O fenômeno Huck

Por Germano Oliveira e André Solitto – IstoÉ

Crédito: Pedro Ladeira/Folhapress

Foi um terremoto – ele diria “loucura, loucura, loucura”. A contar do momento em que Luciano Huck resolveu se incorporar a movimentos cívicos e organizados da sociedade dedicado a contribuir para o debate nacional, perpassaram menos de três meses. O suficiente para que o apresentador se transformasse no fenômeno eleitoral da vez. Por isso, o que no nascedouro parecia um mero balão de ensaio, uma eventual candidatura de Luciano Huck ao Palácio do Planalto assumiu ares de seriedade.

Não que ele tenha manifestado o interesse em lançar seu nome – pelo contrário, a interlocutores Huck tem indicado que irá declinar da postulação à Presidência. Mas, principalmente, em razão do potencial eleitoral que a possível candidatura demonstrou galvanizar e pelo alvoroço que esse fato político incontestável provocou no País.

Nas últimas semanas, Huck foi paparicado por políticos de diversos matizes, recebido com tapete vermelho por pesos pesados do PIB nacional, teve seu nome incluído nas pesquisas de intenções de voto e até um convite formal para ingressar num partido – o PPS – chegou em suas mãos. É evidente, nenhum fenômeno eleitoral surge por geração espontânea. Num ambiente altamente tóxico e de total descrédito da classe política, Huck encarna um perfil capaz de cativar um eleitorado carente de opções, interessado em escapar da polarização radical Lula de um lado, Jair Bolsonaro de outro: tem cara de bom moço, ao lado da mulher Angélica personifica a família perfeita e promove ações sociais em seus programas de TV de alcance continental. Ou seja, seria o cara certo no lugar certo, num momento de desgaste do carcomido modelo político em que as pessoas não se sentem mais representadas pelos veteranos do jogo.

Não por acaso, Huck foi testado nos levantamentos eleitorais. Na maioria das simulações, figurou na casa dos dois dígitos, o que representa um desempenho e tanto num cenário pulverizado como o atual. A última pesquisa, realizada pelo instituto Ipsos, em parceria com o Estadão, revelou que ele é o mais bem avaliado entre os 23 nomes submetidos ao eleitor, com uma aprovação de 60% e apenas 32% de reprovação. Em dois meses, cresceu 17 pontos percentuais. Os outros cotados na disputa, como LulaBolsonaro e Marina apresentam feedbacks negativos na proporção da avaliação positiva de Huck: sempre perto dos 60%. As reações ao resultado do levantamento indicam que, sim, o apresentador causou calafrios nos que poderiam ser seus oponentes.

O maior recibo for passado e lavrado em cartório pelo ex-presidente Lula. Em entrevista à Rádio 730 AM de Goiás, na quinta-feira 23, o petista afirmou que seu “maior desejo na vida” era “disputar com alguém com o logotipo da Globo na testa”. O diretor-presidente do Instituto Ipsos, Danilo Cercosimo, não se surpreendeu com o desempenho fora da curva de Huck. “Esse salto tem muito a ver com o fato de seu nome ter sido cogitado evidentemente. É um cacife importante”, afirmou o especialista. “São números expressivos. Apontam a demanda da sociedade por renovação”, fez coro o cientista político Antonio Lavareda. Como se vê, a simples presença de Huck como opção no tabuleiro do xadrez político esquentou o caldeirão eleitoral.

Sem o conhecimento de Huck, um marqueteiro chegou a formatar um plano de vôo solo para ele em 2018, que consistia em apresentá-lo na largada como um outsider “puro sangue”

Influência

Claro, seria ingênuo não levar em consideração que, ao contrário de fenômenos eleitorais tradicionais, Huck é catapultado pelo fato de ser um dos principais apresentadores de TV da emissora de maior audiência do País. Adorado pelo público, especialmente o jovem, Huck é um case de sucesso nas redes sociais. No Instagram, conta com 12,6 milhões de seguidores. À frente do Caldeirão do Huck, programa com audiência média de 3,5 milhões de espectadores, conta com uma poderosa vitrine para quadros em que realiza ações em favor da população menos assistida. Os mais conhecidos são o Lata Velha, em que reforma automóveis caindo aos pedaços; Lar Doce Lar, em que a restauração é feita em casa; e o Um Por Todos, Todos Por Um, dedicado a ajudar pequenas iniciativas capazes de melhorar a vida de pessoas. Fora da televisão, preside o Instituto Criar de TV e Cinema, fundado em 2003. O objetivo do instituto é promover o desenvolvimento pessoal e profissional de jovens por meio do audiovisual. Por conta do projeto, foi indicado a um prêmio de empreendedorismo social em 2007.

“O que mais desejo na vida é disputar com alguém com o logotipo da Globo na testa”Lula, ex-presidente da República (Crédito:Aglécio Dias)

Os recentes movimentos do astro de TV revelam que, mesmo não sendo candidato, Luciano Huck almeja influir na pauta política, tornar-se um dos protagonistas das discussões em 2018, alterar o eixo do debate. Isso ele já conseguiu. Ao aproximar-se de movimentos como o RenovaBr e o Agora!, o apresentador fez aquilo que carece a muitos políticos, em véspera de ano eleitoral: colocou a mão na massa, gastou sola de sapato, amassou barro, como se diz na gíria, e começou a discutir projetos viáveis para o País. Sob a bandeira da renovação, Huck encantou não só jovens, como o time de masters do jogo eleitoral, enfastiados com o modus operandi mais do que deteriorado da política tradicional. Há duas semanas, Luciano Huck cumpriu agenda de homem público. Manteve conversas na casa do economista e ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, ao lado de Marcos Lisboa, presidente do Insper, procurou o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, jantou com o governador do Espírito Santo Paulo Hartung, do PMDB, e reuniu-se com o presidente do PPS Roberto Freire e o ministro da Defesa Raul Jungmann. Sempre acompanhado de Ilona Szabó, cofundadora do movimento Agora!, e diretora do Instituto Igarapé, ONG que atua no setor de segurança pública. Foi nesse encontro que Huck recebeu o convite para subscrever a ficha de filiação ao PPS. Ex-integrante do velho partidão, Freire ficou encantado com as opiniões de Huck. “As portas estão abertas para ele. Huck é uma pessoa de valores e concepções. Faz parte de um grupo (Agora!) que leva isso em propósitos com os quais o PPS se identifica com o que também pensamos para o Brasil”, afirmou Freire.

AÇÃO SOCIAL Em seu programa, Huck se dedica a projetos sociais e visita ONGs espalhadas pelo Brasil (Crédito:Marcello Roichman)

“Ainda é cedo para 2018, mas Doria e Luciano Huck são o novo” Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente, em maio de 2017, à “Folha de S. Paulo” (Crédito:Marcio Fernandes)

O Agora! tem entre seus militantes artistas, empresários, economistas e acadêmicos. Em sua página na internet, se identifica como um movimento formado por um grupo diverso. “Nossos membros possuem experiência e reconhecimento em suas áreas de atuação e prezam pela integridade e pelo engajamento cívico”. Huck tem participado ativamente das atividades do grupo. Além do Agora!, estreitou laços com o empresário Eduardo Mufarej, ligado ao RenovaBr, que vai financiar um grupo de 150 jovens, interessados em se capacitarem politicamente. Durante seis meses, essas pessoas receberão bolsas de R$ 5 mil por mês para estudar ética e boas práticas políticas. O fundo destinado à formação de novos políticos será sustentado por Huck, Mufarej e empresários como Abílio Diniz.

CASAL 20 Luciano e Angélica formam o casal perfeito na TV: líderes de audiência nas tardes de sábado (Crédito:Divulgação)

Familiaridade

Apesar de ter se debruçado com aferro sobre a agenda nacional nos últimos meses, o apresentador não é um neófito nem a política é um ambiente totalmente desconhecido para ele. Seu pai, Hermes Marcelo Huck, é advogado e jurista, e sua mãe, Marta Dora Grostein, urbanista e professora da USP. E isso também foi levado em conta pelos que fizeram figa pela candidatura de Luciano Huck ao Planalto. Segundo apurou ISTOÉ, sem o conhecimento e o aval de Huck, um marqueteiro conhecido chegou até a formatar um plano de vôo solo para ele em 2018, estruturado com início, meio e fim, e que consistia, na largada, em apresentá-lo como a grande novidade eleitoral, um outsider “puro sangue”, “o único totalmente imune aos vícios da velha política” e o retrato pronto e acabado “da oxigenação política tão acalentada pela população”. Na última semana, no entanto, a amigos próximos, Huck já dava sinais de que não toparia mesmo a empreitada. “Ele é novo, não é de se deixar seduzir por qualquer canto de sereia, e sabe que não precisa necessariamente se candidatar nesse momento. Como tudo o que fez na vida, Huck está construindo algo sólido e perene, no afã de levar jovens e cabeças pensantes a discutir o Brasil”, disse uma pessoa ligada a ele.

CONSELHEIRO O ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, tem participado de reuniões com Huck (Crédito:Divulgação)

O apresentador também teria sofrido pressões da Globo para tomar uma decisão célere. Comenta-se na emissora que foi imposto a ele a data-limite de 15 de dezembro. Huck ainda foi informado sobre outras condições, caso quisesse concorrer à eleição presidencial de 2018: ele e sua mulher, Angélica, teriam de deixar a emissora até o fim do ano. A demissão seria permanente. Teria de abrir mão de um salário de R$ 1,5 milhão por mês, fora os contratos de publicidade – o salário do presidente da República é de R$ 33 mil.

“O PPS está de portas abertas para Huck”Roberto Freire, presidente nacional do PPS (Crédito:Alex Silva )

Independentemente do desenlace, a ascensão meteórica de Huck é um sintoma do nosso tempo. A desconfiança dos eleitores nos políticos tradicionais vem provocando um fenômeno não só nacional como global. Movimentos recém-fundados personificam o ideário de renovação e, num átimo de tempo, conquistam corações, mentes e votos. Um caminhão de votos. O último case internacional de sucesso envolveu o movimento francês A República em Marcha (La Republique en Marche). Em apenas um ano, conseguiu eleger o presidente da França, Emmanuel Macron, e conquistou a maioria das cadeiras do Parlamento. Embora não tão estrepitoso como o do En Marche, há outros exemplares de movimentos recém-nascidos com vertiginoso crescimento eleitoral. É o caso do Podemos espanhol. Concebido em janeiro de 2014, concorreu no mesmo ano às eleições para o Parlamento Europeu, figurando em quarto lugar no número de cadeiras em disputa.

“Existe no Brasil e América Latina uma demanda da sociedade por renovação”Antonio Lavareda, cientista político

Em 2015, disputou as eleições gerais e fez mais de 20% dos votos. Na Itália, o Movimento Cinco Estrelas, três anos depois de criado, conquistou 26% das cadeiras da Câmara de Deputados e 24% das vagas do Senado. Atualmente, ostenta prefeitos de cidades estratégicas, Roma incluída. A “onda Macron” pode sim se repetir no Brasil em 2018. Surfando nela ou não, Luciano Huck já cumpriu o que se propôs. No mínimo, qualificou o debate. Captou o Zeitgeist, termo alemão usado para designar “o espírito do tempo”. Não é pouco.

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Mendonça Filho no 20 minutos

Ministro da Educação desde maio de 2016, o pernambucano Mendonça Filho é o entrevistado do 20 Minutos. No programa, ele fala ao cientista político Antonio Lavareda sobre prazos para implementação da Reforma do Ensino Médio, rumos da educação no Brasil e também sobre sucessão estadual em Pernambuco. Confira! 

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Huck, J. Barbosa, Valéria Monteiro… ‘Outsiders’ vão vingar até as eleições?

Por Emanuel Bonfim – Estadão

Edição desta sexta-feira, 17,  faz uma análise sobre os “balões de ensaio” já lançados para o cenário eleitoral do ano que vem. Diante da profunda crise política, inúmeros outsidersse colocam como postulantes do voto de um eleitor que poderá se guiar por uma rejeição a nomes e partidos mais tradicionais. Há também uma avenida ao centro, do ponto de vista ideológico, mas ainda sem um candidato que aglutine em peso a preferência popular. Até por isso, figuras como a do apresentador Luciano Huck tentam ganhar espaço a partir de agora. Resta saber se há viabilidade para essas candidaturas. Para debater o assunto, entrevistamos no programa Antonio Lavareda, sociólogo e cientista político. Na avaliação dele, este cenário fragmentado ao centro só tem a favorecer os candidatos dos extremos, como Lula e Bolsonaro. “Isso não seria positivo para a democracia brasileira, ao meu ver”, destaca.

Ouça análise completa no player abaixo.

 

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Se a maioria votar nulo, a eleição é cancelada e os candidatos, suspensos?

Se a maioria votar nulo, a eleição é cancelada e os candidatos, suspensos?

Por Lucas Borges Teixeira (UOL) – 06/11/2017

A um ano das eleições de 2018, volta a circular pelo WhatsApp e pelas redes sociais uma antiga corrente. Ela traz um "aviso" de que, se mais da metade da população apta votar nulo, a eleição será cancelada e todos os candidatos participantes ficarão impedidos de se recadastrar.

Diz a mensagem: "Campanha vai e campanha vem, você se acha na obrigação de escolher uma dessas figuras (o tal do 'menos ruim') e com isso acaba afundando mais o nosso país! Você sabe como eliminar 90% dos políticos corruptos em uma única vez?".

A resposta, segundo a postagem, seria o voto nulo. Prossegue apontando que, "segundo a legislação brasileira, se a eleição tiver 51% de votos nulos, o pleito é ANULADO e novas eleições têm que ser convocadas imediatamente; e os candidatos não eleitos ficarão IMPOSSIBILITADOS DE CONCORRER NESSA NOVA ELEIÇÃO!!!".

"Acredita-se que menos de 1% da população saiba algo sobre isso. Ridículo a preservação da ignorância neste país…", escreve o autor desconhecido, acrescentando que "é disso que o Brasil precisa: um susto nessa gente! Esta campanha vale a pena! NULO neles!!!".

A afirmação, no entanto, é falsa. Mesmo que a maioria dos eleitores votem em branco ou nulo, não será convocado um novo pleito nem os candidatos serão impedidos de concorrer.


O TSE (Tribunal Superior Eleitoral). responsável por aplicar as regras eleitorais, esclarece que, com a adoção da urna eletrônica, na prática acontece a mesma coisa com os votos brancos e os nulos: nenhum deles é computado como válido. Ou seja, segundo o órgão, é "como se eles não existissem".

Os votos nulos são aqueles em que o eleitor digita e confirma um número inexistente na urna eletrônica. Já os votos brancos são aqueles em que o eleitor escolhe a opção “branco” na urna.

"É importante que o eleitor tenha consciência de que, votando nulo, não obterá nenhum efeito diferente da desconsideração de seu voto", afirma o tribunal em publicação oficial. "Isso mesmo: os votos nulos e brancos não entram no cômputo dos votos, servindo, quando muito, para fins de estatística."

Assim, mesmo que 90% dos eleitores numa cidade votem branco ou nulo para prefeito, o resultado da eleição será definido considerando apenas os 10% de votos de fato depositados em nome de algum dos candidatos.

Votos anulados são aqueles que eram válidos, mas foram posteriormente invalidados por decisão da Justiça Imagem: Folhapress A provável origem deste boato é uma interpretação errada do Código Eleitoral (Lei 4.737/1965). O artigo 224 diz que serão realizadas novas eleições “se a nulidade atingir mais de metade dos votos”. Acontece que o termo nulidade não se refere aos votos nulos, e sim aos votos válidos que sejam posteriormente anulados por decisão da Justiça Eleitoral.

A única maneira de cancelar uma eleição e impedir um candidato de concorrer nela é se for constatada uma fraude eleitoral. O TSE detalhou a questão em uma série chamada "Mitos Eleitorais", publicada em junho deste ano.

"A nulidade a que se refere o Código Eleitoral decorre da constatação de fraude nas eleições, como, por exemplo, eventual cassação de candidato eleito condenado por compra de votos", explica o órgão. "Nesse caso, se o candidato cassado obteve mais da metade dos votos, será necessária a realização de novas eleições, denominadas suplementares."

Embora a corrente de WhatsApp diga que os candidatos "não poderiam concorrer ao mesmo cargo político, pelo menos por mais quatro anos", isso só poderia acontecer com o postulante de que fosse comprovada fraude eleitoral e se ele tivesse seu mandato cassado pelo Poder Legislativo. O TSE explica que "de maneira nenhuma" esta medida se aplicaria a todos os candidatos de uma mesma eleição.

Para o professor Antonio Lavareda, doutor em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, o desejo por novos candidatos e eleições tem como consequência uma "crise de confiança generalizada nas instituições brasileiras".

O quadro piora quando se fala do meio político. De acordo com o Datafolha, apenas 2% dos brasileiros confiam em partidos políticos. "Eles são os alvos mais enfatizados", afirma ele. "Embora a confiança em outras instituições, como o Judiciário, também não seja alta."

Pesquisador do comportamento eleitoral, Lavareda salienta que também há um exagero na imagem de que o brasileiro não queira mais participar das eleições. "Se o repúdio fosse tão grande assim, o último Ibope não mostraria a porcentagem de alienação eleitoral [votos em branco somados ao nulos] em, no máximo, 28%, que é a mesma taxa da eleição de 2014", afirma o especialista.

"Nós vemos atualmente uma descrença na forma como operamos a democracia, mas, no Brasil, ainda há uma nítida maioria que vê a democracia como a melhor forma de governo possível", conclui Lavareda.

 

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Proliferação de centristas para 2018 pode favorecer Lula ou Bolsonaro

Por Igor Gielow (Folha de São Paulo) – 05/11/2017

A pulverização de nomes na centro-direita para a eleição de 2018 preocupa agentes políticos e econômicos.

O cenário nebuloso acabou criando uma espécie de "centro expandido", com Geraldo Alckmin (PSDB), João Doria (PSDB), Henrique Meirelles (PSD) e figuras alternativas como Luciano Huck se acotovelando nas especulações.

Além deles, nomes de baixa densidade partidária devem engrossar o pelotão, como Alvaro Dias (PV) e João Amoêdo (Partido Novo).

Mais à esquerda, há Marina Silva (Rede), que enfrenta ceticismo dos apoiadores, mas pode capturar algum naco do eleitorado mais centrista.

"Isso é agora. Haverá uma decantação do processo", avalia o sociólogo Antonio Lavareda, um dos mais experientes analistas políticos do Brasil, tendo aconselhado mais de 90 campanhas.

O cenário atual decorre de dois fatores. Primeiro, a cristalização nas pesquisas dos extremos do eleitorado nas figuras de Lula (PT, à esquerda) e Jair Bolsonaro (PSC, à direita).

Segundo, até pela viabilidade dúbia desses dois nomes, perspectiva de poder sem que haja um nome francamente favorito.

"É imperativo para a centro-direita uma coordenação prévia", diz Rafael Cortez, da consultoria Tendências.

Foi isso o que propôs Doria, ao defender uma frente de partidos de centro. Outra parte da equação do tucano é manter-se no jogo após um mês de más notícias que desidrataram sua postulação.

No raciocínio exposto por Doria em evento com empresários no Rio na terça (31), é preciso uma união das siglas ao centro contra a força dos extremos Lula e Bolsonaro.

Esse é o arco que hoje sustenta Michel Temer, significativamente com o PMDB no papel de apoiador sem nome viável, além da variável da impopularidade recorde do presidente. DEM, PPS, PP, PTB e outros compõem o quadro.

Há pontos diversos a considerar. Se é verdade que Lula poderá ser impedido de concorrer caso seja mesmo condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro, como o próprio PT acredita, ele poderá usar isso como trunfo.

"Lula iria se afirmar vítima e poderia repetir Roriz em 2010, só que com um nome até mais competitivo", diz Cortez. Naquele ano, Joaquim Roriz teve a candidatura ao governo do Distrito Federal impugnada e lançou a mulher, a neófita Weslian, às vésperas do pleito. Ela foi ao segundo turno e perdeu.

Concorda Richard Back, da XP Investimentos. "Lula pode ir até quase o fim e lançar seu preposto, só que seria um nome como o do [ex-prefeito de SP] Fernando Haddad", diz.

Já Bolsonaro é visto como alguém que deve se desidratar quando a campanha começar de fato, por sua baixa capilaridade em tempo de TV e apoios estaduais.

FUNIL

O fator "novo" é representado por Luciano Huck no grupo, já que ele pontua na casa dos 5% de largada. Se o impulso antiestablishment hoje com Bolsonaro é unanimidade na análise de políticos e consultorias, há dúvidas sobre a viabilidade de Huck por inexperiência total.

Lavareda vê mais chance de o apresentador, se de fato se filiar a algum partido, integrar uma chapa como vice "para vitalizar uma candidatura mais tradicional". "Esta é uma eleição aberta, que tende à fragmentação. As condições de formar alianças vão gerar uma candidatura mais competitiva à frente", crê.

Para ele, Lula não será candidato e o funil do centro hoje favorece Alckmin. "Havia uma expectativa sobre o Doria, mas perdeu plausibilidade. E não acho que [o ministro da Fazenda] Meirelles será candidato, mesmo com melhora na economia."

Na semana passada, Meirelles admitiu à revista "Veja" que cogita concorrer.

Ricardo Sennes, da Prospectiva, vai na mesma linha. "Lula e Bolsonaro estão em campanha. Tempo de TV e Fundo Partidário, aliados a campanhas estaduais fortes, são centrais. Mas é preciso haver união nesse campo centrista, senão haverá um desastre na ótica dos mercados."

Sennes também vê Alckmin com alguma vantagem. "Ele não será um reformador radical. Propostas muito liberais como as de Doria ou do Partido Novo não têm uma avenida a percorrer no Brasil, têm uma ruela", diz. 

Ponto a Ponto destaca o aumento no número de mulheres pesquisadoras no Brasil

O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o físico Ildeu de Castro Moreira, foi o entrevistado do Ponto a Ponto, do dia 4 de novembro, na BandNewsTV, com apresentação de Mônica Bergamo e Antonio Lavareda, para falar sobre o tema “Desafios da Ciência no Brasil”. O programa ganha reprise no domingo (5), às 16h30.

Um dos assuntos do programa é a produção feminina na ciência. A participação das brasileiras cresceu 11% nos últimos anos, chegando quase ao mesmo patamar masculino, que é de 51% do total. Em contrapartida, o investimento e incentivo para pesquisa no Brasil têm caído por causa de cortes no orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia e Comunicação.

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