Os políticos apanharam feio na Sapucaí. E especialistas ouvidos por VEJA informam que os protestos do Carnaval são o prenúncio de um ano eleitoral quente. A folia se encerra definitivamente neste sábado 17, no desfile das campeãs, mas a grande maioria dos quinze cientistas políticos e historiadores ouvidos por VEJA não tem dúvida de que o descontentamento captado na festa é um prenúncio do clima que deverá prevalecer na campanha eleitoral deste ano. Somente dois dos quinze estudiosos consultados acreditam que a indignação tenha acabado na Quarta de Cinzas.
“Se tudo permanecer como está, com políticos acusados de corrupção e protegidos por imunidade, a população chegará para votar ainda mais desesperançada”, diz Carlos Montenegro, presidente do Ibope. “O que se viu no Sambódromo foi a fermentação dos sentimentos da sociedade neste período difícil. As escolas não produzem insatisfação, só expressam um sentimento acumulado”, analisa o cientista político Antonio Lavareda. “A Sapucaí de 2018 dialoga com o grito das ruas de 2013.” É o mesmo raciocínio do professor José Álvaro Moisés, da USP. “Dada a gravidade da situação que vivemos, seria inevitável que essa crítica viesse à tona. Portanto, não surpreende”, diz ele.
A diretora executiva do Instituto Kaplan, Maria Helena Vilela, foi a entrevistada do último Ponto a Ponto do último sábado (27). Vilela é enfermeira obstetra, psicodramatista com especialização em Saúde Pública e em Sexualidade Humana pelo Centro de Estudos de Sexualidade Instituto H. Ellis. A atração, apresentada por Mônica Bergamo e Antonio Lavareda, é veiculada na BandNewsTV, às 0h.
Na entrevista, um dos assuntos tratados é a performance nu no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. Segundo a educadora sexual, "o caso não se caracterizou como pedofilia, pois não estava direcionada para crianças. Não podíamos dizer que era pedofilia, como estava sendo chamada nas redes sociais. Fiquei abismada com a violência dos comentários na minha página", disse.
Maria Helena Vilela fez um alerta: "Hoje, o jovem tem uma vida sexual muito liberal, mais do que antigamente. A opção que o jovem toma, hoje, sobre a sua sexualidade depende da bagagem dele. Se a bagagem dele é quase nada, ele está muito mais vulnerável do que aquele que teve oportunidade de conversar com alguém na escola ou em casa".
O talk show da Band foi ao ar no último domingo (28) e teve debates dos cientistas políticos Antonio Lavareda e Cláudio Couto. O assunto foi a condenação do ex-presidente Lula em segunda instância.
Os políticos terão uma nova arma à disposição na campanha de 2018. Além da propaganda de rádio e TV —uma bala de canhão, com potência para atingir um número amplo de telespectadores—, eles poderão dar tiros mais certeiros em seus eleitores. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) autorizou a propaganda eleitoral na internet, o que inclui pagar para exibir anúncios eleitorais ou impulsionar publicações em plataformas como o Facebook, Instagram, YouTube e o Twitter.
O tribunal também permite que campanhas usem sites, e-mails, blogs e aplicativos de mensagem instantânea, a partir de 16 de agosto. Somente candidatos, partidos e coligações poderão panfletar nas redes, fornecendo dados sobre sua identidade eletrônica à Justiça Eleitoral. Estão proibidos de impulsionar conteúdo eleitoral nas redes perfis falsos, páginas ligadas a empresas e a entidades da administração pública. O TSE tem até 5 de março para publicar a versão definitiva das regras. Empresas de tecnologia consultadas pela Folha, como Google, Facebook (que também responde pelo Instagram) e Twitter dizem que vão respeitar as novas normas.
Como o Facebook se prepara para receber anúncios eleitorais
NOVO CAPÍTULO
Por ora, cientistas políticos e marqueteiros apostam que o impulsionamento de propaganda na internet inaugurará um novo capítulo no modo de fazer uma campanha no Brasil. As redes podem ser fundamentais para postulantes ao Legislativo, que costumam ter menos exposição midiática. "Um candidato nas disputas proporcionais [Câmara e Assembleias] com recursos para interagir e cultivar uma base potencial –digamos, uma grande corporação como a polícia– terá grande vantagem usando as redes", diz o cientista político Antonio Lavareda, especialista em comportamento eleitoral.
Nesse sentido, a possibilidade de impulsionar sua campanha nas redes pode favorecer candidatos com recursos próprios, que consigam colocar dinheiro nas campanhas ou angariar doações privadas. As novas regras de financiamento eleitoral proíbem doações de empresas e preveem o uso do fundo partidário. "Um candidato com mais poder financeiro vai ter mais visibilidade. É um ecossistema [nas redes sociais] que envolve mais planejamento, como buscar quais são os assuntos mais relevantes. É preciso pensar numa gestão de campanha digital, não adianta colocar o ‘play’ [num anúncio] e achar que está tudo certo", diz Arnaldo Jardim, diretor de planejamento digital da Benjamin, que tem campanhas como a de João Doria (PSDB) em 2016 no portfólio.
O valor da compra de visibilidade nas redes depende da complexidade dos filtros, e pode custar tanto quanto algumas fornadas de santinhos numa gráfica ou ultrapassar o valor de 30 segundos no intervalo da novela das 21h, na casa dos R$ 800 mil. Agência consultada diz que o orçamento para atingir um público de cerca de 45 milhões do Facebook é na ordem de R$ 12 milhões. Com 120 milhões de usuários no Brasil, a rede é a mais importante no país. A Folha apurou que a empresa quer aplicar recursos que tem testado nas eleições municipais no Canadá deste ano para o resto do mundo. Os perfis contêm uma seção em que é possível ver todos os anúncios que o usuário contratou.
ROBÔS
A formalização de campanhas na internet pode trazer também como consequência a diminuição do uso de robôs e de perfis falsos para amplificar informações nas redes, aposta Fábio Malini, professor da Universidade Federal do Espírito Santo e pesquisador de redes sociais e comunicação política. O que não impede que perfis falsos impulsionem publicações de conotação política, mas não necessariamente eleitoral –como aconteceu na eleição americana de 2016. A influência russa na vitória de Donald Trump passou pelo uso de perfis falsos. Desde então, o Facebook tem feito "mea culpa" e alterado suas políticas –a mais recente, omite notícias na linha do tempo em favor
de postagens pessoais. "Estamos comprometidos em aumentar a transparência dos anúncios políticos em todo o mundo, e recentemente anunciamos medidas concretas para dar ainda mais informação às pessoas sobre os
anúncios que elas veem. Também estamos cooperando com autoridades eleitorais sobre temas relacionados à segurança on-line. Esperamos tomar medidas também no Brasil antes das eleições de 2018", afirma o Facebook.
Vitória de ACM foi um marco na história do marketing político brasileiro | Foto: Propeg
Cinco anos após o fim da ditadura militar, o político baiano Antônio Carlos Magalhães, o ACM, encarou uma missão que parecia difícil. Em meio a forte campanha contrária, ele tentava voltar ao posto de governador – dessa vez pelo voto popular, e não por indicação dos militares.
Alguns dos ataques mais ousados vinham do publicitário Geraldo Walter, que, aos 33 anos, chefiava a campanha do empresário Luiz Pedro Irujo, candidato do PRN. Inspirado no filme O Grande Ditador (1940), em que Charles Chaplin satirizava Adolf Hitler, Walter bolou uma peça em que o papel do führer cabia a um sósia de ACM, que brincava com uma bola com as cores da bandeira baiana.
Em vez de negar a fama de autoritário, a campanha de ACM buscou retratá-lo como uma figura multifacetada. Valendo-se da influência do candomblé no Estado, a equipe coordenada pelo marqueteiro Fernando Barros produziu um comercial em que ACM era chamado de "negro de pele branca" e comparado a Oxumaré – orixá com feições múltiplas, ao mesmo tempo homem e mulher, calmo e irascível, rico e generoso.
ACM venceu a eleição no primeiro turno, e a disputa se tornou um marco na história do marketing político brasileiro. Quatro anos depois, em 1994, o marqueteiro vencedor e o derrotado se uniriam em prol da candidatura de Fernando Henrique Cardoso à Presidência, inaugurando uma era de domínio baiano em campanhas eleitorais no país, que perdura até hoje.
Desde aquela eleição, marqueteiros baianos chefiaram todas as campanhas vitoriosas para presidente da República no Brasil e várias no exterior. O êxito da dupla Walter-Barros em 1994 seria repetido nos anos seguintes por Nizan Guanaes, Duda Mendonça e João Santana.
Às vésperas da próxima eleição, porém, a primazia do grupo está ameaçada por escândalos de corrupção, que envolveram alguns dos seus principais expoentes e os afastaram da política.
Revolução tecnológica
'Usamos as tecnologias mais avançadas e trouxemos os melhores profissionais de cada área', lembra Barros sobre campanha de ACM na década de 1990 | Foto: Propeg
Fernando Barros diz que a campanha de ACM alçou o marketing político brasileiro a um novo patamar de qualidade técnica.
"Usamos as tecnologias mais avançadas e trouxemos os melhores profissionais de cada área: diretores de TV, fotógrafos, técnicos de áudio, de maquiagem, de figurino. Foi uma grande novidade", lembra Barros, presidente da agência Propeg.
Em parceria com Geraldo Walter e com o também baiano Nizan Guanaes, Barros replicou a estratégia na campanha de FHC – eleito em primeiro turno, embalado pelo sucesso do Plano Real.
Walter morreu de câncer aos 41 anos, a seis meses antes do pleito presidencial de 1998. A direção da campanha de FHC à reeleição ficou com Nizan, que voltaria a assessorar políticos tucanos em eleições seguintes.
Afastado de disputas eleitorais há mais de uma década, o baiano se tornou um dos principais nomes da publicidade brasileira. Um assistente de Nizan afirmou que ele estava viajando e não poderia dar entrevista.
REUTERS Depois de dirigir a bem-sucedida campanha de Fernando Henrique Cardoso, Nizan Guanaes se tornou um dos principais nomes da publicidade do país
Primeiro marqueteiro baiano
Fernando Barros atribuiu o sucesso de baianos no marketing político a fatores históricos. Ele afirma que, desde que Salvador foi capital do Brasil, entre 1549 e 1763, tornou-se terreno fértil para profissionais das letras, como jornalistas, publicitários e escritores.
Para o publicitário, o primeiro marqueteiro político do Brasil foi o poeta soteropolitano Gregório de Matos (1636-1696). "Ele na prática fazia campanhas, porque atacava governos, era remunerado, era advogado. Viveu das palavras, da maneira eloquente com que colocava suas ideias."
Apelidado de Boca do Inferno e Boca de Brasa por suas críticas ácidas, Matos foi deportado pela Coroa portuguesa para Angola e voltou ao Brasil pouco antes de morrer, aos 59 anos.
Barros diz ainda que, como a Bahia nunca teve um setor industrial forte, as agências de publicidade do Estado tiveram de se aproximar do governo e de políticos para sobreviver.
Autor de 18 livros sobre marketing eleitoral, o paulista Carlos Manhanelli diz que as agências de São Paulo, eixo do mercado publicitário brasileiro, nunca se destacaram como as baianas nesse meio por um cálculo de custo-benefício.
"Campanhas envolvem ideologia, e os clientes têm ideologia, então, as agências perdem clientes quando entram em campanha."
GETTY IMAGES O que é que a Bahia tem? Especialistas em campanhas eleitorais falam das referências culturais à proximidade com políticos
Para o cientista político pernambucano Antônio Lavareda, publicitários baianos devem parte de seu sucesso ao caldo cultural em que se criaram, o mesmo que deu origem a ícones da cultura popular brasileira, como Maria Bethânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Dorival Caymmi e Gal Costa.
"É natural que a Bahia, que tem referências culturais muito associadas a raízes populares e à música, tenha gerado profissionais com pendor para uma comunicação bastante emocional, que é a que tem dado mais certo na política."
Publicidade versus jornalismo
Consultor em comunicação e conselheiro do presidente Michel Temer, o potiguar Gaudêncio Torquato diz que a ascenção dos marqueteiros baianos mudou a forma de fazer campanha política no Brasil.
Segundo ele, as campanhas no país sempre se equilibraram entre a visão jornalística, baseada na difusão de informações, e a visão publicitária, de conteúdo mais emotivo, "até que os baianos chegaram e impuseram a visão publicitária".
Para Torquato, o publicitário Duda Mendonça, que, em 2002, chefiou a primeira campanha vitoriosa de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, levou a estratégia às últimas consequências e criou uma "grife".
REUTERS Campanha vitoriosa de Lula em 2002, chefiada por Duda Mendonça, investiu no conteúdo emotivo
No livro Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais, de Antônio Lavareda, Duda conta que sua tarefa na eleição de 2002 era apresentar ao Brasil "não o Lula das greves, dos sindicatos, mas um Lula humano, tranquilo, que tinha família, filhos e netos".
A imagem do "Sapo Barbudo", apelido irônico cunhado em 1989 por Leonel Brizola, deu lugar ao "Lulinha paz e amor", e o petista venceu o pleito.
Duda se destacara na política nacional ao conduzir Paulo Maluf, hoje preso na penitenciária da Papuda (DF), à prefeitura de São Paulo, em 1992. A célebre peça em que as obras do político eram listadas em meio ao slogan "Foi Maluf que fez" acabou replicada pelo baiano sete anos depois na campanha presidencial argentina.
Com o slogan "Menem lo hizo", Duda tentava eleger o candidato apoiado pelo então presidente Carlos Menem, Eduardo Duhalde. Lá, a tática não funcionou.
Uma assistente do publicitário disse que ele estava inacessível e não poderia ser entrevistado.
'McDonaldização'
Para Gaudêncio Torquato, Duda "é o grande responsável pela 'McDonaldização' do marketing político brasileiro: a aplicação de um mesmo modelo em várias campanhas".
Citado no escândalo do mensalão em 2005 (e absolvido sete anos depois pelo Supremo Tribunal Federal), Duda se afastou da política e passou o bastão a seu ex-sócio João Santana, que assessorou Lula na reeleição e chefiou as duas campanhas de Dilma Rousseff.
Nascido em Tucano, no sertão baiano, Santana deu novo impulso à internacionalização do marketing político brasileiro. Em 2009, chefiou a campanha vitoriosa de Mauricio Funes, em El Salvador; em 2012, as de Hugo Chávez, na Venezuela, de Danilo Medina, na República Dominicana, e de José Eduardo dos Santos, em Angola; e, em 2013, voltou à Venezuela para eleger Nicolás Maduro. Em 2014, sofreu o primeiro revés ao assessorar José Domingo Arias, no Panamá.
Marketing político brasileiro fez 'carreira internacional' | Foto: João Fellet/BBC Brasil
A projeção de Santana no exterior ocorreu paralelamente à expansão internacional de empreiteiras brasileiras, entre as quais as baianas Odebrecht e OAS. Em 2016, num desdobramento da operação Lava Jato, o marqueteiro e sua mulher, a publicitária Mônica Moura, foram presos enquanto eram investigados pelo recebimento de recursos no exterior.
Em acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal, o casal disse que os pagamentos foram feitos pela Odebrecht e estavam relacionados aos trabalhos da dupla em Angola, na Venezuela e no Panamá. Ambos afirmaram ainda que Lula lhes pediu que realizassem as campanhas nesses países.
Advogados do ex-presidente dizem que delações não são provas e que quem acusa o petista busca benefícios judiciais. A Odebrecht diz colaborar com as investigações.
Em 2017, Santana e Moura foram condenados pelo juiz federal Sérgio Moro a oito anos de prisão por lavagem de dinheiro, acusação que contestam. Eles aguardam em liberdade o julgamento de seu recurso em segunda instância. Santana não respondeu a um pedido de entrevista da BBC Brasil.
Nova era?
Depois da Lava Jato, publicitários da Bahia continuarão dominando o marketing político brasileiro? Com a saída de cena dos figurões, outros profissionais do Estado vêm ocupando espaços.
Chefe das campanhas exitosas de Jacques Wagner e Rui Costa ao governo da Bahia, o publicitário Sidônio Palmeira assumiu em 2017 a conta do PT nacional e é cotado para dirigir a próxima campanha do candidato da sigla à Presidência.
Mauricio Carvalho, que assessorou o petista Alexandre Padilha na última disputa para governador de São Paulo, é outro que negocia um posto de destaque neste ano.
João Santana aparece ao lado de Lula e Dilma (à esq. de Lula, com gravata avermelhada), que apertam as mãos em foto de 2014 | Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Mas há quem avalie que a primazia baiana chegou ao fim. Para Gaudêncio Torquato, os eleitores brasileiros amadureceram e passaram a desconfiar de campanhas políticas com forte tom emocional, marca dos publicitários baianos nas últimas décadas. "O voto está subindo do coração para a cabeça."
Para Lavareda, as principais contas da eleição ficarão com personagens que vinham atuando em segundo plano, entre os quais o argentino Guillermo Raffo, que participou da campanha de Aécio Neves em 2014, e o gaúcho Marcos Martinelli, chefe da campanha de Amazonino Mendes ao governo amazonense, em 2017.
Outros avaliam que marqueteiros baianos continuarão a se destacar. Fernando Barros, da Propeg, afirma que a proibição de doações empresariais no pleito de 2018 fará com que publicitários tenham de ser mais criativos.
Ele diz que a Bahia ainda é a maior escola do marketing político brasileiro e seguirá exportando quadros para as grandes disputas nacionais. "Até hoje você não forma uma equipe de marketing político no país sem ter um baiano no meio."
O especialista em Envelhecimento Populacional Jorge Félix é o convidado do Ponto a Ponto do último sábado (20). O tema do programa, comandado por Mônica Bergamo e Antonio Lavareda, é "Planejando o Envelhecimento”.
Perguntado sobre a Reforma da Previdência Social, que deve ser votada em fevereiro, o especialista opina: "É péssima. Vai criar uma legião de não aposentados, principalmente pela proposta de aumento do tempo de contribuição. O grande erro no Brasil é discutir a Previdência e o trabalho de forma desassociada. A junção da Reforma Trabalhista, que foi terrível, e a Reforma da Previdência vai criar uma legião de não-aposentados".
Autor do livro "Viver muito" (Editora Leya/2010), Jorge Félix foi o primeiro pesquisador (CNPq) a citar o conceito economia da longevidade (silver economy) no Brasil. Ele é graduado em Jornalismo pela Universidade Gama Filho, mestre em Economia Política e doutorando em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Auxiliares de Temer já articulam a reeleição, enquanto o presidente só pensa na reforma da Previdência, em defender o seu legado e, no mínimo, virar peça-chave da própria sucessão
Por Octávio Costa – IstoÉ
Ao mesmo tempo em que cresce o número de pré-candidatos que se dizem comprometidos com a agenda de reformas e com a continuidade da política econômica do governo, uma tese ganha força no Palácio do Planalto: se é para dar sequência às iniciativas da atual gestão, é melhor não perder tempo com nomes de intermediários e apostar logo na reeleição do próprio Michel Temer. O tema é tratado evidentemente com reservas. Mas as articulações correm numa raia paralela à principal preocupação do governo agora, a aprovação da reforma da Previdência. Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco reconhece que a reeleição não está fora dos planos, mas só será considerada após a votação das mudanças na Previdência, marcada para 19 de fevereiro. Mesmo assim, o marqueteiro Elsinho Mouco já trabalha a imagem do presidente.
O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Márcio Freitas, atesta que o objetivo imediato de Temer é a aprovação da sonhada reforma. Até agora, diz Márcio, o presidente não deu sinais de que pretende se candidatar. Mas, se não fala em continuar no cargo, também não se manifestou em contrário.
Na opinião do experiente cientista político Antônio Lavareda, o governo buscar nomes alternativos ao de Michel Temer contraria a lógica do poder. “Na sucessão de um governo que pretende ter continuidade, o candidato natural é o incumbente”, afirma ele. Ou seja, um governo que insiste em ter candidato à sua sucessão deve investir, em primeiro lugar, na reeleição do presidente. O novo ministro da Secretaria do Governo, Carlos Marun, que não costuma medir palavras, concorda e já defendeu de público a reeleição: “A nossa primeira opção deve ser o presidente Temer. Se ele decidir concorrer é o candidato natural do PMDB”.
“Nossa primeira opção deve ser o presidente Temer. Se ele decidir concorrer, é o candidato natural do PMDB” – Carlos Marun, ministro da Secretaria de Governo
Os gestos recentes de Temer são sintomáticos. No mínimo, mesmo que não seja o candidato, ele se torna o grande motor da própria sucessão. Em outubro, o presidente foi recebido em almoço pelos herdeiros de Roberto Marinho. No domingo 7, Temer se reuniu em São Paulo com o empresário Silvio Santos, e deixou acertadas gravações na TV e no programa do apresentador Ratinho, nas quais fará a defesa de sua administração e da reforma da Previdência. Se aprová-la, poderá pavimentar o seu projeto político. Qualquer que seja ele.
O tempo corre a favor de Temer. O presidente não precisa se desincompatibilizar do cargo em abril. Pode aguardar tranquilamente até as convenções em junho. E, se candidato, fará a campanha no exercício da Presidência. Apesar de toda cautela que cerca a reeleição, estrategistas do governo afirmam que tudo vai depender da reforma da Previdência. Em suas previsões, no caso de aprovação, haverá um cenário risonho para o governo, com inflacão sob controle, juros baixos mais investimentos, mais crescimento e mais empregos. Por conta de adiamento de aposentadoria haverá uma economia de R$ 4 bilhões. Se a reforma ratear, o cenário muda de ponta cabeça. A vitória no Congresso vai aplainar o caminho do candidato governista. E, certamente, poderá dar vida ao projeto de reeleição de Michel Temer, que está na política há mais de 40 anos e não veio a passeio.
Os próximos passos de Temer
1- Ganhar prestígio internacional com a sua plataforma de mudanças a ser apresentada em Davos, na Suíça, ao final do mês.
2- Articular apoios empresariais aos seus projetos de reformas
3- Arbitrar os interesses partidários para uma coalizão que siga unida na corrida presidencial em torno de uma única candidatura de centro
4- Conquistar apoio popular, diminuindo as taxas de rejeição nas pesquisas, através de uma intensa divulgação das realizações de seu governo que melhoraram a economia e já apresentam notórios resultados
Bolsonaro, Alckmin e Meirelles já se movimentam para seduzir os votos do segmento
Por Marcella Fernandes e Grasielle Castro – HuffPost Brasil
DIVULGAÇÃO/IURD
Geraldo Alckmin, Michel Temer, Dilma Rousseff e Fernando Haddad foram alguns dos políticos que participaram da inauguração do Templo de Salomão, do bispo Edir Macedo (centro), em 2014.
Em um cenário eleitoral polarizado, com muitos políticos do chamado "centrão" de olho no Palácio do Planalto e pouco dinheiro para financiar as campanhas, um grupo aparentemente homogêneo de eleitores vem brilhando os olhos dos presidenciáveis: os evangélicos. Eles somam praticamente um terço da população, segundo o Datafolha, e podem ser decisivos para definir o pleito.
A três meses do prazo para um candidato se filiar ou trocar de partido, os interessados em participar da disputa eleitoral intensificaram seus movimentos para conquistar o segmento. Fundador e presidente do Ministério Sara Nossa Terra, o bispo Robson Rodovalho afirmou ao HuffPost Brasil que alguns candidatos já o sondaram.
"Embora ainda esteja cedo, alguns candidatos já me procuraram para falar sobre candidaturas, mas estamos procurando por valores para unificar o segmento, fazer o maior número possível de deputados e senadores, e alinhar com a possível candidatura presidencial junto aos nossos valores", explica.
Rodovalho destrincha o perfil que o grupo considera ideal para presidir o País a partir de 2019:
"O que nós entendemos que a sociedade anseia hoje é por um candidato que tenha compromisso com a questão do liberalismo do mercado, alguém que respeite regras do mercado, que seja pró-desenvolvimentista, capaz de gerar emprego, capaz de dar garantias do ponto de vista do crescimento econômico e ao mesmo tempo que seja conservador nos valores, na família natural, homem e mulher, na vida, contra a questão do aborto. A sociedade brasileira é bem posicionada sobre isso, e a gente está procurando exatamente uma ressonância nesse sentido."
Nos últimos dias, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, interessado em concorrer pelo PSDB, e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que cogita sair candidato pelo PSD, fizeram aceno aos evangélicos. Ambos apresentam afinidade com o perfil desejado por Rodovalho, cada um à sua maneira. Segundo colocado nas pesquisas presidenciais, o deputado Jair Bolsonaro(PSC-RJ) também tem despertado a simpatia aos evangélicos.
Para Rodovalho, Bolsonaro, único que não se coloca como candidato de centro, é um dos que têm possibilidade de se alinhar com o segmento. "Não acredito que já esteja, mas acredito que é possível um alinhamento a depender das bandeiras." Em eleições anteriores, o segmento esteve na mira de Lula e Dilma Rousseff a Marina Silva e Aécio Neves, por exemplo.
A estratégia dos líderes evangélicos para este ano espera por uma definição apenas entre fevereiro e março.
"Ainda está cedo para tomar qualquer tipo de decisão, mas não é cedo para conversar."
Meirelles e Sara Nossa Terra
A peregrinação dos presidenciáveis começou cedo. Em setembro, Meirelles gravou um vídeo para pedir apoio dos evangélicos na aprovação da reforma da Previdência e começou com uma súplica: "preciso da oração de todos".
UESLEI MARCELINO / REUTERS
Henrique Meirelles entre o bispo Rodovalho e esposa no início do mês na Sara Nossa Terra.
Esse foi um dos movimentos do presidenciável para se aproximar dos fiéis. No último dia 5, foi apresentado por Flávio Rocha, presidente do grupo Riachuelo, como o responsável pelo "maravilhoso milagre da economia brasileira", em culto da igreja evangélica Sara Nossa Terra, em Brasília (DF), na presença de Rodovalho.
Em junho, participou da comemoração dos 106 anos da Assembleia de Deus em Belém (PA). No mês seguinte, foi a vez a um novo encontro com membros da mesma igreja em Juiz de Fora (MG).
Em entrevista ao jornal Estadão, o ministro, que é católico, diz que se aproximou da Assembleia de Deus porque a igreja "compartilha da mesma mensagem de gastar só o que se ganha" na doutrinação a seus fiéis. Ele alega também buscar apoio para a aprovação da reforma da Previdência.
Meirelles tem até abril para decidir se deixará o governo de Michel Temer para ser candidato. De acordo com pesquisa Datafolha publicada em dezembro, as intenções de voto variam entre 1% e 2%, dependendo do cenário. O ministro da Fazenda é conhecido por 48% dos eleitores.
Disputa pelo voto evangélico
Provável candidato do PSDB, Alckmin também está de olho nos evangélicos, a fim de garantir que os votos do grupo não sejam conquistados pelo deputado federal Jair Bolsonaro.
Em agosto, o tucano participou da abertura da Expo Cristã, maior feira do segmento gospel no Brasil. O anfitrião do evento é o pastor da Assembleia de Deus Silas Malafaia. "Nós precisamos nos inspirar na igreja", disse o presidenciável.
ALEXANDRE CARVALHO/A2IMG
Geraldo Alckmin, em agosto, na abertura da Expo Cristão, foi aplaudido pelo pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus.
O governador deve organizar um jantar no Palácio dos Bandeirantes com líderes religiosos e visitar cultos da Assembleia de Deus Paulistana, da Fonte da Vida e da Igreja Mundial do Poder de Deus, de acordo com a Folha de S.Paulo.
As intenções de voto de Alckmin ficaram entre 6% e 12%, dependendo do cenário, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada em dezembro. Ele é conhecido por 85% dos eleitores.
Lula e Bolsonaro estão empatados nesse segmento, segundo o Datafolha. O ex-presidente tem 14% de preferência, contra 13% do parlamentar. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Apesar de católico, Bolsonaro já se batizou no rio Jordão (Israel) pelas mãos do pastor Everaldo Pereira, presidente do PSC, partido que ele decidiu abandonar para disputar o Palácio do Planalto.
Voto evangélico com peso maior
Na avaliação do cientista político Antonio Lavareda, o voto evangélico terá um peso maior nas eleições de 2018 devido ao fim do financiamento privado de campanhas. "Provavelmente o voto evangélico vai ser mais importante nessa eleição de 2018 do que já foi anteriormente no Brasil", afirmou ao HuffPost Brasil.
De acordo com Lavareda, "as eleições de deputados federais e estaduais e também a presidencial e de governador vão ser eleições com orçamentos inusuais, provavelmente os mais baixos de toda a Nova República. Nesse contexto, candidatos apoiados por corporações quantitativamente relevantes levam vantagem".
O Congresso aprovou R$ 1,716 bilhão para o Fundo Especial de Financiamento de Campanha neste ano. O fundo foi criado em resposta à proibição das doações empresariais, decidido pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2015.
Especialista em pesquisas eleitorais e ex-consultor de estratégia de 91 campanhas majoritárias, Lavareda destaca o aumento da bancada evangélica no Congresso Nacional e a expansão do número de representantes desse setor eleitos nas eleições municipais de 2016, com destaque para áreas na periferia das regiões metropolitanas.
A Frente Parlamentar Evangélica do Congresso conta com 199 deputados e 4 senadores. Levantamento do Departamento de Assessoria Parlamentar identificou que nas eleições de 2014 foram eleitos 74 novos deputados do setor, seguindo tendência de crescimento.
Lavareda ressalta que não necessariamente o novo presidente será evangélico, mas lembra que candidatos dessa religião tiveram desempenho relevante em recentes eleições presidenciais.
Ele cita 2010, quando Marina Silva disputou o cargo pelo PV, conquistou o terceiro lugar, com 19,33% dos votos. Já em 2002, Anthony Garotinho, que concorreu pelo PSB, também ficou em terceiro, com 17,86% dos votos. No segmento, ele tinha 42% das intenções de voto, enquanto Lula, vencedor do pleito, tinha 27%, segundo o pesquisador.
O voto dos evangélicos é mais orgânico do que de outras religiões, segundo o especialista. Isso significa que esse setor vota mais em bloco, de acordo com a orientação dos líderes religiosos. "Se uma denominação evangélica apoiar um candidato, vai ficar mais fácil um apoio maior desses fiéis para esse candidato", exemplifica.
Em 1991, 9% da população do País se declarava evangélica, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2010, o grupo chegou a 22%. Segundo pesquisa Datafolha publicada em dezembro, os fiéis dessa religião correspondem a 32% dos brasileiros.
A médica cardiologista e diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do INCOR (USP), Jacqueline Scholz, é a convidada do Ponto a Ponto, da BandNews, para falar sobre o tema “Saúde x Cigarro”. O programa, comandado pela jornalista Mônica Bergamo e pelo sociólogo Antonio Lavareda, foi ao ar no sábado (13).
Em pesquisa divulgada em 2016 e realizada pelo Ministério da Saúde-Vigitel, nos últimos 10 anos, constatou-se que o número de fumantes no Brasil caiu de 15,7% para 10,2%. A médica Jacqueline Scholz acredita que as políticas públicas foram exitosas. “Desde o ministro da Saúde Adib Jatene (Collor e FHC). Proibir propaganda de cigarro, aumentar o preço, proibir fumar em ambientes coletivos, a contrapropaganda no maço, tudo isso contribuiu”.
Ainda graças às políticas públicas, segundo Jacqueline Scholz, o uso maconha no País conseguiu se desvincular da imagem do cigarro. "Antigamente, cigarro era porta de entrada para a maconha. Hoje, não mais. Isso prova que a nossa política pública foi bem feita." Mas alerta: “O jovem não pode experimentar droga nunca porque modifica a função cerebral e pode levar à esquizofrenia. Ninguém fala isso, mas psiquiatra tem pânico de maconha. Quantos jovens desencadeiam curtos psicóticos por conta do uso da dela?”
Paulo Câmara, governador de Pernambuco, é o entrevistado de Antonio Lavareda no 20 Minutos. Os índices de violência no estado, composições para eleições de 2018 e um balanço dos 3 anos de gestão fazem parte da conversa.
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