Fake News em pauta no Ponto a Ponto

Assista ao Ponto a Ponto que discutiu Fake News, com a advogada Taís Gasparian. A entrevista foi ao ar no último dia 24 de março, na BandNewsTV.

Taís Gasparian é bacharel em Direito pela Faculdade de Direito e em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, ambas da Universidade de São Paulo (USP), mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Faculdade de Direito da USP.

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A alma da opinião pública

O desafio dos institutos de pesquisa para entender e traduzir o que pensa essa estranha entidade que fala de tudo

Por Eduardo Oinegue – Veja Online


Há uns dez anos, o Ibope conduziu uma pesquisa sobre corrupção. Durante a execução, constatou que as pessoas até admitiam a prática de atos ilícitos, mas apontavam seus vizinhos e familiares como antiéticos de verdade, bem mais do que elas próprias. Esses, sim, costumavam subornar o guarda, comprar produtos piratas, falsificar documentos, sonegar impostos ou fazer gato de luz e de TV a cabo. Como é estatisticamente improvável que o Ibope tenha cruzado apenas com os mais íntegros, dá para arriscar que os entrevistados não foram exatamente francos. Quando se pergunta aos fumantes se pretendem parar de fumar, a maioria diz que sim porque pega bem. Quando se entrevistam os motoristas sobre as razões que os levam a usar o telefone ao volante, quase 40% dizem que é para atender ligações urgentes. Convenhamos: pega mal dizer que eles adoram uma selfie no carro.


Em 2013, a psicóloga Terri Fisher, da Universidade de Ohio, publicou um artigo na revista científica Sex Roles para mostrar como o ser humano pode ser imaginativo nas pesquisas sobre comportamento sexual. O trabalho relata a enquete feita com um grupo de jovens heterossexuais aos quais foram feitas as mesmas perguntas. Detalhe: metade deles foi ligada a um falso detector de mentiras apresentado como verdadeiro. O que aconteceu? Os rapazes “sem aparelho” disseram ter se relacionado com um número maior de parceiras do que os “com aparelho”, e as garotas “sem aparelho”, com um número menor de parceiros do que as “com aparelho”. “Quando o assunto é delicado, as pessoas têm o impulso de tentar impressionar até mesmo alguém que jamais viram nem voltarão a ver”, afirma Márcia Cavallari, diretora do Ibope.

Pois é com esse personagem complexo e de perfil gelatinoso, o entrevistado, que os institutos de pesquisa contam para investigar a chamada opinião pública — que se comporta de maneira muito parecida em qualquer país do mundo. As pessoas se enxergam ou se dizem mais conscientes e mais íntegras do que são e, por que não?, sexualmente mais ou menos ativas, conforme o gênero. Nas pesquisas sobre o candidato a presidente da República ideal, os brasileiros pedem alguém honesto, preparado, firme, de boa formação, equilibrado e inovador. Nas que pedem um nome, citam Lula e Jair Bolsonaro. Toda atividade profissional opera segundo premissas. Na engenharia, é premissa que se possa calcular o comportamento do solo e do clima no local de uma grande obra com base em curvas históricas de variação de temperatura, intensidade dos ventos e índice pluviométrico. Os profissionais de pesquisa também têm premissas. Uma delas é que, quando vão a campo, capturam o que as pessoas pensam ou sentem, valendo-se de técnicas para superar a criatividade e interpretar as mensagens aparentemente contraditórias.

Além de tentar impressionar o pesquisador, o entrevistado muitas vezes quer “acertar” a resposta. Ainda que pesquisa não seja prova de conhecimentos gerais, com alternativas corretas e incorretas, uma parte dos entrevistados se guia por eventuais pistas contidas nos enunciados. Daí a importância de preparar perguntas o mais isentas possível. Questões enviesadas comprometem o resultado final. Para mensurar
o poder pernicioso da indução, este autor pediu ao Instituto Vox Populi que realizasse uma pesquisa-teste com o tema “pena de morte”. A amostra, que traduz fielmente as estatísticas oficiais de composição da sociedade brasileira, contém 2 000 entrevistas. O teste, supervisionado pessoalmente por Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, consistiu em apresentar uma única pergunta direta (“Você é a favor ou contra a pena de morte?”) após a leitura de um breve texto introdutório. Metade da amostra ouviu um texto, metade outro, antagônicos entre si e tendenciosos. O primeiro texto tem um viés a favor da pena de morte. O segundo tem inclinação oposta, contra a pena de morte.

Como reagiram os entrevistados? Tomemos apenas o conjunto de respostas contra e a favor, uma vez que as respostas “nem a favor, nem contra” e “não sabe” ou “não respondeu” ficaram mais ou menos do mesmo tamanho nos dois casos. Placar do primeiro texto, com ênfase na criminalidade: 53% a favor, 47% contra. Placar do segundo texto, com ênfase nos erros judiciais: 38% a favor, 62% contra. A força da indução foi de significativos 15 pontos porcentuais. “Num caso, mais da metade apoiou a pena de morte. No outro, quase dois terços ficaram contra”, comenta Marcos Coimbra. “O trabalho que fizemos reforça a responsabilidade dos institutos de capturar a informação de forma técnica e isenta, já que a divulgação dos dados pode produzir desdobramentos políticos e sociais significativos.” Coimbra observa que o teste não autoriza ninguém a achar que a opinião pública é massa de manobra. “A sociedade sabe o que quer e sabe o que não quer. Se o Brasil estivesse debatendo pena de morte, o assunto estaria na pauta do dia, nos meios de comunicação e nas redes sociais, e haveria um sentimento sobre ela nas ruas”, afirma Coimbra. “Dificilmente as pessoas se deixariam influenciar como na pesquisa que fizemos.” Coimbra está dizendo que as pessoas se mobilizam quando surge o “clima”.

Num certo sentido, é como se existissem duas opiniões públicas. A natural, que responde e reage aos assuntos concretos (Diretas Já em 1984, impeachment de Collor em 1992, manifestações de 2013), e a opinião pública de laboratório, que responde porque alguém teve a ideia de perguntar. “As pessoas sempre terão opinião sobre tudo. Até sobre física quântica ou se os aliados erraram ao desembarcar na Normandia. Cabe aos institutos submeter à sociedade temas em que ouvir as pessoas faça sentido. Do contrário, saímos da ciência e entramos no mundo das curiosidades”, diz o cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) e um dos grandes especialistas brasileiros em pesquisa e comportamento social.

Um bom exemplo de curiosidade é uma pesquisa sobre viagem a Marte feita anos atrás nos Estados Unidos. Os entrevistadores queriam saber se as pessoas tomariam parte em uma missão só de ida para colonizar Marte. Dos entrevistados, 33% simpatizaram com o projeto — 7% dizendo que viajariam, e 26% que considerariam a possibilidade. A pergunta surgiu a frio, sem maiores esclarecimentos sobre a missão. Por exemplo: em Marte há temperaturas de até 140 graus Celsius negativos, tempestades frequentes com ventos de até 300 quilômetros por hora, radiação altíssima e atmosfera rarefeita — tão rarefeita que, na maioria dos pousos, a espaçonave se espatifou no solo. Lá quase não há oxigênio e a água precisa ser obtida a partir do aquecimento de partículas de gelo do subsolo. Seria correto afirmar que um terço dos americanos encararia a viagem ao Planeta Vermelho? É evidente que não. As pessoas possivelmente selecionaram uma das alternativas apenas porque foram consultadas. Imagine a pesquisa repetida no dia do embarque. Quem dissesse que sim, ou que consideraria a hipótese, seria encaminhado ao foguete. Teríamos 33% de adesão?


Em qualquer país democrático, há um interesse geral pelas pesquisas de intenção de voto. Não será diferente no Brasil em 2018 quando entrarmos no clima de eleição. Ainda é cedo. Acabamos de sair do clima de Carnaval, e em breve entraremos em clima de Copa. O clima de eleição virá no segundo semestre. Faltam sete meses para o dia D. Na gravidez, a sete meses do parto, uma parcela reduzida das mães definiu o nome da criança. Seria estranho que os eleitores já tivessem escolhas firmes se nem os partidos resolveram quem lançar ou apoiar. As convenções ocorrem entre julho e agosto. É precipitado querer tirar grandes conclusões a esta altura do campeonato. Quem tentou quebrou a cara. No começo de 1989, a Federação das Indústrias de São Paulo declarou que suas pesquisas capturavam uma inclinação da sociedade por “candidaturas de centro-esquerda”. Deu Fernando Collor. Na largada da corrida de 1994, Lula estava na frente e a candidatura de Fernando Henrique Cardoso foi descrita como “obra de ficção”. Nos primeiros levantamentos de 2002, Roseana Sarney aparecia em segundo lugar. Nem candidata foi. No início de 2010, o tucano José Serra parecia ter chances reais de vitória. Foi derrotado por Dilma. Os responsáveis pelos institutos estão roucos de repetir que a ferramenta não se presta a prognósticos porque o eleitor muda e o cenário muda, mas não adianta. É sair uma pesquisa e surgem as críticas. Uma hora as pesquisas são ruins porque erram demais. Outra hora porque influenciam o voto do eleitor. “Fica difícil imaginar como as pesquisas podem cometer dois erros que se anulam”, comenta Márcia Cavallari, do Ibope. “Ou bem erram demais porque o eleitor vota de modo diferente do que elas sugerem, ou influenciam o voto, e nesse caso não erram demais.” Em janeiro, o Datafolha recebeu as primeiras e injustas críticas por ter divulgado uma rodada com nove cenários distintos. Qualquer pesquisa feita nessa fase só poderia reproduzir o ambiente caótico recorrendo a combinações múltiplas. “Os institutos lidam com hipóteses”, diz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha. “As pesquisas existem para simular a realidade, e sua divulgação para dar a todas as pessoas, de forma democrática, uma noção de como a sociedade vai se comportar quando os fatos surgirem à sua frente”.

Nem todo mundo enxerga as pesquisas dessa forma. No Congresso Nacional, a toda hora surge uma iniciativa liberticida querendo limitar o trabalho dos institutos. Os políticos gostam das pesquisas, tanto que não dão um passo sem elas. O que os incomoda é a divulgação dos resultados. Querem as informações só para eles. A sociedade que fique às cegas. Na segunda-feira 5, o Tribunal Superior Eleitoral baixou uma resolução sem precedentes, tirando do cidadão o direito básico de receber e triar as pesquisas livremente. Pela resolução, pesquisas que colhessem intenção de voto não poderiam tratar de outros assuntos. E pesquisas que tratassem de outros assuntos não poderiam colher intenção de voto. Fazer avaliação de governo e colher intenção de voto, como o instituto MDA fez para a Confederação Nacional do Transporte há alguns dias, ficaria proibido, por exemplo. A decisão equivale, em absurdo, à vigilância sanitária proibir os restaurantes de servir pizzas com dois sabores. Tem de decidir. Ou só mussarela, ou só calabresa. Pegou tão mal que o TSE voltou atrás três dias depois.


* Eduardo Oinegue é jornalista, palestrante, consultor de empresas e colunista do Grupo Bandeirantes de Rádio e Televisão

Lavareda palestra no Instituto de Governança Corporativa

Blog do Magno Martins – 07/03/18

Diante de um cenário de incertezas no quadro político nacional, indefinições e especulações sobre a agenda política brasileira em 2018 geram ansiedade nos meios político e econômico. Para falar sobre essa temática, o sociólogo e cientista político Antônio Lavareda apresentará palestra no Instituto Brasileiro de Governança Corporativa no próximo dia 27, no Grand Mercure, em São Paulo. Outras informações: eventosibgc@ibgc.org.br ou www.ibgc.org.br

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Evento gratuito e aberto ao público discutirá o momento atual, na busca por saídas viáveis para o desenvolvimento do país

Começa hoje (05/03) a 18.a Semana de Relações Internacionais e Economia no campus de São Paulo da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). O objetivo é discutir a posição do Brasil frente ao cenário internacional, nos aspectos políticos, econômicos e sociais. O evento é aberto ao público e termina na sexta-feira (9/3). “É muito importante discutir o Brasil nesse momento de grande instabilidade e polarização. Este é o nosso papel enquanto universidade: problematizar a realidade e refletir sobre saídas viáveis para o desenvolvimento do país”, afirma Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP.

Entre os temas abordados estão Direitos Humanos, Corrupção e Ética, O Brasil no Mundo de Trump, Desafios e Oportunidades Internacionais, Conjuntura Econômica e Reforma da Previdência. O evento reúne um grande time de especialistas. Entre eles, Antonio Lavareda, comentarista político da Band News, Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, Christian Lohbauer, ex-diretor de Assuntos Corporativos e Governamentais da Bayer, André Perfeito, economista- chefe da Gradual Investimentos, Erika Ramos, procuradora federal da Advocacia-Geral da União (AGU), William Torres, advogado da Caritas, além de Benoni Belli, diplomata e Diretor de Policy Planning do Itamaraty, e Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute, do Wilson Center, em Washington D.C. A visão do Brasil, segundo os correspondentes internacionais, também estará presente no encontro e fará parte de um painel que contará com a presença dos jornalistas Carlos Meneses, da Agência EFE, Daniel Gallas, da BBC, e Veronica Goyzueta, do jornal espanhol ABC, com a mediação de Marcelo Favalli, da Band News.

A 18.a Semana de Relações Internacionais e Economia da FAAP foi organizada dentro do novo conceito da instituição, denominado “Global Management”. Lançado em 2017, o programa aproveita a sinergia dos cursos de Administração, Economia, Relações Internacionais e Direito, para oferecer ao aluno a oportunidade de ampliar o conhecimento com a inclusão de mais disciplinas pré-estabelecidas, além daquelas obrigatórias do seu curso de graduação, sem custo adicional.

18.a Semana de Relações Internacionais e Economia da FAAP
Data: 5 a 9 de março de 2018 – entre 9 e 11 horas
Local: Centro de Convenções – FAAP
Endereço: Rua Alagoas, 903
Informações: 11.3662-7352

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“A intervenção federal no Rio” é tema do Ponto a Ponto

Antonio Lavareda e Mônica Bergamo entrevistam Jorge Félix no Ponto a Ponto; assista

“O Brasil tem muita dificuldade em reconhecer sucesso”, diz cientista político do Insper

O cientista político do Insper Fernando Schüler diz não entender o motivo de o Brasil tem de não admitir a trajetória positiva da economia do governo Temer. "O Brasil tem muita dificuldade em reconhecer sucesso. O governo tirou o país de 7% de queda do PIB em dois anos, com um crescimento esperado que deve ser superior a 3% este ano. Você lê o jornal e parece que o Brasil vive um caos". 

A afirmação foi feita em uma entrevista exclusiva a Mônica Bergamo e Antonio Lavareda, no Ponto a Ponto, da BandNewsTV, no último sábado (3).

De acordo com Antonio Lavareda, há uma explicação. "O famoso 17 de maio de 2017. A questão da denúncia do Joesley Batista e o que veio a seguir com o procurador e as duas denúncias no Congresso contaminaram bastante a imagem do presidente até hoje e tem servido para impedir/ vedar que o governo consiga capitalizar os feitos da economia", afirmou Lavareda.

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“A intervenção federal no Rio” é tema do Ponto a Ponto

Especialista em Segurança, o coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo e ex-secretário de Segurança Nacional, José Vicente da Silva Filho, foi o convidado do Ponto a Ponto do último sábado (24) para discutir a crise no Rio e a intervenção federal. A entrevista tem ancoragem da jornalista Mônica Bergamo e do cientista político Antonio Lavareda.

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O câncer será a doença que mais vai matar no futuro, alerta especialista

Mídias sociais e política no Ponto a Ponto; assista

O publicitário Daniel Braga, da Social QI, foi o entrevistado do Ponto a Ponto, da BandNewsTV, desse sábado (17). De acordo com pesquisa do CNT-MDA, realizada entre 13 e 16 de setembro de 2017, de 2.002 entrevistados, 40,6% disseram que não compartilham notícias na internet; 33% sempre compartilham e dizem evitar divulgar notícias não verdadeiras; 16,8% às vezes se preocupam em confirmar se aquilo que está compartilhando é, de fato, real; 5,9% nunca checam e 3,6% não souberam ou não responderam. 

Veja aqui o programa na íntegra:

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Anúncios pagos em redes sociais ampliam recursos para candidatos

Um grito ecoa na avenida: CHEGA!

Protesto e indignação tomaram conta do Sambódromo. Em pleno ano de eleição, especialistas em política dizem que pode ser o começo de uma temporada quente

Por Luisa Bustamante, Maria Clara Vieira – Veja

Os enredos de escola de samba do Rio são, por tradição, celebrações épicas de lendas, de figuras do folclore, de acontecimentos históricos e de tudo que favoreça o brilho e a opulência típicos dos desfiles na Sapucaí. Questões políticas só comparecem raramente, com discrição, como convém a agremiações movidas a dinheiro público, patrocínios e governantes amigos. Pois este ano não foi nada igual àqueles que passaram. Com pouca verba e sem costas quentes, as escolas optaram por temperar a exaltação com a voz rouca das ruas, rodaram a baiana da indignação e fizeram do Sambódromo uma caixa de ressonância da insatisfação popular com os governos, os políticos e a corrupção. Em pleno ano eleitoral, a revolta coreografada e celebrada na passarela é um sinal nítido do humor da população: ela está farta.

“Oh, pátria amada, por onde andarás? Seus filhos já não aguentam mais! Você que não soube cuidar, você que negou o amor, vem aprender na Beija-Flor” Beija-flor, 'Monstro É Aquele que Não Sabe Amar (Os Filhos Abandonados da Pátria que Os Pariu)' A folia se encerra definitivamente neste sábado 17, no desfile das campeãs, mas a grande maioria dos quinze cientistas políticos e historiadores ouvidos por VEJA não tem dúvida de que o descontentamento captado na festa é um prenúncio do clima que deverá prevalecer na campanha eleitoral deste ano — embora dois dos quinze estudiosos consultados por VEJA acreditem que a indignação tenha acabado na Quarta de Cinzas. “Se tudo permanecer como está, com políticos acusados de corrupção e protegidos por imunidade, a população chegará para votar ainda mais desesperançada”, diz Carlos Montenegro, presidente do Ibope. “O que se viu no Sambódromo foi a fermentação dos sentimentos da sociedade neste período difícil. As escolas não produzem insatisfação, só expressam um sentimento acumulado”, analisa o cientista político Antonio Lavareda. “A Sapucaí de 2018 dialoga com o grito das ruas de 2013.” É o mesmo raciocínio do professor José Álvaro Moisés, da USP. “Dada a gravidade da situação que vivemos, seria inevitável que essa crítica viesse à tona. Portanto, não surpreende”, diz ele.

Nesse ambiente difuso, nem esquerda nem direita podem apresentar-se como redentoras na avenida. A campeã Beija-Flor, com sua devastadora denúncia da violência e da corrupção, criticou o petrolão patrocinado pelo PT com uma imensa ratazana puxando um prédio da Petrobras, que se transformava em favela. A leitura é inequívoca: o PT dos pobres transformou-se num criador de miséria com sua corrupção organizada. A Paraíso do Tuiuti, vice-campeã, retratou os manifestantes que vestiam camiseta verde e amarela e batiam panelas em 2016 como fantoches do grande poder econômico, simbolizado na avenida pelo pato amarelo da Fiesp. E, na crítica à reforma trabalhista, chegou ao desfile com uma caracterização implacável do presidente Michel Temer como “vampiro neoliberalista”, usando uma gola elisabetana feita com enormes notas de dólar. A Mangueira, a quinta colocada, espicaçou o prefeito Marcelo Crivella ao expô-lo como Judas num dos carros com uma provocação: “Pecado é não brincar o Carnaval”. Faz sentido a crítica aos dois lados do mundo ideológico: esquerda e direita, cada uma a seu modo e a seu tempo, mantiveram vivo o sistema que agora, apodrecido, não cessa de indignar os eleitores.

“Meu Deus! Meu Deus! Se eu chorar, não leve a mal. Pela luz do candeeiro, liberte o cativeiro social” Paraíso do Tuiuti, 'Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?' Convém manter viva a indignação quando se sabe que, numa contradição típica do país em que as exigências éticas se aplicam apenas aos outros, a Beija-Flor tem como presidente de honra Anísio Abrahão David, bicheiro de 80 anos com seis passagens pela cadeia e condenações que somam 73 anos de prisão. Ele recorre em liberdade. Chega a ser cômico que sua escola faça uma defesa cerrada da ética. A própria Tuiuti, cujo carro alegórico matou uma mulher no Carnaval do ano passado, não é exatamente uma voz livre. Antes do desfile, seu carnavalesco, Jack Vasconcelos, deu uma entrevista em que admitia candidamente que, nos governos do PT, não fazia críticas para não “arranhar a relação” com o poder. Disse ele: “Enredos mais críticos não eram incentivados. Agora, com uma guerra declarada, temos uma abertura maior”. De fato, antes que a crise econômica se abatesse sobre o Brasil, e antes que o propinoduto de Lula fosse exposto, o tom dos enredos pendia para o ufanismo. O eco dos elogios subia vários decibéis quando a agremiação “homenageava” algum estado, país ou indústria que se propusesse a arcar com as despesas da festa. Tudo isso mostra que as escolas não devem ser confundidas com a guarda pretoriana da boa moral, embora tenham vocalizado um sentimento nacional com críticas à esquerda e à direita. “Esses protestos podem ser o estopim de algo maior, se os movimentos políticos souberem aproveitar a insatisfação com o status quo”, diz o filósofo Roberto Romano.

O desabafo no Sambódromo foi um desses momentos extraordinários em que uma manifestação artística anda de mãos dadas com o humor da sociedade. Sempre haverá quem goste e quem desgoste, especialmente num país rachado ao meio como o Brasil. Momentos como esse são raros, bonitos e pedem um olhar profundo, como sugere a Carta ao Leitor desta edição. Na história recente do Brasil, foi assim com o desfile dos feios, sujos
e maltrapilhos de Joãosinho Trinta na Beija-Flor em 1989, ano de eleição presidencial, a primeira depois da ditadura militar. Foi assim também, um pouco antes, com o definitivo samba Vai Passar, de Chico Buarque, que em
1984 revelou “a nossa pátria mãe tão distraída / sem perceber que era subtraída / em tenebrosas transações” — versos que se consagraram como hino do fim da festa de um regime autoritário, já na antessala das Diretas Já.

Mangueira, 'Com Dinheiro ou sem Dinheiro, Eu Brinco!'

Numa avaliação técnica, a apresentação da Beija-Flor foi apenas mediana. Mas, no calor da empolgação popular, atraiu também o interesse dos jurados. Pode-se dizer o mesmo do desempenho da Tuiuti, que não se superou em originalidade nem criatividade em nenhum quesito. Na Beija- Flor, além do ratão da Petrobras, uma ala mostrava a “turma do guardanapo” do ex-governador Sérgio Cabral, hoje preso. “Não foi, nem de longe, o melhor desfile da escola”, avalia a doutora em história Rosa Maria Araújo, presidente do Museu da Imagem e do Som do Rio. “O protesto político passou à frente da estética e da técnica.” Isso também ocorreu com a Portela, que citou a questão dos refugiados, e com o Salgueiro, ao invocar a Pietà, de Michelangelo, com mãe e filho negros, para denunciar a violência.

A cada protesto, o povo se levantava, aplaudia e gritava. “Resta ver como as pessoas vão canalizar a insatisfação de forma produtiva”, pondera o sociólogo Simon Schwartzman. Com o público de cerca de 140 000 pessoas nas arquibancadas multiplicado pelos telespectadores da transmissão ao vivo (35 milhões só no Rio e em São Paulo), os desfiles da Sapucaí fizeram ferver as redes sociais. A Paraíso do Tuiuti foi parar nos trending topics do Twitter como o assunto mais comentado no Brasil e o segundo no mundo. “Criou-se, de novo, o embate entre esquerda e direita, o que me preocupa”, aponta o cientista político Ricardo Ismael. “Enquanto não sairmos dessa agenda de confronto, o país não andará.”

Talentosos na hora de detectar por quem os pandeiros vibram, os políticos sempre fizeram da Sapucaí uma vitrine — Cabral e Lula adoravam os camarotes, Dilma posou até com Madonna e — inesquecível — o então presidente Itamar Franco posou ao lado de uma modelo sem calcinha. Desta vez, quem não está na prisão se recolheu. Temer não apareceu. O governador Luiz Fernando Pezão passou o feriado em Piraí, sua cidade natal. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, limitou-se a postar, na sexta 9, mensagem contra o álcool ao volante, tendo ao lado dois humanos fantasiados de foca. Queria dizer “foca na vida”. A postagem rendeu trinta comentários. Crivella divulgou um vídeo que o mostra em frente ao centro espacial europeu na Alemanha, onde esteve “a trabalho”, disse, buscando soluções para um Rio em convulsão. A honrosa exceção foi o prefeito de São Paulo, João Doria, que bateu ponto em três carnavais: no Sambódromo paulista, na Sapucaí e no desfile de trios elétricos em Salvador. Recebeu, alternadamente, aplausos, vaias e indiferença, sobretudo na foto que insistiu em fazer ao lado de um contrariado Zeca Pagodinho. Os políticos foram expulsos da avenida.

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