Voto útil está de olho no segundo turno

 

 Por João Batista Natali para o Diário do Comércio
O fatalismo Bolsonaro x Haddad pode cair com o roteiro de 2014, quando Aécio ultrapassou Marina, porque ela não conseguiria derrotar Dilma Rousseff.

O cenário eleitoral mais provável aponta para uma disputa da Presidência da República, no segundo turno, entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Mas há uma segunda alternativa no horizonte.

Ela leva em conta o voto útil antes do primeiro turno, mas já de olho no resultado do turno final. Foi o que aconteceu em 2014, quando Marina Silva (na época candidata do PSB), em segundo lugar nas pesquisas, foi esvaziada nos 12 últimos dias da campanha, por não ser naquela época capaz de derrotar, no segundo turno, a petista Dilma Rousseff.

Foi esse o fator preponderante para a ascensão de Aécio Neves (PSDB), que aparecia nas pesquisas em terceiro lugar. Os ataques que Marina sofreu na propaganda petista e tucana apenas aceleraram essa tendência.

O raciocínio foi exposto nesta segunda-feira (17/9), na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) por Antônio Lavareda, cientista político e especialista em pesquisas eleitorais.

Ele fez palestra a convite do Conselho Político e Social (Cops) e do Conselho de Economia (COE). Os dois colegiados da associação são coordenados, respectivamente, pelo ex-senador Jorge Bornhausen e pelo economista Roberto Macedo.

Os trabalhos, presididos por Bornhausen, foram abertos por Roberto Mateus Ordine, presidente em exercício da ACSP.

Lavareda, em sua exposição, foi bastante cauteloso para não afirmar em nenhum momento que esse cenário –voto útil no primeiro turno, com vistas ao resultado projetado para o segundo –seria hoje favorável a Geraldo Alckmin (PSDB).

Mas quebrou um pouco o fatalismo segundo o qual a disputa estaria hoje restrita a dois campos antagônicos, com Bolsonaro à direita e Haddad e Ciro Gomes (PDT) à esquerda.

UMA REALIDADE PREOCUPANTE

O cientista político lembrou que, em julho de 2016, todos os cenários apontavam para uma confortável vitória de Alckmin sobre o ex-presidente Lula, que se acreditava, na época, poder ser candidato.

O impeachment da petista Dilma Rousseff enfraqueceu politicamente seu padrinho e criador. Naquele ano, nas eleições municipais de outubro, o PT perdeu 60% das prefeituras detinha.

A realidade, no entanto, tornou-se agora “mais surpreendente e preocupante”, diz Lavareda.

Com o impeachment, a máquina petista foi empurrada para a oposição, de onde teria apenas a ganhar ao se opor radicalmente ao governo de Michel Temer. Foi esse o contexto dentro do qual o nome de Lula passou a crescer, num processo que hoje beneficia seu substituto como candidato presidencial.

A mudança entre os dois momentos se deve a fatores sobretudo internacionais. De um lado, a internet e as redes sociais fragmentaram as candidaturas presidenciais, favorecendo a emergência de forças bastante minoritárias, como o PSL pelo qual se apresenta hoje Jair Bolsonaro.

Na França, por exemplo, a eleição que levou em 2017 Emmanuel Macron ao poder teve, no primeiro turno, quatro candidatos com 20% dos votos. Na Argentina, em dezembro de 2015, a mesma percentagem era alcançada por três concorrentes no primeiro turno. O mesmo ocorreu na última presidencial chilena, com três candidatos com no mínimo a mesma porcentagem.

Um segundo grupo de fatores está no avanço mundial do espírito autoritário. É algo mais sutil que a votação de partidos extremistas.

É uma questão de mentalidade, captada em pesquisa internacional como a do Pew Research. Por ela, 17% disseram acreditar que a democracia representativa não é o regime mais desejável, com quase a metade dos entrevistados afirmando que não seria ruim um governo de especialistas – e não de eleitos com legitimidade política.

No Brasil, o Datafolha constata que 17% preferem a ditadura à democracia, enquanto 21% – que pensam no mesmo sentido – responderam que “tanto faz”.

Diante dessa decepção com o sistema representativo, tem-se uma crise da democracia liberal, com as redes sociais engajadas na mobilização que abalam a reputação dos partidos tradicionais.

A internet, prosseguiu Lavareda, produziu também a fragmentação das fontes de informação. Os jornais, as emissoras de rádio e de TV perderam um monopólio, num processo em que o cidadão passa a privilegiar bandeiras identitárias, com a etnia e as questões de gênero assumindo um papel cada vez mais preponderante.

OS “FATORES INTERVENENTES”

Nesse quadro, e especificando as eleições presidenciais brasileiras, torna-se secundário o antigo modelo pelo qual o sucesso eleitoral estava vinculado à economia e à avaliação do governo federal.

“Não estamos diante de uma eleição tecnicamente normal”, disse Lavareda. Seriam normais se a preferência política determinasse a decisão dos eleitores, desta vez avessos aos alinhamentos habituais.

Entre os fatores dessa pouca normalidade há, por exemplo, o peso da imagem que o Judiciário passou a ter na avaliação dos candidatos. O cientista político acredita que, se não tivesse se envolvido em operações suspeitas, Aécio Neves poderia hoje ganhar no primeiro turno.

E os eleitores se informam sobre os candidatos. Mesmo aqueles com baixa escolaridade, mas que têm um celular, relataram em agosto último (25%) que já haviam pesquisado algum candidato ou pretendiam fazê-lo (29%).

Esses novos canais explicam, por exemplo, o fato de Bolsonaro ter apenas 1,2% do tempo de rádio e TV, mas ter se distanciado na dianteira das pesquisas.

No passado, havia uma correlação muito forte entre tempo de TV e a votação no primeiro turno. Nas sete últimas campanhas presidenciais, e levando-se em conta os três candidatos que tiveram mais tempo em cada uma, apenas dois políticos – Orestes Quércia, em 1994, e Ulysses Guimarães, em 1989 – naufragaram pateticamente no primeiro turno.

Na atual campanha, disse Lavareda, caso o terreno da centro-direita não estivesse tão fragmentado, os 9% das intenções de voto de Amoêdo, Meirelles e Álvaro Dias, somados, permitiriam que Geraldo Alckmin estivesse num patamar bem mais confortável.

Com o quadro agora indefinido o cientista político acredita que Haddad poderá fazer um “arrastão final” no espólio lulista, capitalizando parte do apoio que nas últimas semanas migraram para Ciro Gomes e Marina Silva.

Por fim, Antônio Lavareda disse que o sentimento predominante do eleitorado é hoje emocional, contrariamente ao do entusiasmo que prevalecia na primeira eleição direta para presidente, em 1989.

Pesquisa da XP indica que 29% votarão movidos pela preocupação, e 11%, pelo medo.

A eles se soma um outro contingente de 27% dos eleitores que votarão com a indignação. “É a pura raiva, que gera a mobilização do eleitor que não para para refletir.”

Nesse nicho estão basicamente os eleitores de Jair Bolsonaro. É por isso “que essas eleições de 2018 estarão divididas entre aqueles que têm medo e os que sentem raiva”, concluiu o cientista político.

 

 

Evangelicals, Growing Force in Brazil, to Impact Elections

New York Times

RIO DE JANEIRO — In a Brazilian presidential election marked by uncertainties, there is little doubt about one thing: Evangelical voters will have a major impact.

They could tip the balance thanks to their growing numbers, presence in remote areas and poor neighborhoods and organizational muscle, especially since corporations have been banned from making contributions directly to candidates in the wake of a the country's huge corruption scandal.

Attempts to woo evangelicals are apparent on the campaign trail ahead of the Oct. 7 election. In recent weeks, one leading candidate wept while receiving prayers during a service at an evangelical church. Another promised no legislative changes to Brazil's abortion ban. A third held meetings with several of the most influential pastors in Sao Paulo, Brazil's richest and most populist state.

"The evangelical vote is very organic in that pastors and bishops have a relationship with followers that influences how they vote," said Antonio Lavareda, who has written several books on Brazilian politics. "It's the opposite in the Catholic Church, where, despite having more congregants, priests have less direct influence."

Their votes were instrumental in the 2016 impeachment and ouster of President Dilma Rousseff for illegally managing the federal budget. Joao Campos, a congressman and pastor who helped lead the bloc, said then that opposing Rousseff was a way to defend the poor who had lost jobs in the wake of scandals over kickbacks from construction companies to politicians.

Evangelical voters in Rio de Janeiro also helped propel Marcelo Crivella, a bishop in the Universal Church of the Kingdom of God, to mayor of Brazil's most famous city in 2016.

Brazil, a deeply religious country slightly larger than the continental U.S., is home to the world's largest number of Catholics — some 123 million, according to the latest census in 2010. But evangelicals are growing and now number 42 million, or about 20 percent of the total population.

And there is little comparison when it comes to political activism. While the Vatican frowns on clergy running for office, many evangelical leaders plunge into politics.

Silas Malafaia, one of the most influential pastors in Brazil, makes no apologies for trying to influence the votes of parishioners from his more than 50 churches.

During a recent interview with The Associated Press, he said proudly he had helped elect 25 representatives and five senators. His own brother is a state representative for Rio de Janeiro.

"I help candidates get elected by lending them my image and words," said Malafaia, who from the pulpit and on social media argues that left-leaning candidates promote "moral garbage" with liberal stances on gay marriage and abortion.

Malafaia has been outspoken in his support for Jair Bolsonaro, a far-right congressman and former army captain who has promised to crack down on crime and root out corruption in politics.

"In Brazil, we need a macho like him," Malafaia said, adding that Bolsonaro will "defend all the values and principals of the Christian family."

Last weekend, Malafaia visited Bolsonaro in the hospital, where the candidate was recovering after being stabbed during a campaign event Sept. 6.

Ten percent of evangelicals backed Alckmin and Marina Silva and 7 favored Ciro Gomes. Trailing behind so far was Fernando Haddad, who has taken over da Silva's spot for the left-leaning Workers' Party, though the poll was conducted before he received da Silva's formal endorsement for the presidential run.

The poll interviewed 2,002 people Sept. 8-10 and had a margin of error of two percentage points.

"Today the candidates most in line with our values are Alckmin and Bolsonaro, but we still need to talk to them to know what each is proposing," said Bishop Robson Rodovalho, a founder of Sara Nossa Terra, a network of evangelical churches across Brazil.

 

Brasil: el voto evangélico cobra protagonismo en la elección

Por MARCELO SILVA DE SOUSA Associated Press San Diego Tribune

En un panorama permeado por la incertidumbre, una certeza emerge en la carrera por la presidencia de Brasil: el voto evangélico tendrá un fuerte impacto en la elección del próximo mandatario.

En las últimas semanas, algunos de los principales candidatos al palacio del Planalto salieron a cortejar al electorado religioso.

Antes de ser apuñalado, el militar nostálgico de la dictadura, Jair Bolsonaro, subió al púlpito de una iglesia evangélica en Río de Janeiro y entre lágrimas recibió la oración; el exgobernador de São Paulo, Geraldo Alckmin, fue invitado especial de un encuentro de pastores paulistas con representación internacional; y en Belo

Horizonte la ecologista Marina Silva prometió a evangélicos mineros que si resulta electa cualquier cambio en la legislación del aborto será decidido en un plebiscito.

Bolsonaro y Alckmin se declaran católicos, de cuño conservador, mientras que Silva es la única evangélica entre los principales candidatos. No obstante, para ellos y los otros diez presidenciales por igual, el intento de estrechar vínculos con las iglesias es estratégico.

Aunque la campaña de Bolsonaro quedó circunscripta a las redes sociales tras el ataque del jueves pasado, que posiblemente puso fin anticipado a sus actividades públicas proselitistas, el diputado de ultraderecha se consolida en la cima de las preferencias. Según la última encuesta de la consultora privada Ibope publicada el martes, Bolsonaro tiene un 26% de intención de voto y lo siguen Silva; Alckmin; Ciro Gomes y Fernando Haddad, el candidato bendecido por expresidente Luiz Inacio Lula da Silva , los cuatro en un virtual empate técnico, con entre un 11 y 8%.

En Brasil, donde la tradición religiosa es muy fuerte, los evangélicos representaban unos 42 millones de personas en 2010, cuando el Instituto Brasileño de Geografía y Estadística realizó el último censo. De acuerdo con proyecciones de la consultora privada Ibope de este año, la población evangélica adulta habilitada para votar ronda los 40 millones –casi un tercio del total del electorado–. En una disputa electoral de final abierto como la del próximo 7 de octubre, esta porción de votos podría inclinar la balanza.

Según dijo el politólogo y especialista en marketing político Antonio Lavareda a The Associated Press, el voto evangélico cobrará un protagonismo inédito debido a la reglamentación electoral que, por primera vez en una campaña presidencial, luego de que fuera revelada la trama del escándalo de corrupción del Lava Jato, prohíbe donaciones de empresas a los candidatos para hacer campaña.

"Ante la escasez de recursos, todos los partidos necesitan del apoyo de corporaciones para garantizar votos, y el caso de las iglesias evangélicas es especial", asegura Lavareda.

Si bien el evangelismo tiene menos fieles que el catolicismo en Brasil, considerado el país con más católicos en el mundo con 123 millones según el censo de 2010, el voto suele dispersarse menos. Orientada por el mensaje de los pastores –osados para hablar de política–, la mayor parte de la comunidad acaba inclinándose por un mismo candidato, explican los especialistas.

Silas Malafaia, de 59 años, es uno de los pastores más influyentes del país, líder de la red de más de 50 iglesias "Asamblea de Dios Victoria en Cristo", y visceral a la hora de opinar. Acostumbrado a fijar posición política y a orientar a sus fieles en las vísperas de cada elección, el pastor se jacta de haber ayudado a elegir a "unos 25 diputados federales y unos cinco senadores". Varios miembros de su iglesia están en la política y su hermano irá por el cuarto mandato como legislador de Río de Janeiro, pero Malafaia no planea convertirse en candidato próximamente.

"Yo fui llamado para influenciar, es mi vocación. Envío mi imagen y mi discurso a los candidatos y los ayudo ser electos. Si quisiera podría ser diputado, pero soy más importante en este lugar", dice a la AP.

En el púlpito y en sus redes sociales, donde tiene más de un millón y medio de seguidores, Malafaia ha comenzado a alertar sobre los candidatos de izquierda que apoyan una "basura moral", es decir, posturas a favor del matrimonio homosexual y el aborto. En esta elección, el pastor apoyará a Bolsonaro.

"En Brasil necesitamos a un macho como él, que con su vida limpia lidere el país para enfrentar al sistema corrupto", dice.

Malafaia está convencido de que el militar conseguirá reunir la mayor parte del voto evangélico porque "defiende todos los valores y principios de la familia cristiana". Albanita Alves, 47 años, ama de casa y seguidora de Malafaia, dice que Bolsonaro tiene la propuesta que más le llega a los evangélicos por su "ideología" y por eso votará por él.

La influencia del pastor es determinante para Alves. "Nosotros tenemos la libertad de escoger nuestro candidato, pero como hombre de Dios él tiene una visión más amplia que nosotros, es muy importante que traiga su posicionamiento", asegura.

"Cuando un pastor lleva a un candidato a su iglesia o lo patrocina envía un mensaje muy fuerte a los fieles, que tienden a ser poco escolarizados y construyen su opinión muy influenciados por lo que escuchan en el templo. La iglesia se convierte en un corral electoral", explicó a la AP María das Dores Machado, socióloga especializada en estudios de la religión y profesora de la Universidad Federal de Río de Janeiro.

El crecimiento de las iglesias pentecostales en Brasil comenzó a partir de los años 70 y una década después el evangelismo empezó a hacer pie en la política eligiendo candidatos propios y fortaleciéndose en el Congreso hasta llegar a lo que hoy se conoce como "bancada evangélica", con 87 diputados y tres senadores.

"No hay una ideología evangélica. Se construyen alianzas y apoyos en base a puro pragmatismo. Sí existe un punto de encuentro sobre algunas cuestiones morales como el aborto y el matrimonio homosexual, pero en el Congreso el bloque es muy diverso y actúan como un grupo de presión", dice Machado.

La bancada evangélica, por ejemplo, tuvo un papel decisivo en el proceso de juicio político de Dilma Rousseff , en 2016, cuando decidieron dar luz verde al proceso de apartamiento del cargo de la expresidenta.

En el atomizado mundo de las iglesias pentecostales, la Iglesia Universal y la Asamblea de Dios son los dos bloques de agrupaciones más grandes e influyentes del país. La primera, incluso, tiene un partido político, y como proyecto de poder más conspicuo ha logrado ocupar la alcaldía de Río de Janeiro con el pastor Marcelo Crivella.

Sin embargo, lejos de responder a una directiva nacional, la socióloga señala que las organizaciones dividirán apoyos y tampoco aparece en el escenario un candidato que aglutine a todo el evangelismo. "Una parte importante va a apoyar a Bolsonaro. Está claro por su perfil conservador, pero Alckmin y Marina también son candidatos fuertes que muestran acompañamiento".

La última encuesta de Ibope muestra que, por encima de su media total nacional, entre los evangélicos Bolsonaro reúne el 33% de intención de voto, arriba de Silva y Alckmin con 10% cada uno.

"Hoy los candidatos que más encajan con nuestros valores son Alckmin y Bolsonaro, pero todavía tenemos que conversar para saber qué propone cada uno", aseguró a la AP el obispo Robson Rodovalho, presidente de la comunidad Sara Nossa Terra.No importa qué credo o religión sigan. No es una cuestión de fe. Los candidatos brasileños recurren al templo para buscar el apoyo que les permita llegar a la presidencia en octubre.

 

Com Bolsonaro ainda mais limitado, bate-cabeça se aprofunda em sua campanha

 

 BEATRIZ JUCÁ e GIL ALESSI para El País Brasil

Sem poder se comunicar de forma adequada no hospital, candidato pode ter sua força questionada. Nos bastidores, organizadores se atrapalham sobre os rumos a seguir

A cirurgia de emergência do candidato Jair Bolsonaro (PSL) na noite desta quarta-feira (12), após a detecção de uma aderência obstruindo o intestino delgado, impõe novos desafios para sua campanha ao Palácio do Planalto. A estratégia de gravar vídeos diários para as redes sociais, prevista para começar esta semana, foi adiada em função do grave estado de saúde do presidenciável, que voltou para a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein, onde se recupera “sem intercorrências” e com visitas restritas a familiares para reduzir o risco de infecção. Sem prognóstico de alta do candidato nem mesmo da UTI, alguns correligionários já admitem que ele não retomará a campanha ou participará de debates até o primeiro turno, no dia 7 de outubro, o que abre espaço para que políticos de seu círculo íntimo comecem a se movimentar —e entrar em atrito.

Com o candidato fora de cena, seus filhos e o candidato a vice na chapa, general Hamilton Mourão (PRTB), começaram a assumir o protagonismo da campanha, de forma aparentemente desordenada. O ato mais ousado veio do militar, cujo partido entrou com um pedido junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que possa representar Bolsonaro nos debates. A ação, entretanto, não contou com o aval da cúpula do PSL, que não foi consultada antes de o general ter se voluntariado para ocupar o púlpito destinado ao capitão da reserva. Na terça-feira Mourão foi além, e afirmou que "este troço já deu o que tinha que dar", referindo-se à facada levada pelo companheiro de chapa, e disse ainda que era preciso acabar com a "vitimização" do capitão. As declarações foram consideradas insensíveis por partidários de Bolsonaro.

O presidente do PSL paulista, Major Olímpio, tratou de colocar panos quentes no assunto, e negou que haja mal-estar entre o vice e os líderes do PSL após o pedido feito ao TSE. “Nós não demos muita importância a esse tipo de coisa. A intenção foi 100% positiva, pra quem conhece o general Mourão”, afirmou nesta quinta-feira ao visitar Bolsonaro no hospital Albert Einstein. Segundo Olímpio, é positivo ter o candidato a vice nos debates para falar das propostas do militar reformado e defendê-lo de possíveis "ataques" dos demais presidenciáveis. “Agora isso não depende de nós. Depende do TSE”.

Segundo Olímpio, o PSL está tentando unir as agendas dos líderes partidários com a dos filhos de Bolsonaro e do general Mourão para tentar passar uma imagem de coesão dentro da chapa, que lidera as intenções de voto até o momento. Nos próximos dias estão marcados atos de campanha em Assis, Marília, Ourinhos, Santa Cruz do Rio Pardo, Bauru e Itupeva, no interior do Estado de São Paulo. “Quanto mais eu puder ter o general Mourão em São Paulo, mais isso fortalece o Jair Bolsonaro”, afirma, fazendo a ressalva de que o general “tem um perfil diferente, não é homem de estar nas massas”. Para Olímpio, os 33 milhões de eleitores paulistas podem ajudar a definir a eleição "no primeiro turno". Para o partido isso seria importante, tendo em vista que até o momento nas simulações de segundo turno da mais recente pesquisa, o Datafolha, o máximo que o capitão obtém é um empate com o petista Fernando Haddad (PT).

Apesar do esforço de Olímpio para amarrar um agenda conjunta, o general parece ter outros planos. "Já estou no Paraná desde terça-feira, e nos próximo dias irei até o Rio de Janeiro e Manaus", afirmou Mourão em conversa por telefone com o EL PAÍS. "O Brasil é enorme, temos que nos mover", disse. O candidato a vice negou que tenha agido de forma desleal com o partido de Bolsonaro ao propor sua participação nos debates: "Eu apenas estou fazendo minha parte como segundo na campanha. Não posso substituí-lo, ele é insubstituível. Apenas o que posso fazer é aumentar a minha circulação pelo país para difundir nossas ideias".

Outra peça importante no xadrez da campanha bolsonarista é o candidato ao Senado Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidenciável, um dos coordenadores da ponta fluminense da campanha. Ele também nega qualquer mal-estar entre seu partido e Mourão. "O general é um cara 100% fechado com a gente, confiamos plenamente nele, e ele mostra que está disposto a ajudar onde for necessário", afirma. No entanto, Flávio diz que a participação do vice ou de qualquer um dos filhos do capitão em eventos ou agendas da chapa depende da decisão do candidato à presidência. "A participação dele depende da anuência do Jair, é dele a decisão final. Se ele entender que o Mourão tem que ir [aos debates], ele é super qualificado, não será uma peça decorativa", explica. "Somos todos soldados do capitão, a palavra final é sempre dele". Seja como for, Bolsonaro foi aconselhado pela equipe do Einstein a falar o menos possível para evitar qualquer complicação extra na recuperação. "Quando ele estiver em condições de tomar decisões, irá tomá-las", disse Flávio.

Do leito do hospital, o próprio Bolsonaro usou o Twitter para tentar conter os rumores de bate-cabeça. "Muita coisa vem sendo falada na tentativa de nos dividir e consequentemente nos enfraquecer. Não caiam nessa! Desde o início sabíamos que a caminhada não seria fácil, por isso formamos um time sólido e preparado para a missão de mudar o Brasil! Não há divisão!", escreveu.

"Forte como um cavalo"

Hospitalizado há sete dias, desde que levou uma facada no abdômen durante ato em Juiz de Fora (MG), Bolsonaro não deve voltar tão cedo para a campanha. E as perspectivas de retorno são ainda piores desde esta quarta-feira. O professor de cirurgia intestinal do Hospital das Clínicas, Carlos Sobrado, explica que uma complicação tida pelo capitão da reserva é comum neste tipo de trauma, mas é grave. “Nessas condições, o pós-operatório é complicado. O candidato tem mais de 60 anos, já passou por duas cirurgias em pouco tempo e está há uma semana sem se alimentar. Com certeza vai passar outra semana em jejum para depois retomar a dieta de forma muito gradativa”, analisa. Segundo ele, se o presidenciável evoluir positivamente, deverá receber alta em dez ou doze dias. “Acredito que no dia 7 [de outubro, quando acontece o primeiro turno] ele já estará em casa, mas não vai voltar a fazer campanha. Talvez para um segundo turno, se ele passar, ele tenha condições de participar de alguma atividade, mas com muito cuidado e restrição”, afirma.

O contraste entre o capitão da reserva que construiu sua carreira política alicerçada em um discurso conservador —e viril— e o candidato acamado com saúde fragilizada desempenha um duplo papel na campanha. "O drama pessoal humaniza o Bolsonaro, sempre há lugar no imaginário coletivo para os heróis feridos, que enfrentam situações adversas", explica o cientista político Antônio Lavareda, da Universidade Federal do Pernambuco. "Mas suponha que isso se estenda até o segundo turno, que ele continue fora da campanha caso avance para a reta final do pleito: aí é impossível prever o efeito que a ausência e fragilidade da saúde de Bolsonaro terão na cabeça das pessoas", diz. Para o professor, até o momento o fato de que o candidato não poderá ir a debates e sabatinas é positivo para ele, que não terá que se expor. "Mas enquanto ele fica no hospital outros personagens de seu círculo próximo ganham protagonismo, e eventualmente entram em conflito. Isso tudo deixa a opinião publica desconcertada, sem saber exatamente qual o estado de saúde do capitão", afirma, lembrando também o "trauma coletivo" que foi a morte do então presidente Tancredo Neves em 1985, que foi eleito, mas morreu antes de ser empossado, dando lugar a seu vice, José Sarney.

Flávio Bolsonaro afirma mesmo que o pai esteja em situação delicada no momento, sua imagem não será prejudicada. "Se ele não fosse forte já estava morto. É incrível como ele se recupera muito rápido de todas as cirurgias, operação após operação", diz. O vereador Carlos Bolsonaro, irmão mais novo de Flávio, também endossa o discurso familiar de que o capitão é "forte como um cavalo". No Twitter ele escreveu que apesar da "noite delicada (…) o velho é forte como um cavalo, não é à toa que seu apelido de Exército é 'cavalão!". Resta saber quanto vigor pode ter Bolsonaro para liderar uma corrida eleitoral da cama do hospital.

Se esperava que rejeição a Bolsonaro caísse após facada, diz Lavareda

O cientista político analisou os números da pesquisa Datafolha onde o candidato Jair Bolsonaro aparece com 24% das intenções de voto. Quatro candidatos estão empatados em segundo lugar, no limite da margem de erro

Apesar de Jair Bolsonaro ter crescido dois pontos e chagado a 24% na última pesquisa de intenções de voto, divulgada pelo Datafolha na noite dessa segunda-feira (10), a rejeição a ele impressiona. Entre os pesquisados, 43% rejeitam o candidato, mesmo após ele ter sido atacado com uma facada na última quinta-feira (6). De acordo com o cientista político Antônio Lavareda, se esperava que a rejeição a ele caísse. "Isso mostra que a rejeição a Bolsonaro está consolidada entre as mulheres e os leitores mais pobres", diz. "Eu esperava que ele crescesse uns 3 pontos percentuais e queda na rejeição, mas a rejeição a ele se mostrou surpreendente", completa.

O cientista político ainda analisou o discurso de Marina Silva e a dificuldade de crescimento da candidata nestas eleições. "Há duas forças que tracionam e começam a subtrair o eleitorado da ex-senadora:  o voto de classe, quando vai perdendo voto para Haddad, e o voto evangélico, onde ele disputa eleitorado com Bolsonaro, basicamente", diz. Ouça a entrevista completa:

A pesquisa, com margem de erro de 2%, apresenta quatro candidatos empatados em segundo lugar, no limite da margem de erro. Para o cientista político, o brasileiro dá muito valor à margem de erro, coisa que não acontece nos Estados Unidos, por exemplo. Lavareda afirma ainda que os crescimentos ou queda de cada candidato precisam ser avaliados em relação ao momento político e comparando instituto por instituto, candidato com candidato.

Pesquisa

O candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) atingiu 24% das intenções de voto em pesquisa divulgada hoje (10) pelo Instituto Datafolha. Ciro Gomes (PDT) teve 13% das preferências; Marina Silva (Rede), 11%; Geraldo Alckmin (PSDB), 11% e Fernando Haddad (PT), 9%.

De acordo com a pesquisa, Ciro tem 13%, Marina, 11%; Alckmin, 10%; e Haddad, 9%. Eles estão tecnicamente empatados, conforme margem de erro de dois pontos percentuais que pode oscilar para baixo ou para cima. A margem de pesquisa divulgada pelo Datafolha é de 95%.

Álvaro Dias (Pode) foi indicado por 3% dos eleitores entrevistados, o mesmo percentual de João Amoêdo (Novo) e de Henrique Meirelles (PMDB). Guilherme Boulos (PSOL), Vera Lúcia (PSTU) e Cabo Daciolo (Patri) pontuaram com 1%. João Goulart Filho (PPL) e José Maria Eymael (DC) não pontuaram. Os brancos e nulos somaram 15% e não responderam ou não quiseram responder 7%. 

Essa foi a primeira pesquisa do Datafolha após o ataque a faca contra Jair Bolsonaro, ocorrido na última quinta-feira (6), em Juiz de Fora (MG). É o primeiro levantamento que exclui o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba (PR) desde abril. Não foram divulgados resultados de intenção espontânea de voto.

Na comparação com a pesquisa de opinião realizada pelo Datafolha em 20 e 21 de agosto, Bolsonaro cresceu 2 pontos percentuais (p.p); Ciro, 3 p.p; Alckmin, 1 p.p. e Haddad 5 p.p. Marina Silva caiu 5 p.p. As oscilações de Bolsonaro e Alckmin estão dentro da margem de erro.

Entre os dois levantamentos, caiu em 7 p.p o número de eleitores que pretendem votar em branco ou nulo. Subiu em 1 p.p o número de entrevistarados que não quiseram ou não souberam responder.

A pesquisa atual ouviu nesta segunda-feira 2.804 pessoas em 197 municípios. O levantamento foi encomendado pela TV Globo e o jornal Folha de S.Paulo e registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número BR 02376/2018.

Rejeição

O candidato Jair Bolsonaro tem a maior taxa de rejeição, 43%. Marina Silva tem 29%; Geraldo Alckmin, 24%; Fernando Haddad, 22%; e Ciro, 20%.

Os demais resultados são: Cabo Daciolo, 19%; Vera Lúcia, 19%; Eymael, 18%; Guilherme Boulos, 17%; Henrique Meirelles, 17%; João Goulart Filho, 15%; João Amôedo, 15%; e Alvaro Dias, 14%. 

Cinco por cento dos eleitores entrevistados admitem que não votam em nenhum dos candidatos e dois por cento dizem que não votariam em ninguém. Seis por cento declararam não saber.

2º Turno

O Datafolha fez simulações de 2º turno entre os candidatos.  Nos cenários em que Jair Bolsonaro aparece disputando com outro candidato, Bolsonaro perde em todas as simulações: 39% para Haddad e 38% para Bolsonaro (20% branco e 3% nulo), 43% para Marina e 37% para Bolsonaro (18% branco e 2% nulo), 43% para Alckmin e 34% para Bolsonaro (20% branco e 3% nulo), 45% para Ciro e 35% para Bolsonaro (17% branco e 3% nulo).

O Datafolha ainda testou cenários de 2º turno sem o candidato do PSL. Ciro (39%) venceria Alckmin (35%), tendo 23% branco e 3% nulo; Marina (38%) superaria Alckmin (37%) tendo 23% branco e 2% nulo; Ciro (41%) ganharia de Marina (35%) tendo 22% branco e 2% nulo; Marina (38%) superaria Alckmin (37%); assim como venceria disputa com Haddad, 42% contra 31% (25% branco e 3% nulo). Geraldo Alckmin (42%) venceria disputa com Fernando Haddad (29%), tendo 25% branco e 3% nulo.

 

Ouça a entrevista em: http://radiojornal.ne10.uol.com.br/noticia/2018/09/11/se-esperava-que-rejeicao-a-bolsonaro-caisse-apos-facada-diz-lavareda-60731

 

Tristeza embala o voto do brasileiro nas eleições 2018


LUCIANA LIMA

Pesquisas e medições nas redes identificam o inédito mau humor dos eleitores. Após o atentado contra Bolsonaro, raiva cresce

 

Voto consciente, racional. Embora a prudência ordene uma decisão pensada à luz da razão, as reações emocionais estão especialmente presentes no voto, não só do brasileiro, mas nas democracias mais consolidadas do mundo. As campanhas sabem disso e, como podem, estimulam e se defendem dos sentimentos que influenciam a definição do voto.

Em especial nestas eleições, a tristeza é um dos sentimentos mais identificados pelas pesquisas qualitativas e nos comentários das redes sociais sobre os candidatos à Presidência da República. Esse é um fato inédito em pleitos desde a redemocratização. Campanhas anteriores, mesmo as que ocorreram em clima de crise econômica, contaram com o entusiasmo do eleitor, que votou com uma boa dose de esperança em seus candidatos.

“Apesar de o brasileiro manter a esperança e a confiança, ele está triste e com medo”, analisou o doutor em comunicação social Sérgio Denicoli, diretor da AP/Exata, empresa especializada em análise de dados nas redes sociais e que, desde maio deste ano, tem acompanhado a evolução dos sentimentos presentes em postagens no Twitter sobre os presidenciáveis.

A empresa acompanhou uma amostra de 58.812 tweets geolocalizados, publicados a partir de 145 cidades, de todos os estados do Brasil. São oito sentimentos básicos monitorados nas performances das hashtags: raiva, previsibilidade, desgosto, medo, alegria, tristeza, surpresa e confiança. O mesmo método foi utilizado nas duas últimas eleições norte-americanas, seguindo a teoria de Robert Plutchik. O estudo baseou a elaboração do algoritmo de medição de emoções nas redes.

Atentado contra Bolsonaro
O termômetro das emoções nas redes sociais reagiu de forma imediata na última quinta-feira (6/9), nas duas horas que sucederam o ataque ao candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL). Ele cumpria agenda de campanha na cidade mineira de Juiz de Fora e foi esfaqueado.

Esse foi um raro momento em que o sentimento de raiva superou o sentimento de tristeza, o qual também subiu de forma bastante contundente. Além disso, o medo aumentou bastante em poucas horas.

Confira a evolução das emoções detectadas no gráfico abaixo. O atentado acontece no momento em que o gráfico marca -2:

A confiança – que nas últimas semanas tem sido o sentimento mais predominante já que quem fala sobre o candidato nas redes é, em geral, apoiador de determinado nome – caiu drasticamente, sendo superada pela raiva. “Houve um claro sentimento de revolta”, identificou Denicoli.

Presidenciáveis
Ao longo dos últimos quatro meses, no entanto, as emoções mais presentes nas postagens que falam dos presidenciáveis foram mapeadas. O grosso dessas publicações é de apoiadores. Isso explica, na visão de Denicoli, o alto índice de confiança, identificado pelo levantamento, nos presidenciáveis citados nos posts.

Excluindo o fator confiança, já que os posts são feitos por apoiadores, os sentimentos presentes são bastante negativos. É necessário observar que os sentimentos não se referem aos candidatos citados, mas a qualquer fato ou pessoa.

 

Voto consciente, racional. Embora a prudência ordene uma decisão pensada à luz da razão, as reações emocionais estão especialmente presentes no voto, não só do brasileiro, mas nas democracias mais consolidadas do mundo. As campanhas sabem disso e, como podem, estimulam e se defendem dos sentimentos que influenciam a definição do voto.

Em especial nestas eleições, a tristeza é um dos sentimentos mais identificados pelas pesquisas qualitativas e nos comentários das redes sociais sobre os candidatos à Presidência da República. Esse é um fato inédito em pleitos desde a redemocratização. Campanhas anteriores, mesmo as que ocorreram em clima de crise econômica, contaram com o entusiasmo do eleitor, que votou com uma boa dose de esperança em seus candidatos.

 

“Apesar de o brasileiro manter a esperança e a confiança, ele está triste e com medo”, analisou o doutor em comunicação social Sérgio Denicoli, diretor da AP/Exata, empresa especializada em análise de dados nas redes sociais e que, desde maio deste ano, tem acompanhado a evolução dos sentimentos presentes em postagens no Twitter sobre os presidenciáveis.

A empresa acompanhou uma amostra de 58.812 tweets geolocalizados, publicados a partir de 145 cidades, de todos os estados do Brasil. São oito sentimentos básicos monitorados nas performances das hashtags: raiva, previsibilidade, desgosto, medo, alegria, tristeza, surpresa e confiança. O mesmo método foi utilizado nas duas últimas eleições norte-americanas, seguindo a teoria de Robert Plutchik. O estudo baseou a elaboração do algoritmo de medição de emoções nas redes.

Atentado contra Bolsonaro
O termômetro das emoções nas redes sociais reagiu de forma imediata na última quinta-feira (6/9), nas duas horas que sucederam o ataque ao candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL). Ele cumpria agenda de campanha na cidade mineira de Juiz de Fora e foi esfaqueado.

Esse foi um raro momento em que o sentimento de raiva superou o sentimento de tristeza, o qual também subiu de forma bastante contundente. Além disso, o medo aumentou bastante em poucas horas.

Confira a evolução das emoções detectadas no gráfico abaixo. O atentado acontece no momento em que o gráfico marca -2:

Fonte: AP/Exata

 

A confiança – que nas últimas semanas tem sido o sentimento mais predominante já que quem fala sobre o candidato nas redes é, em geral, apoiador de determinado nome – caiu drasticamente, sendo superada pela raiva. “Houve um claro sentimento de revolta”, identificou Denicoli.

Presidenciáveis
Ao longo dos últimos quatro meses, no entanto, as emoções mais presentes nas postagens que falam dos presidenciáveis foram mapeadas. O grosso dessas publicações é de apoiadores. Isso explica, na visão de Denicoli, o alto índice de confiança, identificado pelo levantamento, nos presidenciáveis citados nos posts.

Excluindo o fator confiança, já que os posts são feitos por apoiadores, os sentimentos presentes são bastante negativos. É necessário observar que os sentimentos não se referem aos candidatos citados, mas a qualquer fato ou pessoa.

Nas postagens feitas por apoiadores do presidenciável pelo Podemos, Alvaro Dias, o sentimento predominante é raiva (15,02%). Já em relação a Ciro Gomes, candidato do PDT, a tristeza alcançou 13,63%.

Nos posts referentes ao candidato a vice na chapa petista, Fernando Haddad, o sentimento majoritário é raiva (14,39%) e tristeza (14,31%). No caso do tucano Geraldo Alckmin, a raiva teve o maior índice nas publicações (16,28%).

As postagens que citam o candidato do PSol, Guilherme Boulos, são motivados principalmente por tristeza (16,32%). Já em relação a Henrique Meirelles, o sentimento maior é medo (12,01%).

As interações citando o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, são motivadas principalmente por tristeza (14,99%) e raiva (14,80%). João Amoedo, do partido Novo, suscitou postagens com predominância de tristeza (13,37%) e Marina Silva motivou posts preferencialmente pautados pelo medo (15,52%).

Já as publicações que citam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teve sua candidatura negada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada, foram permeadas principalmente pelo medo (16,50%).

Julgamento
Até o atentado a Bolsonaro, outro fator bastante observado foi a questão da previsibilidade. Ou seja, ninguém verdadeiramente se surpreendeu com o fato político relacionado com a campanha, apesar de seu caráter inusitado, com um ex-presidente preso, lutando para disputar as eleições.

Na sexta-feira (31/8), durante o julgamento do TSE que barrou o registro de candidatura de Lula, confiança, tristeza, medo e raiva foram predominantes na rede social. Esses sentimentos estiveram bastante presentes nas postagens associadas às hashtags que mais se destacaram sobre o assunto. São elas: #Lula, #PauNoCudaOnu, #LulaInelegível, #LulaLivre, #LulaNasUrnasTSE, #LulaPresidente e #SemLulaECiro.

Enquanto o sentimento de raiva mobilizou nas redes os adeptos da comunidade formada em torno dos termos #LulaLivre, #LulaNasUrnasTSE e #LulaPresidente, a tristeza esteve bastante presente, por motivos opostos nos posts que utilizaram as hashtags #PauNoCuDaONU e #LulaInelegível. Uma lamentou a intervenção do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) no processo. A outra, o fato de Lula não poder ser candidato seguindo a recomendação expedida pelo órgão internacional.

Já o sentimento de surpresa foi o menos presente no estudo. Os internautas já esperavam o impedimento de Lula. Mesmo entre os defensores do ex-presidente que utilizaram a hashtag #LulaLivre, surpresa esteve presente em apenas 7% dos tweets.

“Arame farpado”
Para o cientista político Antônio Lavareda, especialista em comportamento eleitoral e marketing político, as emoções passaram a ser expressas nas redes sociais de forma bastante explícita, fazendo com que esse ambiente virtual assumisse um papel de “rede de arame farpado”.

“As pessoas deveriam investir em entender o porquê de se comportarem de determinada forma. Saber como reagem a determinado estímulo é fácil. Difícil é entender os motivos”, observou. Lavareda afasta o mito da escolha racional nas eleições. “Isso já foi afastado pela economia e também não funciona para a política”, atestou.

Para o cientista político, o sentimento de tristeza está presente de forma bastante particular nestas eleições. Em estudo realizado em junho pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) para a XP Investimentos, ele identificou dois grupos de sentimentos presentes entre os eleitores.

O primeiro contingente, o maior grupo identificado, é motivado por sentimentos chamados aversivos ou negativos. O método desenvolvido pelo Ipespe inclui nesse grupo emoções como preocupação, indignação ou raiva, e medo. “No segundo grupo, bem menor, estão os esperançosos”, observou Lavareda. Fazem parte do segundo sentimentos positivos a esperança, o orgulho, a alegria e o entusiasmo.

“Se acrescentarmos a tristeza ao primeiro grupo, podemos observar que ele abrange 83% dos entrevistados. Já os sentimentos mais positivos passam a somar 14%”, destacou.

Crises sobrepostas
Segundo Lavareda, esse estado emocional vigente deve-se, principalmente, às sobreposições de crises nos últimos anos. “Estas eleições ocorrem sob um signo de emoções eminentemente negativas. Isso é uma coisa inédita no Brasil.”

Estamos em um período de sucessivas crises, de ordem econômica, fiscal e ética. Tivemos ainda uma crise de instituições, o confronto entre os Poderes do Estado, entre o Judiciário e o Congresso, entre o Congresso e o Executivo, entre o Executivo e o Judiciário. Tivemos o episódio do impeachment. Ou seja, temos todo glossário de crises se sobrepondo nos últimos anos e gerando tristeza, indignação e muita raiva"

Antônio Lavareda, cientista político especializado em marketing digital

O cenário atual, no entanto, é bem diferente do que se desenhou em 1989, quando o país atravessava crise econômica severa e de representação política, mas estava prestes a realizar a primeira eleição após a redemocratização.

“Se observarmos a eleição de 1989, havia um cenário de crise econômica e de representação. No entanto, havia um entusiasmo. Os partidos não fizeram coligações para o primeiro turno. Praticamente todos as legendas lançaram nomes para a disputa ao Palácio do Planalto. Foi um ano de grande alegria, apesar das crises”, enfatizou Lavareda.

Em junho, o estudo ouviu 1,2 mil  eleitores. Na amostragem, 83% dos pesquisados declararam ter emoções negativas; enquanto apenas 14% estariam imbuídos de sentimentos positivos. Outros 3% não quiseram ou não souberam responder.

No grupo de sentimentos negativos, os entrevistados responderam da seguinte forma: preocupação (33%), indignação ou raiva (27%), tristeza (12%) e medo (11%). Já entre as emoções positivas houve a esperança (12%), orgulho (1%) e alegria (1%). Entusiasmo não atingiu 1% das menções.

Emoção nos slogans de campanha
A análise das emoções é instrumento bastante utilizado pelas campanhas na definição de suas estratégias. Não é de forma gratuita que, em 1989, a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva elegeu como slogan a frase “Sem Medo de Ser Feliz”. O mote começou a mudar a imagem do operário, que metia medo na classe alta e média por seu passado sindicalista. Foi o início de uma construção que culminou com a chegada de Lula ao poder, em 2003.

Em 2002, o “Lulinha Paz e Amor” conseguiu encarnar a felicidade pretendida pelo eleitorado brasileiro no início da década de 2000, com um tom muito menos agressivo do que a sua imagem comunicava na década de 1980.

Neste ano, as candidaturas apostam em sentimentos negativos. Para Lavareda, o voto no candidato Bolsonaro é bastante motivado pelo sentimento de raiva e indignação. A indignação é ainda bastante explorada por Alvaro Dias.

A campanha de Lula também insiste na indignação diante de um ex-presidente vitimado, enquanto os candidatos Marina Silva e Ciro Gomes apostam em emoções como preocupação e ansiedade.

“É claro que nenhum dos candidatos desperta ou provoca somente um tipo de emoção. Os sentimentos afloram como na gente. Ora estamos indignados, ora preocupados”, ressalvou Lavareda. O pesquisador é defensor do “modelo de inteligência afetiva”, explicitado em seu livro Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais, o qual ele usa como referência campanhas vitoriosas, como a de Barack Obama, nos Estados Unidos, as de Lula, em 2002 e 2006, e de Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998.

 

 

 

 

“Datafolha deve mostrar crescimento de Bolsonaro, mas longe de vitória no 1º turno”, afirma Mônica Bergamo

A pesquisa do Instituto Datafolha vai revelar logo mais o impacto do ataque ao candidato à Presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro. De acordo com a nossa colunista Mônica Bergamo, a expectativa é muito grande entre os analistas das campanhas dos presidenciáveis.

Segundo o nosso colunista Antônio Lavareda, que analisa as pesquisas aqui para a Band e que costuma acertar 10 em cada 10 previsões, a expectativa é que o levantamento deve mostrar, no mínimo, a consolidação dos votos em Bolsonaro.

O candidato tinha 22% de intenção de votos e é previsível o crescimento de até quatro pontos porcentuais. A previsão é reforçada por sondagens que começaram a circular pela manhã, porém, o crescimento está longe de dar a vitória ao candidato no primeiro turno.

Conforme Mônica Bergamo, o maior medo dos outros candidatos é que o noticiário espontâneo focado em Bolsonaro sufoque os demais presidenciáveis. Outro dilema é como seguir fazendo críticas ao candidato do PSL após o ataque.