Fake News em pauta no Ponto a Ponto

Assista ao Ponto a Ponto que discutiu Fake News, com a advogada Taís Gasparian. A entrevista foi ao ar no último dia 24 de março, na BandNewsTV.

Taís Gasparian é bacharel em Direito pela Faculdade de Direito e em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, ambas da Universidade de São Paulo (USP), mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Faculdade de Direito da USP.

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Antonio Lavareda sobre ex-presidente Lula: “Potencial de transferência de votos irá se reduzir”

Cristian Klein

Valor: Com Lula preso, qual é a melhor saída para o PT? – Valor: Com Lula preso, qual é a melhor saída para o PT?

Antonio Lavareda: A melhor jogada, no médio prazo, seria apoiar um candidato de outro partido, como o Ciro Gomes (PDT), se encapsular numa vaga de vice, e investir fortemente na eleição da maior bancada federal, que é o que dá tempo de propaganda em rádio e TV e recursos do fundo eleitoral. É se dedicar à formação de coligações estaduais e sair do foco da eleição presidencial e das forças do antipetismo, que são majoritárias hoje na sociedade. Seria uma estratégia para atravessar o deserto. Ele se organizaria, faria um “aggiornamento”, diante das severas dificuldades que encontra.

Valor: Mas o PT sempre priorizou a eleição presidencial.

Lavareda: Não é uma ideia estapafúrdia. A vice já foi conjecturada por Lula em 2014, quando ele fez um apelo para que Eduardo Campos (PSB) não se lançasse candidato e apoiasse Dilma. Em contrapartida, Lula garantia a ele que seria o candidato apoiado pelo PT numa frente de esquerda agora em 2018. Em 1950, o PTB tinha feito um presidente da República com quase a maioria absoluta dos votos. Getúlio Vargas teve quase 49% e o partido cresceu, como geralmente acontece com quem está no governo. Mas, em 1955, depois da morte de Getúlio, ia fazer o quê? Lançar João Goulart, que era a figura de maior visibilidade? Não. Aceitou fazer uma aliança com o PSD de Juscelino Kubitschek. Essa aliança foi fundamental para a eleição de Juscelino. O PTB voltou a crescer e num belo dia as circunstâncias ajudaram [João Goulart assumiu quando Jânio Quadros renunciou, em 1961] e chegou à Presidência de novo. Ao final da Quarta República, já era a segunda maior força política no Congresso.

Valor: O PT não parece ser o PTB.

Lavareda: Não parece porque não é, e os tempos são outros. O que a gente tem de comparável nessas épocas tão distantes é que a gente pode dizer que Getúlio, ao seu modo, por seu carisma e peso na classe trabalhadora, era o que o Lula devia ser na Nova República. E Lula foi e é na Nova República o que Getúlio foi lá atrás. Se a gente imaginasse o Getúlio transplantado para esse tempo, mas com o mesmo espírito da época, que era mais chegado a tragédias, numa situação dessa do Lula ele provavelmente se suicidaria. Aliás, Getúlio se suicidou porque se viu deposto e ficou com medo de ser preso.

Valor: Não é difícil para o PT abrir mão da cabeça de chapa sendo o maior partido de esquerda?

Lavareda: Mas não pode postular, porque quem tem voto não são seus candidatos. Quem tem voto vai estar preso, que é o Lula. Eu prevejo que o potencial de transferência de votos de Lula – segundo pesquisas 27% votariam num candidato indicado por ele – se reduzirá para uns 15%, sem o Lula participar ativamente da campanha. Ele não poderá realizar todo o potencial de transferência de votos que ele tem. Se Lula pegasse isso e somasse à intenções de voto do Ciro, que está entre 9% e 10%, já estaria o Ciro no segundo turno, com uns 25%. Com um candidato do PT fraco, a esquerda vai avançar na fragmentação, já tem Boulos, Manuela, Ciro, a Marina Silva também pesca nesse rio da esquerda. Está todo mundo falando em fragmentação do centro, mas você tem duas áreas especialmente fragmentadas: o centro e a esquerda também. E com a saída do Lula agora essa fragmentação vai aparecer forte.

“Está todo mundo falando em fragmentação do centro, mas na esquerda ela vai aparecer forte agora”

Valor: A união da esquerda, ou parte dela, não deveria ser feita logo para ter resultado?

Lavareda: Mas o PT tem essa dificuldade. Vai ficar no choque, na emoção, na dificuldade de reorganizar o processo decisório. Você não pode imaginar nenhuma grande decisão do PT nas próximas semanas, em abril. O partido não tem condições emocionais ou políticas. O que pode haver são os aliados tentando se solidarizar, para formar uma frente, o PDT se aproximar. Mas não vai haver nenhuma guinada por enquanto.

Valor: Decisões do PT ainda poderão passar por Lula, na prisão?

Lavareda: É complicado. Antes, o Lula era ouvido para tudo. Agora, fisicamente não vai poder. A suprema ironia do Sergio Moro foi chamar o local onde Lula ficará de uma “sala de Estado Maior”. Não vão deixar ter reunião política ali. É uma sala do “Estado menor possível”, um alojamento tosco de 5 por 3 metros, onde só cabe uma estreita cama de solteiro e tem um banheirozinho. É uma ironia totalmente desnecessária, que o Moro incluiu na decisão. As visitas ficarão restritas aos advogados e à família. A vida dele vai ficar difícil, apertada, limitada. Lula vai ter dificuldade de se articular com o partido. E esse processo decisório do PT vai ficar afetado. Era um partido lulocêntrico que, de repente, perde o centro, como é que faz?

Valor: O partido não se preparou para isso?

Lavareda: Acho difícil ter se preparado. Significa emprestar protagonismo para outros atores, outros personagens. Você vê que no ato no sindicato dos metalúrgicos do ABC, na sexta-feira, não tinha ninguém, nem a presidente do partido, que fosse a figura central, que mais aparecia, que se percebia comandando o processo do grande evento convocado antes da prisão. É muito difícil dado o peso, a dimensão dele. Esqueça que boa parte da preferência pelo PT se dá porque as pessoas preferem o partido do Lula, compare apenas os 35% de intenção de voto com os 17% de preferência partidária. Você pode dizer que Lula é o dobro do PT.

Valor: Caso opte por um plano B, quando anunciá-lo?

Lavareda: O PT sabe que dificilmente seu plano B chegará ao segundo turno. Sem Lula, isso fica distante. Mas se esse for o caminho, o desafio é achar o momento em que ele vai emergir. Se demorar, talvez seja muito tarde. A transferência de votos leva tempo, especialmente para o eleitorado menos escolarizado do PT. É um processo racional e emocional. São necessárias repetidas aparições na TV, em eventos públicos, com cenas de proximidade, intimidade entre apoiador e apoiado, para que se faça a associação.

Valor: Uma vez preso e vitimizado, a indicação de voto de Lula não pode ganhar mais força?

Lavareda: Se fosse em setembro, talvez. Mas até lá a prisão já foi processada, reprocessada e ultrapassada por outros fatos políticos. Quando Getúlio se suicidou, por exemplo, em agosto de 1954, o PTB não teve um crescimento expressivo nas eleições parlamentares de outubro no mesmo ano.

 

Valor Online – SP 09/04/2018 – 05:00

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A alma da opinião pública

“O Brasil tem muita dificuldade em reconhecer sucesso”, diz cientista político do Insper

Quatro nomes se destacam

Cientista político Antonio Lavareda diz que PT, mesmo sem Lula, também está no páreo

Jornal do Brasil

Por Edla Lula

A oito meses da escolha do novo presidente, ninguém ousa prever qual será o resultado da eleição. O sociólogo e cientista político Antonio Lavareda reconhece que é difícil fazer prognósticos, mas aponta alguns cenários. E afirma que, hoje, as curvas de intenção de voto apontam para quatro nomes: Marina Silva, Geraldo Alckmin, Jair Bolsonaro  e Ciro Gomes. “Devendo-se acrescentar a eles o candidato do PT, qualquer que seja, pela capacidade de transferência de Lula e pela força do PT”, ressalta. Lavareda prevê que, caso Lula seja preso, Bolsonaro ganhará mais espaço entre os eleitores. “Bolsonaro está longe de ser um fenômeno meramente circunstancial”, alerta.

– Como o senhor vê o atual cenário político-eleitoral no Brasil? 

Temos hoje um cenário bastante complexo, de grande perplexidade. Foi assim com a primeira eleição após o fim do Estado Novo, quando o país assistiu o ditador deposto, Getúlio Vargas, apoiando o general Eurico Dutra, que o havia defenestrado pouco mais de um mês antes e que se sagraria vitorioso. Ou na primeira eleição presidencial da Nova República, quando os candidatos dos partidos que viabilizaram a superação do regime autoritário instaurado em 1964 e deram ao país a “ Constituição cidadã “ de 1988 foram massacrados nas urnas com pífias votações. Porém, agora o número de variáveis que se entrecruzam opera um desenho quase impossível de ser decifrado a poucos meses do pleito.

– A oito meses da eleição, ainda é muito grande a indefinição. A que o senhor atribui o clima de incerteza que atinge a política brasileira? 

Por todas essas variáveis: o país ainda está emergindo de uma brutal recessão, com massa recorde de desempregados. A Lava Jato, que dizimou reputações e candidaturas de forma transversal no universo partidário, inviabiliza a participação do líder das pesquisas; um governo de transição que obtém sucessos significativos numa agenda de mudanças estruturais mas que amarga elevada impopularidade; e uma crise de representação aguda, abrindo uma fenda tectônica entre o Estado e a sociedade. A partir desse quebra-cabeça, projeções têm o mesmo status de quiromancias.

Segundo Lavareda, cenário hoje é “complexo, de grande perplexidade, como em 1989”

– O que dizer de um país em que o político com maior aceitação popular é alguém condenado e que pode ser preso em breve?

Dentre os pré-candidatos, o único que já foi presidente é Lula, que o foi por duas vezes. O fato de que ele terminou o segundo mandato com 85% de aprovação contribui para seu desempenho atual, assim como é beneficiado também por ser o principal ícone da oposição ao governo Temer, que no momento enfrenta uma elevada desaprovação. Entendo que, apesar de sempre ser lastimável a condenação de um ex-presidente pela repercussão negativa que acarreta, ela faz parte da normalidade democrática e já ocorreu em diversos países. Fujimori, Menem, Sócrates, Berlusconi, Sarcozy, entre outros, são exemplos disso.

– O PT tem usado a estratégia de politizar a condenação de Lula e vai solicitar o registro da sua candidatura junto ao TSE. Até onde acha que Lula e o PT vão nesse jogo? 

Essa questão precisa ser vista na perspectiva do que seria racionalmente o melhor interesse do partido. Três aspectos chamam atenção: primeiro, esse jogo pode perdurar mais algum tempo, para explorar todo o potencial de vitimização do ex-presidente, porém não deve se prolongar em demasia para o partido não correr o risco de inviabilizar pelo esgotamento do calendário as alianças necessárias no nível nacional e nos estados; segundo, o  PT precisará evitar que, sem uma candidatura efetiva, haja consolidação em montante significativo da migração de votos lulistas para concorrentes do campo da esquerda; Por último, que por essas razões apontadas haja um prejuízo às candidaturas proporcionais do partido que independente disso já aguardavam  um difícil cenário este ano.

– Quais seriam as opções para o PT? 

Com o ex-governador baiano Jaques Wagner fragilizado por uma operação de busca e apreensão no seu domicílio, as apostas se voltam para o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Este último é frequentemente referido na mídia como o mais “tucano” dos petistas. Essa característica o teria ajudado na eleição da capital paulista que ganhou em 2012, mas talvez não ajude o partido numa eleição presidencial a manter sua força no Nordeste, sobretudo em um momento mais radicalizado como o que vivemos.

– Que nomes de centro podem ascender na disputa eleitoral? 

O relatório da última pesquisa CNT/ MDA apresentou um quadro resumo do potencial positivo e do potencial negativo de diversos nomes. Assim, pôde-se ter uma ideia do potencial de crescimento futuro das candidaturas e dos limites postos pelos respectivos graus de rejeição. Após Lula, que não deve ser candidato, só quatro nomes aparecem com mais de 20% de potencial positivo:  Marina Silva (40,2%), Geraldo Alckmin (38,0%), Jair Bolsonaro (35,4%) e Ciro Gomes (25,2%). Na outra ponta, a rejeição anotada de cada um deles também em ordem decrescente foi: Marina (53,9%, Geraldo Alckmin (50,7%), Jair Bolsonaro (50,4%) e Ciro Gomes (47,8%). A pesquisa sugere que os movimentos mais significativos das curvas de intenção de voto durante a campanha tenderão a ocorrer com algum ou alguns desses nomes. Devendo-se acrescentar a eles o candidato do PT, qualquer que seja, pela capacidade de transferência de Lula e pela preferência elevada que o PT ainda mantém.

– Existe possibilidade de o presidente Temer ser o candidato do MDB? 

Esta é uma possibilidade. Temer será naturalmente o candidato do MDB se a avaliação dele vier a ter uma melhora substancial. Como a perspectiva é de que isso só ocorra no semestre, o mais provável é que o candidato seja Meirelles. O mais importante, para o MDB, é valorizar os feitos desse governo.

– O senhor acredita que Bolsonaro se sustentará como candidato? Ele tem chances reais de chegar ao segundo turno? 

Inviabilizada a candidatura de Lula, Bolsonaro já ocupa o primeiro lugar nas pesquisas. Ele está longe de ser um fenômeno meramente circunstancial. A tese corrente de sua “desidratação”, pelo pouco tempo de TV e no rádio, não me parece razoável. O entusiasmo que desperta numa porção significativa do eleitorado aponta identificação na sua candidatura de opiniões e anseios que provavelmente estiveram represados em outras disputas e agora encontraram legitimidade para emergir. Um espaço na ultradireita do espectro eleitoral. É imperioso reconhecer que o ex-capitão encarna uma nostalgia indisfarçada do regime militar.

 

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A alma da opinião pública

O desafio dos institutos de pesquisa para entender e traduzir o que pensa essa estranha entidade que fala de tudo

Por Eduardo Oinegue – Veja Online


Há uns dez anos, o Ibope conduziu uma pesquisa sobre corrupção. Durante a execução, constatou que as pessoas até admitiam a prática de atos ilícitos, mas apontavam seus vizinhos e familiares como antiéticos de verdade, bem mais do que elas próprias. Esses, sim, costumavam subornar o guarda, comprar produtos piratas, falsificar documentos, sonegar impostos ou fazer gato de luz e de TV a cabo. Como é estatisticamente improvável que o Ibope tenha cruzado apenas com os mais íntegros, dá para arriscar que os entrevistados não foram exatamente francos. Quando se pergunta aos fumantes se pretendem parar de fumar, a maioria diz que sim porque pega bem. Quando se entrevistam os motoristas sobre as razões que os levam a usar o telefone ao volante, quase 40% dizem que é para atender ligações urgentes. Convenhamos: pega mal dizer que eles adoram uma selfie no carro.


Em 2013, a psicóloga Terri Fisher, da Universidade de Ohio, publicou um artigo na revista científica Sex Roles para mostrar como o ser humano pode ser imaginativo nas pesquisas sobre comportamento sexual. O trabalho relata a enquete feita com um grupo de jovens heterossexuais aos quais foram feitas as mesmas perguntas. Detalhe: metade deles foi ligada a um falso detector de mentiras apresentado como verdadeiro. O que aconteceu? Os rapazes “sem aparelho” disseram ter se relacionado com um número maior de parceiras do que os “com aparelho”, e as garotas “sem aparelho”, com um número menor de parceiros do que as “com aparelho”. “Quando o assunto é delicado, as pessoas têm o impulso de tentar impressionar até mesmo alguém que jamais viram nem voltarão a ver”, afirma Márcia Cavallari, diretora do Ibope.

Pois é com esse personagem complexo e de perfil gelatinoso, o entrevistado, que os institutos de pesquisa contam para investigar a chamada opinião pública — que se comporta de maneira muito parecida em qualquer país do mundo. As pessoas se enxergam ou se dizem mais conscientes e mais íntegras do que são e, por que não?, sexualmente mais ou menos ativas, conforme o gênero. Nas pesquisas sobre o candidato a presidente da República ideal, os brasileiros pedem alguém honesto, preparado, firme, de boa formação, equilibrado e inovador. Nas que pedem um nome, citam Lula e Jair Bolsonaro. Toda atividade profissional opera segundo premissas. Na engenharia, é premissa que se possa calcular o comportamento do solo e do clima no local de uma grande obra com base em curvas históricas de variação de temperatura, intensidade dos ventos e índice pluviométrico. Os profissionais de pesquisa também têm premissas. Uma delas é que, quando vão a campo, capturam o que as pessoas pensam ou sentem, valendo-se de técnicas para superar a criatividade e interpretar as mensagens aparentemente contraditórias.

Além de tentar impressionar o pesquisador, o entrevistado muitas vezes quer “acertar” a resposta. Ainda que pesquisa não seja prova de conhecimentos gerais, com alternativas corretas e incorretas, uma parte dos entrevistados se guia por eventuais pistas contidas nos enunciados. Daí a importância de preparar perguntas o mais isentas possível. Questões enviesadas comprometem o resultado final. Para mensurar
o poder pernicioso da indução, este autor pediu ao Instituto Vox Populi que realizasse uma pesquisa-teste com o tema “pena de morte”. A amostra, que traduz fielmente as estatísticas oficiais de composição da sociedade brasileira, contém 2 000 entrevistas. O teste, supervisionado pessoalmente por Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, consistiu em apresentar uma única pergunta direta (“Você é a favor ou contra a pena de morte?”) após a leitura de um breve texto introdutório. Metade da amostra ouviu um texto, metade outro, antagônicos entre si e tendenciosos. O primeiro texto tem um viés a favor da pena de morte. O segundo tem inclinação oposta, contra a pena de morte.

Como reagiram os entrevistados? Tomemos apenas o conjunto de respostas contra e a favor, uma vez que as respostas “nem a favor, nem contra” e “não sabe” ou “não respondeu” ficaram mais ou menos do mesmo tamanho nos dois casos. Placar do primeiro texto, com ênfase na criminalidade: 53% a favor, 47% contra. Placar do segundo texto, com ênfase nos erros judiciais: 38% a favor, 62% contra. A força da indução foi de significativos 15 pontos porcentuais. “Num caso, mais da metade apoiou a pena de morte. No outro, quase dois terços ficaram contra”, comenta Marcos Coimbra. “O trabalho que fizemos reforça a responsabilidade dos institutos de capturar a informação de forma técnica e isenta, já que a divulgação dos dados pode produzir desdobramentos políticos e sociais significativos.” Coimbra observa que o teste não autoriza ninguém a achar que a opinião pública é massa de manobra. “A sociedade sabe o que quer e sabe o que não quer. Se o Brasil estivesse debatendo pena de morte, o assunto estaria na pauta do dia, nos meios de comunicação e nas redes sociais, e haveria um sentimento sobre ela nas ruas”, afirma Coimbra. “Dificilmente as pessoas se deixariam influenciar como na pesquisa que fizemos.” Coimbra está dizendo que as pessoas se mobilizam quando surge o “clima”.

Num certo sentido, é como se existissem duas opiniões públicas. A natural, que responde e reage aos assuntos concretos (Diretas Já em 1984, impeachment de Collor em 1992, manifestações de 2013), e a opinião pública de laboratório, que responde porque alguém teve a ideia de perguntar. “As pessoas sempre terão opinião sobre tudo. Até sobre física quântica ou se os aliados erraram ao desembarcar na Normandia. Cabe aos institutos submeter à sociedade temas em que ouvir as pessoas faça sentido. Do contrário, saímos da ciência e entramos no mundo das curiosidades”, diz o cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) e um dos grandes especialistas brasileiros em pesquisa e comportamento social.

Um bom exemplo de curiosidade é uma pesquisa sobre viagem a Marte feita anos atrás nos Estados Unidos. Os entrevistadores queriam saber se as pessoas tomariam parte em uma missão só de ida para colonizar Marte. Dos entrevistados, 33% simpatizaram com o projeto — 7% dizendo que viajariam, e 26% que considerariam a possibilidade. A pergunta surgiu a frio, sem maiores esclarecimentos sobre a missão. Por exemplo: em Marte há temperaturas de até 140 graus Celsius negativos, tempestades frequentes com ventos de até 300 quilômetros por hora, radiação altíssima e atmosfera rarefeita — tão rarefeita que, na maioria dos pousos, a espaçonave se espatifou no solo. Lá quase não há oxigênio e a água precisa ser obtida a partir do aquecimento de partículas de gelo do subsolo. Seria correto afirmar que um terço dos americanos encararia a viagem ao Planeta Vermelho? É evidente que não. As pessoas possivelmente selecionaram uma das alternativas apenas porque foram consultadas. Imagine a pesquisa repetida no dia do embarque. Quem dissesse que sim, ou que consideraria a hipótese, seria encaminhado ao foguete. Teríamos 33% de adesão?


Em qualquer país democrático, há um interesse geral pelas pesquisas de intenção de voto. Não será diferente no Brasil em 2018 quando entrarmos no clima de eleição. Ainda é cedo. Acabamos de sair do clima de Carnaval, e em breve entraremos em clima de Copa. O clima de eleição virá no segundo semestre. Faltam sete meses para o dia D. Na gravidez, a sete meses do parto, uma parcela reduzida das mães definiu o nome da criança. Seria estranho que os eleitores já tivessem escolhas firmes se nem os partidos resolveram quem lançar ou apoiar. As convenções ocorrem entre julho e agosto. É precipitado querer tirar grandes conclusões a esta altura do campeonato. Quem tentou quebrou a cara. No começo de 1989, a Federação das Indústrias de São Paulo declarou que suas pesquisas capturavam uma inclinação da sociedade por “candidaturas de centro-esquerda”. Deu Fernando Collor. Na largada da corrida de 1994, Lula estava na frente e a candidatura de Fernando Henrique Cardoso foi descrita como “obra de ficção”. Nos primeiros levantamentos de 2002, Roseana Sarney aparecia em segundo lugar. Nem candidata foi. No início de 2010, o tucano José Serra parecia ter chances reais de vitória. Foi derrotado por Dilma. Os responsáveis pelos institutos estão roucos de repetir que a ferramenta não se presta a prognósticos porque o eleitor muda e o cenário muda, mas não adianta. É sair uma pesquisa e surgem as críticas. Uma hora as pesquisas são ruins porque erram demais. Outra hora porque influenciam o voto do eleitor. “Fica difícil imaginar como as pesquisas podem cometer dois erros que se anulam”, comenta Márcia Cavallari, do Ibope. “Ou bem erram demais porque o eleitor vota de modo diferente do que elas sugerem, ou influenciam o voto, e nesse caso não erram demais.” Em janeiro, o Datafolha recebeu as primeiras e injustas críticas por ter divulgado uma rodada com nove cenários distintos. Qualquer pesquisa feita nessa fase só poderia reproduzir o ambiente caótico recorrendo a combinações múltiplas. “Os institutos lidam com hipóteses”, diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. “As pesquisas existem para simular a realidade, e sua divulgação para dar a todas as pessoas, de forma democrática, uma noção de como a sociedade vai se comportar quando os fatos surgirem à sua frente”.

Nem todo mundo enxerga as pesquisas dessa forma. No Congresso Nacional, a toda hora surge uma iniciativa liberticida querendo limitar o trabalho dos institutos. Os políticos gostam das pesquisas, tanto que não dão um passo sem elas. O que os incomoda é a divulgação dos resultados. Querem as informações só para eles. A sociedade que fique às cegas. Na segunda-feira 5, o Tribunal Superior Eleitoral baixou uma resolução sem precedentes, tirando do cidadão o direito básico de receber e triar as pesquisas livremente. Pela resolução, pesquisas que colhessem intenção de voto não poderiam tratar de outros assuntos. E pesquisas que tratassem de outros assuntos não poderiam colher intenção de voto. Fazer avaliação de governo e colher intenção de voto, como o instituto MDA fez para a Confederação Nacional do Transporte há alguns dias, ficaria proibido, por exemplo. A decisão equivale, em absurdo, à vigilância sanitária proibir os restaurantes de servir pizzas com dois sabores. Tem de decidir. Ou só mussarela, ou só calabresa. Pegou tão mal que o TSE voltou atrás três dias depois.


* Eduardo Oinegue é jornalista, palestrante, consultor de empresas e colunista do Grupo Bandeirantes de Rádio e Televisão

Lavareda palestra no Instituto de Governança Corporativa

Blog do Magno Martins – 07/03/18

Diante de um cenário de incertezas no quadro político nacional, indefinições e especulações sobre a agenda política brasileira em 2018 geram ansiedade nos meios político e econômico. Para falar sobre essa temática, o sociólogo e cientista político Antônio Lavareda apresentará palestra no Instituto Brasileiro de Governança Corporativa no próximo dia 27, no Grand Mercure, em São Paulo. Outras informações: eventosibgc@ibgc.org.br ou www.ibgc.org.br

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Brasil é tema de debate na FAAP

Evento gratuito e aberto ao público discutirá o momento atual, na busca por saídas viáveis para o desenvolvimento do país

Começa hoje (05/03) a 18.a Semana de Relações Internacionais e Economia no campus de São Paulo da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). O objetivo é discutir a posição do Brasil frente ao cenário internacional, nos aspectos políticos, econômicos e sociais. O evento é aberto ao público e termina na sexta-feira (9/3). “É muito importante discutir o Brasil nesse momento de grande instabilidade e polarização. Este é o nosso papel enquanto universidade: problematizar a realidade e refletir sobre saídas viáveis para o desenvolvimento do país”, afirma Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP.

Entre os temas abordados estão Direitos Humanos, Corrupção e Ética, O Brasil no Mundo de Trump, Desafios e Oportunidades Internacionais, Conjuntura Econômica e Reforma da Previdência. O evento reúne um grande time de especialistas. Entre eles, Antonio Lavareda, comentarista político da Band News, Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, Christian Lohbauer, ex-diretor de Assuntos Corporativos e Governamentais da Bayer, André Perfeito, economista- chefe da Gradual Investimentos, Erika Ramos, procuradora federal da Advocacia-Geral da União (AGU), William Torres, advogado da Caritas, além de Benoni Belli, diplomata e Diretor de Policy Planning do Itamaraty, e Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute, do Wilson Center, em Washington D.C. A visão do Brasil, segundo os correspondentes internacionais, também estará presente no encontro e fará parte de um painel que contará com a presença dos jornalistas Carlos Meneses, da Agência EFE, Daniel Gallas, da BBC, e Veronica Goyzueta, do jornal espanhol ABC, com a mediação de Marcelo Favalli, da Band News.

A 18.a Semana de Relações Internacionais e Economia da FAAP foi organizada dentro do novo conceito da instituição, denominado “Global Management”. Lançado em 2017, o programa aproveita a sinergia dos cursos de Administração, Economia, Relações Internacionais e Direito, para oferecer ao aluno a oportunidade de ampliar o conhecimento com a inclusão de mais disciplinas pré-estabelecidas, além daquelas obrigatórias do seu curso de graduação, sem custo adicional.

18.a Semana de Relações Internacionais e Economia da FAAP
Data: 5 a 9 de março de 2018 – entre 9 e 11 horas
Local: Centro de Convenções – FAAP
Endereço: Rua Alagoas, 903
Informações: 11.3662-7352

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