A participação foi alta novamente. Este é o novo normal?

Por Mônica Potts

15 DE NOVEMBRO DE 2022, ÀS 11H46 – O US Elections Project estima uma taxa de comparecimento de 47% para as eleições de meio de mandato deste ano. 

DAVID BECKER / THE WASHINGTON POST /538

Os Estados Unidos estão em uma era de alta participação?

A participação aumentou durante as últimas eleições de meio de mandato em 2018, quando 49% dos eleitores elegíveis votaram para o cargo mais alto em seu estado, de acordo com dados analisados ​​pelo US Elections Project , um site de dados eleitorais mantido por Michael P. McDonald, um cientista político professor da Universidade da Flórida. O Census Bureau, usando uma medida ligeiramente diferente, informou que foi o maior comparecimento registrado para uma eleição de meio de mandato desde que o bureau começou a manter registros em 1978.

Os primeiros sinais apontam para um nível semelhante de participação nas eleições intermediárias da semana passada. Usando estimativas preliminares de autoridades eleitorais estaduais em todo o país, o Projeto Eleições dos EUA estima uma taxa de comparecimento de 47% para as eleições deste ano. Em 14 estados, a participação até aumentou ligeiramente em relação a 2018. (As estimativas podem mudar em estados onde a contagem das cédulas ainda não foi concluída.)

Embora a maioria das estimativas de comparecimento do estado tenha caído um pouco em comparação com os números de 2018, elas ainda são maiores do que nos últimos anos anteriores, e o comparecimento em 2020 foi elevado em comparação com as eleições presidenciais anteriores. Então o que está acontecendo? Bem, provavelmente não apenas uma coisa! Em vez disso, há um monte de forças diferentes que poderiam ter levado as pessoas a votar nas últimas eleições.

Em 2018, de acordo com uma análise da The Brookings Institution, os grupos de tendência democrata – jovens eleitores, minorias e graduados brancos – tiveram os maiores aumentos no comparecimento. Isso faz sentido, já que um presidente republicano estava no cargo, e esses dados demográficos constituem grande parte da coalizão democrata moderna. O presidente Donald Trump também motivou grupos de tendência republicana a comparecer naquele ano, embora tenham visto aumentos menores. Antes das eleições intermediárias de 2018, uma pesquisa do Pew Research Center descobriu que o entusiasmo dos eleitores era extremamente alto e que 60% dos eleitores viam seu voto como uma expressão de apoio a ou contra Trump. Aversão à outra parte, o que os pesquisadores chamam de “partidarismo negativo”.tem motivado os eleitores nas últimas eleições e ainda pode estar aumentando.

A participação também foi extremamente alta na eleição presidencial de 2020, que Trump perdeu para o presidente Biden. Quase dois terços dos eleitores elegíveis foram às urnas , 7 pontos a mais que em 2016 , e o Pew Research Center relatou aumentos de votos em todos os estados. Com Trump concorrendo à reeleição, eleitores de ambos os lados compareceram e, por causa da pandemia de COVID-19, muitos estados trabalharam para tornar a votação mais acessível , facilitando a solicitação de cédulas à distância e o voto pelo correio, entre outras mudanças (no menos temporariamente).

Claro, uma grande diferença entre 2018 e 2022 é que Trump não estava nas urnas este ano. Mas o trumpismo ainda estava na mistura e ainda poderia ter motivado os eleitores. Sessenta por cento dos americanos tiveram um candidato em suas cédulas que negou que Biden tenha vencido a eleição de 2020 e, em alguns estados, esses negadores concorreram a cargos importantes que lhes dariam poder sobre a administração eleitoral em seus estados. Habilitada pelas nomeações de Trump, a Suprema Corte anulou Roe v. Wade neste verão, levando alguns estados a decretar proibições draconianas e impopulares , enquanto os eleitores em outros lugares foram movidos a derrotar iniciativas que teriam feito o mesmo em seus próprios estados. Trump endossou candidatos com votos positivos e negativosem todo o país.

Não há um padrão consistente nos estados que viram ligeiros aumentos no comparecimento às urnas em comparação com 2018. Claro, alguns estados, como Michigan e Pensilvânia , estavam votando sobre o direito ao aborto de uma forma ou de outra, mas também Kentucky e Califórnia , e a participação não foi alta nesses estados.

Um estado também não precisava necessariamente de uma corrida competitiva para aumentar a participação. Sim, Michigan e Pensilvânia tiveram aumentos e corridas de alto risco, mas também Arkansas, onde a eleição principal foi uma corrida não competitiva para governador.

Talvez, então, esteja ficando mais fácil votar. Alguns estados, como Maine e Nova York , reduziram as barreiras de votação desde 2018, mantendo cédulas universais por correio ou medidas de votação por ausência sem justificativa que entraram em vigor durante a pandemia de 2020, e alguns desses estados parecem ter tido um aumento nas vire para fora. Mas isso não aconteceu em outros estados: em Massachusetts, as expansões dos direitos de voto na era da pandemia tornaram-se permanentes e também houve uma corrida para governador, mas a participação parece ter diminuído. 

Mais do que qualquer um desses fatores, o tema unificador dos últimos anos tem sido o aumento do nível de polarização partidária. Os eleitores não são apenas motivados a votar contra o outro lado, eles não gostam e desconfiam dele. No geral, porém, os americanos acabam votando muito menos do que em muitos países semelhantes . O que o futuro próximo reserva é uma questão de leis, apostas e também, até certo ponto, nossa cultura política. 

Monica Potts é repórter política sênior da FiveThirtyEight.  @monicabpotts

EUA: Pesquisas foram bem nas midterms

Foto: Freepik

Não só os democratas estão respirando aliviados após as eleições intermediárias de 8 de novembro. O temor da onda vermelha (republicana) foi afastado, mesmo antes de concluída a apuração, que se arrasta por conta do sistema de votação descentralizado. Os institutos de pesquisa americanos também pularam uma fogueira. Lembrando que lá o sistema bipartidário e o voto facultativo eliminam o voto útil, fazendo com que as pesquisas sejam cobradas como spoiler das urnas.

Baseados nelas os prognosticadores este ano se saíram bem melhor que na eleição passada na Câmara (House) e especialmente na eleição do Senado, em que o “erro” médio se situou em dois pontos para todas as disputas, conforme Elliot Morris citando dados de Alexander Agadjanian (PHD student, na UC Berkeley). Nessa linha, as pesquisas por telefone com entrevistadores (live phone) se saíram ainda melhor que as  on-line (internet). Lembrando que praticamente eles não utilizam pesquisas eleitorais face à face. 

Esse resultado foi um alívio para a comunidade de pesquisas, após o setor ter amargado um pesadelo em 2020, o pior ano de desempenho dos institutos desde Reagan, em 1980, segundo a AAPOR ( Associação Americana de Pesquisa de Opinião Pública). Na verdade, na eleição de Biden foram agravados problemas que já haviam despontado nos surveys de 2016, e que interromperam o prestígio que desfrutavam por terem subsidiado projeções muito acuradas, em 2008 e 2012. 

O que os institutos fizeram esse ano? Praticamente nada, em termos de mudanças metodológicas. Mas a “recusa à entrevista” dos Republicanos diminuiu e isso pode ter ajudado significativamente. Será? Na verdade, nem a Comissão da AAPOR que examinou os dados de 2020 chegou a uma conclusão efetiva sobre o tamanho do “voto oculto” em Trump naquele ano. Nesse terreno, os pollsters não conseguem ir muito longe. É a Ciência Política que pode nos ajudar a entender por que o uso de métodos semelhantes produz dados que ora se aproximam mais ora menos do resultado das urnas. E que portanto “bons” resultados de hoje dizem pouco sobre o que ocorrerá nos próximos ciclos eleitorais. 

Meu suposto é que, afora o perfil da abstenção em comparação com o perfil do apoio dos principais candidatos, o fator chave para explicar a maior ou menor aproximação entre atitudes e comportamento, entre as pesquisas e as urnas, é a “volatilidade”, o grau de consistência das intenções de voto. E que a mesma é intrínseca à “natureza” de cada eleição. A exacerbada polarização nos EUA, reforçada pelos temas da  “inflação” e do “aborto/controle do corpo”, e pela forte presença de Trump, nacionalizou as disputas, estabilizando-as. Combinado com o alto percentual de voto antecipado (early voting) resultou numa participação elevada, embora inferior a de 2018. 

Essa discussão faz todo sentido também no Brasil. Onde uma comissão tripartite da ABEP (Associação Brasileira da Empresas de Pesquisa), da ABCP (Associação Brasileira de Ciência Política), e da ABRAPEL (Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais) se debruçará em breve sobre pesquisas e eleições de 2022. 

No nosso segundo turno, binário, sem a longa lista de candidatos e o voto útil do primeiro turno, além de conhecido o perfil da abstenção, as pesquisas como alimentadoras de prognósticos (alimentadoras…) se saíram muito bem no segundo turno. Não só na eleição presidencial. Também nas de governadores. Em um único estado houve inversão entre o resultado da véspera e o registrado pelo TSE.

Por que foi diferente do que havia ocorrido em 2018, quando as pesquisas foram cobradas por não terem antecipado os movimentos vertiginosos de última hora em diversos pleitos?

Não tem a ver com a “qualidade” das pesquisas. E, sim, com natureza diferente das duas eleições. Esse ano vivemos uma disputa “normal”. Eleições “mantenedoras” nas quais assistimos a maior taxa de reeleição (90%) para os governos estaduais de toda a Nova República. Voto “prospectivo retrospectivo”, reelegendo 18 incumbentes bem avaliados. De resto, a mesma espinha dorsal da lógica prevalecente na disputa presidencial. Em 2018, tivemos uma eleição “crítica”, com ondas tsunâmicas no final das campanhas varrendo políticos tradicionais. 

Sempre será impossível proceder-se um bom exame do “desempenho” das pesquisas eleitorais, apenas examinando-as “internamente”, sem que se faça o correto diagnóstico do objeto sobre o qual se debruçam. Nessa direção, o primeiro passo sem dúvida é pedir ajuda à Ciência Política e à Sociologia Eleitoral para compreender-se a natureza e respectiva dinâmica potencial de cada pleito. “Cada eleição é uma eleição” é apenas uma bobagem frequentemente repetida a cada eleição.

O que está em jogo nestas eleições

Por Conselho Editorial do The New York Times* – publicado em 7 de novembro de 2022

As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos são frequentemente apresentadas como um referendo sobre o partido no poder, e essa mensagem parece ressoar neste outono. Mas os eleitores também precisam considerar as intenções do partido que espera recuperar o poder e o que cada voto dado significará para o futuro deste país.

Oito senadores Republicanos e 139 representantes do partido tentaram anular os resultados das eleições de 2020 com base em alegações espúrias de fraude eleitoral e outras irregularidades. Muitos deles provavelmente vencerão a reeleição e podem se juntar a novos membros que também expressaram dúvidas infundadas sobre a integridade das eleições de 2020. Sua presença no Congresso representa um perigo para a Democracia, que deveria estar na mente de todos os eleitores que votam neste dia de eleição.

Também será a primeira vez que a máquina eleitoral dos EUA será testada em uma eleição nacional após dois anos de ações judiciais , teorias da conspiração , “auditorias” eleitorais e todo tipo de interferência de crentes nas mentiras de Donald Trump sobre a eleição de 2020. Esse teste vem ao lado da adoção do extremismo violento por uma pequena, mas crescente facção do Partido Republicano.

O maior perigo para a integridade eleitoral pode, de fato, vir dos resultados das disputas estaduais e locais que determinarão quem realmente conduz a eleição e conta os votos em 2024. Nas semanas que se seguiram à eleição de 2020, Trump e seus apoiadores viram seus esforços para negar os resultados das eleições e provar a fraude eleitoral desenfreada frustrados por duas coisas: primeiro, sua incapacidade de produzir provas críveis de que tal fraude havia ocorrido e, segundo, uma infra-estrutura eleitoral que foi defendida por funcionários públicos honrados que se recusaram a aceitar alegações de irregularidades.

Nos últimos dois anos, Republicanos em dezenas de estados tentaram desmantelar essa infraestrutura peça por peça, principalmente preenchendo posições-chave com simpatizantes de Trump. Como este Conselho escreveu em setembro: “Em vez de ameaçar os funcionários eleitorais, eles serão os funcionários eleitorais – os funcionários eleitorais e comissários de condado e secretários de estado responsáveis ​​​​por supervisionar a emissão, contagem e certificação de votos”. Muitas dessas posições estão sendo contestadas esta semana.

Com Trump dizendo estar preparando sua tentativa de retornar à Casa Branca, este Conselho pede aos eleitores americanos que considerem a importância de cada voto no dia da eleição, em todos os níveis de governo. Mesmo que o membro do Congresso em seu distrito tenha se recusado a aceitar as mentiras de Trump sobre esta eleição, há outras disputas nas urnas em muitos estados para cargos – incluindo secretário de Estado, procurador-geral e governador – que desempenharão papeis cruciais na supervisionar e certificar a eleição presidencial de 2024.

Ainda assim, com a eleição a dois anos de distância, muitos eleitores dizem que estão mais preocupados com as atuais ameaças aos seus meios de subsistência do que com a ameaça igualmente séria, mas menos visível, à democracia. Uma pesquisa recente do New York Times/Siena College descobriu que “mais de um terço dos eleitores independentes e um contingente menor, mas notável de Democratas, disseram estar abertos a apoiar candidatos que rejeitam a legitimidade da eleição de 2020, pois atribuíram maior urgência à sua decisão – preocupações com a economia do que temores sobre o destino do sistema político do país”.

De fato, os eleitores têm boas razões para olhar para o momento atual e se perguntar se o governo Biden e os Democratas do Congresso estão fazendo o suficiente para enfrentá-lo. A alta inflação está tornando mais difícil para os americanos arcarem com o que eles necessitam e querem. A criminalidade geral aumentou, fazendo com que as pessoas temam por sua segurança. O governo federal está lutando para fazer cumprir as leis de imigração do país. A invasão da Ucrânia pela Rússia e as relações cada vez mais tensas dos Estados Unidos com a China estão minando a paz e a prosperidade globais.

Mas os Republicanos ofereceram poucos planos específicos para lidar com questões como inflação, imigração e crime – e mesmo que ganhem o controle do Congresso, é improvável que ganhem cadeiras suficientes para mudar significativamente a política federal nos próximos dois anos.

Um Senado controlado pelos Republicanos, no entanto, seria capaz de impedir o presidente Biden de preencher vagas na bancada federal e na Suprema Corte. Também se tornaria mais difícil obter confirmações para funcionários do poder executivo.

Os candidatos Republicanos também se comprometeram a dedicar tempo e energia significativos à investigação do governo Biden. “Não acho que Joe Biden e seus assessores estejam exatamente ansiosos para sancionar a legislação republicana, então nossas audiências serão a coisa mais importante que podemos ter”, disse a deputada Lauren Boebert, do Colorado, em um comício recente.

Além desse espetáculo, os Republicanos ameaçam encenar outro confronto sobre os gastos federais.

Em algum momento do próximo ano, espera-se que o governo atinja o limite de sua capacidade de endividamento autorizada, ou teto da dívida. Para cumprir os compromissos já autorizados pelo Congresso, será necessário aumentar esse limite. Isso deveria ser uma questão de manutenção básica, porque não pagar as contas do país arriscaria uma crise financeira global. Mas os votos do teto da dívida tornaram-se oportunidades recorrentes de extorsão.

Este conselho pediu que o Congresso elimine o teto da dívida, substituindo-o por uma lei de bom senso que diz que o governo pode tomar emprestado o que for necessário para prover os gastos autorizados pelo Congresso. Não há benefício público em exigir o que equivale a uma segunda votação nas decisões de gastos. Mas, por enquanto, o teto permanece, e os Republicanos deixaram claro que, se ganharem o controle do Congresso, pretendem usá-lo como moeda de troca com a Casa Branca para avançar nas metas fiscais de seu partido.

Uma prioridade nessa lista é cortar impostos. Os Republicanos já estão se preparando para avançar com a legislação para estender os cortes de impostos de 2017 para pessoas físicas, que beneficiam principalmente famílias ricas, ao mesmo tempo em que eliminam alguns dos aumentos compensatórios da tributação corporativa – um plano que não é facilmente conciliado com as preocupações declaradas do partido sobre inflação ou o aumento da dívida federal.

As propostas republicanas também tornariam mais difícil para o Internal Revenue Service impedir que americanos ricos sonegassem seus impostos. O deputado Kevin McCarthy, líder da minoria na Câmara, que está em posição de se tornar presidente se os republicanos obtiverem a maioria, disse que o “primeiro projeto de lei” que passaria sob sua liderança reverteria um aumento de US$ 80 bilhões para o Congresso do IRS aprovou que o financiamento em agosto para que o IRS possa reprimir a fraude fiscal desenfreada por famílias de alta renda.

Alguns republicanos seniores pediram a revogação de outra peça-chave da legislação de agosto, conhecida como Lei de Redução da Inflação: uma medida que limita os custos de medicamentos para idosos no Medicare, incluindo um teto mensal de US$ 35 para pagamentos de insulina.

Os Republicanos também lançaram planos para reverter benefícios mais firmemente estabelecidos. O Comitê de Estudos Republicanos, um grupo de trabalho de política conservadora cujos membros incluem mais da metade da atual safra de republicanos da Câmara, publicou um plano orçamentário em junho pedindo que o Congresso aumente gradualmente a idade de aposentadoria para 70 anos para os benefícios totais da Previdência Social para verificar o aumento custo do programa. O plano também aumentaria a idade de elegibilidade para o Medicare.

Os Democratas podem tornar mais difícil para os Republicanos perseguir esses objetivos aumentando o limite da dívida ou alterando as regras nas semanas entre a eleição e o final do ano.

Os democratas não conseguiram se conectar com as preocupações dos eleitores sobre inflação e segurança pública durante esta temporada de campanha. Eles lutaram para comunicar suas conquistas tangíveis, incluindo um grande aumento no financiamento para a aplicação da lei local e legislação bipartidária de segurança de armas, um investimento federal histórico no desenvolvimento de fontes de energia limpas e de baixo custo para enfrentar as mudanças climáticas e o custo de vida, e uma medida inovadora para reduzir o custo dos medicamentos prescritos para os beneficiários do Medicare.

Sem dúvida, há mais trabalho a ser feito sobre essas e outras questões, incluindo a saúde da economia e o estado quebrado da política de imigração. Os eleitores precisam decidir em qual partido confiam para fazer esse trabalho.

Mas as eleições de 2022 também são uma oportunidade para cada americano fazer sua parte na defesa da integridade das eleições americanas. A tarefa de salvaguardar a nossa democracia não termina com uma eleição e exige que todos desempenhem um papel. A governança de nossa nação depende disso.

*O Conselho editorial é formado por um grupo de jornalistas opinativos cujos pontos de vista se baseiam pela experiência, pesquisa, debate e valores ao longo das carreiras jornalísticas. O Conselho não é ligado à redação do TNYT. Publicado no TNYT em 7/11/2022 – https://www.nytimes.com/2022/11/07/opinion/midterms-win-control-congress.html?smid=nytcore-ios-share&referringSource=articleShare

TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL: ÚLTIMA RODADA DO SEGUNDO TURNO (25/OUTUBRO)

1. ELEIÇÃO RESOLVIDA?

Estabilidade é a marca da última rodada do Termômetro. Os dois candidatos evoluíram cada qual um ponto na pergunta espontânea. Lula tem 47% e Bolsonaro, 43%. Na estimulada a mesma coisa. Lula vai a 50% e Bolsonaro a 44%. Excluídas as respostas Nenhum/ Branco/ Nulo/ Não sabe, o placar mantém-se em Lula, 53% X 47% Bolsonaro. Um empate no limite da margem de erro, mas pouco plausível considerada a série de três levantamentos. A evolução do incumbente registrada na semana anterior foi interrompida. Isso pode ter sido resultado do início da repercussão do episódio Roberto Jefferson com forte repercussão a partir do fim da noite do Domingo. Lembrando que as entrevistas dessa pesquisa foram iniciadas no último sábado e concluídas com uma menor quantidade ontem. O que se pode esperar sobre a evolução dos competidores nos próximos dias? É verdade que nessa reta final, com os ânimos acirrados, deve-se esperar novas denúncias dos dois lados. Além do campo oficial lançar mão a cada momento de um arsenal inesgotável de recursos para tentar reduzir a liderança do adversário. E também teremos um último Debate na Globo, na sexta-feira, com audiência certamente recorde. Tudo isso combinado certamente terá alguma influência, mas a cinco dias da votação uma reviravolta é muito difícil. Nunca houve na última semana numa eleição presidencial no Brasil. Só um fato extraordinário poderia inverter a posição dos concorrentes.

2. ABSTENÇÃO PODE REDUZIR A DIFERENÇA

Tomando-se o baixo interesse como indicador de possível não comparecimento, além dos que declaram que votarão Branco/Nulo ou estão indecisos, a liderança de Lula fica mais estreita, 52% x 48% de Bolsonaro. A pesquisa mostrou também como o ex-Presidente é o maior prejudicado pela abstenção que poderá decorrer da distância da residência dos eleitores até o local de votação. Entre os 19% da amostra que enfrentam maior dificuldade para votar, porque ou moram longe (14%) ou muito longe (4%), e mais os que não souberam responder à questão (1%), a dianteira de Lula sobre Bolsonaro é muito maior: 54% X 41%. Além do grau de interesse e da distância, incluímos uma terceira variável – certeza de comparecimento – também extraída do modelo Perry-Gallup utilizado para cálculo de prováveis eleitores (likely voters). Dos eleitores de Bolsonaro 89% declararam ter certeza de que irão votar, número que cai para 82% entre os eleitores de Lula. Optamos por apresentá-las de per si ao invés de compor um índice para melhor ilustrar os efeitos de cada uma delas.

3. CERTEZA DO VOTO, REJEIÇÃO, APROVAÇÃO E DESAPROVAÇÃO

As intenções de voto dessa última rodada do Termômetro que vimos antes estão inscritas em uma rede de quatro fatores interligados com as mesmas. São esses: o voto consolidado em cada um, a rejeição declarada aos dois candidatos e a Aprovação e Desaprovação dos respectivos governos. A favor de Lula contam os 47% de “certeza de voto”, os 49% de Aprovação retrospectiva do seu governo, e do outro lado os 49% que “não votariam de jeito nenhum” em Bolsonaro, e os 49% que Desaprovam o atual governo. Ao passo que Bolsonaro tem 41% de “certeza de voto”, acompanhado do contingente de 43% que Aprovam seu governo, dos 45% que “não votariam de jeito nenhum” em Lula, e dos 43% que Desaprovam os governos do ex-Presidente.

4. MELHOR CAMPANHA E QUEM MAIS ATACA

Faltando poucos dias para a eleição, na avaliação do público Lula “se saiu melhor” na campanha desse segundo turno, mencionado por 48% contra 40% que indicaram Bolsonaro. O atual Presidente é quem “está atacando mais o adversário” para 46%, enquanto 35% apontam Lula. Entre os diversos meios, Lula fica à frente de Bolsonaro “nas notícias de Televisão e Rádio” (47% X 33%); “aparecido melhor nas notícias de jornais, portais e blogs” (48%X 33%); na “propaganda de TV e Rádio” (45%X 37%); e em quase empate no item “tem se saído melhor nos debates” (41%X 40%). Já Bolsonaro fica à frente nos tópicos “melhor comentado nas conversas de WhatsApp” (40% X 37%); e “melhor presença na redes sociais” (41%X 39%).

5. AUMENTA A ATENÇÃO À CAMPANHA EM TODAS AS PLATAFORMAS

Prestes ao encerramento, a atenção dos eleitores cresceu em quase todos os meios. O noticiário da televisão e rádio é acompanhado por 60%, as redes sociais atraem a atenção de 49%, e o noticiário dos jornais, portais e blogs da internet de 26%. Os debates foram citados por 16%, WhatsApp e Telegram por 13%. Com um dígito são citados ainda o YouTube (9%) e a Propaganda na TV e no Rádio (7%).  Lembrando que esse último item provavelmente diz respeito aos Programas (blocos) de TV e Rádio, porque as inserções atingem e influenciam inconscientemente toda a audiência das redes abertas.

FALTAM CINCO LONGOS DIAS ATÉ A VOTAÇÃO (30/10) 

TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL: SEGUNDA RODADA DO SEGUNDO TURNO (18/OUTUBRO)

Antonio Lavareda*

1. EMPATE NO DEBATE DA BAND COM POOL DE EMISSORAS

Registrando recorde histórico de audiência, nada menos que 46% dos eleitores dizem ter assistido ao Debate nas diversas plataformas. E mais um quinto (21%) “ouviu falar” do mesmo. O empate visível segundo a avaliação do público reflete a disputa polarizada, além dos altos e baixos de cada candidato durante o mesmo. Para 42% Bolsonaro levou a melhor, enquanto para percentual parecido, 41%, Lula foi o vencedor. Os efeitos iniciais da longa troca de acusações entremeadas de autoelogios foram aparentemente limitados. O Debate “melhorou” a opinião sobre ambos quase na mesma medida: Bolsonaro, 27%, e Lula, 26%. E “piorou” para 21% no que diz respeito a Lula, e 19% quanto a Bolsonaro. Porém, qualquer avaliação dos números das pesquisas sobre o evento deve levar em conta o perfil da audiência do ponto de vista das preferências eleitorais. É que o Debate foi assistido no todo ou em parte por 57% dos eleitores bolsonaristas, e por apenas 40% dos lulistas.

2. PLACAR DAS INTENÇÕES DE VOTO REPRODUZ DISTÂNCIA DO 1o TURNO

No período de uma semana, a distância entre os competidores foi reduzida em dois pontos. Lula que havia ampliado sua margem na rodada anterior agora lidera por quatro pontos na questão espontânea (46% X 42%), e seis na estimulada (49% X 43%). O resultado da espontânea apresenta o mesmo intervalo do primeiro turno sobre o total do eleitorado. Excluídas as intenções de Voto em Branco e Nulos + Indecisos, tem-se 53% X 47%.

3. SEM OS ELEITORES DE BAIXO INTERESSE, A DISTÂNCIA É MENOR

Dada a dificuldade da pesquisa captar toda a extensão da abstenção, tal como no levantamento anterior foi utilizada uma única variável (grau de interesse na eleição) para se conjecturar sobre o possível impacto do não comparecimento de eleitores. Excluindo-se, então, os 22% que declararam ter baixo ou nenhum interesse no pleito, além dos que declaram que votarão Branco/Nulo e Indecisos, a disputa fica mais apertada: Lula, 52% X 48%, Bolsonaro.

4. CERTEZA DE VOTO E REJEIÇÃO

Lula permanece com os mesmos números de “certeza de voto” (47%) e de rejeição (45%) da semana passada. Bolsonaro cresceu um ponto no primeiro item (42%) e declinou um no segundo (48%). A proximidade dos respectivos números de rejeição é o indicador que melhor sinaliza a incerteza nesse momento quanto ao desfecho do processo eleitoral.

5. MAIORIA PREVÊ A VITÓRIA DE LULA

A expectativa de vitória do ex-Presidente é alimentada por número superior ao de suas intenções de voto (53%), enquanto o contrário se dá com Bolsonaro. Apenas 37% dos eleitores imaginam que ele poderia ser vitorioso.

6. VOTO EM BOLSONARO “PUXA” APROVAÇÃO DO GOVERNO

A Aprovação do governo subiu um ponto (para 42%) a Desaprovação recuou três (para 49%). Eu já havia comentado esse fenômeno na semana anterior. Inverte-se a relação entre as variáveis. Para evitar dissonância cognitiva grande parte dos eleitores que passaram a escolher Bolsonaro no segundo turno – na maioria por rejeição a Lula – questionados sobre seu governo lhe conferem Aprovação. Quanto ao ex-Presidente o processo é algo semelhante. Declinou dois pontos sua Aprovação retrospectiva (48%), mas a Desaprovação continuou em 43%. Ou seja, os números para os dois contendores se tornam bem próximos daqueles de “Certeza de Voto” e “ Não votaria de jeito nenhum”, a chamada rejeição.

7. PARTIDOS HIDROPÔNICOS. METADE DOS VOTANTES NÃO SABE O NOME DO PARTIDO EM CUJO CANDIDATO VOTOU

É digno de comemoração o fato de que a proibição das coligações nas eleições proporcionais reduziu a fragmentação das bancadas (com o Número Efetivo de Partidos, NEP, na Câmara Federal recuando de 16,7 na legislatura atual para 10,1 na próxima), diminuindo para doze o número de legendas e federações que a partir de agora disporão do Fundo Partidário. De fato, isso facilitará o processo decisório no Legislativo, mas  a ausência de raízes das legendas na sociedade continua. Sendo ela causada por uma regra eleitoral obsoleta (voto proporcional de lista aberta) não praticada por nenhuma democracia de grande porte, e que é responsável por “individualizar” na prática os laços de representação. Fazendo, por exemplo, da Câmara Federal, como tenho afirmado, “um agregado de 513 empreendedores individuais”, vitoriosos numa das mais caras eleições do mundo. Decorrida só uma quinzena da eleição, os dados mostram que, afora a identidade partidária dos dois finalistas da disputa presidencial, é escandalosamente baixo o conhecimento dos partidos a que pertencem os candidatos. Partidos sem raízes como alfaces hidropônicas, quase todos despidos de significado aos olhos da sociedade, são talvez a maior debilidade da nossa democracia.

FALTAM 12 LONGOS DIAS ATÉ A VOTAÇÃO (30/10)

* Cientista Político e Sociólogo – Instagram: @lavareda_antonio / Twitter: @lavaredaantonio

Um triplo carpado em piscina vazia

Por Antonio Lavareda

Artigo publicado no caderno Ilustríssima – Folha de S.Paulo ed. 15/10/2020 – págs C6 e C7

Os intelectuais públicos generalistas têm o direito e o dever de se pronunciar sobre os temas candentes que empolgam a sociedade, independentemente da maior ou menor familiaridade que tenham com o objeto em questão. Jornalistas também, por obrigação. Mas quando nos deparamos com supostos especialistas, ostentando currículos que aparentemente legitimariam suas assertivas, é importante analisar com lupa a argumentação. Quanto tempo é necessário para alguém se tornar conhecedor qualificado de algo? Malcom Gladwell respondeu essa questão. Segundo ele, não precisa ser diplomado na área, mas dez mil horas de dedicação a um tema são imprescindíveis  para se conseguir isso. Na minha experiência pessoal, formado em quatro áreas das ciências humanas, levei alguns anos estudando neurociência antes de publicar artigos e livros conectando-a com a política e a comunicação, um exercício do que Edward Wilson chamou de “consiliência”. Por isso, a mim que frequentemente recuso dar entrevistas sobre assuntos, mesmo da ciência política, os quais não domino, por respeito ao público e por honestidade, causa espécie assistir personagens investirem contra a reputação de profissionais e empresas, sem a menor autoridade intelectual para fazê-lo.

Ronaldo Lemos, um jovem talentoso advogado, com boa bibliografia na área de TI, com o entusiasmo e a pressa desse admirável mundo novo que fascina a todos e particularmente parece inebriá-lo, atirou-se sem hesitação a uma leitura fulminante das pesquisas eleitorais brasileiras. Nas páginas do Ilustríssima, domingo passado, surfou com raro senso de oportunidade a onda da perplexidade e das críticas aos institutos após o dois de outubro. Baseado no que supostamente praticam as empresas desse mercado nos EUA, desferiu em estilo pós-moderno uma sequência impressionante de golpes a laser. Não economizou juízos acerbos acerca da suposta obsolescência do setor. Denunciou a “inépcia” absoluta, que levou “a erros clamorosos”, apontando o “esgotamento” do modelo, alimentado pela “nostalgia” que faz essa atividade moribunda. Não se furtando a apontar caminhos para uma eventual ressureição da atividade: abraçar a sociologia computacional e a abordagem qualitativa. E não perdeu tempo, aproveitando para “empossar” um apadrinhado, um novo farol, o Instituto Atlas, único a “acertar em cheio” o resultado da eleição.

Ocorre que o atleta gnosiológico se jogou na piscina errada. E pior, ela estava vazia.

Desde o primeiro turno das eleições desse ano, pesquisas e institutos têm estado sob ataque das mais diversas fontes. Que infelizmente não se resumem apenas a críticos em busca de holofote. Vão perigosamente além. Numa conjuntura de tensões exacerbadas elas foram contestadas antes e depois da votação. No âmbito do Executivo, uma investigação foi requerida à Polícia Federal pelo Ministério da Justiça. No Congresso, foi deflagrada uma cruzada obscurantista, com vasto arsenal – CPI, Audiência Pública e Projeto de Lei criminalizando a atividade. Qual a principal “evidência” do “erro” dos institutos? A alegada discrepância entre os números apresentados pelas pesquisas e o resultado das urnas.

Então, comecemos pelo que ocorreu no primeiro turno da eleição presidencial, jogando luz sobre a alegada distância entre as fotografias das pesquisas exatamente como foram divulgadas na véspera da eleição e o resultado da mesma. Esse Quadro 1, que elaboramos a partir dos dados oficiais do TSE, e dos levantamentos tal como divulgados pelos meios de comunicação, permite a fácil compreensão das estimativas dos institutos sobre o desempenho dos candidatos no momento da realização dos levantamentos, na média 48h antes do pleito, e os resultados obtidos pelos presidenciáveis. Tal comparação exige ser realizada sobre os totais das pesquisas e do eleitorado. Porque as amostras dos institutos devem  ser representativas do total dos eleitores. As intenções de voto e outras opiniões colhidas pretendem ser estimativas da ocorrência das mesmas no universo em questão, ou seja, nos 156.500 milhões de brasileiros inscritos para votar.

No Quadro referido estão os percentuais obtidos por cinco institutos, na ordem em que os divulgaram ao longo do sábado, com as intenções de voto sobre o total do universo e, uma vez excluídos os votos brancos, nulos e indecisos, os chamados “votos válidos’. Observe-se que não se faz pesquisas para captar “votos válidos”, embora esses números passem a ser divulgados pela mídia à medida que se aproxima a eleição. Com o intuito de os fazerem comparáveis com os que serão divulgados pelo TSE. Às vezes eles se aproximam do resultado oficial, às vezes não. Por diferentes fatores. Dois institutos com percentuais sobre o total absolutamente diferentes em magnitude -um deles estando bastante equivocado- podem ter “válidos” semelhantes ou mesmo iguais.

O que fica encoberto nos “votos válidos”? Para sua extração são utilizados os dados das questões estimuladas. Que apresentam os percentuais dos candidatos, mais o percentual de votos em Branco e Nulos, e mais um ou dois porcento de “não sabe”, os supostos indecisos. E a partir daí são excluídas essas duas últimas categorias, recalculados os números e…. tem-se o que parece uma projeção, baseada na pesquisa, do resultado final. Parece mas não é. Por que de onde sairá a abstenção que não foi computada nem declarada? Inevitavelmente sairá dos contingentes de intenções de voto dos concorrentes. Ela prejudicará igualmente os candidatos? Lógico que não. No Brasil, como na maioria dos países, ela se concentra mais na base da pirâmide social. Para se ter uma ideia, dos quase sete milhões de eleitores analfabetos, cerca de 52% não votaram no primeiro turno. E quase metade dos eleitores de Lula têm até fundamental completo. Por isso, eu lembrava no Twitter, no dia 01/10, que a abstenção precisaria diminuir para aumentar a chance dele vencer no primeiro turno. Entretanto ela ainda foi um pouco maior (21%) do que em 2018.

De outro lado, nas colunas de totais percebe-se sem maior esforço que em direção contrária às perplexas especulações da noite da eleição e dos momentos seguintes, todas as pesquisas publicadas se aproximaram na margem de erro, ou até coincidiram numericamente, com os 33%, arredondados, da votação de Bolsonaro. Elas estimaram a mais, porém na margem de erro, todos os concorrentes da terceira via e os nanicos abaixo de 1%. Entretanto todas elas captaram intenções de voto em Lula entre sete e onze pontos acima do voto efetivo (37% arredondados) que ele registrou nas urnas. A explicação para essa distância está lá na base da última coluna à direita do Quadro 1. Nos 21% arredondados da abstenção.

Vez por outra aparece algum curioso que pretende dissociar abstenção de pobreza. Os argumentos variam desde a desatualização dos cadastros da Justiça Eleitoral por conta do delay na informação dos óbitos pelos cartórios cíveis até a falta de transferência de títulos para novos municípios de moradia dos eleitores. As duas coisas naturalmente devem ocorrer, mas nada sequer capaz de chegar perto do montante de 32.771 milhões de ausentes. E no caso da falta de transferência, lembremos que o fenômeno também é fruto da pobreza.

Os dados do TSE, apresentados no Quadro 3, relativos à abstenção por faixa de escolaridade no primeiro turno são eloquentes. A correlação entre o não comparecimento e a baixa escolaridade classificada nesses sete estratos, chega a -0.87. Quanto menos escolaridade, mais abstenção.  A diferença entre o topo e as camadas de escolaridade inferior é impressiva. Na base (analfabetos) é mais de 4 vezes superior ao extremo superior da pirâmide (curso universitário completo). É impossível negar a realidade. Em um país democrático que adota o voto obrigatório, não se pode naturalizar a ocorrência, eleição após eleição, de uma lamentável “abstenção compulsória” de tamanha proporção.

Arte: Folha de S.Paulo

O que foi dito acima sobre proximidade entre os números revelados às vésperas da eleição e os das urnas não significa desconhecer o principal postulado dessa atividade, indicado no título da minha fala no Seminário da ABEP dirigido a jornalistas em maio desse ano: “Por que pesquisas não podem ser lidas como prognósticos”. No texto, aponto alguns dos fatores que desautorizam o uso  para tal fim dos  resultados de tais levantamentos. Destaco o papel do voto estratégico, típico de sistemas pluripartidários como o nosso, o voto errático, e sobretudo a abstenção, a qual nenhum instituto, como se viu no Quadro 1, tem condições de estimar de modo razoável, pelo fato do voto ser obrigatório e os prováveis absenteístas não revelarem essa disposição. 

Aliás, mesmo com o voto sendo facultativo nos Estados Unidos, identificar os “likely voters” é uma tarefa difícil para os institutos de lá, cada qual usando uma fórmula diferente desde George Gallup, e poucas vezes acertando, como observa Elliot Morris.

O fenômeno ocorrido este ano  é singular? Não. Aconteceu muitas vezes. Mesmo FHC quando ganhou em primeiro turno em 1994 tinha 48% sobre o eleitorado total na véspera do pleito, mas nas urnas obteve apenas 36,2%. A abstenção foi de 17,8%, e o Branco e Nulo, com voto ainda em papel, chegou a 15,5%. Lula, quando por 1,4 ponto  não se sagrou vitorioso no primeiro turno de 2006, marcava 46% sobre o total na véspera, mas nas urnas a abstenção lhe tomou nove pontos e ele só alcançou 37,1% do total de eleitores naquele momento. E quanto à escolha de governadores em alguns estados, já que na maioria deles não houve mudanças significativas em relação às pesquisas? Neles, as mudanças de última hora foram exatamente isso. Movimentos finais que ocorreram após as últimas pesquisas divulgadas. Precisamente como a teoria do voto estratégico supõe: eleitores que utilizam a informação dos últimos levantamentos para alterar seu comportamento. Em estados como São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, e Bahia, foi nítido o “alinhamento”, com a disputa nacional  que assumiu  polarização recorde, repetindo  a morfologia de 2006. Fracionamento ( FE: 0,58) e Número de Competidores Efetivo (NE: 2,4). Os menores da Nova República.

Isso posto, dirijamo-nos à metodologia. Será que está mesmo moribunda como foi apontado? Salvo a pesquisa do IPESPE, telefônica, as demais foram  todas presenciais, mas dado que os resultados foram muito próximos, é inócuo discutir-se qualquer diferencial de acuidade entre elas. E quanto à pesquisa Atlas, única on-line, que segundo Lemos seria o novo padrão “gold” das pesquisas? Mais uma vez, o crítico olhou para o que não viu, e não acertou exatamente porque não viu. O Quadro 2 compara os resultados anunciados pelo Atlas na véspera da votação com os resultados da eleição. Esqueçamos os “votos válidos”, porque como já foi comentado as pesquisas captam intenções de voto identificadas em amostras colhidas sobre o total de eleitores, e não sobre “votos válidos”. Assim, eventual proximidade com os números de Lula “válidos” é apenas coincidência. A comparação necessária é com os números totais.

Lançado o foco na direção correta, o que se constata é que os dados do Atlas, contrariamente ao que a análise ingênua e apressada de Lemos identificou, foram os que mais se distanciaram tanto do número de Lula, quanto do número de Bolsonaro. Treze pontos em relação ao primeiro, e oito pontos em relação ao segundo. Estamos falando de 20 milhões de votos a mais  no primeiro colocado, e 12,5 milhões no segundo. Foi o único instituto  a  ficar  fora da margem de erro no que concerne ao incumbente.

Arte: Folha de S.Paulo

Não que a metodologia on-line do Atlas esteja “errada”. Não se trata disso. Ela ainda é apenas “inadequada” para estudos eleitorais no Brasil, onde um quarto da população não é usuária frequente da internet, onde temos 7 milhões de eleitores analfabetos e 25% da população padece de  analfabetismo funcional. Eu montei, em companhia de conhecidos cientistas da computação do CESAR o primeiro instituto de pesquisa on-line do Brasil vinte e três anos atrás, em 1999, o Diga-me.com. De lá para cá, vários dos institutos criticados em bloco no artigo ora replicado desenvolvem rotineiramente estudos on-line em segmentos específicos, em geral de classes A/B/C, mas não na base da sociedade. Isso vai mudar, decerto, mas levará alguns anos. As pesquisas de opinião pública no Brasil  ao contrário de presas à “nostalgia”, avançaram no tempo, e frequentemente utilizam métodos híbridos como nos Estados Unidos. Aliás, por falar no berço das pesquisas e das redes sociais, embora naquele país sejam comuns pesquisas eleitorais on-line, nenhuma das quatro organizações rankeadas com grau A+ pela qualidade do seu desempenho no site 538, de Nate Silver, utiliza essa metodologia. As quatro operam entrevistas phone live, telefônicas com entrevistadores humanos. Tampouco o uso das ciências sociais computacionais recomendado pelo autor é novidade para ninguém no setor. As redes sociais são vasculhadas pelos institutos. Índices são estabelecidos com base nas suas interações. Levantamentos de tráfego de pessoas e automóveis realizados por sinais de telefonia celular com uso intensivo de GPS. E boa parte dos projetos de pesquisa de mercado dos mesmos institutos que desenvolvem as pesquisas eleitorais usam estratégias “double track”, associando a investigação do comportamento nas redes à busca das opiniões dos consumidores. 

Da mesma forma, a “guinada qualitativa” demandada no artigo já ocorreu há muito tempo. Afastando o dilema entre Cila e Caribde, números sem juízos ou juízos sem números. Todos os principais institutos contam com departamentos qualitativos, o que parece desconhecido pelo autor, com profissionais de sociologia, psicologia e antropologia, conduzindo estudos presenciais e on-line cujos resultados alimentam hipóteses testadas quantitativamente. E vai-se além. Eu mesmo tive oportunidade de introduzir anos atrás no país a metodologia Quali-Quanti, unindo as duas dimensões, por meio de baterias de 200 a 400 entrevistas, com roteiros semiabertos, para pré-teste de comerciais.

Lemos adverte que “só sobreviverão as instituições que sejam mais parecidas com a língua que com os dentes”. Esqueceu, contudo, que a sabedoria elementar recomenda evitar, pelo uso ansioso do verbo irrefletido, que os dentes mordam a língua.

Por fim, o que explica esse mergulho desajeitado em um universo com o qual demonstra tão pouca familiaridade, passando a nítida impressão de que foi vítima de um aprendizado auricular enviesado?

Dois terços do artigo estão voltados ao diagnóstico da liderança da extrema direita no universo digital brasileiro, ancorada em narrativas articuladas na cultura e subculturas das plataformas. Essa é a verdadeira preocupação do autor. Legítima e procedente, diga- se de passagem. Não há como discordar da constatação de que o centro e a esquerda não têm se mostrado em condições de confrontar à altura a vanguarda ideológica e comunicacional dos seus antípodas.

Quanto às pesquisas, há muito que fazer, menos desmerecê-las. São fundamentais para o processo democrático. Governos e outras instituições não podem prescindir delas. Das informações e avaliações da repercussão que suas ações e omissões despertam na população. E a sociedade, como se orientaria sem mirar-se periodicamente nesse espelho? Por tudo isso, entidades como a ABEP, ABRAPEL E ABCP cogitam se debruçar após as eleições sobre os resultados, métodos e  técnicas utilizadas na atual temporada eleitoral, incorporando nessa reflexão as opiniões e cobranças dos críticos. Tal como a entidade dos pesquisadores norte-americanos (AAPOR) faz a cada ciclo de eleições. Certamente, há muito a ser melhorado, aperfeiçoado, atualizado. O que exige uma boa dose de autocrítica. Essa é a essência da atividade científica. Não parar jamais. Questionar-se sempre. Não se satisfazer nunca com o conhecimento alcançado.

TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL: PRIMEIRA RODADA DO SEGUNDO TURNO (11/ OUTUBRO) 

Antonio Lavareda*

1. DISPUTA APERTADA, COM LULA À FRENTE

Ele tem cinco pontos a mais que Bolsonaro na questão espontânea (47% X 42%); e sete pontos a mais na pergunta em que os nomes dos candidatos são citados (50% X 43%). Quando computadas exclusivamente as intenções de voto estimuladas nos dois candidatos, excluídas as respostas “Branco/ Nulo” e “Não Sabe/Não Respondeu”, a distância entre eles se amplia para oito pontos (54% X 46%). Lula obteve apoio maior que o adversário entre os eleitores de Simone ( 55% X 16%) e também, com margem mais estreita, entre os de Ciro (44% X 36%). Mas, como vimos no primeiro turno, dado que a pesquisa não consegue obter dos entrevistados a real disposição à abstenção – que no 2o turno, quatro anos atrás, foi de 21,4% do total do eleitorado –  foi inserido um cruzamento que excluiu os 18% que têm pouco ou nenhum interesse no pleito, o que teoricamente pode sugerir  maior predisposição ao não comparecimento. Resultando daí um placar de 51% X 47% dos votos totais, 2% de B/N, e 01% de Não Sabe/ Não Respondeu. A distância registrada no momento confere a  esse segundo turno um  formato diverso  de outras eleições que terminaram com margens mais confortáveis para o líder, considerados os votos totais. A exemplo de 2002 (Lula +17) , 2006 (Lula +16 ) e mesmo 2010 (Dilma +11). E  nos remete à comparação do mesmo com 1989 ( Collor +5 ), e 2014 (Dilma +2).

No quesito de probabilidade, no grau de “certeza do voto”, o intervalo entre os candidatos é de seis pontos (47%,Lula  x 41%, Bolsonaro), enquanto a diferença entre os percentuais de rejeição respectivos se situa em quatro pontos (49%, Bolsonaro X 45%, Lula). Por óbvio, esses intervalos desenham os resultados das intenções de voto. Dos que pretendem votar em Lula, 91% rejeitam Bolsonaro, e 6% afirmam que “poderiam votar” no atual presidente. Reciprocamente, entre os eleitores de Bolsonaro, 94% rejeitam Lula, e apenas 4% dizem que “poderiam votar” no ex-presidente.

3. INTERESSE MAIS ELEVADO

Nesse segundo turno, chega a 81% o montante dos que declaram ter “muito ou algum interesse” na eleição. Na esteira desse numero, aumenta para 31% o percentual dos que afirmam que participam ou participarão da campanha. Chama atenção a diferença entre a disposição à participação de lulistas (26%) e de bolsonaristas (41%). Maior que a registrada segundo o grau de interesse: 83% nos eleitores de Lula, e 88% entre os de Bolsonaro. 

4. IMPRENSA, PROPAGANDA E REDES SOCIAIS

Lula leva vantagem no noticiário de TV e Rádio (+16); Jornais, Portais e Blogs (+17); e na propaganda de TV e Rádio (+10). Bolsonaro predomina nas Redes Sociais (+3) e no WhatsApp (+3).

5. AS MELHORES PROPOSTAS 

Bolsonaro ganha por larga margem (+51) no item melhores propostas para os Empresários, e quase empata (-1) quanto às melhores propostas para as Famílias. Nas demais, Lula alcança uma vantagem significativa: Trabalhadores (+18), Aposentados (+13) , Mulheres (+11), Idosos (+11), Jovens (+9). 

6. VOTO ATRAI APROVAÇÃO DO GOVERNO, COM EXCEÇÃO DA PANDEMIA

Muitos analistas se surpreenderam com a expressiva melhoria da Aprovação, e da percepção do Rumo da Economia nesse início de segundo turno. Aqui vale uma observação. Nessa fase, inverte-se em grande medida a relação de causalidade entre Avaliação e Voto. Normalmente a primeira dita a segunda, mas agora, em meio a campanha super polarizada, é a segunda que assume o comando. O eleitor com viés de consistência escapa à dissonância cognitiva e elogia o desempenho do candidato no qual vai votar, seja por real preferência, seja por rejeição ao adversário. A aprovação de Bolsonaro evoluiu cinco pontos, chegando a 41%,  com a desaprovação recuando igual valor, situada em 52%. Movimento quase igual ao que se verificou em direção inversa quanto a Lula, cuja Aprovação recuou seis pontos, para 50%, com a Desaprovação evoluindo o mesmo, para 43%. Na percepção da Economia, o “Caminho Certo” foi apontado por 43% (crescendo oito pontos) e o “Caminho Errado”, diminuindo sete pontos, para 49%. Mas chama atenção o fato de que no que concerne à Pandemia, a cristalização das opiniões quase não foi afetada. A aprovação específica do desempenho de Bolsonaro avançou apenas dois pontos, para 39%, enquanto a desaprovação à conduta do seu governo na crise sanitária permaneceu em 59%. 

7. AGENDA SOCIAL: A PRIORIDADE CONTINUA

Os temas Sociais (61%) são citados como os mais urgentes para o próximo Presidente dar atenção, ao passo que as questões Econômicas  vêm em um distante segundo lugar(26%). Vindo depois  Corrupção (5%), Violência (4%), e Meio Ambiente (1%). Na agenda social comparecem, pela ordem, Educação, cujo peso cresceu quatro pontos, atingindo 30%; Saúde, que continua mencionada por 21%; e Fome/Miséria que também aumentou um ponto, com 10% das menções. Na econômica, vem à frente a inflação com 13% (recuando quatro pontos), o Desemprego, que também recuou dois pontos, e o item Salários, que evoluiu um ponto. Interessante observar que Lula lidera por onze pontos entre os eleitores que priorizam o Social, e por quatorze em meio aos que conferem maior urgência à agenda Econômica. 

* Sociólogo e Cientista Político – Instagram: @lavareda_antonio / Twitter: @lavaredaantonio

5º TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL (1º- OUT)

O que deve ser especialmente destacado nesse levantamento realizado ontem, sexta feira, sobre a eleição de amanhã, domingo? 

1. LULA SE MANTÉM, BOLSONARO DECLINA E TERCEIRA VIA SE RECUPERA 

Lula aparece na questão estimulada com 49% dos válidos; Bolsonaro com 35%; Ciro tem 8%; Tebet com 7%; Soraya e Padre Kelmon têm 1% cada, e os demais não pontuaram. Em relação à rodada anterior, sobre os VOTOS TOTAIS, Lula manteve seu percentual, Bolsonaro recuou 2 pontos, Ciro cresceu 1, Simone subiu 2 pontos, Soraya e o Padre Kelmon surgem com 1 ponto cada, e o número dos que “não sabem” é de apenas 1%. Considerando-se a margem de erro (3 ptos), Lula poderia ter, se a eleição fosse ontem, de 46% a 52% dos válidos. No 2º turno, Lula cresceu 1 ponto nos totais, e Bolsonaro ficou estabilizado. Nos votos válidos, o placar é Lula, 59% X Bolsonaro, 41%. 

2. PESQUISA NÃO É PROGNÓSTICO

Sempre insisto nesse tópico. Pesquisas fazem fotografias de momentos, medem atitudes, opiniões, mostram tendências, mas não medem comportamento (só as de boca de urna conseguem fazê-lo) e portanto não são prognósticos. Por quê? Porque sistemas pluripartidários, gerando diversas candidaturas como o nosso, abrem espaço para o voto estratégico (voto útil) inclusive no último minuto. Movimento que pode ocorrer até amanhã, incentivado pelas pesquisas publicadas hoje. Além disso, a obrigatoriedade do voto, gerando a ocultação de parte expressiva desse comportamento nas entrevistas, torna impossível retratar a abstenção, que não se verifica homogeneamente nos grupos sociais e, por conseguinte, afeta de forma diferenciada os candidatos. Desse modo, quanto maior for a abstenção, mais afetará negativamente a votação do ex-presidente, beneficiando Bolsonaro. Que fatores poderão ajudar Lula? Dois principais: O primeiro deles, como foi dito, seria uma abstenção reduzida; o segundo, o efeito eventual de uma espécie de “pressão social” pelo voto útil, objetivando que a campanha se encerre nesse primeiro turno. Cresceu e chegou a 75% a preferência para que a eleição termine amanhã. Esse sentimento alcança 54% dos eleitores de Ciro e 63% dos de Tebet. 

3. DEBATE INSANO. 

Regra estapafúrdia, que obriga a presença de candidatos sem nenhuma competitividade, transformou o último Debate da campanha em um autêntico circo. Mas o circo, dada a enorme repercussão que teve (77% declararam que o assistiram no todo ou em parte ou “ouviram falar”), alcance aliás antecipado pelo Termômetro da semana passada, teve efeitos visíveis ou “ouviram falar”, nessa pesquisa. Do ponto de vista do desempenho, em nada contribuiu para os 2 líderes. Ele “ajudou” sobretudo os candidatos menos competitivos. No cômputo total, entre os 77% expostos ao evento, no quesito sobre melhor desempenho os líderes ficaram bem abaixo de suas intenções de voto, mas a 3ª via se sobressaiu. Lula vem à frente com 30%; Bolsonaro em seguida com 22%; Tebet, com 14%; Ciro Gomes, 7%; Padre Kelmon, com 3%; Felipe e Soraya com 2%. As consequências disso são mais complexas. Para 17% dos eleitores de Lula quem teve melhor desempenho foi Simone Tebet; o Padre Kelmon foi citado nessa condição por 9% dos eleitores de Bolsonaro. Mas 23% dos eleitores de Ciro apontaram Lula como tendo melhor performance, e 13% dos de Simone mencionaram Bolsonaro. O saldo líquido desses movimentos pode ter sido responsável pelas últimas alterações nas curvas de intenção de voto até o dia de ontem. 3% disseram que depois dele haviam resolvido não votar em ninguém; 2% eram indecisos e escolheram um candidato; e 1% assumiram ter mudado de candidato. Para 76% o Debate apenas reforçou suas escolhas anteriores.

4. É O SOCIAL, ESTÚPIDO

A agenda da população revelada nessa última pesquisa antes do 1º turno manda um recado muito claro para o próximo presidente. A prioridade está na dimensão social. Temas dessa esfera concentram 56% das menções; aspectos econômicos pontuam 31%; combate à violência, 5%; corrução, tão mencionado na campanha do incumbente, 5%; e meio ambiente, 2%. Todos já repetimos em algum momento o bordão cunhado por James Carville em 1992 (eleição de Clinton/EUA): “É  a economia, estúpido”. Ocorre que ele não serve para explicar a eleição brasileira desse ano. Sempre explicou antes? Nem sempre. Em 1989, foi a deslegitimação do sistema político após o Plano Cruzado 2 que abriu espaço para a vitória de Collor, e em 2018 foi mais a Lavajato e menos a economia que explica o triunfo do outsider Bolsonaro. A Pandemia ficou para trás, mas deixou efeitos duradouros. Entre eles, agravou e deu visibilidade inédita às chagas sociais do país. Os temas educação, saúde e fome atingem, no conjunto, 59% dos eleitores de Lula, que fez campanha orientada nessa direção, mas também vêm em primeiro lugar entre os apoiadores de Bolsonaro, com 50% das menções. 

5. QUE ELEIÇÃO? 

Do ponto de vista político, há um largo consenso de que o pleito cujo turno inicial se dará amanhã, é um teste de resiliência da institucionalidade da Nova República. Mas quando analisado na perspectiva dos sentimentos do  eleitorado, várias conceituações são oferecidas. Acredito que essa não é nem a  “eleição da rejeição”, nem a “eleição da polarização”, nem mesmo “a eleição do ódio”. Esses epítetos, entre outros, não tocam no aspecto principal. Todos são tributários da excepcional singularidade do enfrentamento entre incumbente e ex-mandatário. Os 2 sendo os únicos líderes nacionais de massa dos últimos 20 anos. Antípodas. Admiração consolidada, rejeição cruzada. Essa eleição é na verdade uma “batalha de avaliações”. Onde as respectivas Aprovações (Lula, 56% X Bolsonaro, 36%) definem seus limites eleitorais. E onde a Desaprovação de cada um (Lula, 34% X Bolsonaro, 54%) explica parte substancial das rejeições respectivas (Bolsonaro, 56% x Lula, 46%). Lembrando que essas taxas de rejeição são identificadas na pergunta de probabilidade de voto.

6. ESPERANÇA E CONFIANÇA.   

Na hierarquia de emoções que a campanha presidencial de 2022 despertou os sentimentos positivos prevalecem com folga. Totalizam 63% como primeira menção enquanto os negativos são só a metade (32%). Nos Top 3, Esperança encabeça o ranking com 36%, seguida de Preocupação (15%) e da Confiança (16%). Dados que desmentem avaliações superficiais de que essa teria sido a eleição do Medo (citado por apenas 4%) ou do Desânimo (2%).

4º TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL (24/SET)

4º TERMÔMETRO DA CAMPANHA  IPESPE/ABRAPEL (24-SET)

Última fotografia da semana, pesquisa concluída ontem traz as opiniões e atitudes dos eleitores a oito dias da eleição. O que merece ser destacado? 

1. TOSS-UP. Se a eleição fosse hoje, ela poderia ser decidida, ou não, no primeiro turno. As intenções de voto de Lula (46%) ultrapassaram essa semana, pela primeira vez, a soma dos demais candidatos (45%). Em votos válidos isso daria ao ex-presidente cerca de 50,5%. Dada a margem de erro da pesquisa (3.0 pontos), o resultado seria uma incógnita. Ocorre que a votação só se dará no outro domingo.

2. LULA GANHA ADESÕES DE PESO E TERCEIRA VIA DEFINHA. O apoio em sequência, no espaço de duas semanas, com declarações surpreendentes de juristas de renome, artistas, ex-candidatos a presidente, do ex-ministro da Economia de Temer, e de personalidades do entorno de FHC, além da nota no mínimo anti Bolsonaro do maior símbolo tucano, fizeram o pêndulo se deslocar ainda mais na direção de Lula. Levando-o ao maior nível nos levantamentos do Instituto, 46%, distanciando-o 11 pontos de Bolsonaro, estabilizado em 35%. Mais importante para ele, os dois principais nomes da chamada terceira via recuaram. Ciro, de 7% a 6%. E  Tebet, de 5% a 4%. E nessa rodada nenhum dos outros candidatos atingiu 1%. No eventual segundo turno, a dianteira de Lula sobre Bolsonaro abriu agora mais um  ponto, marcando 54% X 38%. 

3. CONFRONTO FINAL. Os debates serão os momentos de maior saliência na  semana derradeira. O de hoje (SBT/CNN e um pool de veículos) embora significativo, terá provavelmente menor audiência por conta do horário (18h15), mas o da quinta, 29, na Globo, às 22h (após ‘Pantanal’), promete igualar novelas  do período glorioso do gênero. 55% pretendem assisti-lo no todo ou em parte, e ainda 25% afirmam que “provavelmente” irão vê-lo, apurou a pesquisa. Como até pequenas oscilações dos números poderão selar a sorte dos competidores, esse evento talvez aponte se a eleição irá, ou não, para o segundo turno. O resultado do que promete ser um ríspido embate entre os dois líderes é imprevisível. E os nomes da terceira via o veem como a grande oportunidade para se manterem de pé até as urnas. 

4. ACABAR DIA DOIS. Há um sentimento para a grande maioria de “jogo jogado”. De que a disputa presidencial deveria terminar logo. Aumentou para 70% os que querem a eleição resolvida no primeiro turno. Nada menos que 80% dos ouvidos responderam que já decidiram seu voto. Entre os restantes, 4% dizem que vão fazê-lo nos próximos dias; 5% aguardarão o último debate para decidir; e ainda 8% pretendem decidir só no dia da eleição. Números que  provavelmente trazem esperança para  candidatos que ainda esperam crescer até o pleito, mas sempre lembro que boa parte desses retardatários termina engrossando a abstenção. 

5. PARTICIPAÇÃO AUMENTA. Boa notícia é que nesses últimos dias aumentou de 13% para 19% o número dos que de alguma forma estão se envolvendo nas  campanhas. Mesmo tendo crescido, essa participação poderia ser maior, não fora os muitos casos de violência política que atemorizam a população, e deveriam ser exemplarmente reprimidos. Afinal, o grau  de interesse nessa eleição é inusualmente elevado (73%), com 58% dizendo que estão “muito interessados” nela. 

6. LULA COM MELHOR DESEMPENHO. Os fortes ataques mútuos na propaganda dos dois principais candidatos parecem ter deixado um saldo mais positivo para o ex-presidente. No cômputo geral, cresceu quatro pontos a opinião  de que ele está tendo um melhor desempenho na campanha, atingindo 44%. Bolsonaro nesse quesito continuou com os 34% da semana anterior. Lula também lidera com folga na percepção de que tem aparecido melhor no noticiário das TVs e Rádios ( 41% a 27%), nas notícias de jornais e blogs na internet (41% a 26%) e  na melhor propaganda na TV e  Rádio ( 38% a 25%). Bolsonaro ganha no que diz respeito a melhor presença nas redes sociais, mas por uma margem surpreendentemente pequena ( 37% a 33%) para quem tem amplo domínio nessa plataforma. E mantém-se o empate da semana anterior na avaliação de quem tem sido “melhor comentado nas conversas de WhatsApp” (32% a 32%).

7. FUNDAMENTOS CRISTALIZADOS. Com poucos dias de campanha à frente, após intensa exposição dos argumentos para votar e das possíveis razões para não votar no adversário, é difícil imaginarmos  a possibilidade de alteração substancial nos fundamentos sobre os quais, afetiva e cognitivamente, se erguem as intenções de voto. Nessa disputa que como sempre chamo atenção é singularíssima nacional e internacionalmente  -incumbente versus ex-presidente – o voto prospectivo-retrospectivo tem balizas claras: a avaliação do desempenho do atual chefe do Estado vis à vis a consideração retrospectiva, baseada na memória individual e na memória social,  do ex-mandatário. E o que se constata é que a Aprovação de Bolsonaro praticamente não se mexeu desde o início da propaganda eleitoral, apenas oscilando um ponto para baixo (no momento, 38%), o mesmo ocorrendo com sua Desaprovação que se  manteve em 56%. Com Lula ocorreu o mesmo, mas em patamares diferentes. Sua Aprovação permaneceu em  57%, e a Desaprovação recuou dois pontos (hoje é de 37%).

3º TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL (17/9)

A pesquisa, cujo campo se estendeu até ontem (6a feira), apresenta a última fotografia das opiniões e atitudes dos eleitores da semana que termina hoje. 

O que nela chama mais atenção?

1. DISTÂNCIA. Confirma-se, como fora apontado em outros levantamentos abalizados desse período, o alargamento da diferença entre o primeiro e o segundo colocados, tanto na intenção de voto  espontânea, quanto na estimulada do primeiro e segundo turnos. Ciro e Tebet, empatados na margem de erro, prometem uma luta acirrada pela terceira posição. Ela, dois pontos abaixo no total, já assumiu o terceiro lugar entre as mulheres e os idosos. 

2. 1o TURNO. A maioria absoluta dos eleitores (68%)  quer ver a eleição decidida já no primeiro turno. Isso é verdade sobretudo para os eleitores de Lula e Bolsonaro. Mas alcança também porções significativas  dos eleitores da terceira via. 

3. PARTICIPAÇÃO. Os registros de violência política deixaram  marcas negativas na participação dos eleitores. Apenas 13% têm participado de alguma forma das campanhas. Para 43%, as pessoas têm evitado participar mais do que em outras campanhas. E, segundo 38%, têm evitado, quando em locais públicos, dizer em quem vão votar. Esse comportamento é mais frequente entre as mulheres, os eleitores de menor  instrução e os de renda mais baixa.

4. FORÇA DA TV. Nessa  semana, a TV e o Rádio consolidaram o primeiro lugar (52%) entre os meios de informação sobre a campanha, bem à  frente das Redes Sociais (43%), que apenas entre os eleitores de Bolsonaro ocupam a primeira posição ( 49% contra 46% da TV) 

5. PERFORMANCE. Segundo os eleitores, Lula vem se saindo muito melhor que Bolsonaro na propaganda da TV e Rádio ( 38% X 24%), nas notícias de jornais, portais e blogs (39% X 26%), e no noticiário de TV e Rádio (37% X 26%). Empata com o segundo colocado nas “conversas de WhatsApp” (31% X 31%). E perde por pouco ( 35% X 36%) nas Redes Sociais. Lembrando que essa última percepção descola do fato objetivo de Bolsonaro ter um número bem maior de seguidores e interações. Por fim, na memória do único debate que houve até agora, Lula teve melhor desempenho (27%) que Bolsonaro (23%), e Tebet (12%) ficou à frente de Ciro (10%).6. QUADRO CONSOLIDADO? Último fato a destacar, e talvez o mais importante para se entender o que poderá ainda acontecer daqui para a frente, é o comparativo entre avaliações de Lula e Bolsonaro. Desde que a campanha começou, o ex presidente mantém a sua  avaliação positiva e a aprovação, retrospectivas, no mesmo patamar – 55% e 57%. Enquanto a avaliação negativa e a desaprovação oscilaram negativamente, hoje sendo 23% e 38%, respectivamente. O mesmo, praticamente, ocorreu com o atual Presidente. Ele mantém a avaliação positiva em 35% e a aprovação em 39%, ao passo que a avaliação negativa e a desaprovação cederam ambas apenas um ponto, aparecendo, hoje, nas marcas de 46% e 55%, respectivamente. Ou seja, ao que parece até o momento, as atitudes face aos dois principais candidatos  estavam inusualmente  consolidadas antes mesmo do início da campanha eleitoral.