Segundo pesquisa Genial/Quaest de maio, 12% das mulheres ainda não escolheram um candidato. Entre os homens, esse percentual é de 7%.

“A psicologia comportamental fala sobre como mulheres tendem a ser mais avessas a risco do que homens. E isso tem a ver com informação. A gente ainda está em maio e as eleições são em outubro. Então, eu acho que as mulheres estão tentando entender um pouco mais o cenário político e acumular informações para não tomar uma decisão precipitada”, avalia Gatto.

“Essa diferença em pontos percentuais entre os indecisos homens e mulheres é importante. Uma das coisas que vários analistas políticos estão falando é que essa eleição vai ser decidida pelas pessoas que ainda não declararam voto e que ainda não têm certeza sobre os seus votos. E, no caso da eleição para presidente, esse público é composto majoritariamente por mulheres.”

Atitudes recentes dos americanos em relação às armas

Nota publicada no Blog GALLUP em 26 de maio de 2022

Pesquisa GALLUP

WASHINGTON, DC – Enquanto os americanos estão se recuperando de dois tiroteios em massa que ocorreram com um intervalo de 10 dias nos EUA, um intenso debate sobre o controle de armas reacendeu em todo o país.

No primeiro incidente, em 14 de maio em uma mercearia de Buffalo, Nova York, 10 adultos negros foram assassinados; e no segundo, em 24 de maio em uma escola primária em Uvalde, Texas, pelo menos 19 crianças e dois adultos foram mortos. Em ambos os casos, os assassinos acusados ​​eram homens de 18 anos que usaram rifles estilo AR-15 nos ataques que teriam comprado legalmente.

A pesquisa mais recente da Gallup sobre armas foi realizada em outubro de 2021 e janeiro de 2022. Ambas encontraram uma ligeira diminuição no apoio a leis de armas mais rígidas em comparação com as medidas do ano anterior. Normalmente, o apoio dos americanos a leis mais rígidas sobre armas aumentou após os tiroteios em massa e caiu durante os períodos sem tais eventos. Além disso, mudanças no partido do presidente também podem influenciar as preferências por leis de armas.

Aqui estão algumas das principais conclusões das pesquisas recentes:

Suporte para leis de armas mais rígidas :

  • Em outubro de 2021, o apoio dos americanos a um controle mais rigoroso de armas caiu cinco pontos percentuais de outubro de 2020 para 52%, o menor desde 2014.
  • O declínio no apoio a leis de armas mais rígidas deveu-se principalmente a uma queda de 15 pontos entre os independentes. O desejo dos democratas por leis de armas mais restritivas aumentou seis pontos para 91% e o dos republicanos permaneceu essencialmente inalterado, em 24%, depois de cair 14 pontos em 2020.
  • Gallup mediu o apoio público para uma proibição completa de armas de fogo nos EUA para todos, exceto a polícia e outras pessoas autorizadas desde 1980. Durante esse período, o apoio não ultrapassou 43% e esteve abaixo de 30% desde 2008. A leitura mais recente encontrou 19 % a favor de tal proibição em outubro, seis pontos abaixo de 2020 e o menor de todos os tempos já registrado.
  • Independentes políticos também estiveram por trás do declínio do ano passado no apoio à proibição de armas curtas. Quatorze por cento dos independentes acharam que deveria haver uma proibição de armas curtas, o que marca uma queda de 16 pontos desde 2019, incluindo nove pontos desde 2020. Ainda menos republicanos, 6%, favoreceram tal proibição, em comparação com 40% dos democratas.

Satisfação com as leis de armas :

  • Em janeiro deste ano, a porcentagem de americanos muito satisfeitos com as leis ou políticas do país sobre armas caiu de 20% dizendo que estavam “muito satisfeitos” para 13%. Outros 28% estavam “um pouco satisfeitos”, enquanto 19% estavam “um pouco insatisfeitos” e 37% “muito insatisfeitos”.
  • Uma pergunta de acompanhamento para aqueles que estavam insatisfeitos descobriu que muito mais preferiam que as leis fossem mais rígidas do que menos rígidas.
  • Os republicanos estavam amplamente satisfeitos com as leis sobre armas em janeiro (62%), enquanto 21% estavam insatisfeitos e preferiam que fossem mais rigorosas. Ao mesmo tempo, 20% dos democratas estavam satisfeitos e 71% estavam insatisfeitos e queriam que as leis fossem mais rígidas. Os independentes estavam menos satisfeitos (43%) do que insatisfeitos (53%), com os insatisfeitos duas vezes mais propensos a preferir leis mais rígidas do que menos rígidas.

Posse de arma :

  • Em outubro, 44% dos americanos afirmaram ter uma arma em casa, incluindo 31% que disseram possuir uma arma pessoalmente.
  • Muito mais proprietários de armas nos EUA hoje do que nos anos 2000 dizem que possuem uma arma para proteção contra o crime. Oitenta e oito por cento dos proprietários de armas citam a proteção contra o crime como uma razão pela qual possuem uma arma, em comparação com dois terços que citam esse motivo em pesquisas de 2000 e 2005.

SOBRE A PESQUISA IPESPE DIVULGADA HOJE (27/MAIO)

LEVANTAMENTO SINALIZA QUE TEBET PODE CRESCER, MAS A POLARIZAÇÃO SE ACENTUA, E AUMENTA A CHANCE DA ELEIÇÃO TERMINAR EM 02/OUTUBRO.

1. COM ANÚNCIO DA SAÍDA DE DORIA, SENADORA AUMENTA SEU POTENCIAL DE VOTO, QUE VAI EM UMA SEMANA DE 17% PARA 28%. Esse potencial é a soma na pergunta sobre “probabilidade de voto” daqueles que dizem que “votariam nela com certeza” (5%) com os que afirmam que “poderiam votar nela” (23%). O fato dessa questão vir após os cenários de segundo turno infla um pouco nesse tópico, naturalmente, o desempenho dos vários candidatos, mas isso não recomenda desconhecer sua evolução. Quanto à rejeição, o “não votaria de jeito nenhum” recua de 37% para 34%. Embora a lista de postulantes da pesquisa registrada no TSE contivesse o nome de Doria e parte das entrevistas já tivesse sido realizada quando do anúncio da retirada do nome tucano, Tebet nessa rodada vai a 3% na intenção de voto estimulada. Na espontânea, continuou com 1%. No segundo turno marca 34% X 40% contra Bolsonaro; e 18% X 57% contra Lula. Números próximos, embora ainda inferiores, aos que Doria atingia na semana passada: 38% X 40% de Bolsonaro; e 20% X 54% de Lula. Atraindo grande foco da mídia e o apoio expressivo de setores importantes do establishment, o desempenho da Senadora nos próximos levantamentos desperta grande expectativa.

2. POLARIZAÇÃO GANHA TERRENO. LULA E BOLSONARO AVANÇAM CADA QUAL MAIS UM PONTO NA ESPONTÂNEA (40% X 30%). NA ESTIMULADA, LULA CRESCE UM (45%) E BOLSONARO, DOIS (34%). Na espontânea, entre os outros concorrentes, apenas Ciro cresce um, e tem 4%; Tebet, conforme citado, registra 1%, assim como Janones e Doria. Os demais não pontuaram. Na estimulada, Ciro repete 8%; Tebet assume a quarta posição, com 3%; Janones de novo aparece com 2%; Doria, mantido na lista, declinou para 2% ; Felipe D’Ávila tem 1%; os restantes não chegam a pontuar. Conforme se verifica no Quadro abaixo, de um ano para cá, a soma dos dois líderes só aumentou, enquanto a dos “outros candidatos”, categoria por onde desfilaram nomes variados, que foram sendo excluídos pelo processo, só fez murchar.

3. NO SEGUNDO TURNO, A DIFERENÇA ENTRE OS LÍDERES DIMINUI UM PONTO. LULA PERMANECE COM 53% ENQUANTO BOLSONARO RETOMA OS 35% DE UMA QUINZENA ATRÁS. Bolsonaro da mesma forma evolui um ponto (41%) no cenário contra Ciro, estável com 44%; Lula, por seu turno, avança um ponto (54%) e Ciro fica com os mesmos 25% da semana passada. A estreia de Tebet nas hipóteses de 2o turno já foi examinada na Nota 1.

4. OBSTÁCULOS A UMA RECUPERAÇÃO SUBSTANCIAL DO PRESIDENTE SEGUEM ELEVADOS: ECONOMIA NO “ CAMINHO ERRADO”, 62%; DESAPROVAÇÃO, 60%; AVALIAÇÃO “RUIM OU PÉSSIMA” DA ATUAÇÃO CONTRA A COVID, 50%. O contingente dos que têm uma opinião positiva do governo sobre cada um desses aspectos, respectivamente, é de 31%, 35% e 30%. Na média, cerca de um terço. O que a grosso modo corresponde às suas intenções de voto, após a saída de Moro, que quase se confundem no primeiro e segundo turnos.

5. É IMPRESSIONANTE O PERCENTUAL, 68%, DOS QUE DIZEM QUE SEU VOTO JÁ ESTÁ DECIDIDO. Em outubro passado, eram 44% os que fizeram a mesma afirmação. Esses quase 70% são exatamente o mesmo número dos entrevistados que dizem ter “muito ou algum interesse” na eleição, e um número próximo aos 77% que sem estímulo de lista citam o nome daquele/a em quem votariam “se a eleição fosse hoje”. Esses dados, revelando um volume inédito de eleitores com razoável solidez de preferências, diga-se de passagem bastante antecipadas, também nos ajudam a entender porque as medições semanais das intenções de voto se movem com parcimônia.

6. QUAL O PAPEL DAS PESQUISAS ELEITORAIS NAS CAMPANHAS ?

Para quem se interessa sobre o tema segue aqui o link de programa Conversa com Bial, no qual Mauro Paulino, ex DataFolha e agora comentarista da GloboNews, e eu, respondemos sob diferentes ângulos essa questão numa conversa com roteiro inteligente, bem conduzida pelo jornalista Pedro Bial, na última segunda, 23/maio.

FALTAM 128 DIAS PARA O PRIMEIRO TURNO

* Cientista político e sociólogo.

Sobre a pesquisa Ipespe divulgada hoje (20/maio)

EM CENÁRIO ECONÔMICO ADVERSO, BOLSONARO CONSEGUE, ATACANDO A PETROBRAS, EVITAR QUE PIORE A IMAGEM DO GOVERNO.

1. QUASE DOIS TERÇOS (64%) ENDOSSAM AS CRÍTICAS À EMPRESA, AFIRMANDO QUE TEM “MUITA RESPONSABILIDADE” PELOS AUMENTOS DOS COMBUSTÍVEIS. Nessa mesma categoria (de culpa superlativa) após a recente elevação dos preços, o Governo Federal aparece num distante segundo lugar, no mesmo patamar de março último (45%); os governos estaduais oscilaram para cima um ponto (40%),empatados com a Guerra na Ucrânia que recuou cinco pontos no mesmo período; subiu dois pontos a atribuição às gestões de Dilma e Lula, com 37%; e evoluiu três a responsabilização nessa categoria do STF, agora mencionada por 32%. Ou seja, as críticas contundentes à estatal, acompanhadas da troca de seu Presidente e do ministro  da área, bem como do recurso ao STF relativo às alíquotas sobre o diesel do ICMS dos estados, parecem ter surtido efeito no sentido de redistribuir os danos de imagem associados ao problema. 

2. ECONOMIA SE ENTRELAÇA À APROVAÇÃO E À AVALIAÇÃO. “CAMINHO CERTO” TEM 33%; APROVAM O GOVERNO, 35%; E AVALIAM COMO “ÓTIMO OU BOM”, 32%. Na direção contrária, uma maioria expressiva segue apontando que a economia está “No caminho errado”, 62%; “Desaprovam” o Governo, 61%; e o classificam como “Ruim ou Péssimo”, 52%. Ao fundo, a questão da inflação: 72% dos entrevistados afirmam que os preços “aumentaram muito”, e  23% que “aumentaram” nos últimos meses. Adiante, a expectativa de 41% é de que ainda  “vão aumentar muito”, e 23% acham que eles “vão aumentar”. 

3. INTENÇÕES DE VOTO ESPONTÂNEAS E ESTIMULADAS DOS LÍDERES NÃO SE MEXERAM. LULA MANTEVE, RESPECTIVAMENTE, 39% E 44%; E BOLSONARO, 29% E 32%. Entre os demais, o quadro também fica estável, com pouquíssimas variações. Ciro marcou os mesmos 3% na questão espontânea, e 8% na estimulada; Doria subiu um ponto na primeira, com 2%, e também na segunda, chegando a 4%, o seu melhor número desde outubro passado; Tebet permaneceu com  1% na espontânea, oscilando um ponto na seguinte, atingindo 2%; Janones repetiu  1% na primeira questão, e 2% na segunda; os demais não pontuaram. 

4. NO SEGUNDO TURNO, O QUADRO É IGUAL. LULA E BOLSONARO OSCILARAM PARA BAIXO UM PONTO, COM A DISTÂNCIA SE MANTENDO NOS MESMOS 19 PONTOS. Lula, 53% X Bolsonaro, 34%. Nos outros cenários, como se vê no Quadro abaixo, os concorrentes ou ficaram estáveis ou oscilaram um ponto apenas. 

CENÁRIOS DE 2º TURNO

%

(Evolução na 3a semana de Maio)

 LULA 53     (-1)  53     (+1)  54     (-1)
 BOLSONARO 34     (-1) 40      (0)  40     (0) 
 CIRO  49     (+1) 25      (0)  
 DORIA    38     (0) 20     (0)
Cenários de 2º Turno

5. NA LISTA DA “SEGUNDA ESCOLHA”, CIRO LIDERA COM 27%; SEGUIDO POR DORIA, 7%; LULA, 4%; TEBET, 3%; BOLSONARO, FELIPE D’ÁVILA, JANONES E VERA TÊM 2% CADA UM DELES; EYMAEL ENCERRA A RELAÇÃO COM 1%. Esse ranking, traduzindo de certa forma o atual potencial de crescimento dos candidatos no primeiro turno, ajuda a entender o quanto os dois líderes estão perto dos respectivos tetos. Que todavia poderão, ou não, ser alterados ao longo da campanha.

FALTAM 135 DIAS PARA O PRIMEIRO TURNO