SOBRE A PESQUISA IPESPE DIVULGADA HOJE (20/MAIO)

EM CENÁRIO ECONÔMICO ADVERSO, BOLSONARO CONSEGUE, ATACANDO A PETROBRAS, EVITAR QUE PIORE A IMAGEM DO GOVERNO.

1. QUASE DOIS TERÇOS (64%) ENDOSSAM AS CRÍTICAS À EMPRESA, AFIRMANDO QUE TEM “MUITA RESPONSABILIDADE” PELOS AUMENTOS DOS COMBUSTÍVEIS. Nessa mesma categoria (de culpa superlativa) após a recente elevação dos preços, o Governo Federal aparece num distante segundo lugar, no mesmo patamar de março último (45%); os governos estaduais oscilaram para cima um ponto (40%),empatados com a Guerra na Ucrânia que recuou cinco pontos no mesmo período; subiu dois pontos a atribuição às gestões de Dilma e Lula, com 37%; e evoluiu três a responsabilização nessa categoria do STF, agora mencionada por 32%. Ou seja, as críticas contundentes à estatal, acompanhadas da troca de seu Presidente e do ministro  da área, bem como do recurso ao STF relativo às alíquotas sobre o diesel do ICMS dos estados, parecem ter surtido efeito no sentido de redistribuir os danos de imagem associados ao problema. 

2. ECONOMIA SE ENTRELAÇA À APROVAÇÃO E À AVALIAÇÃO. “CAMINHO CERTO” TEM 33%; APROVAM O GOVERNO, 35%; E AVALIAM COMO “ÓTIMO OU BOM”, 32%. Na direção contrária, uma maioria expressiva segue apontando que a economia está “No caminho errado”, 62%; “Desaprovam” o Governo, 61%; e o classificam como “Ruim ou Péssimo”, 52%. Ao fundo, a questão da inflação: 72% dos entrevistados afirmam que os preços “aumentaram muito”, e  23% que “aumentaram” nos últimos meses. Adiante, a expectativa de 41% é de que ainda  “vão aumentar muito”, e 23% acham que eles “vão aumentar”. 

3. INTENÇÕES DE VOTO ESPONTÂNEAS E ESTIMULADAS DOS LÍDERES NÃO SE MEXERAM. LULA MANTEVE, RESPECTIVAMENTE, 39% E 44%; E BOLSONARO, 29% E 32%. Entre os demais, o quadro também fica estável, com pouquíssimas variações. Ciro marcou os mesmos 3% na questão espontânea, e 8% na estimulada; Doria subiu um ponto na primeira, com 2%, e também na segunda, chegando a 4%, o seu melhor número desde outubro passado; Tebet permaneceu com  1% na espontânea, oscilando um ponto na seguinte, atingindo 2%; Janones repetiu  1% na primeira questão, e 2% na segunda; os demais não pontuaram. 

4. NO SEGUNDO TURNO, O QUADRO É IGUAL. LULA E BOLSONARO OSCILARAM PARA BAIXO UM PONTO, COM A DISTÂNCIA SE MANTENDO NOS MESMOS 19 PONTOS. Lula, 53% X Bolsonaro, 34%. Nos outros cenários, como se vê no Quadro abaixo, os concorrentes ou ficaram estáveis ou oscilaram um ponto apenas. 

CENÁRIOS DE 2º TURNO

%

(Evolução na 3a semana de Maio)

 LULA 53     (-1)  53     (+1)  54     (-1)
 BOLSONARO 34     (-1) 40      (0)  40     (0) 
 CIRO  49     (+1) 25      (0)  
 DORIA    38     (0) 20     (0)
Cenários de 2º Turno

5. NA LISTA DA “SEGUNDA ESCOLHA”, CIRO LIDERA COM 27%; SEGUIDO POR DORIA, 7%; LULA, 4%; TEBET, 3%; BOLSONARO, FELIPE D’ÁVILA, JANONES E VERA TÊM 2% CADA UM DELES; EYMAEL ENCERRA A RELAÇÃO COM 1%. Esse ranking, traduzindo de certa forma o atual potencial de crescimento dos candidatos no primeiro turno, ajuda a entender o quanto os dois líderes estão perto dos respectivos tetos. Que todavia poderão, ou não, ser alterados ao longo da campanha.

FALTAM 135 DIAS PARA O PRIMEIRO TURNO

Lançamento: Eleições Municipais na Pandemia

O quarto volume da série sobre eleições municipais examina as eleições de 2020, distintas das demais, pois realizadas em plena pandemia do coronovírus, obrigando os partidos a atraírem os eleitores por meio de novas estratégias de comunicação. Seus 11 capítulos refletem sobre as configurações do sistema partidário, os resultados eleitorais dos campos ideológicos, as elites políticas, os novos atores (mulheres, negros e LGTBQIA+). E dialogam com temas clássicos – como a propaganda eleitoral na TV -, além de outros recentes – como a desinformação (fakenews) nessas eleições.

Apresentamos o quarto volume da série sobre eleições municipais que as examina em seus vários aspectos. As publicações anteriores analisaram os pleitos das últimas décadas. Neles, o país passava por períodos de bonança e crises econômicas; estabilidade e crises políticas; com presidentes de todos os quadrantes ideológicos. Além disso, houve mudanças no financiamento das campanhas e na comunicação, com o surgimento de novas plataformas e alterações na relação entre candidatos e eleitores. Acompanhar esses processos e seus impactos sobre o sistema político-eleitoral a partir dos municípios é inédito na ciência política brasileira. As eleições de 2020 abordadas nesta obra, foram especialmente singulares. Realizadas em plena pandemia da Covid-19, a maior crise sanitária em 100 anos, com novas regras e cronograma diferente das demais, elas registrariam a maior taxa de abstenção da série histórica. Este volume retrata as diversas dimensões institucionais e comportamentais dessa eleição.

Ficha técnica – ISBN: 9786556521473 – Edição: 1 – Ano: 2022 – Largura: 16.00 cm – Comprimento: 23.00 cm – Número de Páginas: 360 – Preço: R$ 65,00

Sobre a pesquisa IPESPE divulgada hoje (13/maio)

ELEVADO INTERESSE, COMBINADO AO VOLUME INUSUAL DA INTENÇÃO DE VOTO ESPONTÂNEA, AJUDAM A ENTENDER O RELATIVO ENGESSAMENTO DO QUADRO ELEITORAL

1. QUASE SETE EM CADA DEZ ELEITORES (69%) ESTÃO ATENTOS, SE DIZENDO INTERESSADOS NO PLEITO. E TRÊS QUARTOS (74%) JÁ APONTAM O NOME DE QUEM VOTARIAM, SEM ESTÍMULO DA LISTA DE CANDIDATOS. Lula é a escolha de 39%; Bolsonaro, de 29%; Ciro, 3%; Doria, Janones e Tebet, têm 1%. Esses dados se diferenciam bastante do que ocorria nas disputas passadas. Em momento semelhante há quatro anos (maio de 2018) a pesquisa do IPESPE identificava 38% de intenções de voto espontâneas para o conjunto dos postulantes. A explicação para isso já tive oportunidade de adiantar há algum tempo. É que este ano teremos a primeira eleição brasileira na qual um presidente em exercício enfrentará um ex-presidente nas urnas. O que é raríssimo em todo o mundo. Ambos com elevado grau de conhecimento e imagem consolidada. Daí a intensa polarização. Entre nós, quando os incumbentes foram candidatos, os três ganharam a reeleição (FHC, 1998; Lula, 2006; e Dilma, 2014). De outro lado, o único ex-presidente que se candidatou de novo (Getúlio Vargas, 1950) também se sagrou vitorioso. 

2. NA QUESTÃO ESTIMULADA, LULA SEGUE COM 44%, BOLSONARO OSCILA POSITIVAMENTE UM PONTO E TEM 32%. OS DEMAIS NÃO SOFRERAM ALTERAÇÃO: CIRO, 8%; DORIA, 3%; JANONES, 2%; E TEBET TEM 1%. Os restantes não atingiram 1% nessa rodada.

3. ASSIM COMO NO 1º, TAMBÉM NO 2º TURNO A DIFERENÇA DE LULA SOBRE BOLSONARO RETRAI UM PONTO (54% X 35%). O PRESIDENTE REAGE MAIS NO CONFRONTO COM CIRO, ENCURTANDO A DISTÂNCIA QUATRO PONTOS: CIRO, 43% X BOLSONARO, 40%. Nos outros cenários testados as variações foram reduzidas: Lula, 55% X Doria, 20%; e Bolsonaro, 40% X Doria, 38%.

4. REJEIÇÃO A BOLSONARO PELA PRIMEIRA VEZ, DESDE JUNHO DE 2021, FICA ABAIXO DOS 60%. OS QUE “NÃO VOTARIAM NELE DE JEITO NENHUM” SÃO AGORA 59%. VINDO NA SEQUÊNCIA: DORIA, 55%; LULA, 43%; CIRO, 42%; TEBET, 37%; JANONES E FELIPE D’ÁVILA, AMBOS COM 35%. Lembrando que no caso dos três últimos nomes o seu nível de desconhecimento é ainda muito elevado para permitir comparações estritas. 

5. PERCEPÇÃO DE QUE A ECONOMIA SEGUE “NO CAMINHO ERRADO” OSCILA UM PONTO ABAIXO (PARA 62%). ENQUANTO SOBE PARA 33% O CONTINGENTE  QUE DIZ QUE ELA ESTÁ “NO CAMINHO CERTO”.

A variação de um  ponto  da leitura positiva a situa em patamar próximo ao de janeiro do ano passado. A maior parte dessa recuperação parece ter sido obtida pela conversão dos que não manifestavam opinião nesse quesito. Em março eles eram 10% dos entrevistados, e agora são 5%. 

6. DESAPROVAÇÃO DE BOLSONARO RECUA DOIS PONTOS (PARA 60%). APROVAÇÃO SE MANTÉM (35%). AVALIAÇÃO POSITIVA (“ÓTIMO/BOM”) GANHA UM PONTO (32%), E A NEGATIVA (“RUIM/PÉSSIMO”) RECUA EM IGUAL PROPORÇÃO (51%). Nos cinco meses desde o início do ano (janeiro) a Aprovação do Presidente cresceu cinco pontos (30% a 35%), e a Avaliação Positiva subiu oito (24% a 32%), aproximando-se os dois indicadores (Aprovação e Avaliação). E ambos vão se entrelaçando a suas intenções de voto: 32% no primeiro turno, 35% no segundo. Note-se que os movimentos mais expressivos – quer da avaliação do governo, quer das intenções de voto do presidente – se deram a partir da saída de Moro da competição. O que sugere a ação de um “viés de consistência” alinhando as avaliações ao voto. 

7. MAIORIA DOS ELEITORES SE DIZ DE “DIREITA” (30%). SOMAM 21% OS QUE SE IDENTIFICAM COM O “CENTRO” (CENTRO-ESQUERDA, CENTRO E CENTRO-DIREITA). E 21% SE SITUAM NA “ESQUERDA”.

29% não conseguem se autoclassificar. A composição do voto de Lula mostra que a liderança do mesmo ocorre pelo fato de que a maioria do seu apoio (54%) se dá entre os que não se classificam à esquerda, segmento que representa 45% do seu total. Independente da grande maioria (65%) do eleitorado o ver como um político de esquerda. O que parece corroborar seu esforço para posicionar sua candidatura de forma transversal no espectro ideológico. Já o eleitorado de Bolsonaro – referido como um político de direita por 63% – no momento está muito concentrado nesse espectro, onde estão 66% das suas intenções de voto. Para crescer substancialmente demandaria alguma estratégia centrípeta. No que toca a Ciro, sua distribuição é mais esparsa, com menor nitidez e alguma disjuntiva. Ele é visto majoritariamente como um político de esquerda (28%), porém, na composição interna  seu voto  “modal” é de centro-esquerda (32%). E uma vez limitado pela hegemonia de Lula à esquerda, reúne aí menos apoio relativo (10%) que na direita (14%). A base muito reduzida dos outros competidores desaconselha analisá-los nessa perspectiva. As colunas abaixo totalizam em torno de 100%, dizendo respeito ao total de cada um deles.

Funcionamento da Suprema Corte dos Estados Unidos

Suprema Corte norte-americana Foto: Pexels

O mais alto Tribunal do País tem uma tradição de discussões entre os juízes até que os pereceres sejam redigidos, aprovados e divulgados ao público

Foi criada em 1789 com sede em Washington sendo composta de nove juízes.  O juiz é indicado pelo presidente da República e aprovado pelo Senado. Seu cargo é vitalício.

É principalmente um Tribunal de Apelação, ou seja, decide sobre decisões de tribunais inferiores.  Só pode aceitar entre 100 e 150 casos por ano dos 7.000 casos que são solicitados a revisar.

Advogados qualificados fazem grande parte do trabalho pesado de revisar petições. Cada juiz contrata de três a quatro advogados que leem uma parte dessas milhares de petições. Eles escrevem memorandos e recomendações aos juízes.

Existem dois lados: o “peticionário” (parte que está recorrendo) e o “requerido (parte que quer manter a decisão).  A Suprema Corte julga os casos de maneira diferente dos procedimentos de tribunais criminais ou civis comumente retratados na TV.

Para cada caso, os advogados de ambos os lados têm 30 minutos para fazer “argumentações orais”. Em vez de usar esse tempo para expor exaustivamente o caso, eles fazem geralmente uma breve declaração de abertura e, em seguida, respondem às perguntas dos juízes.

As alegações orais são abertas ao público, embora as vagas sejam limitadas e se esgotem rapidamente para casos de grande repercussão. Mas há transcrições de argumentos orais que datam de 1968 disponíveis para leitura e há gravações de áudio a partir de 2010.

A Corte ouve casos de outubro a abril. Além de ouvir as alegações orais, os juízes se reúnem duas vezes por semana para conferências. Estas são sessões a portas fechadas apenas para os nove juízes, sem advogados ou outros funcionários. Mais importante ainda, é durante essas conferências privadas que os juízes primeiro compartilham suas opiniões sobre os casos ouvidos naquela semana.

A Corte emite pareceres escritos para todos os seus casos. Esses são documentos longos e detalhados que carregam o peso do precedente do mais alto tribunal do país, portanto, escrever uma opinião é uma grande honra e uma grande responsabilidade.

As votações preliminares (rascunhos de pareceres) em conferências não são definitivas. Elas só passam a ter um caráter definitivo até que os pereceres sejam redigidos, aprovados e divulgados ao público. Muitas conversas acontecem durante o processo de elaboração das opiniões da maioria, sendo que um juiz pode mudar de lado. Um exemplo é do presidente da Corte, John Roberts – conservador, que desempatou a votação em favor da constitucionalidade do sistema de saúde do presidente Barack Obama em 2010 (o Obama care), votando com chamados juízes progressistas.

Nada é definitivo até que a opinião da maioria seja lida no tribunal e disponibilizada ao público. O processo de redação e edição pode ser “até o último minuto” antes que o parecer seja divulgado.

Não há um cronograma definido para a rapidez com que uma opinião seja divulgada após os argumentos orais, mas o prazo final para a emissão de pareceres é definida para o final de junho ou início de julho, quando a Suprema Corte faz um recesso de verão.

Links importantes: 

Suprema Corte dos Estados Unidos

Revista Consultor Jurídico

Eleição nas Filipinas é alerta sobre nostalgia autoritária

Eleição nas Filipinas é alerta sobre nostalgia autoritária; leia análise

Análise de Keith B. Richburg*

Foto: twitter pessoal de @bongbongmarcos

Para muitas pessoas, a democracia significa pouco se não trouxer mudanças significativas em suas vidas cotidianas

THE WASHINGTON POST** – Quando o ditador filipino Ferdinand Marcos desembarcou no Havaí em 1986 depois de ser derrubado na revolução do “Poder do Povo” de Manila, ele e sua comitiva trouxeram consigo tudo o que restava para saquear.

Eles vieram com US$ 300.000 em barras de ouro, títulos ao portador no valor de outros US$ 150.000, inúmeros fios de pérolas, uma pulseira de joias de US$ 12.000 e 22 engradados de pesos filipinos recém-cunhados, na época avaliados em cerca de US$ 1 milhão. Além disso, havia documentos – um tesouro de 2.000 páginas descrevendo a extensão dos saques em massa de Marcos, incluindo a propriedade oculta de pelo menos quatro arranha-céus de Manhattan e propriedades em Long Island e New Jersey.

Uma das propriedades de New Jersey, em Cherry Hill, era onde seu filho, homônimo e próximo presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos Jr., morava enquanto estudava na Universidade da Pensilvânia. Esses documentos se tornaram o roteiro para mim e meu então colega do The Washington Post, Dale Russakoff, na tentativa de desvendar o labirinto confuso de empresas de fachada e holdings que controlavam as centenas de milhões de dólares – alguns chegam a US$ 10 bilhões – que Marcos e sua esposa, Imelda, roubaram das Filipinas ao longo de duas décadas brutais.

A corrupção em massa era apenas uma parte de seu legado sórdido. Houve lei marcial, suspensão do devido processo legal, prisão generalizada de líderes da oposição e dissidentes, tortura, desaparecimentos forçados e execuções extrajudiciais conhecidas como “salvagings”.

Quando me mudei para Manila no final de 1986 para abrir a sucursal do The Washington Post lá, encontrei uma nova democracia lutando para criar raízes e um povo ainda tentando lidar com o trauma dos anos Marcos. Um punhado de seus partidários de camisas vermelhas obstinados aparecia para um protesto semanal perto da Embaixada dos EUA, exigindo o retorno do ditador do exílio. Alguns de seus comparsas mantiveram posições de influência. Mas os filipinos pareciam prontos para abraçar seus direitos democráticos e seguir em frente depois do desgoverno de Marcos.

Então, quando voltei ao país uma década depois, foi com um pouco de choque que encontrei uma espécie de nostalgia reacendida pelo velho homem forte.

A economia estava crescendo, o investimento estrangeiro estava chegando, as instituições democráticas haviam sido restauradas e o país havia conseguido uma transição pacífica de poder. A presidente, Corazon Aquino, cujo movimento “Poder Popular” derrubou Marcos em 1986, foi substituída por Fidel Ramos, o ex-comandante das Forças Armadas que já havia liderado o motim militar que permitiu o sucesso dos protestos populares.

Mas o país ainda estava atolado na pobreza abjeta, a corrupção continuava desenfreada e as promessas de reforma agrária e uma distribuição mais equitativa da riqueza se mostraram vazias. Pouco da riqueza roubada de Marcos foi devolvida.

Correspondentes estrangeiros como eu estavam elogiando a transição bem-sucedida do país da ditadura para a democracia. Para muitos filipinos comuns, porém, muito pouco havia mudado – e muitos estavam preocupados em ter o suficiente para comer, e já ansiavam pelos bons velhos tempos, quando as coisas pareciam melhores.

A nostalgia equivocada, juntamente com a amnésia, parece ser o que levou uma maioria considerável de eleitores filipinos a recorrer e votaram em massa no filho de Marcos, conhecido como “Bongbong” Marcos, para o que agora equivale a uma restauração familiar. Com a maioria dos votos contados na manhã de terça-feira, ele tinha uma vantagem de dois para um sobre seu rival mais próximo, de acordo com resultados não oficiais.

A maioria dos jovens eleitores de hoje não tem memória viva dos horrores da era da lei marcial ou do enorme saque nacional dos recursos do país. O que lhes dizem seus pais ou avós, ou o que veem nas contas de mídia social do candidato, é que as Filipinas, sob Marcos, viveram uma era de ouro.

Eu não deveria estar surpreso. Já vi esse filme antes.

Na Indonésia, Prabowo Subianto – o ex-genro do falecido autocrata presidente Suharto – era o chefe da unidade de forças especiais do chamado exército Kopassus, que estava implicado em abusos dos direitos humanos, incluindo sequestro e tortura. Ele agora é o ministro da Defesa do país e franco favorito para as próximas eleições presidenciais em 2024. Na última eleição, em 2019, ele terminou em segundo lugar com 44,5% dos votos, apesar de seu passado conturbado e de ter sido banido dos Estados Unidos por 20 anos.

No Egito, a Primavera Árabe derrubou o ditador Hosni Mubarak. Não muito tempo depois, amigos egípcios estavam reclamando comigo sobre o crime desenfreado e o caos sob seu breve sucessor, Mohamed Morsi. E o colapso da União Soviética brevemente transformou a Rússia em uma democracia turbulenta e confusa sob Boris Yeltsin. Mas os russos de hoje se lembram apenas do caos econômico, do colapso da moeda e da ascensão dos oligarcas que saquearam os despojos do Estado.

Começando como correspondente estrangeiro, muitas vezes vi revoltas populares trazendo a democracia como o fim da história. O que aprendi é que, para muitas pessoas, a democracia significa pouco se não trouxer mudanças significativas em suas vidas cotidianas.

Em tempos econômicos difíceis, a nostalgia e a amnésia podem ser motivadores mais poderosos do que a preocupação com instituições democráticas e barreiras. Foi isso que impulsionou Bongbong Marcos à sua liderança esmagadora na disputa presidencial nas Filipinas.

Os americanos preocupados com o retorno de Donald Trump devem tomar nota dessas lições.

* Keith B. Richburg é diretor do Centro de Jornalismo e Estudos de Mídia da Universidade de Hong Kong, e ex-correspondente do The Washington Post

**Análise publicada no The Washington Post

Por que os resultados das pesquisas não devem ser interpretados como prognósticos eleitorais?

ABEP (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa) promoveu, na primeira semana de maio, o workshop gratuito para jornalistas sobre o tema Pesquisa Eleitoral: o fim das dúvidas. Abaixo, segue a minha fala no evento e aqui publicada na íntegra:

George Gallup, um ícone da história das pesquisas de opinião, falando no encontro de 1949 da WAPOR – Associação Internacional de Pesquisa de Opinião Publica- declarou : “Minha esperança é que da próxima vez que as pesquisas estiverem do lado errado numa eleição apertada haverá menos gritaria e menos xingamentos”.

Esperança frustrada, como ele próprio verificaria, e todos constatamos 73 anos depois daquele speech.

Ora, por que será que as ditas “pesquisas eleitorais”- os surveys, as pesquisas por amostragem, – estão já há algum tempo sob ataque no Brasil e no mundo ?

Lembremos que um levantamento em 133 países, em 2017, mostrou que em apenas 1/3 deles não havia algum tipo de vedação (blackout) para sua divulgação antes das eleições.

A resposta é simples: porque os seus números são vistos como dados preditivos do que ocorreria “se a eleição fosse hoje”, durante as campanhas, e pior, às vésperas das eleições são recepcionados pelo público como prognósticos, como uma espécie de antecipação dos resultados das urnas.

Porém, quando elas são abertas, e ocorrem discrepâncias significativas, sobretudo os políticos derrotados, naturalmente ressentidos, dirigem às mesmas críticas acerbas amplamente acolhidas pela imprensa. Foi o que ocorreu recentemente nas nossas municipais de 2020 (basta se checar no Google a expressão “2020, institutos erraram”).

Por isso a importância de ressaltar que os resultados de pesquisas são em essência diferentes de prognósticos. As primeiras concernem a opiniões, a preferências por candidatos, ou seja, a ATITUDES; ao passo que prognósticos dizem respeito a antecipações sobre as probabilidades dos diversos candidatos ganharem a eleição, e com que desempenho nas urnas, ou seja, versam sobre o COMPORTAMENTO dos eleitores. Embora relacionados, atitudes não se confundem com comportamentos.

Os modelos de Prognósticos efetivos além de não repousarem em pesquisas de um único instituto – recorrendo a agregadores, alguns deles com simples médias das pesquisas, outros mais sofisticados lhes atribuindo pesos diferentes, segundo avaliação do momento de cada uma e do desempenho passado dos respectivos institutos. Os mais complexos incorporam outras variáveis, extraídas sobretudo da dimensão econômica – como desemprego, inflação, crescimento- nos algoritmos com que simulam seus resultados.

Prognósticos é o que fazem o FiveThirtyEight ou a The Economist, ou o Politico. E começa a ser feito no Brasil. Não são a praia dos institutos de medição de opinião.

E há até modelos de prognósticos exitosos (Lichtman) que sequer utilizam dados, quaisquer dados, provenientes de pesquisas de intenção de voto.

A explicação da eventual distância entre as estimativas de intenção de voto dos institutos mesmo às vésperas da eleição e as votações registradas – requer considerarmos vários fatores. Vejamos quais são eles.

a) Um fator, estatístico, está relacionado a desvios e vieses amostrais. 

Os expositores que me precederam abordaram muito bem esse tópico. Amostras não adequadamente representativas da população. Há 12 anos não temos um censo. As mudanças de domicílio e alterações em toda a estrutura social se acentuaram na pandemia. De outro lado, muitas das pesquisas divulgadas não registram o recall da eleição passada. Como saber se, mesmo quando obedecendo as cotas demográficas, as amostras não estão política e ideologicamente enviesadas? Isso é muito mais importante que um segundo fator.

b) que são as “margens de erro”.

Aliás, no Brasil, gerou-se uma jaboticaba. É verdade que todas as pesquisas registram as respectivas margens de erro. Embora todas elas incluam atualmente uma etapa com cotas, o que segundo alguns especialistas inviabiliza a pertinência dessas margens de erro que foram calculadas originalmente para amostragens inteiramente aleatórias, onde cada indivíduo da população tinha equiprobabilidade de ser sorteado.

Mas somente no Brasil, prestemos atenção, a margem de erro foi promovida a personagem das campanhas. Nas TVs são apresentados três números relativos a cada candidato. Se fulano tem 20% pode ter até 22% ou até 18%. Se beltrano tem 2% por exemplo ele pode ter 4% e pode não ter absolutamente nada. Pior, se fulano antes marcava 19% e agora marca 20%, pode ter na verdade avançado até 22% ou pode ter recuado para 18%. E assim se multiplicam os “empates na margem de erro”. É necessário mudar isso. Confunde o espectador médio, confunde os eleitores. Há outros fatores bem mais significativos.

c) A alienação eleitoral (branco/ nulos/ abstenções) é importantíssima.

Em qualquer sociedade é difícil estimá-la com precisão. O elevado comparecimento na última presidencial americana surpreendeu os analistas. Em Portugal também. Em direção oposta, na França, poucos dias atrás a abstenção foi recorde. Em países de voto obrigatório, extrair isso das pesquisas é ainda mais difícil. Porque se trata de um comportamento que além de socialmente reprovável é taxativamente ilegal. Um exemplo: na última pesquisa do Ipespe a alienação potencial – tomando-se branco e nulos (7%)e até somando-se os indecisos (2%) chegou a 9%. No DataFolha, 8% (6% de B/N e 2% de Não Sabe).

Pois bem, qual a chance da alienação este ano ser de 8% ou 9%? Nenhuma. Então, se essa pesquisa fosse a da véspera da eleição, qual a chance da votação que ela sugere de fato vir a ocorrer, considerando-se o eleitorado de 148,300 M.

Lula com 45% no Ipespe ou 43% no DataFolha, sobre o total de eleitores, significaria em números absolutos uma estimativa de 66,735 M de votos, segundo o primeiro, ou de 63.769 milhões conforme o segundo instituto. Mas não terá, nem ele, nem Bolsonaro ou qualquer outro. Por quê?

Pouco mais que 27,3% foi a alienação em 2018; 27,2%, em 2104.

40 milhões e 256 mil eleitores não votaram em ninguém em 2018, no primeiro turno. 42 milhões 717 mil não o fizeram no segundo.

Nesse ano, no Brasil, não há motivos para supor que a alienação será muito diferente. E pode até ser maior – em 2020 nas municipais foi de 31%. Ou seja, pensando-se apenas nos números das últimas eleições presidenciais, serão no mínimo cerca de 18 ou 19 pontos percentuais acima do que se apresenta “declarado” hoje. Pontos que sairão dos percentuais de intenção de voto atualmente consignados aos candidatos na questão estimulada. Intenções de voto que não se traduzirão em comportamento. Estou falando de cerca de outros 27 milhões de eleitores ( além dos declarados) que indicaram uma preferência após serem demandados pelos entrevistadores. Que não virá a ser efetivada.

Então, considerar devidamente a alienação é fundamental para qualquer prognóstico. Pensar que ela é distribuída simetricamente por todos os contingentes de eleitores dos vários postulantes é incorreto. Aqui, ou em qualquer outro lugar, isso não se dá dessa forma. Basta verificar os dados. Quase sempre a alienação é maior nos contingentes de menor escolaridade e renda.

d) Outro fator, mais complexo, é o voto estratégico

Há muito se sabe que nem sempre os eleitores terminam votando no seu candidato/a ou partido preferido. Uma porção significativa deles utiliza seu voto para prevenir um resultado específico, quando sua escolha original não tem chances de ganhar e eles preferem evitar a vitória indesejável de um outro candidato. Para esses eleitores, não é confortável “desperdiçar” o seu voto com candidatos sabidamente sem chances. São diferentes do que a literatura chama de “eleitores sinceros” que registram nas urnas sua preferência sem levar em conta a chance de êxito das mesmas.

Em sistemas pluripartidários muitos eleitores sufragam candidatos que embora não sejam seus preferidos têm mais condições de derrotar o partido ou postulante mais rejeitado por eles. Os incentivos para isso diferem segundo os sistemas eleitorais- majoritário, proporcional ou misto. 

Qual o tamanho dessa fatia de eleitores?

Estudos têm mostrado que o voto estratégico já alcançou em algum momento 5% do Reino Unido, 6% dos canadenses, perto de 7% dos eleitores portugueses, 9% na Alemanha, também 9%dos eleitores Belgas, entre outros. É plausível supormos que quanto mais enraizadas as preferências partidárias, menor espaço haja para o voto estratégico. No Brasil, onde só um partido alcança os dois dígitos de identificação partidária, segundo dados de pesquisa recente (FSB/Abril) 39% dos eleitores admitiram a hipótese de votar estrategicamente nessa eleição presidencial dependendo da percepção que tenham do desempenho dos candidatos.

Mesmo em contextos de forte polarização esse comportamento tem lugar. No Brasil, na disputa até agora mais renhida da Nova República, em 2006, quando os dois líderes juntos somaram mais de 90% dos votos válidos, foi avaliado que 4,3% dos eleitores recorreram ao que Rennó chamou de voto estratégico punitivo. Explicação apontada para a ocorrência do segundo turno. Lula ficou abaixo 1,4 pontos percentuais do necessário para a vitória já no primeiro round.

Qual a melhor informação, o padrão ouro, para o eleitor estratégico? Aquela proveniente das pesquisas, disponibilizadas nos meios de comunicação e agora também nas redes sociais. Ou seja, as pesquisas são usadas por esse eleitor exatamente para alterar o que ele mesmo declarou nas pesquisas!

O voto estratégico se faz presente até no segundo turno. Ele foi visível dois anos atrás, nas capitais onde a direita não teve candidatos próprios na segunda rodada, a exemplo do Recife, de Porto Alegre, e de São Paulo. Seu eleitorado, votando contra os postulantes da esquerda mudou o resultado das eleições de prefeito literalmente da véspera para o dia da votação. Tome-se o caso paradigmático do Recife. Às vésperas da eleição pesquisa do IPESPE, divulgada na manhã do sábado véspera da votação, apontava 50% das intenções de voto válido para ambos os candidatos; à noite, DataFolha e também o IBOPE apresentaram da mesma forma 50% para ambos os candidatos. Apuradas as urnas, o candidato de centro esquerda, João Campos, do PSB registrou 56% e a candidata do PT, Marília Arraes, 44 %. Certamente nada a ver com margens de erro dos levantamentos. Muito menos com as diferenças de metodologia.

e) Por fim, há ainda o “voto randômico”, o “band wagon” ( voto no provável vitorioso) o “under dog” (solidário com os lanternas das pesquisas).

Há um forte debate sobre a utilidade para a democracia do voto compulsório. Não é hora nem lugar de repetí-lo. Contudo, entre os efeitos negativos arrolados está o de incentivar comportamentos estranhos a preferências político ideológicas, ou suportadas por qualquer critério minimamente racional. 10% dos eleitores brasileiros já admitiram votar aleatoriamente. 

Quaisquer estímulos servindo para definir o voto daqueles que , “desengajados”, são compelidos a votar. Votar em quem está na frente, votar em quem não tem chances, ou no candidato de quem se viu uma propaganda antes de entrar na cabine, são alguns “critérios” na aleatoriedade.

Tudo que relatei aqui resumidamente recomenda um cuidado maior com relação ao conteúdo das análises dos resultados das pesquisas de intenção de voto. E até do formato de apresentação das mesmas.

E sobretudo na reta final das campanhas seria adequado os veículos ressaltarem para o seu público que os números das mesmas não equivalem a prognósticos sobre o que ocorrerá nas urnas. Que afora o percentual daqueles que declararam que ainda podem mudar seu voto, a taxa de abstenção também é um fator capaz de alterar os resultados uma vez que sendo o voto obrigatório muitos eleitores se constrangem em dizer que não irão votar. Enfim, que o jogo só terminará quando as urnas falarem.

Por último, e não exatamente no coração do tema, mas relacionado a ele, quero aproveitar a oportunidade para abordar o que me parece é e será um problema especialmente grave nessa eleição. Que são as Pesquisas eleitorais como uma categoria especial de Fake news.

Esse ano já vimos vários levantamentos que podem ser classificados dessa forma, e que são apresentados e circulam sem contestação. E é muito provável, que tenhamos problemas com pesquisas desse tipo até no dia das eleições.

Pesquisas pretensamente de boca de urna que no meio da tarde do domingo do pleito apresentem resultados que à noite não sejam confirmados pela apuração oficial.

Avancemos na conjectura, digamos que um candidato ganhe a eleição no primeiro turno, segundo a apuração do TSE, mas a tal boca de urna, de uma duas ou três pesquisas desse tipo, legitimadas pela exposição regular de seus dados durante a campanha, embora discrepantes da média das demais, tenha assegurado no fim da tarde a ocorrência do segundo turno.

As duas vezes que FHC ganhou, únicas na história, foi por margem estreita. Em torno de 53%. O percentual de Dilma no segundo turno de 2014, 51,7% foi alvo da suspeição de Aécio e seus aliados.

E se tal candidato porventura vitorioso, no primeiro ou no segundo turno, ganhe por uma margem ainda menor? Dirão os otimistas mais panglossianos: não há com que nos preocuparmos, porque 82% dos brasileiros confiam nas urnas eletrônicas, segundo o DataFolha. OK. Mas vejamos os dados da pesquisa com mais cuidado. Desses 82% , 47% confiam totalmente, mas 35% declararam confiar apenas “um pouco”. Mesmo deixando-os de lado, será que apenas os 17% que não confiam nada não são pelo seu tamanho uma base suficiente capaz de, acreditando nas tais pesquisas, mobilizarem-se para protestos violentos? Com tudo que poderia ocorrer depois?

Já se foi o tempo em que os efeitos das pesquisas na sociedade se resumiam à formulação de David Shawn: os candidatos que apareciam na liderança eram beneficiados em 3 Ms – Mídia, Moral e Money. Os demais sendo prejudicados nas mesmas dimensões. Infelizmente, algumas delas hoje ameaçam ser uma forte vertente de Fake News, demandando um combate à altura. Porque ameaçam a higidez das eleições – delas para as quais não há “nenhum outro método para selecionar nossos governantes que produza melhores resultados” (Przeworski).

Da imprensa comprometida com a qualidade do nosso processo eleitoral, seria bem-vindo um papel mais amplo e ativo do que no passado, quando podia se contentar em divulgar as pesquisas que contratava. E simplesmente ignorar as demais. O que não estava nas suas páginas ou nas suas telas não existia.

Isso funcionava bem numa época em que a grande imprensa tinha condições de controlar a qualidade das informações que circulavam. Hoje, com a fragmentação das fontes, isso é francamente insuficiente. As pesquisas são muitas e circulam por muitos canais. Elas merecem ser observadas com a acuidade equivalente a das agências de checagem.

Seria muito útil se fosse ampliada a criação de Editorias de Pesquisa, específicas, com jornalistas especializados – e já há muitos nas redações – para não somente analisarem melhor os levantamentos que contratam, como para acompanhar as pesquisas que são registradas no TSE, verificando os questionários, a metodologia, as amostras e seus resultados. E identificando e apontando à sociedade institutos que produzam Pesquisas Fake, exibindo a suposta chancela da Justiça Eleitoral.

Pesquisas cujos números são estrategicamente espalhados nas redes sociais, e em outros órgãos de comunicação, deliberadamente desinformando a sociedade.

Fico por aqui, muito obrigado pela atenção.

A inflação ronda a campanha eleitoral

Editorial de O Estado de S. Paulo deste domingo, 8 de maio de 2022

Pesquisas mostram que realidade econômica, marcada pelo avanço dos preços administrados, começa a mostrar limites do discurso de Bolsonaro

Preços administrados como combustíveis e energia costumam ser uma pedra no sapato de qualquer governo. Em países emergentes como o Brasil, boa parte da renda da população já se esvai na compra de itens básicos em situações normais, e na ocorrência de guerras como a atual o problema se agrava ainda mais. A origem da crise pode até ser externa, mas o ônus sempre recai sobre o governo. Na dura realidade vivida pela maioria da população, algo precisa ser feito a respeito; se há alguém com poder para isso, é o presidente; e, se ele não o faz, é por falta de vontade política.

Na prática, não é assim que as coisas funcionam. A conta de luz pode subir em razão de uma seca que reduz a geração de hidrelétricas e obriga o acionamento de termoelétricas; pela necessidade de investimentos na expansão do setor; por uma política benevolente de subsídios. Os combustíveis, por sua vez, podem aumentar em razão da variação das cotações internacionais de petróleo; por conflitos geopolíticos envolvendo países produtores; por dificuldades logísticas; pela concentração de mercado. Fato é que, para quem gasta parcelas importantes de seu salário com esses itens, os motivos não importam. Diferentemente dos alimentos, quando luz, gasolina, diesel e gás sobem, a percepção é que a responsabilidade é do presidente.

Há mais de três anos no comando do País, certamente Bolsonaro ouviu explicações técnicas aprofundadas sobre o comportamento dos preços de energia e combustíveis. O que não lhe falta, com certeza, é informação de qualidade. Se há poucas alternativas viáveis para resolver problemas complexos, o que não faltam são soluções ruins à procura de problemas para justificar sua adoção. Nessa toada, Bolsonaro já demitiu dois presidentes da Petrobras e tenta coagir a empresa a não fazer novos reajustes aos gritos. Os preços, no entanto, continuam elevados.

Nos governos petistas, a solução para esse problema foi o intervencionismo, com controle desavergonhado dos preços administrados, principalmente em ano eleitoral. No fundo, era o que Bolsonaro gostaria de fazer, mas não pode. Assim, apela-se para outro modus operandi: encontrar culpados, qualquer um, para livrá-lo da responsabilidade. É bem verdade que isso funciona para a ala mais radical e fiel de seus apoiadores, a quem ele oferece desde ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), como o perdão ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), a contestações contra a segurança do sistema eleitoral e a inviolabilidade da urna eletrônica. No caso dos preços da gasolina e do diesel, os inimigos já foram os governadores; hoje, é a Petrobras. Mas a realidade econômica começa a mostrar os limites dessa estratégia.

O mais recente levantamento IPESPE, do início de maio, mostra estabilidade no cenário eleitoral, com 44% das intenções de voto para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e 31% para Bolsonaro. Os dados mais importantes, porém, são os que revelam a percepção da população sobre a economia. Do total de entrevistados, 95% disseram que a inflação subiu ou aumentou muito e 62% avaliam que os preços dos produtos vão seguir essa trajetória nos próximos meses; 63% acreditam que a economia brasileira está no caminho errado. Pela primeira vez, inflação e o custo de vida foram os temas mais citados pelos entrevistados como prioritários para o próximo presidente, juntamente com educação.

Dessa pesquisa, infere-se o óbvio: a inflação – e, consequentemente, os preços administrados – tende a ser o assunto principal das eleições deste ano. Para Bolsonaro, isso certamente não é novidade. As falas antidemocráticas do presidente podem fazer com que passe despercebida uma parte relevante de sua mensagem, segundo a qual o aumento de preços é um fenômeno mundial não restrito ao Brasil. É algo que ele repete à exaustão no cercadinho do Palácio da Alvorada. Essa explicação, no entanto, não tem convencido a maioria da população, algo que talvez ajude a explicar o destempero de Bolsonaro nos últimos dias.

Leia este editorial no próprio site do jornal O ESTADO de S. PAULO

Pesquisa IPESPE divulgada nesta sexta-feira (6/5) 1ª semana de maio 2022

ECONOMIA BALIZA A ELEIÇÃO. TUDO MAIS PARECE RUÍDO

1. O PRESIDENTE MANTÉM-SE COM 31% NA ESTIMULADA. E
OSCILA UM PONTO ACIMA NA ESPONTÂNEA, COM 29%. LULA PERDE UM PONTO NA ESTIMULADA E VOLTA AOS 44% DA
PENÚLTIMA 
RODADA. Ciro segue na terceira posição, com 8%. O mesmo ocorre na sequência dos outros nomes, praticamente com os mesmos números do levantamento anterior: Doria,3%; Janones,2%; Tebet,1%; e Felipe D’Ávila,1%.

2. ENTRE OS LÍDERES, O SEGUNDO TURNO É IGUAL AO DA
PESQUISA ANTERIOR: LULA,54% X BOLSONARO,34%. POUCAS ALTERAÇÕES OCORRERAM NOS OUTROS QUATRO CENÁRIOS TESTADOS. 
Ciro recupera um ponto contra Lula e faz movimento inverso contra Bolsonaro. Doria recua um ponto contra Bolsonaro.

3. APROVAÇÃO AO GOVERNO AVANÇOU UM PONTO (PARA 35%), ASSIM COMO A AVALIAÇÃO POSITIVA (ÓTIMO/BOM) QUE VAI A 31%. COM A DESAPROVAÇÃO ESTABILIZADA EM 62%, BEM COMO A AVALIAÇÃO NEGATIVA DE 52%. Nos dois casos, a variação entre indecisos e os que não opinaram explica a inexistência de um efeito “gangorra” entre as duas principais avaliações.

4. AUMENTO DO NÚMERO DE CASOS DE COVID-19 PÓS CARNAVAL FORA DE ÉPOCA É REFLETIDO NA PESQUISA. DIMINUI TRÊS PONTOS (PARA 56%) O CONTINGENTE QUE DECLARA NÃO ESTAR MAIS “COM MEDO DO CORONAVIRUS”. Na mesma proporção avança o percentual dos que dizem “estar com um pouco de medo” (32%), mantendo-se ainda estável o segmento que declara ter “muito medo” (11%).

5. MAIORIA DA POPULAÇÃO DESAPROVA O PERDÃO A DANIEL SILVEIRA: 56% X 29%. PARA 35% A MEDIDA DIMINUIRÁ A CHANCE DO VOTO EM BOLSONARO, AUMENTARÁ PARA 20%, E NÃO ALTERARÁ PARA 31%. Observando-se a leitura das possíveis consequências do gesto na campanha, vê-se que, embora desperte um debate muito relevante do ponto de vista judicial e político, seus efeitos não impactam a arena eleitoral.

6. DISPAROU A PREOCUPAÇÃO COM A INFLAÇÃO E O CUSTO DE VIDA – DE 15% EM NOVEMBRO, ALCANÇOU AGORA 23%. NO CONJUNTO, O PESO DA AGENDA ECONÔMICA SUBIU DE 38% PARA 47%. Dessa ques- tão da pesquisa se pode inferir a expectativa da sociedade face ao próximo presi- dente “logo no início do governo”. “Desemprego” foi de 13% para 17%, enquanto a menção a “fome/miséria” recuou de 9% para 6%, possivelmente em consequên- cia do “Auxílio Brasil”. Após os itens econômicos agregados, os sociais vêm em segundo (“Educação”, 23%) e terceiro lugares (“Saúde”, 14%). Em posições mais distantes comparecem “Corrupção” (5%) e “Violência” (4%). Esse ranking ajuda a entender o que está sendo efetivamente objeto da atenção do público nessa fase de pré-campanha, com potencial para produzir eventuais mudanças substantivas nas suas escolhas.

7. “CAMINHO ERRADO”, 63% X “CAMINHO CERTO”, 32%. O BRASIL CONFIRMA O BORDÃO DE JAMES CARVILLE: “É A ECONOMIA, ESTÚPIDO”. ELA É ATUALMENTE O PRINCIPAL OBSTÁCULO PARA UMA RECUPERAÇÃO MAIS SIGNIFICATIVA DO INCUMBENTE. Oscilaram um ponto acima tanto o quantitativo dos que têm uma percepção negativa do rumo atual, quanto os que nutrem uma leitura positiva. Numa eleição “normal”, substancialmente diferente em suas circunstâncias de uma eleição “crítica” (a exemplo da nossa de 2018) , a economia em todos os países costuma ser a principal baliza do processo, conforme sintetizou o consultor de Bill Clinton, em 1992.

A disputa inédita entre o ex e o atual

Ao que tudo indica, o foco da campanha de 2022 será nos corações
Bolsonaro e Lula

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo – 30 de abril de 2022

Encontrei Antônio Lavareda em Lisboa no último 25 de abril, dia da Revolução dos Cravos. Na data nacional portuguesa, que comemora a vitória da democracia sobre uma ditadura, era natural que falássemos de eleições. Lavareda, um dos principais analistas políticos brasileiros, chamou a atenção para uma peculiaridade do pleito de outubro. Se o cenário mais provável se concretizar – com os votos convergindo para Lula e Bolsonaro, sem uma terceira via –, veremos a disputa entre um presidente em exercício e um ex. 

Trata-se de um caso inédito no Brasil e raro em democracias. Lavareda lembra que isso esteve perto de acontecer, recentemente, na Argentina e na França. Na Argentina, Cristina Kirchner preferiu ser vice de Alberto Fernández, exercendo seu poder nos bastidores, ainda que com incursões barulhentas à ribalta. Na França, Nicolas Sarkozy chegou a ensaiar uma candidatura pelos Republicanos, mas desistiu por enfrentar problemas na Justiça. 

O fenômeno tem suas implicações. “As campanhas elaborarão programas detalhados, mas eles terão um papel diminutíssimo na campanha, já que os eleitores conhecem bem os candidatos”, diz Antônio Lavareda. “Tudo isso explica a razão de as pesquisas espontâneas mostrarem uma convicção de voto tão precoce.”

Lavareda analisa pesquisas desde 1985, quando colaborou com a campanha de Jarbas Vasconcelos à prefeitura do Recife. Ele é o autor do livro Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais, que mostra como as escolhas dos eleitores são muitas vezes guiadas pelos sentimentos – algo que, pelo que se viu até agora, poderá prevalecer no próximo pleito. 

Outro dado que as pesquisas mostram é a mudança da localização dos eleitores dentro do espectro político. O Brasil emergiu da ditadura militar com um viés à esquerda, até como reação aos anos de arbítrio. Hoje, a maior parte dos brasileiros a escolher um lado se define como de direita. 

Num país de partidos com pouca densidade ideológica, tal escolha também tem um forte componente emocional. Por isso, na avaliação de Lavareda, a presença de Geraldo Alckmin é tão importante para Lula. “Torna-se inverossímil que Lula atire um coquetel molotov se Alckmin estiver sempre ao lado dele com um extintor de incêndio”, diz Lavareda, de forma jocosa – até porque Lula, em seus oito anos de governo, nunca atirou coquetéis molotov. 

Uma eleição é uma disputa por corações e mentes. Ao que tudo indica, o foco da campanha de 2022 será nos corações.

Leia aqui esta íntegra e ouça ao minipodcast de João Gabriel para O Estado de S. Paulo

Colômbia: o que dizem as pesquisas nas eleições presidenciais de 2022

Arte: Razon Politica

O ambiente político é tenso e os candidatos lutam para convencer o eleitorado: quais são suas estratégias e o que devem fazer para evitar a derrota

Por ANDRES SEGURA – Consultor em relações públicas, crise e comunicação estratégica. Publicado em https://razonpublica.com/ – (Fundação RAZÓN PÚBLICA é uma entidade sem fins lucrativos e apartidária criada em 2008 para servir como ponto de convergência e instrumento de expressão de intelectuais colombianos comprometidos com o projeto de uma sociedade pacífica, democrática, legal, justa e produtiva).

Sem muitas mudanças

As eleições presidenciais se aproximam (29 de maio) e a intenção de voto parece estável: as campanhas dos candidatos não têm surtido os efeitos desejados, já que a intenção de votar pouco mudou durante as seis semanas após as consultas interpartidárias.

A Semana financia e publica uma pesquisa do Centro Nacional de Consultoria em que, em sua última versão, se verifica a pouca movimentação nas intenções de voto. Essa pesquisa foi produzida três semanas após a pesquisa de opinião anterior, e seus resultados sugerem um possível teto em várias candidaturas.

A plataforma Recetas Electorales e a empresa Colombia Risk Analysis realizaram um exercício estatístico para comparar rigorosamente as diferentes pesquisas, com maior frequência e ponderando os inevitáveis vieses de cada medição. A mesma tendência é vista neles.

Lento e seguro

Gustavo Petro (aliança de esquerda) aumentou a sua preferência entre 5 e 10 pontos (dependendo da pesquisa) imediatamente após as eleições legislativas, talvez graças aos seus excelentes resultados na consulta e aos da sua coligação nas eleições parlamentares. Mesmo assim, esse aumento na intenção de votar a seu favor no primeiro turno é bastante modesto em relação às expectativas.

Mas, até agora, ele é o único a ver um aumento, ainda que um pouco acima da margem de erro. Ele ainda tem um longo caminho a percorrer para chegar aos 40% e por isso o cenário de vencer no primeiro turno está longe.

Os escândalos das últimas semanas não afetaram sua campanha: entre eles se destacou a ideia de “perdão social” e o risco dos processos judiciais de Piedad Córdoba. Fala-se até que o candidato goza do “efeito teflon”. Com tudo isso, a possibilidade de ser vítima do establishment não o ajudou a tomar um novo impulso.

Agrupando o habitual

Federico ou Fico Gutiérrez (aliança de direita) deu o grande salto após a consulta, pois conseguiu reunir uma grande porcentagem de eleitores dispersos antes de 13 de março. Assim, ultrapassou a barreira dos 20%, mas desde então não convenceu novos eleitores.

Note-se que este intervalo entre 20 e 25 pontos é muito semelhante à percentagem do eleitorado que nos últimos anos se declarou ‘certo’. Isso é consistente com sua mensagem de consolidação do discurso institucional e conservador, como o apoio às forças militares, diante das críticas de Gustavo Petro.

Gutiérrez também busca conquistar eleitores de centro com a escolha de Rodrigo Lara como fórmula de vice-presidência, mas essa estratégia não parece dar frutos imediatos. Pode-se pensar que o candidato está esperando uma votação suficiente no primeiro turno para ir ao segundo turno e deixar a tarefa de crescer para as semanas seguintes. Mas então pode ser tarde demais.

Os perseguidores

Sergio Fajardo (aliança de centro) e Rodolfo Hernández (Movimento Anticorrupção) permanecem em torno de 10% sem sinais de crescimento. O primeiro teria sido vítima das disputas dentro da coalizão Centro Esperanza, que enfraqueceu a mensagem de esperança como alternativa ao conflito que os candidatos Petro e ‘Fico’ significam. Vê-se mesmo que o pequeno crescimento do Petro foi à custa de Fajardo.

Rodolfo Hernández está pagando o preço de deixar o conselho por pouco menos de um mês, já que não conseguiu voltar ao debate nas semanas seguintes à consulta. Mesmo assim, mantém os números anteriores aos legislativos, o que pode ser um bom sinal, mas não encontra fórmula para crescer.

A grande diferença entre os dois líderes e os demais candidatos, somada ao atrativo antagonismo de opinião promovido pelas campanhas de Petro e Gutiérrez, entre o medo de uma esquerda anacrônica ou a vingança contra uma institucionalidade corrupta, abre espaço para que eles avancem Fajardo e Hernández é muito limitado.

Segundo turno 

As pesquisas exploramos cenários possíveis em um segundo turno, e até algumas mensagens de campanha focam nessa possibilidade, principalmente as que lideram, pois é assim que fecham o imaginário eleitoral para o eleitor. Mas as questões sobre a intenção de votar no segundo turno não são um diagnóstico claro; A mesma coisa acontece antes das consultas, quando foram feitas perguntas sobre a primeira rodada. Mesmo assim, essas questões dão sinais sobre as tendências gerais do voto. 

O mais recente do Centro Nacional de Consultoria oferece subsídios adicionais para essa análise, ao perguntar sobre possíveis migrações de votos dos candidatos. “Infelizmente, os estudos de opinião não mediram bem os efeitos dos candidatos à vice-presidência, uma vez que geralmente desempenham um papel de apoio nas campanhas”.

É impressionante que os números de Petro no segundo turno não variem dependendo de quem é seu rival. Isso significaria que o candidato já atingiu seu teto de crescimento, o que também explicaria seu lento crescimento a partir das consultas. Essa ideia alimenta o medo em sua campanha de que o cenário de 2018 se repita no segundo turno e o “medo” do Petro se consolide.

Gutierrez é o mais próximo do Petro em números em um eventual segundo turno. Mas, ao mesmo tempo, ele é o candidato que receberia menos votos entre os eleitores dos demais candidatos. Isso o deixa em uma posição vulnerável: buscando repetir a fórmula de Duque (os votos contra a esquerda, ou Petro), mas sustentado pela imagem negativa do governo que ele acaba representando, goste ou não.

Fajardo é o candidato que arrecadaria mais votos no segundo turno, mas é percebido como inviável pelo baixo número de votos que recebeu na consulta e pela pouca reação nas urnas. Agora você tem um dilema: quer recuperar os votos que disputa com o Petro ou vai para os do Fico que não está crescendo? Essa é uma decisão chave, e muito difícil de tomar, que definirá o norte de sua campanha no mês que resta.

Finalmente, há Hernández, que teria que entrar no jogo, expandir seu confortável cenário de rede social e buscar o confronto, que é a linha que funcionou para ele. O problema é saber quem ou o quê confrontar em um cenário polarizado; sua vantagem é a afinidade com a polêmica.

Vices-presidentes

Os estudos de opinião não mediram bem os efeitos dos candidatos à vice-presidência, uma vez que geralmente desempenham um papel de apoio nas campanhas.

Mas com isso eles deixam de lado a análise do fenômeno de Francia Márquez, que renovou o debate eleitoral colombiano, algo que confirma a esmagadora vantagem que ele tem sobre seus rivais na pesquisa do Centro Nacional de Consultoria. A presença deles é um sintoma de que novos atores, linguagens e representações vieram para ficar na política colombiana.

Compreender como ela irrompeu na conversa política, representando os ‘excluídos’ (o ninguém) e propondo novas pautas e formatos são pontos que merecem ser estudados, mas que muitos desconhecem tanto da academia quanto de seus adversários. Ela deu um impulso à campanha do Petro (com muita dificuldade no processo); Resta saber se algum dos outros candidatos conseguirá simular, pelo menos em parte, esse fenômeno.