ABC sedia debate sobre o resultado das eleições presidenciais

O evento “Eleições Presidenciais: Análise e Prospectivas”, coordenado pelo professor José Murilo de Carvalho, acontecerá no dia 14 de novembro, de 13h15 às 18h10, na sede da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Com a eleição do futuro Presidente do Brasil, especialistas se reunirão para discutir sobre os novos representantes escolhidos no processo eleitoral e refletir sobre as implicações dessas mudanças no futuro próximo.

A abertura do debate ficará por conta do presidente da ABC, Luiz Davidovich, e do Acadêmico José Murilo. A atividade será realizada em duas sessões: análise eleitoral e prospectiva.

Da primeira sessão participarão os cientistas políticos Antonio Lavareda, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Argelina Maria Cheibub Figueiredo, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).

Na segunda sessão, integrarão a mesa o Acadêmico e cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (UFRJ), Sergio Abranches, cientista político e jornalista da CBN, e o Acadêmico Edmar Bacha, economista do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Graças (Iepe-CdG).

O evento é gratuito e aberto ao público, mediante inscrição. Sujeito à lotação do auditório.
Haverá também transmissão ao vivo através da página da ABC no Facebook.

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Informalidade de Bolsonaro marca nova estética de poder

Estilo cerimonioso de Temer dá lugar a cenas como prancha de bodyboard em coletiva de imprensa, pão com leite condensado e bandeira colada com fita adesiva.

Fernando Krakovics / O Globo

RIO — A eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência inaugurou uma nova estética no cargo mais importante do país. A formalidade do presidente Michel Temer dá lugar a cenas como o presidente eleito fazendo o pronunciamento da vitória com uma bandeira do Brasil, ao fundo, presa na parede com “silver tape”— uma fita adesiva de cor cinza.

Na última quinta-feira, Bolsonaro convocou uma coletiva de imprensa em casa, na praia da Barra, na qual os microfones das emissoras de televisão ficaram apoiados em uma prancha de bodyboard verde e azul, improvisada sobre duas mesas de vidro. Na manhã de ontem o capitão da reserva apareceu cortando o cabelo em um salão em Bento Ribeiro, na Zona Norte do Rio. E, no dia anterior, ele havia divulgado uma foto também cortando o cabelo, de chinelo, na garagem de sua casa.

Essa informalidade já teve espaço no governo Luiz Inácio Lula da Silva. O petista foi fotografado, por exemplo, com um isopor na cabeça ao sair da praia, na Base Naval de Aratu, em Salvador, em 2010. Além da quebra de protocolo, os hábitos de Bolsonaro à mesa também
surpreenderam .Na véspera do segundo turno, o Jornal Nacional exibiu reportagem sobre a última semana de campanha do então candidato do PSL, na qual ele apareceu espremendo uma caixinha de leite condensado sobre um pão francês, sem prato.
— Aqui não tem esse negócio de açúcar, não, rapaz, gordura, dieta — disse ele, na ocasião.
Para o cientista político Antonio Lavareda, são sinais que geram identificação com a maior parte do eleitorado:
— Esse tipo de imagem o aproxima do eleitor médio brasileiro. Esses comportamentos simples, como aparecer cortando o cabelo, têm tudo a ver com a maioria da população. Somos uma sociedade pobre, de baixa renda e com gostos adequados a esse padrão de renda e escolaridade.

Ao longo da campanha, Bolsonaro apareceu várias vezes na cozinha, com a pia cheia de louça suja e apoiando o pão na mesa, também sem prato nem toalha. No discurso, saem as mesóclises empoladas de Temer e entram os já folclóricos “isso aí”, para se referir a diferentes temas, e o “tá ok?”. A plataforma de comunicação também mudou. Bolsonaro tem investido na comunicação direta com o eleitor, por meio das redes sociais.

 

Entre brigas, bolhas e boatos, medo e raiva dominam eleitores

Segundo Datafolha, 72% dos eleitores se dizem desanimados; 74%, tristes; 81%, inseguros.

Francesca Angiolillo Folha de Sao Paulo

Quando comenta os sentimentos obscuros que cercaram os brasileiros neste processo eleitoral, a psicóloga Débora Salomão, 35, diz ter pena de todo mundo.

Na pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (25), 72% dos entrevistados se disseram desanimados; 74%, tristes; 81%, inseguros. A maioria —51%— disse sentir mais medo do que esperança.

Até o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa falou em medo para justificar o voto em Fernando Haddad (PT), no Twitter, neste sábado (27). 

A compaixão que a fala da psicóloga expressa não é, porém, dos sentimentos mais predominantes na campanha.

Para o cientista político Antonio Lavareda, 67, autor do livro “Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais”, a equação destas eleições opõe, principalmente, medo e raiva.

“Medo sobretudo usado na campanha do PT, medo do que Bolsonaro representa, medo da ditadura etc.”, diz. 

“Do outro lado”, afirma, está a raiva dos governos petistas —“da recessão, do desemprego, da corrupção, mais a raiva por aspectos identitários”.

Folha ouviu sete pessoas ao longo da última semana —três votariam em Jair Bolsonaro (PSL), três em Haddad e uma ainda não se decidira. Todos se enquadraram em algum ponto desse espectro emocional.

Como diz Lavareda, “emoções nunca são unívocas, aparecem num ‘blend’”, uma mistura. A reação de cada um seguirá aquela que prevalecer. 

Eleitor de Bolsonaro, o médico Alberto Antunes, 43, diz se identificar com a raiva “porque a coisa chegou a um ponto que não tem mais nenhuma condição de diálogo”.

Ele lamenta uma campanha “pautada por uma desconstrução moral dos candidatos —o que fez com a esposa, se gosta de homossexual, se não —e não em propostas”.

Débora Salomão, 35, que vota em Haddad, de certo modo concorda. Ela ressalta o papel negativo das redes sociais no debate —ou na ausência dele.

A psicóloga tinha seis anos em 1989, mas diz se recordar das discussões antes da eleição em que Fernando Collor (PRN) derrotou Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Falavam que íamos perder a casa se Lula fosse eleito. Mas a gente estava num campo democrático da conversa na rua, em casa”, conta. 

Ela vê, na bolha das redes, “dificuldade de dialogar com quem é diferente, trocar ideia, talvez mudar o ponto de vista”. “Bolsonaro não se dispor a ir a debates é símbolo-mor” dessa impossibilidade, diz.

Há quem veja na tal bolha o refúgio, como o estatístico Márcio Eduardo Maciel, 37.

Ele diz “não ter ideia de como funciona o submundo do WhatsApp”, a rede que se tornou a maior arma da campanha deste pleito. “Não participo nem do grupo da família.”

Mas, conta, usa Facebook, e lá “a gente vê como se fecha”. 

Maciel enxerga com desagrado a reação das pessoas de bloquearem os que votam no candidato oposto. Mas se diz acovardado, preferindo manter o silêncio fora de casa.

“Fico muito fechado na minha bolha, mais pró-Haddad, tenho medo de conhecer pessoas novas, de falar no Uber.”

Por ser gay, conta, tem muito medo de agressões nas ruas.

Maciel votou em Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno, por achar que o PT tinha que “curar o desgaste”. No momento, diz, não há outra opção senão Haddad.

A publicitária Eny de Oliveira, 51, afirma que não usa muito WhatsApp, mas chegou a cogitar que estivesse “falando com o espelho” ao ficar restrita às notícias no Facebook. “Todas as minhas informações de campanha vêm de lá, nem leio jornal mais.”

Ela afirma ter desconfiança da mídia em geral e das pesquisas. Considera seus amigos fontes confiáveis, pois são “profissionais qualificados, professores doutores da USP”.

Eny sente medo do partido de Haddad, que, diz, “agravou a corrupção endêmica do país”. 

“O medo que eu mais escuto e também tenho é que o PT acelere o processo do socialismo aqui.” Para a publicitária, uma ditadura de esquerda seria um risco real. 

“Acho que Bolsonaro não tem força para derrubar a democracia, ele é limitado.” 

Já Lula, a seu ver, “é muito perigoso, comanda o país de dentro da cadeia”. Antunes, por sua vez, vê nele uma figura a ser extinta.

Tonica Tavares, 55, e Antonio Amado, 65, são formados em economia e trabalham como corretores imobiliários.

Tavares diz ter “raiva e temor do PT na mesma proporção”. A raiva, diz, é pelos “desmandos e dos investimentos que fizeram fora do país”.

Como Antunes, Tavares e Amado creem que o dinheiro para obras como a ampliação e melhoria do porto de Mariel, em Cuba, com financiamento do BNDES, deveria ter sido empregado aqui.

Associam os investimentos ao pendor que veem no Partido dos Trabalhadores pelo autoritarismo de esquerda.

Para Tavares, “o país iria para uma ditadura de esquerda, já caminha para isso”. Ela diz ter “pânico e pavor absoluto de que o PT continue no poder; mesmo que Bolsonaro seja um desastre”. Por isso, diz que arriscará no novo. 

A raiva de seu colega Amado vem de o PT “não ter coerência, negar o próprio programa”. Ver neles “ódio, rancor, desejo de mandar dá um desconforto enorme”.

Como Tavares, ele prefere a possibilidade do novo, que diz ter podido afluir graças à campanha feita “por mídias alternativas, extremamente baratas e acessíveis”.

Ele e seus companheiros de voto dizem não se sentir influenciados pela profusão de mensagens no WhatsApp e atribuem o filtro à formação. 

Na opinião de Antunes, os mais velhos sofrem mais a “hiperbolização das fake news”.

Na sexta (26), o cineasta Sandro Serpa, 43, postou no Facebook um longo desabafo.

“Eu nunca vou perdoar os que fizeram isso com a minha mãe”, escreveu. “Isso” é o medo incutido, “que não vem do nada, mas de uma campanha generalizada de difamação”. 

Ele conta à reportagem da Folha que a mãe, pedagoga de 70 anos, “se informava pela TV, mas agora acho que é só internet”. 

O eleitor do PT (que, porém, “estaria fazendo campanha pelo Alckmin no meio da rua”) diz que só queria que a mãe não dissesse sim a algo que quer aniquilá-lo por pensar diferente —como pregou Bolsonaro em discurso no último domingo, 21. 

Depois de muita pressão para que a mãe mudasse o voto e de vê-la sofrer, presa na “rede de ódio e desinformação”, ele desistiu e aceitou a escolha. Por amor.

 

 

Bolsonaro tem 58% dos votos válidos e mantém vantagem de 16 pontos sobre Haddad, mostra XP/Ipespe

Pesquisa reforça favoritismo de Bolsonaro para a eleição presidencial a dois dias do segundo turno; Haddad depende de virada inédita para vencer a disputa

Infomoney

Bolsonaro (PSL) mantém inalterada a vantagem que tinha há uma semana sobre o exprefeito paulistano Fernando Haddad (PT) na eleição presidencial. Segundo pesquisa XP/Ipespe realizada nos dias 23 e 24 de outubro, o militar reformado tem 58% dos votos válidos, contra 42% do petista. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o código BR-08283/2018 e tem margem máxima de erro de 2,2 pontos percentuais para cima ou para baixo. Os números são os mesmos da pesquisa divulgada pelo instituto na última sexta-feira (19), o que reforça o favoritismo do parlamentar para o próximo domingo (28), já que seu adversário teria que reduzir a distância diariamente em mais de 8 pontos percentuais para virar o jogo, movimento inédito nesta corrida presidencial. Considerando o total de votos válidos no primeiro turno da eleição, Haddad precisaria "converter" mais de 8,5 milhões de eleitores – o equivalente aos votos válidos do Rio de Janeiro no último 7 de outubro – em apenas dois dias e sem horário de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. A atual vantagem de Bolsonaro é a mesma de quando essa simulação de segundo turno começou a ser feita pela pesquisa XP/Ipespe, em meados de julho. Naquela época, Haddad era apenas um nome cotado para substituir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso após condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, na disputa e era desconhecido por 27% do eleitorado. Hoje 10% dizem não conhecê-lo sucientemente, o que, somado à falta de tempo, diculta ainda mais qualquer poder de reação. O gráco abaixo mostra a evolução do quadro de julho pra cá:

1) Cenário de segundo turno em votos válidos (desconsiderando brancos, nulos e indecisos)

O maior salto de Haddad nesta corrida eleitoral foi vericado uma semana após a conrmação de sua candidatura no lugar de Lula, em meados de setembro. Naquela situação, o ex-prefeito subiu 7,6 pontos percentuais em votos válidos no cenário de primeiro turno em um intervalo de uma semana, e foi alçado à segunda posição na disputa. Na semana seguinte, em 26 de setembro, houve outro salto de 5,2 p.p. em votos válidos. Desta vez, o petista precisa crescer em 48 horas mais do que a soma daquele período, missão ainda mais complexa quando se nota que Haddad conta com índice de rejeição 11 p.p. superior ao de seu adversário (47% a 36%) e, nos dados por segmentação, lidera somente entre os eleitores menos escolarizados, mais pobres e do Nordeste. Em outras regiões, como Sul e Centro-oeste, o ex-prefeito paulistano chega a ter menos da metade do percentual de votos de Bolsonaro. Considerando o quadro geral em votos totais, a última pesquisa XP/Ipespe mostra Bolsonaro com apoio de 51% dos eleitores, ao passo que Haddad conta com 37%. Votos em branco, nulos e eleitores indecisos somam 12%. A atual diferença é apenas 1 ponto percentual menor do que a maior já registrada no levantamento, há duas semanas. Em nenhum momento da disputa o petista liderou por diferença superior à margem de erro.

Neste momento, a contagem por votos totais também traz informações relevantes sobre a disputa eleitoral, já que mostra o contingente de eleitores que não apoiam nenhum dos candidatos e que poderiam fazer a diferença se convencidos a escolher alguém, e permite comparações com as intenções de voto em cada um. No caso de uma disputa tão polarizada, uma das estratégias possíveis ao candidato que aparece atrás nas pesquisas é tentar avançar sobre este grupo. Contudo, os resultados da pesquisa indicam que tal movimento, mesmo se exitoso, teria efeitos limitados, dada a comparação entre o atual patamar desta faixa do eleitorado e o histórico de pleitos anteriores. Ou seja, para reverter o quadro atual Haddad teria que roubar votos do próprio Bolsonaro. O gráco abaixo mostra a evolução da disputa em votos totais: 2) Cenário de segundo turno em votos totais (incluindo brancos, nulos e indecisos)

Apesar da inalteração no quadro geral, a nova pesquisa mostrou uma oscilação positiva no percentual de eleitores que dizem não votar em Bolsonaro de jeito nenhum. Em uma semana, tal grupo foi de 34% para 36% do eleitorado em uma semana. Mesmo assim, ele é 23 p.p. menor do que o percentual registrado três semanas antes. No caso de Haddad, observou-se uma queda de 52% na última pesquisa para atuais 47%. Este é o índice mais baixo do petista na série histórica, mas ainda é 11 p.p. superior ao de seu adversário. Movimentações também foram vistas no quadro por segmentação. Neste caso, chama atenção o fato de Bolsonaro ter alcançado 34% dos votos totais no Nordeste, 18 p.p. atrás de seu adversário. É a melhor pontuação do deputado na região – a única em que ele hoje perde. No Sudeste, sua vantagem é de 23 p.p. O militar reformado também aparece numericamente atrás os eleitores que não concluíram o Ensino Fundamental (45% a 41%). A diferença congura empate técnico neste recorte. Na semana passada, a vantagem de Haddad entre esses eleitores era de 11 p.p. Entre eleitores das classes D e E (com renda familiar mensal inferior a dois salários mínimos), a vantagem também é do petista, mas por diferença dentro da margem de erro: 44% a 41%. Entre os desempregados, os dois aparecem com 44% dos votos válidos. O eleitorado feminino também mostra uma disputa mais apertada, com Bolsonaro numericamente à frente por 46% a 42%, diferença dentro do limite da margem de erro da pesquisa. Nas demais faixas do eleitorado, o deputado leva vantagem. As maiores diferenças são vistas nas regiões Sul (62% a 28%) e Centro-oeste (68% a 26%); entre os homens (57% a 33%); com Ensino Médio (57% a 32%); e de classe C, com renda familiar mensal entre 2 e 5 salários mínimos (61% a 30%). Mais detalhes estão no quadro comparativo abaixo: