A TV poderá dar novos rumos às eleições de outubro?

Responde Antonio Lavareda, sociólogo e presidente do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) – ‘Entrevista ao Blog do Noblat

Ricardo Noblat – 29/08/2022 

Foto: Freepik

[Ricardo Noblat] Começou a campanha na TV. Pode mudar alguma coisa na eleição, ou será como em 2018?

[Antonio Lavareda] Pode alterar as curvas de intenção de voto, sim. A ideia de que ela teve pouca importância na eleição passada é correta, mas precisa ser contextualizada. Não foi a única vez na qual os resultados nas urnas se mostraram desconectados do espaço que cada um dos principais candidatos detinha na televisão. Coisa parecida, embora não tão radical, ocorreu em 1989 e 2002. Na primeira eleição da Nova República quem ocupava um latifúndio de tempo nessa plataforma era Ulysses Guimarães (MDB). Latifúndio que se mostrou improdutivo. Ele teve 4,7% dos votos. Número próximo ao de Geraldo Alckmim (4,8%), em 2018, quando a crise econômica, combinada à Lava Jato, ao impeachment e à impopularidade extrema do governo Michel Temer (MDB) provocaram um tsunami nas urnas. Em 2002, a relação entre tempo de TV e votação também caiu bastante.

[RN] E qual a explicação para isso?

[AL] Essas três eleições mencionadas acima foram “eleições críticas”. Daquelas que impactam fortemente os alinhamentos eleitorais pré-existentes. 2018 está fresco na memória. Então, vejamos os outros dois momentos. Em 1989, a Aliança Democrática que havia comandado a transição e triunfado em quase todo país nas eleições de governadores em 1986, viria abaixo. Devido à impopularidade elevada do governo José Sarney em meio à disparada da inflação. Ganhou um outsider (Fernando Collor), e emergiu um novo partido de esquerda, o PT, com Lula desbancando a liderança histórica de Leonel Brizola (PDT). A grande fatia de televisão de Ulisses só serviu para mostrar o quanto ele estava na contramão do sentimento popular. Em 2002, novamente um governo com baixa popularidade, novamente uma crise econômica, mas dessa vez com uma campanha de formato quadrangular: Lula, José Serra (PSDB), Garotinho (PSB) e Ciro. Todos competitivos. Muitos não se recordam, mas por apenas 4 pontos Garotinho não tirou Serra do segundo turno. A votação mais uma vez descolou do tempo de TV.

[RN] E nas outras cinco eleições que tivemos?

[AL] Essas foram eleições “normais” com os dois líderes sendo os representantes das principais forças assentadas no xadrez da política. Sem espaço para outsiders. Foram as disputas travadas entre 1994 e 2014, vinte anos caracterizados pelo duopólio PT-PSDB. Com exceção da de 2002, a associação do tempo de TV e do desempenho dos concorrentes nas urnas foi muito expressiva.

[RN] E o que isso nos diz sobre este 2022?

[AL] O que vai determinar o retorno da importância da plataforma TV é a natureza da eleição. Voltamos a uma eleição “normal”. Há vários sinais disso. As duas forças que disputaram o segundo turno da eleição passada lideram novamente. O presidente Bolsonaro foi “normalizado”. A despeito da retórica frequentemente anti-sistema e do flerte com a alternativa do auto golpe, ele compete com o figurino de candidato tradicional: optou por um grande partido, montou uma coalizão de peso, tem uma fatia expressiva do Fundo Eleitoral e a segunda maior parcela de tempo na televisão. E como é típico dessa categoria de pleitos, falta oxigênio aos candidatos outsiders. Um após outro, quase todos ficaram à margem do caminho.

[RN] Mas, enquanto o público que está nas redes aumenta exponencialmente, a audiência da TV declina linearmente. Então, por que imagina que ela ainda poderá ter grande influência? Será que o papel da TV este ano não será acessório, complementar ao das redes?

[AL] Para responder a questões como essa, eu devo lembrar três números. O primeiro deles, sozinho, já seria capaz de esclarecer a dúvida. Segundo levantamento do IPESPE, são 43% os eleitores brasileiros que dizem que a TV é sua principal fonte de informação sobre política. Perto da soma dos que apontam as redes sociais (24%) e os que mencionaram portais, blogs e sites (23%). Estamos falando de cerca de 67 milhões de eleitores. O segundo número é até mais expressivo. Nos Estados Unidos, berço da internet, das redes sociais e também do marketing eleitoral, está ocorrendo a campanha de “midterms”, as intermediárias, esse ano. Renovação de toda a Câmara, parte do Senado e eleições locais. Muito disputadas. Pois bem, nelas o dispêndio com propaganda na TV será quatro vezes e meio maior do que todo gasto com digital, redes incluídas. Será que eles estão jogando dinheiro fora? Por último, recordo que, também por lá, às vésperas da eleição presidencial de 2020, o contingente de seguidores de Joe Biden nas redes sociais equivalia a apenas cerca de dez por cento do de Donald Trump, seu adversário. Não obstante, como sabemos, o democrata derrotou o incumbente. Além disso, quando falamos em TV, não tratamos exatamente da mesma televisão de vinte anos atrás.

[RN] Como assim, que televisão seria essa?

[AL] Veja bem, diferentemente do que se dava no passado analógico, quando cada plataforma que surgia não se interpenetram com as que lhe haviam precedido – o que se deu com o jornal, o rádio, o cinema e a TV – o mundo digital é tentacular, inclusivo. Todo programa de rádio, hoje, transmite sua imagem pela internet, os jornais se transferiram para lá. Assim, programas de TV, inserções e debates como o que assistimos ontem à noite, além da sua enorme audiência, também reverberam no Youtube e nas redes sociais. Retransmitidos no todo ou em parte ininterruptamente. E os jovens, sobretudo, são expectadores/emissores multiplataformas. A propaganda eleitoral originalmente televisiva alimenta milhões de compartilhamentos, discussões sem fim, reiteração dos conteúdos de um lado, ataque de outros. Ela ganha tração nas redes, multiplicando seu alcance. Daí porque será muito importante acompanharmos a estratégia dos marqueteiros, buscando fazer convergir suas mensagens nas diferentes plataformas. O resultado final da comunicação e sua tradução em votos será um “efeito combinado e turbinado” do uso das mesmas.

[RN] Sintetizando, a campanha na TV pode definir a eleição?

[AL] Em parte. A história das campanhas, que estudo há muito tempo, e a experiência que tive em dezenas delas na época em que elas participei profissionalmente me fazem concluir que a vitória, 90% das vezes, é definida pelas circunstâncias. Ao marketing cabendo fazer o melhor uso delas. Olhando a história, vemos que em toda Nova República nunca o candidato presidencial que liderava as pesquisas no dia do início da propaganda na TV perdeu a eleição. Mas em quatro oportunidades houve alterações na segunda colocação, claramente produzidas pela plataforma. Em 1989, Brizola foi ultrapassado por Lula; em 2002, Ciro, perdeu o segundo lugar para Serra e terminou em quarto; em 2014, Aécio Neves (PSDB) passou à frente de Marina Silva (PSB); e, em 2018, Marina novamente estava na segunda colocação, mas Fernando Haddad (PT), à medida que teve seu nome associado a Lula na TV, saiu do quinto lugar e chegou ao segundo turno. E vale a pena mais uma observação. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi o único candidato que ganhou no primeiro turno, em 1994 e 1998. Teve 54% dos votos válidos na primeira eleição e 53% na reeleição. Ganharia de toda forma. As circunstâncias o impulsionaram. Mas, sem uma excelente campanha na televisão, a vitória não ocorreria já no primeiro turno.

Estudo quantitativo Brasil-Portugal

Bicentenário da Independência do Brasil

Investigar o conhecimento e percepções dos brasileiros e portugueses sobre os 200 anos da Independência do Brasil em relação a Portugal, e a agenda pra os próximos anos. Esta é a premissa do estudo, lançado no Fórum de Integração Brasil – Europa (Lisboa, 6/9/2022), que segue na íntegra para consulta e conhecimento.

Pesquisa “Termômetro da Campanha”

A Abrapel – Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais -, apresenta mais um projeto de parceria da sua gestão e diretoria: o TERMÔMETRO DA CAMPANHA (Registro no TSE: BR-09344/2022).

O estudo quantitativo nacional é voltado especificamente à repercussão da comunicação das campanhas dos candidatos ao cargo de presidente; além de acompanhar os sentimentos dos eleitores e sua participação na campanha.

A pesquisa TERMÔMETRO DA CAMPANHA, é realizada pelo IPESPE – Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas em parceria com a ABRAPEL – Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais.

Os resultados do TERMÔMETRO DA CAMPANHA serão disponibilizados em primeira mão no site da Associação e o relatório completo será enviado aos nossos associados. Fiquem atentos à divulgação no site e nas redes sociais da ABRAPEL.

Além disso, a associação estimula o aprofundamento da análise dos dados, promovendo o Prêmio ABRAPEL de melhor artigo publicado ou reportagem sobre o estudo, aberto a todos os nossos associados e associadas.

SOBRE A PESQUISA DO IPESPE (ENCOMENDADA PELA XP INVESTIMENTOS) DIVULGADA HOJE (31/AGOSTO)

APÓS O INÍCIO DA CAMPANHA NA TV, A INTENÇÃO DE VOTO SOB ESTÍMULO DE LULA OSCILA UM PONTO PARA BAIXO; BOLSONARO, EMBORA ESTÁVEL, REGISTRA AVANÇO NOS FUNDAMENTOS DE SUA IMAGEM; E OS CANDIDATOS DA TERCEIRA VIA GANHAM SOBREVIDA, SINALIZANDO A REALIZAÇÃO DO SEGUNDO TURNO.

1. FALTANDO POUCO MAIS QUE UM MÊS PARA A ELEIÇÃO, A DISTÂNCIA ENTRE OS DOIS LÍDERES É DE SEIS PONTOS NA ESPONTÂNEA, E DE OITO NA ESTIMULADA. LULA MANTÉM 40% NA PRIMEIRA E OSCILA DE 44% PARA 43% NA ESTIMULADA. BOLSONARO CRESCE NA ESPONTÂNEA (DE 30% PARA 34%), E MANTÉM NA LISTA OS 35% DA RODADA ANTERIOR.

Ciro avança um ponto na espontânea (4% para 5%), e repete na estimulada os 9% de julho. Tebet vai de 1% a 3% na espontânea, e ganha também um ponto na estimulada, de 4% para 5%. Felipe continua com 1%, tanto na espontânea quanto na estimulada. Os demais candidatos não atingem, cada um deles, 0,5%, que arredondados lhes confeririam um ponto percentual.

2. NO SEGUNDO TURNO, A DIANTEIRA DE LULA SOBRE BOLSONARO DIMINUI DOIS PONTOS, DE 17 PARA 15 PONTOS. LULA MANTENDO OS 53% DE JULHO, BOLSONARO INDO DE 36% A 38%.

Sobre Ciro a diferença pró-Lula cai quatro pontos. Ele tem, agora, 51% e Ciro, 31%. Sobre Tebet, a distância recua os mesmos quatro pontos. Lula perde dois e aparece com 53%, enquanto ela avança dois, para 25%.

3. DOIS MESES ATRÁS (JUNHO), 13% PERCEBIAM O NOTICIÁRIO SOBRE O GOVERNO COMO” MAIS FAVORÁVEL”. ESSE NÚMERO CRESCEU PARA 20%. NA OUTRA PONTA, 49% O VIAM COMO “MAIS DESFAVORÁVEL”. CONTINGENTE QUE RECUOU PARA 45%. OU SEJA, O SALDO ENTRE AS DUAS PERCEPÇÕES QUE ERA DE – 36 CAIU PARA – 25 PONTOS. SE ACRESCERMOS AQUELES QUE AS CONSIDERAVAM COMO PREDOMINANTEMENTE NEUTRAS, A SOMA VAI A 47%. 

A ofensiva de boas notícias que começou na free mídia e segue nos comerciais da TV e nas redes dá mais musculatura ao Presidente. É isso que explica o aumento da menção espontânea ao seu nome e o avanço no segundo turno, que pode ser visto como potencial de eventual crescimento ainda na primeira rodada.

4. O NOTICIÁRIO, A EXPERIÊNCIA PESSOAL DOS ENTREVISTADOS E AGORA A PROPAGANDA DO CANDIDATO, SEGUEM ALTERANDO O JULGAMENTO DA SITUAÇÃO ECONÔMICA DO PAÍS. A PERCEPÇÃO DE QUE A MESMA SEGUE NO “RUMO ERRADO” CONTINUA LARGAMENTE NEGATIVA, MAS DIMINUIU QUATRO PONTOS (DE 61% PARA 57%). NA DIREÇÃO OPOSTA, OS QUE A VEEM NO “RUMO CERTO” CAMINHOU QUASE NA MESMA PROPORÇÃO, CHEGANDO A 36%.

Auxílio Brasil turbinado, Vale-gás, Auxílio caminhoneiro, Auxílio taxista, empréstimo consignado (que 18% dos beneficiários do Auxílio dizem que irão buscar) e sucessivas reduções no preço dos combustíveis alimentam a comunicação da campanha. E, como os números sugerem, vão surtindo algum efeito.

5. NA ESTEIRA DO QUE FOI APONTADO, NESSE MÊS O SALDO DA AVALIAÇÃO DO GOVERNO SOB DIVERSAS LENTES, EMBORA AINDA NEGATIVO, MELHOROU. A APROVAÇÃO FOI DE 36% PARA 39%, ENQUANTO A DESAPROVAÇÃO DIMINUIU, DE 59% PARA 57%. A CLASSIFICAÇÃO POSITIVA (“ÓTIMA/BOA”) FOI DE 32% PARA 35%, E A NEGATIVA (“RUIM/PÉSSIMA”) RECUOU DE 49% PARA 46%.

Até a leitura do desempenho do Presidente especificamente na Pandemia reagiu positivamente. A opção “Ótima/Boa” foi de 32% para 35%, ao passo que a “Ruim/Péssima” fez caminho inverso, de 49% para 47%.

6. COM MAIOR EXPOSIÇÃO, A REJEIÇÃO AOS PRINCIPAIS CANDIDATOS DIMINUIU PARA QUASE TODOS. A ÚNICA QUE OSCILOU PARA CIMA FOI A DE LULA, DE 43% PARA 44%. A DE BOLSONARO RECUOU TRÊS, DE 58% PARA 55%. A DE CIRO DIMINUIU UM, DE 40% PARA 39%. E A DE TEBET, CAIU DE 35% PARA 32%.

Embora dando passos significativos, o ritmo da recuperação dos principais aspectos da imagem do Governo e do candidato, que compõem os fundamentos da sua competitividade, é insuficiente para que se possa imaginar uma ultrapassagem do primeiro colocado. Daí a barragem de mensagens negativas que se assiste na TV, nas redes, entrevistas e debates, com vistas a impulsionar a rejeição do adversário. Até agora o resultado é modesto, mas ao que parece os ataques serão intensificados. Sendo ajudados, também, pelos candidatos de terceira via que usam a visibilidade recém adquirida atirando em ambas as direções. Se a campanha do líder conseguirá, ou não, dar conta do duplo desafio – de um lado obstacular a recuperação da imagem do Governo, e de outro contra atacar de modo eficaz  o próprio incumbente – é algo a ser observado adiante. Como lembrei em entrevista recente a Ricardo Noblat, nas oito disputas presidenciais travadas na Nova República nunca aquele postulante que liderava as pesquisas no dia do início da propaganda eleitoral deixou de ser vitorioso no primeiro turno (repetindo a vitória no segundo quando houve). Mas as regularidades não deixam de ser um convite à excepcionalidade. Sempre lembro da nota cautelar de Shakespeare, aconselhando a que “não julguemos impossível o que apenas improvável nos parece”.

FALTAM 33 DIAS PARA O PRIMEIRO TURNO 

Qual o grau de ameaça à democracia Tunisia hoje?

Com um percentual de participação eleitoral muito baixo — cerca de 25,3% dos eleitores do país —, a Tunísia aprovou em um referendo (julho de 2022) uma nova Constituição que expande muito os poderes de seu presidente, Kais Saied. A nova Carta consagra em lei amplos poderes do Executivo, pondo em perigo a única democracia decorrente da Primavera Árabe. O site The Hundred perguntou sobre essa ameaça democrática para 3 especialistas internacionais que responderam em 100 palavras.

Sarah Yerkes, da Carnegie – organização para a Paz Internacional “a democracia da Tunísia respira com a ajuda de aparelhos. O presidente Kais Saied, após seu autogolpe, conseguiu apagar quase uma década de conquistas democráticas. A Constituição revisada, que surgiu por meio de um processo antidemocrático e falho, removeu freios e contrapesos e codificou um estado autocrático onde o presidente tem poder incomparável. No entanto, muitos tunisianos de todo o espectro político continuam comprometidos com um futuro democrático. Embora Saied possa ter destruído a espinha dorsal institucional da democracia, ele não conseguiu refrear o desejo daqueles que desejam ter voz em seu país e buscar a responsabilidade de seus líderes”.

Youssef Cherif, da Columbia Global Centers Tunísia (ligada à Universidade de Columbia – Nova Iorque) diz que: “As ameaças à democracia tunisiana são numerosas. Em primeiro lugar, após uma década de problemas econômicos e de segurança e uma contrarrevolução local e regional sustentada, a democracia tornou-se sinônimo de caos na visão de muitos tunisianos. Ao mesmo tempo, os partidos políticos tunisianos se mostraram incapazes de administrar um país. Então, por causa de suas capacidades e da legitimidade que conquistaram no combate ao terrorismo, as forças de segurança e militares permanecem altamente populares e inescrutáveis, fortalecendo assim o Estado forte (e autoritário). A tomada de poder do presidente populista Kais Saied, portanto, canalizou tanto os sentimentos antidemocráticos quanto as fantasias em torno do Estado forte.”

Aymen Bessalah, do Instituto Tahrir para a Política do Oriente Médio afirma que “a democratização da Tunísia enfrenta uma grande e séria ameaça, mas não a primeira delas. Antes de Saied tomar todos os poderes, o país já era uma democracia falha. Suas principais questões: declínio socioeconômico, corrupção generalizada, aparato judicial e de segurança imperfeita, além de leis repressivas aplicadas que continuarão a ser os principais desafios, pois afetam diretamente a vida dos cidadãos. Os eventos desde o ano passado, apenas substituíram uma classe política que se engajou em consensos autocentrados por um governo de um homem só, tornando mais difícil influenciar políticas e reformas. Os tunisianos acreditam que o futuro é sombrio, enquanto o status quo desce”.

Qual será o desafio que os militares representam para o novo presidente de esquerda na Colômbia?

O site The Hundred tem uma ideia simples: a cada edição, 3 especialistas fazem suas análises em 100 palavras sobre uma pergunta importante. Aqui três especialistas ponderam sobre a provocação: Qual será o desafio que os militares representam para o novo presidente de esquerda da Colômbia?

Para Sergio Guzmán, da Colombia Risk Analysis, Petro propôs reformas significativas no relacionamento com as Forças Armadas, como a retirada da polícia do Ministério da Defesa. Ele também estava comprometido em abrir um debate global sobre a guerra às drogas. É improvável que essas iniciativas políticas sejam bem recebidas pelos militares colombianos, o que provavelmente levará a atritos. Embora a opinião pública seja favorável, principalmente entre aqueles que protestaram entre 2019 e 2021, é improvável que suas visões mais radicais sobre a gestão das Forças Armadas sejam aprovadas pelo Congresso, permitidas pelos Tribunais ou implementadas por instituições militares.”

Silvana Amaya, da Control Risks, acredita que “Gustavo Petro tomou posse como o primeiro presidente de esquerda da Colômbia em 7 de agosto. Desde então, ele nomeou novos comandantes para as forças armadas e para a polícia com base na reputação dos candidatos, considerando que as autoridades de segurança que têm um longo histórico de corrupção e abusos de direitos humanos de quase seis décadas de conflito armado. As forças de segurança da Colômbia estão acostumadas a lidar com governos de direita e seus métodos. Consequentemente, embora esses oficiais respeitem o comandante em chefe, eles também questionarão sua estratégia para alcançar a paz total”.

Adam Isacson, da WOLA, organização de defesa dos direitos humanos nas Américas, diz que  “Os militares da Colômbia são uma força historicamente conservadora que já lutou contra o antigo grupo guerrilheiro de Gustavo Petro. As relações de Petro com ele podem ser difíceis, até porque seu ministro da Defesa, um advogado que combate a corrupção, pode agir contra oficiais poderosos. Tentativas de golpe são improváveis devido às tradições democráticas. Mas os oficiais podem agitar sabres por meio de renúncias raivosas, alianças entre comandantes aposentados e oponentes políticos ou obediência mínima a ordens civis. O combate ao crime, que afeta a vida cotidiana dos colombianos, pode ser um ponto crítico. Militares e policiais podem minar o presidente, cujo círculo íntimo inclui poucos especialistas em segurança, fazendo o mínimo necessário e permitindo que a insegurança piore.”

Como os sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki se organizaram para o desarmamento nuclear

Como sobreviventes dos únicos ataques de bombas atômicas da história, eles fizeram uma missão para alertar o mundo sobre os horrores da guerra nuclear.

Artigo publicado em 4 de agosto de 2022 no History.com

Como sobrevivente do bombardeio atômico mais mortal da história, Setsuko Thurlow tem um caso poderoso a fazer contra as armas nucleares.

Na manhã de 6 de agosto de 1945, Thurlow, de 13 anos, apresentou-se a um escritório militar em Hiroshima, junto com outras garotas recrutadas para ajudar na quebra do código de guerra do Japão. Enquanto ouvia um oficial falar, ela viu uma explosão de luz pela janela e foi atingida por uma explosão que a catapultou pelo ar. Quando ela voltou a si, ela estava presa em partes do prédio em que estava.

Thurlow é um dos sobreviventes do bombardeio atômico norte-americano de Hiroshima no final da Segunda Guerra Mundial, que matou cerca de 90.000 a 120.000 pessoas, segundo a revista Science . O escritório militar em que ela trabalhava ficava a menos de três quilômetros de onde a bomba atingiu. Três dias depois, os Estados Unidos lançaram uma segunda bomba atômica em Nagasaki , matando outras 60.000 a 70.000 pessoas.

Os dois ataques deixaram centenas de milhares de sobreviventes com ferimentos físicos, problemas de saúde duradouros e traumas graves. Nas décadas seguintes, alguns desses “hibakusha”, ou pessoas afetadas pela bomba, tornaram-se ativistas vocais, cruzando o mundo para condenar as armas que alteraram tão drasticamente suas vidas. Juntos, eles ajudaram a introduzir um importante tratado das Nações Unidas, um esforço que rendeu o Prêmio Nobel da Paz de 2017.

Compartilhando suas histórias com o mundo

7 de setembro de 1945: Vista de uma das únicas estruturas que ficaram de pé, um dia depois que os EUA lançaram uma bomba atômica em Hiroshima, no Japão.  O edifício, também conhecido como Genbaku Dome, é agora a peça central do Parque Memorial da Paz de Hiroshima.
7 de setembro de 1945: Vista de uma das únicas estruturas que ficaram de pé, um dia depois que os EUA lançaram uma bomba atômica em Hiroshima, no Japão. O edifício, também conhecido como Genbaku Dome, é agora a peça central do Parque Memorial da Paz de Hiroshima. Popperfoto/Getty Images

Thurlow começou a falar publicamente contra as armas nucleares já em 1954, quando veio para os Estados Unidos para frequentar uma universidade na Virgínia. Repórteres locais pediram sua reação ao teste de bomba de hidrogênio dos EUA no Pacífico que matou um pescador japonês, envenenando-o por radiação.

“Estou com raiva” , disse ela. Quando sua resposta apareceu em um jornal, ela começou a receber mensagens de ódio dizendo-lhe para voltar ao Japão, ou afirmando que o Japão merecia o bombardeio.

Atordoado com a reação, Thurlow resolveu falar sobre os terríveis efeitos das armas nucleares – e pedir sua eliminação. “Como sobrevivente de Hiroshima, era minha responsabilidade moral continuar contando ao mundo sobre isso para que o conhecimento pudesse impedir que algo semelhante acontecesse novamente”, disse ela.

Agora com 90 anos, ela contou sua história em locais de todo o mundo, lembrando como, quando escapou dos escombros do prédio naquele dia, viu pessoas com a pele pendurada e órgãos caindo. Vários de seus familiares morreram, tanto pela explosão inicial quanto pela doença de radiação que ela desencadeou.

Compartilhar esses detalhes com o mundo pode ser incrivelmente doloroso para o hibakusha. Para um dos sobreviventes do bombardeio de Nagasaki que se tornou um ativista anti-armas nucleares, contar sua história envolvia compartilhar imagens gráficas de como a bomba o mutilou.

Sumiteru Taniguchi tinha 16 anos em 9 de agosto de 1945, o dia em que os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica em Nagasaki . Ele estava entregando correspondência em sua bicicleta na cidade quando a bomba atingiu. A explosão o jogou no chão e arrancou a pele de suas costas. Ele ficou no hospital por mais de três anos e meio, dois dos quais passou deitado de bruços enquanto os médicos tentavam tratar seus ferimentos e as infecções resultantes.

Nas décadas seguintes, Taniguchi – que morreu de câncer em 2017 aos 88 anos – usou sua história pessoal para defender a eliminação das armas nucleares. Em uma conferência das Nações Unidas sobre armas nucleares em 2010, ele mostrou imagens gráficas do que a bomba atômica havia feito em suas costas para mostrar seu ponto de vista.

Apelo ao fim das armas nucleares

A sobrevivente da bomba atômica Setsuko Thurlow fala durante a discussão do tratado de proibição nuclear na sede das Nações Unidas em 28 de março de 2017 na cidade de Nova York.
A sobrevivente da bomba atômica Setsuko Thurlow fala durante a discussão do tratado de proibição nuclear na sede das Nações Unidas em 28 de março de 2017 na cidade de Nova York.O Asahi Shimbun via Getty Images

Thurlow, Taniguchi e outros hibakusha desempenharam um papel importante na defesa do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares. As Nações Unidas adotaram o tratado um mês antes da morte de Taniguchi em 2017. Mais tarde naquele ano, Thurlow aceitou o Prêmio Nobel da Paz em nome da Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares.

Em junho de 2022 , 66 estados soberanos assinaram e ratificaram o tratado da ONU ou aderiram a ele depois que entrou em vigor em 2021. Hibakusha proeminentes criticaram os Estados Unidos e as outras oito potências nucleares por se recusarem a assinar o tratado. Thurlow também criticou o Japão, que não tem armas nucleares, por não assinar o tratado para apaziguar os Estados Unidos.

Como testemunhas em primeira mão dos horrores das armas nucleares, os hibakusha têm sido vozes poderosas no movimento anti-armas nucleares. À medida que essa população envelhece, muitos ativistas – incluindo os próprios hibakusha – expressaram preocupação com um futuro próximo em que esses sobreviventes não estarão mais por perto para lembrar ao mundo por que o armamento atômico representa uma ameaça tão grave para o mundo.

Em 2017, o movimento anti-armas nucleares perdeu Taniguchi e Shuntaro Hida , de 100 anos , médico que sobreviveu ao ataque de Hiroshima, ajudou a tratar outras vítimas e falou internacionalmente sobre o impacto das armas nucleares. Em 2021, o ativista Sunao Tsuboi , que era estudante universitário em Hiroshima quando a bomba atingiu, morreu aos 96 anos.

“Estou preocupado com o que acontecerá com o mundo”, disse Taniguchi antes de sua própria morte , “quando não houver mais sobreviventes da bomba atômica”.

Sobre a Pesquisa IPESPE (Encomendada pela XP Investimentos) divulgada hoje (25/julho)

NUMA DISPUTA ENGESSADA, JOVENS, MULHERES E POBRES GARANTEM A DIANTEIRA DE LULA SOBRE BOLSONARO.

1. DECORRIDOS 53 DIAS DO LEVANTAMENTO ANTERIOR, BOLSONARO AVANÇOU UM PONTO NO PRIMEIRO TURNO ESTIMULADO ( FOI DE 34% A 35%) E UM NO SEGUNDO (DE 35% PARA 36%). ENQUANTO LULA RECUOU UM PONTO NO PRIMEIRO TURNO ( DE 45% PARA 44%), MANTENDO 53% NO SEGUNDO. A atual distância entre eles – nove pontos no primeiro turno, quase metade da observada na segunda volta – é a menor desde junho do ano passado. Porém, para inverter o jogo o Presidente necessita acelerar muito mais. Se o ritmo de recuperação que apresentou nesses quase dois meses fosse o mesmo até 2 de outubro, ele só conseguiria subtrair três pontos da atual diferença, chegando às urnas ainda seis atrás de Lula, cerca de 9 milhões de votos. Na terceira posição, Ciro continuou com 9%; Simone subiu um ponto, para 4%; o mesmo ocorrendo com Janones, que passou para 2%; Felipe e Marçal repetiram o 1% da rodada anterior; e os demais não alcançaram 0,5%.

2. NOS DEMOGRÁFICOS, É, BASICAMENTE, O PLACAR ENTRE OS MAIS JOVENS (16-34 ANOS) ONDE LULA SUPERA NO PRIMEIRO TURNO BOLSONARO POR 50% A 27%; NAS MULHERES, EM QUE LULA TEM 48% E BOLSONARO 30%; E NA FAIXA DE 0-2 SALÁRIOS MÍNIMOS, COM LULA MARCANDO 51% CONTRA 28% DE BOLSONARO, O QUE EXPLICA A LIDERANÇA DO EX-PRESIDENTE.

3. AVALIAÇÃO E APROVAÇÃO DO INCUMBENTE SE ENTRELAÇAM COM O VOTO. GOVERNO GANHA UM PONTO NA AVALIAÇÃO POSITIVA ( ÓTIMO/ BOM VAI DE 31% A 32%) E NA APROVAÇÃO ( DE 35% A 36%). A opinião negativa (Ruim/ Péssima), (agora 49%) foi reduzida simetricamente, bem como a Desaprovação – que mediu 59%, pela primeira vez em um ano vindo abaixo dos 60%. Eu já comentei que desde o final do primeiro trimestre, com a campanha francamente antecipada, a diferença entre os valores assumidos por essas variáveis e os da intenção de voto do Presidente vem se desvanecendo, o que em outros pleitos só ocorre bem mais adiante. No Brasil, a avaliação dos Presidentes, Governadores e Prefeitos costuma melhorar em junho/julho dos anos de eleição, capitalizando os intensos investimentos  publicitários deflagradas até 30 de junho, prazo limite da legislação eleitoral. Da mesma forma, e pelo mesmo motivo, cresce nesse período o volume de inaugurações e atos oficiais, tudo junto contribuindo para acentuar o que a ciência política denomina “a vantagem do incumbente” – uso da máquina, além do manejo da agenda pública, que os governantes detém. Esse fator, nesse ano especificamente, foi reforçado pela ofensiva vitoriosa do Presidente e seus aliados no Congresso para baixar o preço dos combustíveis em junho, e sobretudo pela viabilização da PEC que em julho atropelou pela primeira vez na história o período de vedação legal e criou novos benefícios pecuniários para diversos segmentos do eleitorado. Esses fatos alimentaram a expectativa de um movimento ascensional mais vigoroso na curva de aprovação do Governo, ainda não confirmada nesse levantamento. A esperança do campo oficial mira, então, em eventuais mudanças no humor dos que receberão o primeiro pagamento do auxílio turbinado, uma vez lhes chegando às mãos no início de agosto.

4. BIPOLARIZAÇÃO NÃO ARREFECE; AUMENTA O GRAU DE INTERESSE NO PLEITO, DE 69% PARA 71%; E OS DOIS LÍDERES CONCENTRAM 70% DO VOTO ESPONTÂNEO – OS DEMAIS SOMADOS NÃO CHEGAM A 10%. Lula aparece com 40% e Bolsonaro com 30%, ambos ganhando um ponto e voltando ao que tinham em maio. Ciro oscilou para baixo, com 4%; Simone e Marçal comparecem com 1%; nenhum dos outros dessa feita registra 0,5% de menções.

5. E COMEÇA A ESCALADA DA REJEIÇÃO DOS MENOS VOTADOS. À MEDIDA QUE VÃO SE TORNANDO MAIS CONHECIDOS, SEUS PERCENTUAIS DE “ NÃO VOTARIA DE JEITO NENHUM” CAMINHAM PARA ULTRAPASSAR OS 40%. O quadro abaixo, comparando dados da pesquisa anterior e da atual, evidencia a correlação entre a redução do desconhecimento e o aumento da rejeição dos nomes menos competitivos. Simone, Janones, Felipe e Luciano transportaram para a rejeição todo o montante de conhecimento que conseguiram adquirir – por meio de viagens, entrevistas e comerciais partidários – no intervalo dos levantamentos. Já o potencial de voto ( “votaria com certeza” + “poderia votar”) ficou estável para Felipe, e recuou no tocante à Simone, Janones e Luciano. Quanto a Lula, Bolsonaro e Ciro, conhecidos por quase 100% dos entrevistados, as atitudes aparecem “engessadas”, com movimentos muito discretos. O potencial de Lula declinou um ponto no período e a rejeição continuou igual. Em movimento inverso, o potencial de Bolsonaro cresceu um ponto e sua rejeição diminuiu na mesma proporção. Ciro veio dois pontos abaixo no potencial, manteve o nível de rejeição e, o que é raro acontecer, cresceu dois pontos o montante dos que disseram ainda não “conhecê-lo o suficiente”.

Faltam 69 dias para o primeiro turno

A virada é improvável

Será muito difícil Bolsonaro repetir a façanha de FHC

Publicado no Jornal Valor Econômico em 22/07/2022 – César Felício*

O governo acelera as providências para começar em 9 de agosto os pagamentos vitaminados do Auxílio Brasil, carro-chefe de outras medidas assistencialistas como o vale-gás dobrado e os vouchers para taxistas e caminhoneiros. Será portanto na segunda quinzena de agosto, mais ao redor do fim do mês, que será possível aferir a potência política do pacote bilionário em pleno período eleitoral.

A memória do que aconteceu há exatos 28 anos, no Plano Real, está bem viva. A nova moeda foi lançada oficialmente no dia 1o de julho, quando o petista Luiz Inácio Lula da Silva vinha de um Datafolha com 41%, ante 19% de Fernando Henrique Cardoso, aferidos em 13 de junho. No dia 26 de julho o tucano já estava com 36% e o petista com 29%. Em 8 de agosto daquele ano FHC alcançou 41% e Lula 24% e o cenário cristalizou, permanecendo relativamente inalterado até o pleito. Foi uma virada total, da derrota no primeiro turno para a vitória no primeiro turno, em menos de um mês.

E lógico que o impacto econômico na vida do eleitor comum que o Plano Real proporcionou não é comparável com o que o pacote de Bolsonaro terá. E o impacto político? No caso de 1994, houve transferência de voto direta de Lula para FHC. Cada voto que Lula perdia era um a mais no embornal do tucano. Cair cinco pontosportanto para o petista significava uma redução de dez pontos na distância para FHC, e ele caiu muito mais. Em 2022 uma parte do eleitor lulista passará ou voltará a ser bolsonarista? Para que fique claro: pela última pesquisa Datafolha disponível, uma virada se dará se dez pontos percentuais de Lula forem transferidos para Bolsonaro.

Será muito difícil Bolsonaro repetir a façanha de FHC

“O efeito será comparável, mas de forma alguma será o mesmo”, opina o cientista político Antonio Lavareda, que em julho de 1994 era o responsável por toda a área de pesquisa da campanha de Fernando Henrique.

Foi Lavareda que, eletrizado, entrou no dia 1o de julho daquele ano na sala de Sérgio Motta, o coordenador da campanha de FHC, e garantiu: “A eleição está resolvida.” Ele tinha nas mãos pesquisas que mostravam Lula muito à frente, mas indicava a virada caso o eleitorado entendesse que o Plano Real controlaria a inflação, como controlou.

Há algumas diferenças importantes que atenuam o impacto do benefício bolsonarista. O primeiro é de perspectiva. “Eleição não é gratidão. Eleição é investimento”, sentencia Lavareda.

Ele explica a frase: uma eleição no Brasil é diferente de uma gigantesca operação de compra de votos. A decisão de voto é um pouco mais complexa. O eleitor ao votar analisa o retrospecto mais recente do candidato e a perspectiva de benefícios no futuro. Portanto não basta o benefício, mas sim o benefício calcado em uma narrativa, que indique o que acontecerá nos anos seguintes.

“O eleitor recebe o benefício agora. Ele vai escutar de Bolsonaro que isto será mantido. Vai escutar a mesma coisa de Lula. Então ele analisará o conjunto da trajetória de Bolsonaro e da de Lula para avaliar se a proposta de manutenção do benefício é crível ou não”. No caso de FHC, ele relembra, a implantação do Plano Real foi gradativa, começou meses antes, com a criação da Unidade Real de Valor (URV) e uma verdadeira pedagogia para educar o eleitor a uma troca de padrão monetário que representaria a vitória contra a inflação. Já Lula não tinha o que mostrar em relação ao tema.

 A memória do Plano Real foi tão forte que FHC se reelegeu em 1998 com votação quase idêntica em um ano de baixo crescimento e alto desemprego. A memória dos anos anteriores, muito melhores economicamente, gerou a perspectiva de que era mais seguro continuar com Fernando Henrique do que experimentar algo novo.

A visão do conjunto da obra, que desfavorece Bolsonaro, é agravada pelo fato de a mudança acontecer em agosto, a menos de dois meses da eleição. A rejeição a Bolsonaro em parte já cristalizou, não irá reverter totalmente. A rejeição baixa a FHC viabilizou a captura de votos de Lula em 1994.

O impacto também tende a ser menor, porque o pacote de Bolsonaro é setorial, já o Plano Real era transversal, não há um só brasileiro fora da primeira infância que não tenha tido alguma percepção de sua importância.

Além de ser setorial, a grande arena do auxílio de Bolsonaro é o Nordeste. A dianteira de Lula na região tem raízes mais profundas do que as circunstâncias imediatas. Já em 1994, conforme o Datafolha, o Nordeste foi a última região a abandonar o petista. Em 8 de agosto daquele ano, quando o tucano já tinha uma dianteira de 17 pontos percentuais em relação ao petista no plano nacional, no Nordeste Lula ainda estava numericamente à frente, por 34% a 33%.

Este retardo em parte se explica a particularidades da época. Há 28 anos a bancarização no Nordeste era bem menor do que no resto do Brasil e a troca de moeda demorou mais. Também tem a ver com afinidades eletivas. A ancoragem de Lula no Nordeste e a cristalização de parte da rejeição de Bolsonaro, conjugadas, tornam bem improvável uma transferência de votos do primeiro para o segundo grande para virar a eleição. Mas pode ser o suficiente para impedir a eleição do petista no primeiro turno.

Manobras preventivas

Um personagem com trânsito fácil no Judiciário, nas Forças Armadas e no Congresso afirmou que a ministra Rosa Weber já foi aconselhada por colegas do Supremo a romper com o isolamento do mundo político que sempre cultivou desde que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), corte que presidirá a partir de setembro.

A tímida ministra terá que conjugar a assertividade que demonstrou em suas últimas decisões com dons que até o momento não exercitou, como liderança e articulação, com capacidade de dialogar não só com a cúpula do Congresso como com a dos militares. Ouviu atenta.

Esse não foi o único movimento preventivo nos últimos dias para tentar esvaziar manobras golpistas. Integrantes do Exército americano teriam mantido conversas com oficiais brasileiros. Falaram sobre o comportamento de Marc Milley, chefe do Estado Maior conjunto dos Estados Unidos, que em 2021 não embarcou na intentona contra o Capitólio.

*César Felício é editor de Política do Valor Econômico