5º TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL (1º- OUT)

O que deve ser especialmente destacado nesse levantamento realizado ontem, sexta feira, sobre a eleição de amanhã, domingo? 

1. LULA SE MANTÉM, BOLSONARO DECLINA E TERCEIRA VIA SE RECUPERA 

Lula aparece na questão estimulada com 49% dos válidos; Bolsonaro com 35%; Ciro tem 8%; Tebet com 7%; Soraya e Padre Kelmon têm 1% cada, e os demais não pontuaram. Em relação à rodada anterior, sobre os VOTOS TOTAIS, Lula manteve seu percentual, Bolsonaro recuou 2 pontos, Ciro cresceu 1, Simone subiu 2 pontos, Soraya e o Padre Kelmon surgem com 1 ponto cada, e o número dos que “não sabem” é de apenas 1%. Considerando-se a margem de erro (3 ptos), Lula poderia ter, se a eleição fosse ontem, de 46% a 52% dos válidos. No 2º turno, Lula cresceu 1 ponto nos totais, e Bolsonaro ficou estabilizado. Nos votos válidos, o placar é Lula, 59% X Bolsonaro, 41%. 

2. PESQUISA NÃO É PROGNÓSTICO

Sempre insisto nesse tópico. Pesquisas fazem fotografias de momentos, medem atitudes, opiniões, mostram tendências, mas não medem comportamento (só as de boca de urna conseguem fazê-lo) e portanto não são prognósticos. Por quê? Porque sistemas pluripartidários, gerando diversas candidaturas como o nosso, abrem espaço para o voto estratégico (voto útil) inclusive no último minuto. Movimento que pode ocorrer até amanhã, incentivado pelas pesquisas publicadas hoje. Além disso, a obrigatoriedade do voto, gerando a ocultação de parte expressiva desse comportamento nas entrevistas, torna impossível retratar a abstenção, que não se verifica homogeneamente nos grupos sociais e, por conseguinte, afeta de forma diferenciada os candidatos. Desse modo, quanto maior for a abstenção, mais afetará negativamente a votação do ex-presidente, beneficiando Bolsonaro. Que fatores poderão ajudar Lula? Dois principais: O primeiro deles, como foi dito, seria uma abstenção reduzida; o segundo, o efeito eventual de uma espécie de “pressão social” pelo voto útil, objetivando que a campanha se encerre nesse primeiro turno. Cresceu e chegou a 75% a preferência para que a eleição termine amanhã. Esse sentimento alcança 54% dos eleitores de Ciro e 63% dos de Tebet. 

3. DEBATE INSANO. 

Regra estapafúrdia, que obriga a presença de candidatos sem nenhuma competitividade, transformou o último Debate da campanha em um autêntico circo. Mas o circo, dada a enorme repercussão que teve (77% declararam que o assistiram no todo ou em parte ou “ouviram falar”), alcance aliás antecipado pelo Termômetro da semana passada, teve efeitos visíveis ou “ouviram falar”, nessa pesquisa. Do ponto de vista do desempenho, em nada contribuiu para os 2 líderes. Ele “ajudou” sobretudo os candidatos menos competitivos. No cômputo total, entre os 77% expostos ao evento, no quesito sobre melhor desempenho os líderes ficaram bem abaixo de suas intenções de voto, mas a 3ª via se sobressaiu. Lula vem à frente com 30%; Bolsonaro em seguida com 22%; Tebet, com 14%; Ciro Gomes, 7%; Padre Kelmon, com 3%; Felipe e Soraya com 2%. As consequências disso são mais complexas. Para 17% dos eleitores de Lula quem teve melhor desempenho foi Simone Tebet; o Padre Kelmon foi citado nessa condição por 9% dos eleitores de Bolsonaro. Mas 23% dos eleitores de Ciro apontaram Lula como tendo melhor performance, e 13% dos de Simone mencionaram Bolsonaro. O saldo líquido desses movimentos pode ter sido responsável pelas últimas alterações nas curvas de intenção de voto até o dia de ontem. 3% disseram que depois dele haviam resolvido não votar em ninguém; 2% eram indecisos e escolheram um candidato; e 1% assumiram ter mudado de candidato. Para 76% o Debate apenas reforçou suas escolhas anteriores.

4. É O SOCIAL, ESTÚPIDO

A agenda da população revelada nessa última pesquisa antes do 1º turno manda um recado muito claro para o próximo presidente. A prioridade está na dimensão social. Temas dessa esfera concentram 56% das menções; aspectos econômicos pontuam 31%; combate à violência, 5%; corrução, tão mencionado na campanha do incumbente, 5%; e meio ambiente, 2%. Todos já repetimos em algum momento o bordão cunhado por James Carville em 1992 (eleição de Clinton/EUA): “É  a economia, estúpido”. Ocorre que ele não serve para explicar a eleição brasileira desse ano. Sempre explicou antes? Nem sempre. Em 1989, foi a deslegitimação do sistema político após o Plano Cruzado 2 que abriu espaço para a vitória de Collor, e em 2018 foi mais a Lavajato e menos a economia que explica o triunfo do outsider Bolsonaro. A Pandemia ficou para trás, mas deixou efeitos duradouros. Entre eles, agravou e deu visibilidade inédita às chagas sociais do país. Os temas educação, saúde e fome atingem, no conjunto, 59% dos eleitores de Lula, que fez campanha orientada nessa direção, mas também vêm em primeiro lugar entre os apoiadores de Bolsonaro, com 50% das menções. 

5. QUE ELEIÇÃO? 

Do ponto de vista político, há um largo consenso de que o pleito cujo turno inicial se dará amanhã, é um teste de resiliência da institucionalidade da Nova República. Mas quando analisado na perspectiva dos sentimentos do  eleitorado, várias conceituações são oferecidas. Acredito que essa não é nem a  “eleição da rejeição”, nem a “eleição da polarização”, nem mesmo “a eleição do ódio”. Esses epítetos, entre outros, não tocam no aspecto principal. Todos são tributários da excepcional singularidade do enfrentamento entre incumbente e ex-mandatário. Os 2 sendo os únicos líderes nacionais de massa dos últimos 20 anos. Antípodas. Admiração consolidada, rejeição cruzada. Essa eleição é na verdade uma “batalha de avaliações”. Onde as respectivas Aprovações (Lula, 56% X Bolsonaro, 36%) definem seus limites eleitorais. E onde a Desaprovação de cada um (Lula, 34% X Bolsonaro, 54%) explica parte substancial das rejeições respectivas (Bolsonaro, 56% x Lula, 46%). Lembrando que essas taxas de rejeição são identificadas na pergunta de probabilidade de voto.

6. ESPERANÇA E CONFIANÇA.   

Na hierarquia de emoções que a campanha presidencial de 2022 despertou os sentimentos positivos prevalecem com folga. Totalizam 63% como primeira menção enquanto os negativos são só a metade (32%). Nos Top 3, Esperança encabeça o ranking com 36%, seguida de Preocupação (15%) e da Confiança (16%). Dados que desmentem avaliações superficiais de que essa teria sido a eleição do Medo (citado por apenas 4%) ou do Desânimo (2%).

4º TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL (24/SET)

4º TERMÔMETRO DA CAMPANHA  IPESPE/ABRAPEL (24-SET)

Última fotografia da semana, pesquisa concluída ontem traz as opiniões e atitudes dos eleitores a oito dias da eleição. O que merece ser destacado? 

1. TOSS-UP. Se a eleição fosse hoje, ela poderia ser decidida, ou não, no primeiro turno. As intenções de voto de Lula (46%) ultrapassaram essa semana, pela primeira vez, a soma dos demais candidatos (45%). Em votos válidos isso daria ao ex-presidente cerca de 50,5%. Dada a margem de erro da pesquisa (3.0 pontos), o resultado seria uma incógnita. Ocorre que a votação só se dará no outro domingo.

2. LULA GANHA ADESÕES DE PESO E TERCEIRA VIA DEFINHA. O apoio em sequência, no espaço de duas semanas, com declarações surpreendentes de juristas de renome, artistas, ex-candidatos a presidente, do ex-ministro da Economia de Temer, e de personalidades do entorno de FHC, além da nota no mínimo anti Bolsonaro do maior símbolo tucano, fizeram o pêndulo se deslocar ainda mais na direção de Lula. Levando-o ao maior nível nos levantamentos do Instituto, 46%, distanciando-o 11 pontos de Bolsonaro, estabilizado em 35%. Mais importante para ele, os dois principais nomes da chamada terceira via recuaram. Ciro, de 7% a 6%. E  Tebet, de 5% a 4%. E nessa rodada nenhum dos outros candidatos atingiu 1%. No eventual segundo turno, a dianteira de Lula sobre Bolsonaro abriu agora mais um  ponto, marcando 54% X 38%. 

3. CONFRONTO FINAL. Os debates serão os momentos de maior saliência na  semana derradeira. O de hoje (SBT/CNN e um pool de veículos) embora significativo, terá provavelmente menor audiência por conta do horário (18h15), mas o da quinta, 29, na Globo, às 22h (após ‘Pantanal’), promete igualar novelas  do período glorioso do gênero. 55% pretendem assisti-lo no todo ou em parte, e ainda 25% afirmam que “provavelmente” irão vê-lo, apurou a pesquisa. Como até pequenas oscilações dos números poderão selar a sorte dos competidores, esse evento talvez aponte se a eleição irá, ou não, para o segundo turno. O resultado do que promete ser um ríspido embate entre os dois líderes é imprevisível. E os nomes da terceira via o veem como a grande oportunidade para se manterem de pé até as urnas. 

4. ACABAR DIA DOIS. Há um sentimento para a grande maioria de “jogo jogado”. De que a disputa presidencial deveria terminar logo. Aumentou para 70% os que querem a eleição resolvida no primeiro turno. Nada menos que 80% dos ouvidos responderam que já decidiram seu voto. Entre os restantes, 4% dizem que vão fazê-lo nos próximos dias; 5% aguardarão o último debate para decidir; e ainda 8% pretendem decidir só no dia da eleição. Números que  provavelmente trazem esperança para  candidatos que ainda esperam crescer até o pleito, mas sempre lembro que boa parte desses retardatários termina engrossando a abstenção. 

5. PARTICIPAÇÃO AUMENTA. Boa notícia é que nesses últimos dias aumentou de 13% para 19% o número dos que de alguma forma estão se envolvendo nas  campanhas. Mesmo tendo crescido, essa participação poderia ser maior, não fora os muitos casos de violência política que atemorizam a população, e deveriam ser exemplarmente reprimidos. Afinal, o grau  de interesse nessa eleição é inusualmente elevado (73%), com 58% dizendo que estão “muito interessados” nela. 

6. LULA COM MELHOR DESEMPENHO. Os fortes ataques mútuos na propaganda dos dois principais candidatos parecem ter deixado um saldo mais positivo para o ex-presidente. No cômputo geral, cresceu quatro pontos a opinião  de que ele está tendo um melhor desempenho na campanha, atingindo 44%. Bolsonaro nesse quesito continuou com os 34% da semana anterior. Lula também lidera com folga na percepção de que tem aparecido melhor no noticiário das TVs e Rádios ( 41% a 27%), nas notícias de jornais e blogs na internet (41% a 26%) e  na melhor propaganda na TV e  Rádio ( 38% a 25%). Bolsonaro ganha no que diz respeito a melhor presença nas redes sociais, mas por uma margem surpreendentemente pequena ( 37% a 33%) para quem tem amplo domínio nessa plataforma. E mantém-se o empate da semana anterior na avaliação de quem tem sido “melhor comentado nas conversas de WhatsApp” (32% a 32%).

7. FUNDAMENTOS CRISTALIZADOS. Com poucos dias de campanha à frente, após intensa exposição dos argumentos para votar e das possíveis razões para não votar no adversário, é difícil imaginarmos  a possibilidade de alteração substancial nos fundamentos sobre os quais, afetiva e cognitivamente, se erguem as intenções de voto. Nessa disputa que como sempre chamo atenção é singularíssima nacional e internacionalmente  -incumbente versus ex-presidente – o voto prospectivo-retrospectivo tem balizas claras: a avaliação do desempenho do atual chefe do Estado vis à vis a consideração retrospectiva, baseada na memória individual e na memória social,  do ex-mandatário. E o que se constata é que a Aprovação de Bolsonaro praticamente não se mexeu desde o início da propaganda eleitoral, apenas oscilando um ponto para baixo (no momento, 38%), o mesmo ocorrendo com sua Desaprovação que se  manteve em 56%. Com Lula ocorreu o mesmo, mas em patamares diferentes. Sua Aprovação permaneceu em  57%, e a Desaprovação recuou dois pontos (hoje é de 37%).

3º TERMÔMETRO DA CAMPANHA IPESPE/ABRAPEL (17/9)

A pesquisa, cujo campo se estendeu até ontem (6a feira), apresenta a última fotografia das opiniões e atitudes dos eleitores da semana que termina hoje. 

O que nela chama mais atenção?

1. DISTÂNCIA. Confirma-se, como fora apontado em outros levantamentos abalizados desse período, o alargamento da diferença entre o primeiro e o segundo colocados, tanto na intenção de voto  espontânea, quanto na estimulada do primeiro e segundo turnos. Ciro e Tebet, empatados na margem de erro, prometem uma luta acirrada pela terceira posição. Ela, dois pontos abaixo no total, já assumiu o terceiro lugar entre as mulheres e os idosos. 

2. 1o TURNO. A maioria absoluta dos eleitores (68%)  quer ver a eleição decidida já no primeiro turno. Isso é verdade sobretudo para os eleitores de Lula e Bolsonaro. Mas alcança também porções significativas  dos eleitores da terceira via. 

3. PARTICIPAÇÃO. Os registros de violência política deixaram  marcas negativas na participação dos eleitores. Apenas 13% têm participado de alguma forma das campanhas. Para 43%, as pessoas têm evitado participar mais do que em outras campanhas. E, segundo 38%, têm evitado, quando em locais públicos, dizer em quem vão votar. Esse comportamento é mais frequente entre as mulheres, os eleitores de menor  instrução e os de renda mais baixa.

4. FORÇA DA TV. Nessa  semana, a TV e o Rádio consolidaram o primeiro lugar (52%) entre os meios de informação sobre a campanha, bem à  frente das Redes Sociais (43%), que apenas entre os eleitores de Bolsonaro ocupam a primeira posição ( 49% contra 46% da TV) 

5. PERFORMANCE. Segundo os eleitores, Lula vem se saindo muito melhor que Bolsonaro na propaganda da TV e Rádio ( 38% X 24%), nas notícias de jornais, portais e blogs (39% X 26%), e no noticiário de TV e Rádio (37% X 26%). Empata com o segundo colocado nas “conversas de WhatsApp” (31% X 31%). E perde por pouco ( 35% X 36%) nas Redes Sociais. Lembrando que essa última percepção descola do fato objetivo de Bolsonaro ter um número bem maior de seguidores e interações. Por fim, na memória do único debate que houve até agora, Lula teve melhor desempenho (27%) que Bolsonaro (23%), e Tebet (12%) ficou à frente de Ciro (10%).6. QUADRO CONSOLIDADO? Último fato a destacar, e talvez o mais importante para se entender o que poderá ainda acontecer daqui para a frente, é o comparativo entre avaliações de Lula e Bolsonaro. Desde que a campanha começou, o ex presidente mantém a sua  avaliação positiva e a aprovação, retrospectivas, no mesmo patamar – 55% e 57%. Enquanto a avaliação negativa e a desaprovação oscilaram negativamente, hoje sendo 23% e 38%, respectivamente. O mesmo, praticamente, ocorreu com o atual Presidente. Ele mantém a avaliação positiva em 35% e a aprovação em 39%, ao passo que a avaliação negativa e a desaprovação cederam ambas apenas um ponto, aparecendo, hoje, nas marcas de 46% e 55%, respectivamente. Ou seja, ao que parece até o momento, as atitudes face aos dois principais candidatos  estavam inusualmente  consolidadas antes mesmo do início da campanha eleitoral.

A TV poderá dar novos rumos às eleições de outubro?

Responde Antonio Lavareda, sociólogo e presidente do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) – ‘Entrevista ao Blog do Noblat

Ricardo Noblat – 29/08/2022 

Foto: Freepik

[Ricardo Noblat] Começou a campanha na TV. Pode mudar alguma coisa na eleição, ou será como em 2018?

[Antonio Lavareda] Pode alterar as curvas de intenção de voto, sim. A ideia de que ela teve pouca importância na eleição passada é correta, mas precisa ser contextualizada. Não foi a única vez na qual os resultados nas urnas se mostraram desconectados do espaço que cada um dos principais candidatos detinha na televisão. Coisa parecida, embora não tão radical, ocorreu em 1989 e 2002. Na primeira eleição da Nova República quem ocupava um latifúndio de tempo nessa plataforma era Ulysses Guimarães (MDB). Latifúndio que se mostrou improdutivo. Ele teve 4,7% dos votos. Número próximo ao de Geraldo Alckmim (4,8%), em 2018, quando a crise econômica, combinada à Lava Jato, ao impeachment e à impopularidade extrema do governo Michel Temer (MDB) provocaram um tsunami nas urnas. Em 2002, a relação entre tempo de TV e votação também caiu bastante.

[RN] E qual a explicação para isso?

[AL] Essas três eleições mencionadas acima foram “eleições críticas”. Daquelas que impactam fortemente os alinhamentos eleitorais pré-existentes. 2018 está fresco na memória. Então, vejamos os outros dois momentos. Em 1989, a Aliança Democrática que havia comandado a transição e triunfado em quase todo país nas eleições de governadores em 1986, viria abaixo. Devido à impopularidade elevada do governo José Sarney em meio à disparada da inflação. Ganhou um outsider (Fernando Collor), e emergiu um novo partido de esquerda, o PT, com Lula desbancando a liderança histórica de Leonel Brizola (PDT). A grande fatia de televisão de Ulisses só serviu para mostrar o quanto ele estava na contramão do sentimento popular. Em 2002, novamente um governo com baixa popularidade, novamente uma crise econômica, mas dessa vez com uma campanha de formato quadrangular: Lula, José Serra (PSDB), Garotinho (PSB) e Ciro. Todos competitivos. Muitos não se recordam, mas por apenas 4 pontos Garotinho não tirou Serra do segundo turno. A votação mais uma vez descolou do tempo de TV.

[RN] E nas outras cinco eleições que tivemos?

[AL] Essas foram eleições “normais” com os dois líderes sendo os representantes das principais forças assentadas no xadrez da política. Sem espaço para outsiders. Foram as disputas travadas entre 1994 e 2014, vinte anos caracterizados pelo duopólio PT-PSDB. Com exceção da de 2002, a associação do tempo de TV e do desempenho dos concorrentes nas urnas foi muito expressiva.

[RN] E o que isso nos diz sobre este 2022?

[AL] O que vai determinar o retorno da importância da plataforma TV é a natureza da eleição. Voltamos a uma eleição “normal”. Há vários sinais disso. As duas forças que disputaram o segundo turno da eleição passada lideram novamente. O presidente Bolsonaro foi “normalizado”. A despeito da retórica frequentemente anti-sistema e do flerte com a alternativa do auto golpe, ele compete com o figurino de candidato tradicional: optou por um grande partido, montou uma coalizão de peso, tem uma fatia expressiva do Fundo Eleitoral e a segunda maior parcela de tempo na televisão. E como é típico dessa categoria de pleitos, falta oxigênio aos candidatos outsiders. Um após outro, quase todos ficaram à margem do caminho.

[RN] Mas, enquanto o público que está nas redes aumenta exponencialmente, a audiência da TV declina linearmente. Então, por que imagina que ela ainda poderá ter grande influência? Será que o papel da TV este ano não será acessório, complementar ao das redes?

[AL] Para responder a questões como essa, eu devo lembrar três números. O primeiro deles, sozinho, já seria capaz de esclarecer a dúvida. Segundo levantamento do IPESPE, são 43% os eleitores brasileiros que dizem que a TV é sua principal fonte de informação sobre política. Perto da soma dos que apontam as redes sociais (24%) e os que mencionaram portais, blogs e sites (23%). Estamos falando de cerca de 67 milhões de eleitores. O segundo número é até mais expressivo. Nos Estados Unidos, berço da internet, das redes sociais e também do marketing eleitoral, está ocorrendo a campanha de “midterms”, as intermediárias, esse ano. Renovação de toda a Câmara, parte do Senado e eleições locais. Muito disputadas. Pois bem, nelas o dispêndio com propaganda na TV será quatro vezes e meio maior do que todo gasto com digital, redes incluídas. Será que eles estão jogando dinheiro fora? Por último, recordo que, também por lá, às vésperas da eleição presidencial de 2020, o contingente de seguidores de Joe Biden nas redes sociais equivalia a apenas cerca de dez por cento do de Donald Trump, seu adversário. Não obstante, como sabemos, o democrata derrotou o incumbente. Além disso, quando falamos em TV, não tratamos exatamente da mesma televisão de vinte anos atrás.

[RN] Como assim, que televisão seria essa?

[AL] Veja bem, diferentemente do que se dava no passado analógico, quando cada plataforma que surgia não se interpenetram com as que lhe haviam precedido – o que se deu com o jornal, o rádio, o cinema e a TV – o mundo digital é tentacular, inclusivo. Todo programa de rádio, hoje, transmite sua imagem pela internet, os jornais se transferiram para lá. Assim, programas de TV, inserções e debates como o que assistimos ontem à noite, além da sua enorme audiência, também reverberam no Youtube e nas redes sociais. Retransmitidos no todo ou em parte ininterruptamente. E os jovens, sobretudo, são expectadores/emissores multiplataformas. A propaganda eleitoral originalmente televisiva alimenta milhões de compartilhamentos, discussões sem fim, reiteração dos conteúdos de um lado, ataque de outros. Ela ganha tração nas redes, multiplicando seu alcance. Daí porque será muito importante acompanharmos a estratégia dos marqueteiros, buscando fazer convergir suas mensagens nas diferentes plataformas. O resultado final da comunicação e sua tradução em votos será um “efeito combinado e turbinado” do uso das mesmas.

[RN] Sintetizando, a campanha na TV pode definir a eleição?

[AL] Em parte. A história das campanhas, que estudo há muito tempo, e a experiência que tive em dezenas delas na época em que elas participei profissionalmente me fazem concluir que a vitória, 90% das vezes, é definida pelas circunstâncias. Ao marketing cabendo fazer o melhor uso delas. Olhando a história, vemos que em toda Nova República nunca o candidato presidencial que liderava as pesquisas no dia do início da propaganda na TV perdeu a eleição. Mas em quatro oportunidades houve alterações na segunda colocação, claramente produzidas pela plataforma. Em 1989, Brizola foi ultrapassado por Lula; em 2002, Ciro, perdeu o segundo lugar para Serra e terminou em quarto; em 2014, Aécio Neves (PSDB) passou à frente de Marina Silva (PSB); e, em 2018, Marina novamente estava na segunda colocação, mas Fernando Haddad (PT), à medida que teve seu nome associado a Lula na TV, saiu do quinto lugar e chegou ao segundo turno. E vale a pena mais uma observação. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi o único candidato que ganhou no primeiro turno, em 1994 e 1998. Teve 54% dos votos válidos na primeira eleição e 53% na reeleição. Ganharia de toda forma. As circunstâncias o impulsionaram. Mas, sem uma excelente campanha na televisão, a vitória não ocorreria já no primeiro turno.

Estudo quantitativo Brasil-Portugal

Bicentenário da Independência do Brasil

Investigar o conhecimento e percepções dos brasileiros e portugueses sobre os 200 anos da Independência do Brasil em relação a Portugal, e a agenda pra os próximos anos. Esta é a premissa do estudo, lançado no Fórum de Integração Brasil – Europa (Lisboa, 6/9/2022), que segue na íntegra para consulta e conhecimento.

Pesquisa “Termômetro da Campanha”

A Abrapel – Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais -, apresenta mais um projeto de parceria da sua gestão e diretoria: o TERMÔMETRO DA CAMPANHA (Registro no TSE: BR-09344/2022).

O estudo quantitativo nacional é voltado especificamente à repercussão da comunicação das campanhas dos candidatos ao cargo de presidente; além de acompanhar os sentimentos dos eleitores e sua participação na campanha.

A pesquisa TERMÔMETRO DA CAMPANHA, é realizada pelo IPESPE – Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas em parceria com a ABRAPEL – Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais.

Os resultados do TERMÔMETRO DA CAMPANHA serão disponibilizados em primeira mão no site da Associação e o relatório completo será enviado aos nossos associados. Fiquem atentos à divulgação no site e nas redes sociais da ABRAPEL.

Além disso, a associação estimula o aprofundamento da análise dos dados, promovendo o Prêmio ABRAPEL de melhor artigo publicado ou reportagem sobre o estudo, aberto a todos os nossos associados e associadas.

SOBRE A PESQUISA DO IPESPE (ENCOMENDADA PELA XP INVESTIMENTOS) DIVULGADA HOJE (31/AGOSTO)

APÓS O INÍCIO DA CAMPANHA NA TV, A INTENÇÃO DE VOTO SOB ESTÍMULO DE LULA OSCILA UM PONTO PARA BAIXO; BOLSONARO, EMBORA ESTÁVEL, REGISTRA AVANÇO NOS FUNDAMENTOS DE SUA IMAGEM; E OS CANDIDATOS DA TERCEIRA VIA GANHAM SOBREVIDA, SINALIZANDO A REALIZAÇÃO DO SEGUNDO TURNO.

1. FALTANDO POUCO MAIS QUE UM MÊS PARA A ELEIÇÃO, A DISTÂNCIA ENTRE OS DOIS LÍDERES É DE SEIS PONTOS NA ESPONTÂNEA, E DE OITO NA ESTIMULADA. LULA MANTÉM 40% NA PRIMEIRA E OSCILA DE 44% PARA 43% NA ESTIMULADA. BOLSONARO CRESCE NA ESPONTÂNEA (DE 30% PARA 34%), E MANTÉM NA LISTA OS 35% DA RODADA ANTERIOR.

Ciro avança um ponto na espontânea (4% para 5%), e repete na estimulada os 9% de julho. Tebet vai de 1% a 3% na espontânea, e ganha também um ponto na estimulada, de 4% para 5%. Felipe continua com 1%, tanto na espontânea quanto na estimulada. Os demais candidatos não atingem, cada um deles, 0,5%, que arredondados lhes confeririam um ponto percentual.

2. NO SEGUNDO TURNO, A DIANTEIRA DE LULA SOBRE BOLSONARO DIMINUI DOIS PONTOS, DE 17 PARA 15 PONTOS. LULA MANTENDO OS 53% DE JULHO, BOLSONARO INDO DE 36% A 38%.

Sobre Ciro a diferença pró-Lula cai quatro pontos. Ele tem, agora, 51% e Ciro, 31%. Sobre Tebet, a distância recua os mesmos quatro pontos. Lula perde dois e aparece com 53%, enquanto ela avança dois, para 25%.

3. DOIS MESES ATRÁS (JUNHO), 13% PERCEBIAM O NOTICIÁRIO SOBRE O GOVERNO COMO” MAIS FAVORÁVEL”. ESSE NÚMERO CRESCEU PARA 20%. NA OUTRA PONTA, 49% O VIAM COMO “MAIS DESFAVORÁVEL”. CONTINGENTE QUE RECUOU PARA 45%. OU SEJA, O SALDO ENTRE AS DUAS PERCEPÇÕES QUE ERA DE – 36 CAIU PARA – 25 PONTOS. SE ACRESCERMOS AQUELES QUE AS CONSIDERAVAM COMO PREDOMINANTEMENTE NEUTRAS, A SOMA VAI A 47%. 

A ofensiva de boas notícias que começou na free mídia e segue nos comerciais da TV e nas redes dá mais musculatura ao Presidente. É isso que explica o aumento da menção espontânea ao seu nome e o avanço no segundo turno, que pode ser visto como potencial de eventual crescimento ainda na primeira rodada.

4. O NOTICIÁRIO, A EXPERIÊNCIA PESSOAL DOS ENTREVISTADOS E AGORA A PROPAGANDA DO CANDIDATO, SEGUEM ALTERANDO O JULGAMENTO DA SITUAÇÃO ECONÔMICA DO PAÍS. A PERCEPÇÃO DE QUE A MESMA SEGUE NO “RUMO ERRADO” CONTINUA LARGAMENTE NEGATIVA, MAS DIMINUIU QUATRO PONTOS (DE 61% PARA 57%). NA DIREÇÃO OPOSTA, OS QUE A VEEM NO “RUMO CERTO” CAMINHOU QUASE NA MESMA PROPORÇÃO, CHEGANDO A 36%.

Auxílio Brasil turbinado, Vale-gás, Auxílio caminhoneiro, Auxílio taxista, empréstimo consignado (que 18% dos beneficiários do Auxílio dizem que irão buscar) e sucessivas reduções no preço dos combustíveis alimentam a comunicação da campanha. E, como os números sugerem, vão surtindo algum efeito.

5. NA ESTEIRA DO QUE FOI APONTADO, NESSE MÊS O SALDO DA AVALIAÇÃO DO GOVERNO SOB DIVERSAS LENTES, EMBORA AINDA NEGATIVO, MELHOROU. A APROVAÇÃO FOI DE 36% PARA 39%, ENQUANTO A DESAPROVAÇÃO DIMINUIU, DE 59% PARA 57%. A CLASSIFICAÇÃO POSITIVA (“ÓTIMA/BOA”) FOI DE 32% PARA 35%, E A NEGATIVA (“RUIM/PÉSSIMA”) RECUOU DE 49% PARA 46%.

Até a leitura do desempenho do Presidente especificamente na Pandemia reagiu positivamente. A opção “Ótima/Boa” foi de 32% para 35%, ao passo que a “Ruim/Péssima” fez caminho inverso, de 49% para 47%.

6. COM MAIOR EXPOSIÇÃO, A REJEIÇÃO AOS PRINCIPAIS CANDIDATOS DIMINUIU PARA QUASE TODOS. A ÚNICA QUE OSCILOU PARA CIMA FOI A DE LULA, DE 43% PARA 44%. A DE BOLSONARO RECUOU TRÊS, DE 58% PARA 55%. A DE CIRO DIMINUIU UM, DE 40% PARA 39%. E A DE TEBET, CAIU DE 35% PARA 32%.

Embora dando passos significativos, o ritmo da recuperação dos principais aspectos da imagem do Governo e do candidato, que compõem os fundamentos da sua competitividade, é insuficiente para que se possa imaginar uma ultrapassagem do primeiro colocado. Daí a barragem de mensagens negativas que se assiste na TV, nas redes, entrevistas e debates, com vistas a impulsionar a rejeição do adversário. Até agora o resultado é modesto, mas ao que parece os ataques serão intensificados. Sendo ajudados, também, pelos candidatos de terceira via que usam a visibilidade recém adquirida atirando em ambas as direções. Se a campanha do líder conseguirá, ou não, dar conta do duplo desafio – de um lado obstacular a recuperação da imagem do Governo, e de outro contra atacar de modo eficaz  o próprio incumbente – é algo a ser observado adiante. Como lembrei em entrevista recente a Ricardo Noblat, nas oito disputas presidenciais travadas na Nova República nunca aquele postulante que liderava as pesquisas no dia do início da propaganda eleitoral deixou de ser vitorioso no primeiro turno (repetindo a vitória no segundo quando houve). Mas as regularidades não deixam de ser um convite à excepcionalidade. Sempre lembro da nota cautelar de Shakespeare, aconselhando a que “não julguemos impossível o que apenas improvável nos parece”.

FALTAM 33 DIAS PARA O PRIMEIRO TURNO 

Qual o grau de ameaça à democracia Tunisia hoje?

Com um percentual de participação eleitoral muito baixo — cerca de 25,3% dos eleitores do país —, a Tunísia aprovou em um referendo (julho de 2022) uma nova Constituição que expande muito os poderes de seu presidente, Kais Saied. A nova Carta consagra em lei amplos poderes do Executivo, pondo em perigo a única democracia decorrente da Primavera Árabe. O site The Hundred perguntou sobre essa ameaça democrática para 3 especialistas internacionais que responderam em 100 palavras.

Sarah Yerkes, da Carnegie – organização para a Paz Internacional “a democracia da Tunísia respira com a ajuda de aparelhos. O presidente Kais Saied, após seu autogolpe, conseguiu apagar quase uma década de conquistas democráticas. A Constituição revisada, que surgiu por meio de um processo antidemocrático e falho, removeu freios e contrapesos e codificou um estado autocrático onde o presidente tem poder incomparável. No entanto, muitos tunisianos de todo o espectro político continuam comprometidos com um futuro democrático. Embora Saied possa ter destruído a espinha dorsal institucional da democracia, ele não conseguiu refrear o desejo daqueles que desejam ter voz em seu país e buscar a responsabilidade de seus líderes”.

Youssef Cherif, da Columbia Global Centers Tunísia (ligada à Universidade de Columbia – Nova Iorque) diz que: “As ameaças à democracia tunisiana são numerosas. Em primeiro lugar, após uma década de problemas econômicos e de segurança e uma contrarrevolução local e regional sustentada, a democracia tornou-se sinônimo de caos na visão de muitos tunisianos. Ao mesmo tempo, os partidos políticos tunisianos se mostraram incapazes de administrar um país. Então, por causa de suas capacidades e da legitimidade que conquistaram no combate ao terrorismo, as forças de segurança e militares permanecem altamente populares e inescrutáveis, fortalecendo assim o Estado forte (e autoritário). A tomada de poder do presidente populista Kais Saied, portanto, canalizou tanto os sentimentos antidemocráticos quanto as fantasias em torno do Estado forte.”

Aymen Bessalah, do Instituto Tahrir para a Política do Oriente Médio afirma que “a democratização da Tunísia enfrenta uma grande e séria ameaça, mas não a primeira delas. Antes de Saied tomar todos os poderes, o país já era uma democracia falha. Suas principais questões: declínio socioeconômico, corrupção generalizada, aparato judicial e de segurança imperfeita, além de leis repressivas aplicadas que continuarão a ser os principais desafios, pois afetam diretamente a vida dos cidadãos. Os eventos desde o ano passado, apenas substituíram uma classe política que se engajou em consensos autocentrados por um governo de um homem só, tornando mais difícil influenciar políticas e reformas. Os tunisianos acreditam que o futuro é sombrio, enquanto o status quo desce”.

Qual será o desafio que os militares representam para o novo presidente de esquerda na Colômbia?

O site The Hundred tem uma ideia simples: a cada edição, 3 especialistas fazem suas análises em 100 palavras sobre uma pergunta importante. Aqui três especialistas ponderam sobre a provocação: Qual será o desafio que os militares representam para o novo presidente de esquerda da Colômbia?

Para Sergio Guzmán, da Colombia Risk Analysis, Petro propôs reformas significativas no relacionamento com as Forças Armadas, como a retirada da polícia do Ministério da Defesa. Ele também estava comprometido em abrir um debate global sobre a guerra às drogas. É improvável que essas iniciativas políticas sejam bem recebidas pelos militares colombianos, o que provavelmente levará a atritos. Embora a opinião pública seja favorável, principalmente entre aqueles que protestaram entre 2019 e 2021, é improvável que suas visões mais radicais sobre a gestão das Forças Armadas sejam aprovadas pelo Congresso, permitidas pelos Tribunais ou implementadas por instituições militares.”

Silvana Amaya, da Control Risks, acredita que “Gustavo Petro tomou posse como o primeiro presidente de esquerda da Colômbia em 7 de agosto. Desde então, ele nomeou novos comandantes para as forças armadas e para a polícia com base na reputação dos candidatos, considerando que as autoridades de segurança que têm um longo histórico de corrupção e abusos de direitos humanos de quase seis décadas de conflito armado. As forças de segurança da Colômbia estão acostumadas a lidar com governos de direita e seus métodos. Consequentemente, embora esses oficiais respeitem o comandante em chefe, eles também questionarão sua estratégia para alcançar a paz total”.

Adam Isacson, da WOLA, organização de defesa dos direitos humanos nas Américas, diz que  “Os militares da Colômbia são uma força historicamente conservadora que já lutou contra o antigo grupo guerrilheiro de Gustavo Petro. As relações de Petro com ele podem ser difíceis, até porque seu ministro da Defesa, um advogado que combate a corrupção, pode agir contra oficiais poderosos. Tentativas de golpe são improváveis devido às tradições democráticas. Mas os oficiais podem agitar sabres por meio de renúncias raivosas, alianças entre comandantes aposentados e oponentes políticos ou obediência mínima a ordens civis. O combate ao crime, que afeta a vida cotidiana dos colombianos, pode ser um ponto crítico. Militares e policiais podem minar o presidente, cujo círculo íntimo inclui poucos especialistas em segurança, fazendo o mínimo necessário e permitindo que a insegurança piore.”