Autor: Antonio Lavareda
Band Eleições analisa o índice Band – Parte 2
Lula alcança seu maior patamar, mas transferência a Haddad ainda é baixa, mostra XP/Ipespe
A 44 dias do primeiro turno, apenas um em cada três eleitores de Lula indicam migração para "plano B" petista
Marcos Mortari, 24 ago, 2018 10h05
SÃO PAULO – A uma semana do início do horário de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, o expresidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alcançou seu maior patamar de intenções de voto na disputa pelo Palácio do Planalto. De acordo com pesquisa XP/Ipespe, realizada entre 20 e 22 de agosto, o petista agora tem apoio de 32% na simulação de primeiro turno em que sua candidatura é considerada — 12 pontos percentuais acima do segundo colocado, o deputado Jair Bolsonaro (PSL). O resultado representa uma oscilação positiva de um ponto em relação à semana anterior. Nesta simulação, os votos em branco, nulos e indecisos somam 18%. A pesquisa, registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o número BR-07829/2018, ouviu 1.000 pessoas e tem margem máxima de erro de 3,2 pontos para cima ou para baixo. Preso há mais de quatro meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro após ser condenado por unanimidade em segunda instância, Lula está inelegível e tem poucas chances de poder participar da disputa, em função da Lei da Ficha Limpa. A pesquisa mostra que, apesar do bom desempenho, o ex-presidente ainda transfere poucos votos a seu vice, Fernando Haddad, cotado como o favorito para substituí-lo ao longo da disputa. O ex-prefeito paulistano tem 6% das intenções de voto no cenário em que é considerado candidato do PT, situação de empate técnico com outros três candidatos: Marina Silva (Rede), com 12%; Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT), ambos com 8%. O líder nesta simulação é Bolsonaro, com 23%, ao passo que o grupo dos "não voto" soma 30%
Assim como nas edições anteriores, a pesquisa testa o comportamento do eleitor quando o nome de Haddad é associado explicitamente a um esperado apoio de Lula. Nesta situação, o ex-prefeito cresce para 13% das intenções de voto. Bolsonaro lidera com 20% de apoio, ao passo que brancos, nulos e indecisos somam 31%. Uma semana atrás, o possível candidato petista tinha 15% das intenções de voto, o que correspondia a uma transferência de 44% do total conquistados por Lula. Agora, a taxa está em 32%, o menor percentual já registrado na série histórica da pesquisa XP/Ipespe, iniciada em maio. O movimento se dá em função da oscilação positiva de Lula e negativa de Haddad no recente levantamento.
Nos dados estratificados, Lula tem 50% das intenções de voto no Nordeste e 37% de apoio dos eleitores com renda familiar mensal abaixo de dois salários mínimos. Já Haddad, mesmo no cenário com apoio explícito de Lula, tem 21% de intenções de voto dos nordestinos e 17% entre os eleitores das classes D e E. Como no momento o PT tem adotado a estratégia da insistência na candidatura de Lula, os esforços na transferência de votos a Haddad ainda não se intensificaram, embora o ex-prefeito já tenha começado a percorrer o País para difundir as ideias da campanha petista. No partido há controvérsia sobre quando a substituição de candidatura deve ocorrer. Legalmente, o prazo para isso ocorrer é até 17 de setembro, 20 dias antes do primeiro turno.
A pesquisa XP/Ipespe também reforça a percepção de consolidação do apoio a Bolsonaro. No cenário espontâneo, quando não são apresentados nomes de candidatos aos eleitores, o deputado tem 15% das intenções de voto. Este tem sido o patamar do parlamentar nas sondagens desde maio, com flutuações de até 3 pontos percentuais, variação dentro da margem de erro. Por outro lado, este foi o primeiro levantamento da série histórica em que Lula apareceu numericamente à frente do deputado no cenário espontâneo, com 18% de apoio. Isso pode ser explicado com o movimento gerado em função do registro da candidatura do ex-presidente, embora as chances de ele realmente participar da disputa sejam pequenas. Confira os cenários de primeiro turno testados pela pesquisa:
Pesquisa espontânea: sem apresentação de nome dos candidatos
Cenário 1: com Lula candidato
Cenário 2: com Fernando Haddad candidato pelo PT
Cenário 3: com Fernando Haddad, "apoiado por Lula"
Migração de votos de Lula: Cenário 1 para Cenário 3
Segundo turno Foram testadas sete situações de segundo turno. Em eventual disputa entre Alckmin e Haddad, o tucano venceria por 36% a 23%, com 41% de brancos, nulos e indecisos. A diferença chegou a ser de 16 pontos percentuais a favor do candidato do PSDB em três semanas. Em uma simulação de disputa entre Lula e Bolsonaro, o petista aparece à frente, por 45% das intenções de voto a 33%, acima do limite máximo de margem de erro de ambos. Esta é a maior diferença entre os dois já registrada. Brancos, nulos e indecisos somam 22%. Quatro semanas atrás, a vantagem numérica de Lula era de 6 pontos, o que configurava empate técnico. No início da série histórica, o deputado aparecia 2 pontos à frente, também em situação de empate técnico, já que, pela margem de erro (3,2 p.p.), o petista poderia até superá-lo. Caso Bolsonaro e Alckmin se enfrentassem, a situação seria de empate técnico, com o deputado numericamente à frente, com 34% contra 33% do tucano. Brancos, nulos e indecisos somam 33%. A diferença entre os candidatos chegou a ser de 7 pontos percentuais a favor do parlamentar na quarta semana de maio, acima do limite da margem de erro de ambos. Em nenhum momento até aqui o tucano esteve à frente. Em eventual disputa entre Marina Silva e Bolsonaro, o cenário também é de empate técnico, com a ex-senadora numericamente à frente por 37% a 33%. Brancos, nulos e indecisos somam 30%. O deputado esteve numericamente à frente nos dois primeiros levantamentos da série, realizados na terceira e quarta semanas de maio, quando a diferença chegou a ser de 6 pontos percentuais a seu favor, também dentro do limite da soma das margens de erro de ambos os candidatos. Os dois estão tecnicamente empatados nesta simulação desde a primeira pesquisa realizada, em maio. Empate técnico também é observado na simulação de disputa entre Alckmin e Ciro, com o tucano numericamente à frente por 33% a 28%. A diferença, dentro do limite das margens de erro, é a mesma da semana anterior. Brancos, nulos e indecisos agora somam 39%. Na última semana de junho, os dois apareciam com 32% das intenções de voto. Já na primeira semana daquele mês, o pedetista esteve numericamente à frente por diferença de 3 pontos, único momento em que liderou, embora dentro da margem de erro. Se Bolsonaro e Ciro se enfrentassem em uma disputa de segundo turno, o cenário seria de empate, com ambos tendo apoio de 32% do eleitorado. Brancos, nulos e indecisos somam 36%. Nos dois primeiros levantamentos, o deputado vencia a disputa com diferença superior à soma das margens de erro dos candidatos. A pesquisa também simulou disputa de segundo turno entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Ao contrário das primeiras quatro semanas em que o cenário foi testado, a disputa está em empate técnico, com o parlamentar numericamente à frente por 38% a 32%. O grupo dos "não voto" soma 30%.
Rejeição aos candidatos
A pesquisa também perguntou aos entrevistados sobre os candidatos em que não votariam sob nenhuma hipótese. Lula, Marina Silva e Geraldo Alckmin lideram a lista com taxa de 60% entre os entrevistados. Tecnicamente empatados com eles aparecem Jair Bolsonaro e Ciro Gomes, com 1 ponto percentual a menos de rejeição. Fernando Haddad tem taxa de 54%, também tecnicamente empatado com os líderes, dentro do limite da margem de erro. A trajetória dos principais nomes nas últimas sete pesquisas está na tabela abaixo:
Fonte: XP/IPESPE
Metodologia
A pesquisa XP/Ipespe foi feita por telefone, entre os dias 20 e 22 de agosto, e ouviu 1.000 entrevistados em todas as regiões do país. Os questionários foram aplicados "ao vivo" por entrevistadores (com aleatoriedade na leitura dos nomes dos candidatos nas perguntas estimuladas) e submetidos a fiscalização posterior em 20% dos casos para verificação das respostas. A amostra representa a totalidade dos eleitores brasileiros com acesso à rede telefônica fixa (na residência ou trabalho) e a telefone celular, sob critérios de estratificação por sexo, idade, nível de escolaridade, renda familiar etc. O intervalo de confiança é de 95,45%, o que significa que, se o questionário fosse aplicado mais de uma vez no mesmo período e sob mesmas condições, esta seria a chance de o resultado se repetir dentro da margem de erro máxima, estabelecida em 3,2 pontos percentuais. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pelo código BR-07829/2018 e teve custo de R$ 30.000,00. O Ipespe realiza pesquisas telefônicas desde 1993 e foi o primeiro instituto no Brasil a realizar tracking telefônico em campanhas eleitorais, a partir de 1998. O instituto tem como presidente do conselho científico o sociólogo Antonio Lavareda e na diretoria executiva, Marcela Montenegro
20 minutos
O entrevistado do programa foi o jornalista e doutor em ciências políticas Juliano Domingues. Em pauta as peculiaridades da campanha e do financiamento eleitoral.
Confira:
Bolsonarista tende a migrar para Ciro, Alckmin e Alvaro
Por Cristian Klein / Valor Econômico
A menos de uma semana da estreia da propaganda eleitoral em rádio e TV, uma das principais dúvidas sobre a corrida presidencial é: quem se beneficiará da possível desidratação de Jair Bolsonaro (PSL) – que chega a ter 22% das intenções de voto mas contará com apenas 1% do tempo de TV. Na opinião de especialistas consultados pelo Valor, o espólio de eleitores de Bolsonaro tende a ser herdado, em sua maioria, por Ciro Gomes (PDT) ou Geraldo Alckmin (PSDB). Para o sociólogo Antônio Lavareda, há um vaso comunicante entre os eleitores de Bolsonaro e Ciro Gomes. Lavareda é adepto da teoria da inteligência afetiva, em contraste com as análises predominantes, na ciência política, baseadas na abordagem da escolha racional. O modelo destaca a importância das emoções – e não da racionalidade, pela qual se esperaria, por exemplo, que votos de Bolsonaro migrariam para Alckmin por causa da proximidade ideológica entre os dois. Mesmo estando à esquerda no espectro político, defende o pesquisador, Ciro pode ser o principal beneficiário da desconstrução de Bolsonaro. O estilo de Bolsonaro está próximo de Ciro – ainda que o pedetista se vista "ora de Lobo Mau, ora de Chapeuzinho Vermelho", ilustra Lavareda – e também se assemelha ao de Alvaro Dias (Podemos), senador que se "abraça" com o juiz federal Sérgio Moro na tentativa de ser o candidato anticorrupção, representante da Operação Lava-Jato. Os três presidenciáveis exploram em seus discursos a indignação, a raiva dos eleitores. Essa é uma das "modas", afirma o pesquisador, do sistema de vigilância, ou seja, do clima de opinião e de sentimentos quando a avaliação das pessoas é de que "as coisas vão mal". Quando a percepção de que a vida vai bem, o modo predominante é o sistema de predisposição, o que costuma se refletir em continuidade política. Lavareda desconfia de que esse vaso comunicante foi percebido pelos candidatos. "Fiquei pensando se, no debate, aquele tratamento carinhoso que Ciro dispensou ao Bolsonaro cabia a um possível herdeiro", afirma. Alckmin é ideologicamente mais próximo, mas nada garante que ao atacar e erodir Bolsonaro conseguirá ser o beneficiário da migração, argumenta. "Alckmin precisa crescer por suas próprias virtudes para eventualmente se beneficiar do movimento subtrativo de Bolsonaro", diz. A perda de votos do capitão reformado do Exército, acrescenta, também pode inflar as taxas de alienação eleitoral (votos nulos, em branco e abstenção). Nisso concorda o diretor do Datafolha, Mauro Paulino, para quem a primeira parada do eleitor desencantado com Bolsonaro pode ser o alheamento. Um sintoma seria o fato de o crescimento do candidato do PSL, nas respostas espontâneas das últimas pesquisas estar relacionado à redução do grupo daqueles que dizem que votarão em branco ou nulo. "Na medida em que Lula sobe e se mostra forte, os antipetistas, os anti-Lula saem do alheamento e passam a votar no Bolsonaro", diz. Pelas inferências de Paulino, no entanto, Alckmin seria o maior beneficiário da desidratação de Bolsonaro. Como não há perguntas sobre o segundo voto dos bolsonaristas, o diretor do Datafolha toma como um parâmetro as preferências desse grupo nos cenários de segundo turno em que o candidato do PSL não aparece. Num eventual duelo entre Alckmin a Ciro, enquanto na amostra total o resultado seria de 37% a 31% a favor do tucano, o ex-governador de São Paulo amplia a vantagem sobre o pedetista quando se observam as preferências de bolsonaristas: 43% a 20%. A margem de erro, quando se recorta a amostra para observar um grupo menor de entrevistados, aumenta. Mas a diferença de oito pontos percentuais entre Ciro (20%) e Marina (28%), nos duelos com Alckmin, indicaria que os bolsonaristas, pela ordem, preferem o tucano, a ex-senadora e o pedetista. O resultado tem consistência nas simulações de segundo turno com Lula, nas quais os simpatizantes de Bolsonaro dão 49% para Alckmin e 43% para Marina, contra 18% e 19%, respectivamente, do petista. Apesar de identificar beneficiário distinto numa erosão de Bolsonaro, o diretor do Datafolha destaca, à semelhança de Lavareda, que nesta disputa o cidadão "não está votando por ideologia", mas pelo sentimento de raiva. Paulino conta que, nesta eleições, pela primeira vez, o Datafolha está gravando as entrevistas feitas em campo pelos pesquisadores. "Os entrevistados falam muito palavrão. Por isso, falo com tanta certeza que o desinteresse pela eleição não vem de uma letargia, é indignação", afirma. Para ganhar os votos de bolsonaristas, a tarefa de Alckmin, sugere Paulino, seria a de entender esse sentimento e apresentar soluções para problemas do eleitor típico de classe média. Na área de saúde, por exemplo, voltar-se mais para a regulação do setor privado. "Fizemos uma pesquisa com esse grupo e 96% reclamaram que já tiveram algum problema com planos de saúde", diz. Na outra dúvida que paira sobre a eleição presidencial – qual o potencial de Fernando Haddad- Paulino e Lavareda têm respostas semelhantes. O vice na chapa petista tem só 4% das preferências, mas será turbinado pelo apoio do ex-presidente Lula, líder das pesquisas, com até 39%, mas cuja candidatura deverá ser barrada pela Justiça eleitoral. Ambos projetam que Haddad terá cerca de 20% dos votos válidos. "Haddad está condenado a crescer", diz Lavareda. As contas se baseiam na transferência de Lula para Dilma em 2010. Lavareda usa agora o percentual de votos que Lula teria contra Bolsonaro, num eventual segundo turno, 52%. Pelo resultado de uma regra de três, daria 28%, mas o pesquisador prevê que, com Lula preso, a transferência para Haddad será em torno de dois terços do que foi com Dilma. Paulino toma como parâmetro as pesquisas do Datafolha em que 31% dos eleitores afirmam que votarão com certeza no candidato apoiado por Lula, índice que, em média, cai à metade quando a pergunta inclui o nome do apadrinhado. Descontando-se abstenções, votos nulos e em branco, o percentual ficaria próximos dos 20%.
Três especialistas comentam última pesquisa Ibope para Presidência.
POR ELISA MARTINS 21/08/2018 18:33 / ATUALIZADO 21/08/2018 19:30
Antônio Lavareda, Alberto Carlos Almeida e Paulo Guimarães falam sobre os números divulgados na segunda-feira (20).
ÉPOCA ouviu três analistas sobre a última pesquisa realizada pelo Ibope a pedido da TV Globo e do jornal O Estado de São Paulo sobre a eleição presidencial. O estudo foi realizado com 2.002 pessoas, entre os dias 17 e 19 de agosto. Dois cenários foram testados: com o ex-presidente Lula como candidato do PT, ele lidera com 37% das intenções de voto, à frente de Jair Bolsonaro, com 18%. Sem Lula, Bolsonaro lidera com 20% das intenções de voto. Marina Silva tem 12%, seguida de Ciro Gomes, com 9%, e por Geraldo Alckmin, com 7%. A segunda opção do PT, Fernando Haddad, aparece com 4%.
Alberto Carlos Almeida, cientista político
A pesquisa mostra uma divisão clara de cenário. Podemos colocar o Lula de um lado, e todos os outros candidatos de outro. Nas últimas semanas, todos os candidatos, menos Lula, foram a debates, entrevistas, eventos de campanha. Trocaram farpas pela mídia, o que é normal numa campanha. E nada aconteceu com eles. Não houve mudança na intenção de voto. Do outro lado, do lado do PT, teve festival Lula Livre no Rio de Janeiro, teve a escolha de Haddad e Manuela de vice, registro de candidatura do Lula com manifestação em Brasília, decisão da ONU… Tudo isso saiu na mídia. E Lula cresceu nas intenções de voto. Isso tem a ver com uma crise econômica longa e profunda, em que há cidadãos desalentados e muita gente que já desistiu de procurar emprego. Vai ganhar a eleição quem o eleitorado achar que vai tirar o Brasil da crise econômica. E isso recai no Lula. Se o Lula for, ou fosse, candidato, ganharia a eleição.
E 37% de votos válidos no primeiro turno é um número muito alto. No outro cenário, com Haddad, ajuda a entender o passado. Mas não vai ficar assim. Se ele for mesmo candidato, vai crescer na direção da votação do Lula. Aí se poderia tomar o percentual do Haddad [4%] como mínimo e o do Lula como máximo.
Já o Bolsonaro está parado há muito tempo. Se o Alckmin tirar 6 pontos do Bolsonaro, ele empata. E isso não é difícil de acontecer em cinco semanas, considerando o tempo de programa eleitoral gratuito no rádio e na TV. Nas últimas eleições presidenciais, o Aécio apareceu empatado com a Marina numa quinta-feira, com as eleições num domingo. Isso pode acontecer de novo. A tendência é de um segundo turno entre candidato do PT de um lado e do outro entre Alckmin ou Bolsonaro.
Agora, no cenário detalhado dessa pesquisa: o PT, comparado com o próprio PT, sempre teve votação mais forte entre homens do que mulheres. E agora não está acontecendo isso por causa do discurso mais agressivo do Bolsonaro. Ele atraiu isso. Se retém é outra história. Isso mostra que há uma grande barreira, e que o Bolsonaro seria um candidato fácil de derrotar no segundo turno, porque teria muita dificuldade com metade do eleitorado brasileiro. As mulheres seriam responsáveis por sua derrota no segundo turno.
Na divisão por renda, vemos que Bolsonaro só ultrapassa Lula na faixa que recebe mais de cinco salários mínimos. Mas aí a quantidade de população nessa condição econômica é menor. As faixas de segmentações de pesquisa flutuam muito, porque a mostra diminui. Mas geralmente reproduzem o resultado geral. Por exemplo, na divisão por escolaridade, o PT perde nas faixas de maior escolaridade. O PT sempre foi mais forte na classe mais humilde, com renda e escolaridade baixas.
Conseguiremos ver melhor o cenário daqui a uns 15 dias, quando já tiver começado a propaganda em rádio e TV, e quando o TSE se manifestar sobre o registro da candidatura do Lula. Então o eleitor vai perceber de fato que haverá uma eleição. E o voto pode se movimentar em função disso. O que foi surpreendente foi o Lula crescer nas intenções de voto.
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Paulo Guimarães, estatístico
Em pesquisas de consumo interno, temos números diferentes para o Lula. Não acho que na prática ele tenha tudo isso [37%]. Mas certamente ele empresta pelo menos 50% da imagem positiva dele a quem apoia. E em um cenário com Haddad candidato ele vai passar ao ex-prefeito muito mais do que passou quando Haddad era candidato em São Paulo. Lula será um agente importante na eleição. E o Haddad pode crescer mais.
Uma coisa que preocupa o mercado, e que pode deixar o mercado esperançoso em relação ao Bolsonaro, é que as mulheres não votam nele. Mas precisamos ver qual será a tendência. Historicamente, elas sempre se decidiram mais perto das eleições. E acompanham a tendência de voto dos homens. Elas podem fazer um julgamento diferente agora [na pesquisa, há 5% de indecisos entre os homens e 8% entre as mulheres]. Ao longo da história das eleições sempre existiu o candidato dos mais ricos e o dos mais pobres. Mas até hoje não existiu o candidato dos homens e o das mulheres a ponto de decidir uma eleição.
Na última eleição presidencial, chegamos ao segundo turno com Aécio e Dilma somando 47% de rejeição. Mas qual era a maior rejeição? De cada 100 pessoas que rejeitavam o Aécio, 25 votaram nele no segundo turno. E de cada 100 que rejeitavam a Dilma, só 2,3 votaram nela. A rejeição era mais intensa. Então os números de rejeição não são suficientes para dizer que não vota. Nessa mesma linha, considerando a rejeição do Bolsonaro [37%], ele teria de abrir uma vantagem muito maior de intenções de voto para ir ao segundo turno. E ele vem nessa toada de votos há muito tempo, porque largou na frente. Mas não apostaria que ele está garantido no segundo turno, de jeito algum. Uma eleição se ganha com imagem e com voto dentro dessa imagem. Será que alguns dos outros candidatos, como Marina e Ciro, conseguem cativar o eleitor às vésperas das eleições, a ponto de irem a um segundo turno?
No quesito de renda, a pesquisa repete uma tendência que já se via na última eleição. Dilma só venceu em faixas de até dois salários. Mas algum candidato conciliador pode tirar votos de Bolsonaro, que tem mais aceitação nas rendas mais altas e de escolaridade também. Estatística é acomodação de um momento. A duas semanas das últimas eleições, Marina tinha 37% das intenções de voto, Aécio tinha 14%, e Marina não foi nem para o segundo turno. Estar na frente nas pesquisas não garante ida ao segundo turno. Pelo tamanho que Lula tem, ele tem pontos suficientes para dar mais de 20% ao Haddad. Já pela imagem e o apoio que o Bolsonaro tem, restrito a uma certa fatia, ele não tem elementos para garantir mais que 16%. A tendência é que haja um segundo turno entre o candidato do Lula e outro candidato conciliador. A ver quem. Mas o que o Lula está fazendo, de atrasar a oficialização de Haddad, pode ser uma faca de dois gumes.
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Antônio Lavareda, sociólogo e cientista político
O Lula é um ex-presidente que saiu do governo com 85% de aprovação. Então, ao tentar voltar ao cargo é natural que volte como favorito ou entre os favoritos. Ele é também a principal liderança do campo de oposição a um governo altamente impopular hoje. E em qualquer país do mundo, quando um governo é impopular, os líderes da oposição pontuam de maneira superlativa nas campanhas eleitorais.
As pesquisas feitas no último trimestre de 2015 até junho de 2016 mostravam um cenário em que Alckmin ganhava em um segundo turno contra Lula. O Alckmin começou a perder depois de dois fatos: quando o governo Temer foi instaurado e a maioria da população tinha uma avaliação negativa do governo, e depois quando começaram a ganhar volume as suspeitas sobre o quadro tucano, principalmente Aécio Neves.
Então é relativamente fácil entender por que Lula tem esse desempenho na pesquisa. Não me surpreende, diria que ele tem um terço do eleitorado. Mas pesquisas são fotografias do momento. Não se pode imaginar que Haddad, no cenário sem Lula, vai ficar apenas com 4%. Ele vai crescer quando for apresentado aos eleitores como o candidato do Lula. Para os outros candidatos, como Marina, Ciro e Alckmin, é como uma pré-campanha. É um momento em que os candidatos estão se apresentando. Os eleitores não estão definindo suas intenções de voto agora. Estão mais interessados em conhecer os candidatos, ouvir suas propostas. Só com o início da propaganda eleitoral no rádio e na TV é que vamos ver deslocamentos efetivos nas intenções de voto. Quando Haddad crescer, poderá esvaziar os outros candidatos. Mais Marina e Ciro, e menos o Alckmin. Vamos ter de ver até onde o Haddad pode chegar. Se o Bolsonaro vai conseguir crescer, assim como Marina. E se Alckmin, com sua aposta de TV e rádio, será capaz de devolver a posição razoável, expressiva, da centro-direita.
Mas essa campanha já traz pelo menos uma novidade: pela primeira vez temos uma enorme distância de gênero registrada por um candidato que lidera pesquisas. É o caso do Bolsonaro. Além de ter majoritariamente um eleitorado masculino, atrai eleitores jovens, de até 35 anos. Tem a ver com a questão de ser novidade e do discurso que empolga o eleitor jovem, de escolaridade média. O desempenho é pior na faixa com mais de 60 anos.
Os outros candidatos só vão crescer se tiverem um posicionamento que faça sentido para o eleitor. Até agora os números mostram que isso não ocorreu.
20 minutos entrevista a desembargadora Dayse Andrade
Com fim da hegemonia da TV, internet pode ser decisiva nestas eleições.
Publicado em 16/08/2018 – 06:30
Por Gilberto Costa – Repórter da Agência Brasil Brasília
Especialistas avaliam que as redes terão mais peso que nunca no pleito
As próximas eleições podem ficar para história e registrar o fim da era da televisão aberta como o principal meio de informação dos brasileiros para acompanhar a disputa de votos por cargos públicos. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil têm como hipótese a possibilidade de a internet ter mais peso do que nunca na decisão, e mudar em definitivo, a maneira de se fazer campanha eleitoral no país.
Pesquisadores de comunicação e consultores eleitorais assinalam que os 147,3 milhões de eleitores brasileiros escolherão seus representantes sob influência inédita de conteúdos compartilhados nas redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, em especial no Facebook e no WhatsApp.
“Tem se especulado que esse pleito possa vir a ser a primeira eleição onde a internet assuma papel protagonista”, resume o sociólogo e cientista político Antônio Lavareda, que já trabalhou em mais de 90 eleições majoritárias (campanhas para presidente, governador e senador).
Nas plataformas da internet, diferente da televisão e do rádio, que veiculam o horário eleitoral gratuito, a comunicação é individualizada e interativa. Os conteúdos são mediados pelos usuários, em lugar de vídeos e peças sonoras veiculados para grandes audiências – sem possibilidade de resposta ou de reencaminhamento.
“A mensagem encaminhada, que consegue penetrar em grupos, é mais influente do que aquela que vem pela televisão”, afirma o estatístico e doutor em psicologia social, Marcos Ruben.
Fábio Gouveia, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), assinala que “a atenção não está mais concentrada na televisão” e, nesta campanha, os usuários “assumem papel de filtros disseminadores”, repassando ou retendo mensagens às pessoas com quem estão conectadas.
Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), aponta que a internet “viabiliza informação para uma quantidade grande da população que estava excluída do debate político”. Segundo ele, “isso ajuda a entender as formas de tratamento, usos de imagem, estratégias de retórica intimidativa e bipolarizante [hoje verificados] que eram menos acessíveis quando tínhamos a campanha baseada na televisão”.
Riscos
Os especialistas não desconsideram os riscos da próxima campanha eleitoral como a circulação de notícias falsas, deformação de mensagens, difamações generalizadas e manifestações de ódio e intolerância.
Para o jornalista Mário Rosa, especialista em gestão de crises de imagem, há forte possibilidade que, em paralelo à campanha positiva e com propostas no horário eleitoral, haja forte campanha negativa na troca de mensagens. “O disparo do WhatsApp não pode ser monitorado e nem auditado. Podem atacar e não vai se saber qual a origem dos ataques”, alerta Mário Rosa ao lembrar que “o objetivo da campanha eleitoral não é informar, mas convencer”.
Na mesma linha, Christian Dunker não afasta a possibilidade, especialmente ao fim da campanha, de serem disseminados “fatos políticos que possam vampirizar candidaturas e interferir nos resultados”.
Números
O Facebook chegou a 127 milhões de usuários neste ano no Brasil e o WhatsApp tinha cerca de 120 milhões de pessoas ligadas no ano passado (20 milhões a mais do que em 2016). Facebook e WhatsApp não informaram o crescimento de usuários que tiveram entre a eleição de 2014 e até o momento.
Segundo o Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviços Móvel Celular e Pessoal (SinditeleBrasil), nos últimos quatro anos, o número de usuários de aparelhos celulares 3G e 4G (que permitem acesso a redes sociais) passou de 143 milhões para 188 milhões – diferença de 45 milhões, superior à população da Argentina.
A Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar do IBGE contabiliza que “entre os usuários da internet com 10 anos ou mais de idade, 94,6% se conectaram via celular”.
Eleição presidencial em pauta na Band
Você sabe como fazer negócios na era digital?
Reprodução/TV Jornal
O programa do 20 minutos deste sábado (11) traz como entrevistado o executivo-chefe de negócios do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), Eduardo Peixoto, que fala sobre os “negócios da era digital”.
Durante a conversa com o cientista político Antonio Lavareda, o profissional afirma sobre os impactos da tecnologia da informação na economia e no mercado de trabalho. “É preciso trabalhar para criar políticas públicas e preparar a sociedade para essa mudança”, explica.
Segundo ele, no Cesar é trabalhado o que se chama a “terceira onda da internet”, ou seja, quando começa-se a ter sensores e poder computacional em vários objetos. “É esperado que a Internet das Coisas acrescente, até 2025, US$ 11 trilhões na economia.”
Sara ele, a tecnologia é o produto para a inovação, onde o foco tem sido mais os setores de saúde, transporte e mobilidade. “As oportunidades com tecnologia podem trazer um resultado maior e mais rápido”, explica.
Durante o programa, o executivo ainda fala de como as pessoas que perderam o emprego podem voltar ao auge para o mercado através dessa tecnologia.
Confira o programa:
Programação
O programa 20 Minutos vai ao ar neste sábado (11) às 19h20. Também é possível acompanhar a entrevista no site da TV Jornal e nas redes sociais do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC). Na Rádio Jornal, o 20 Minutos é transmitido aos domingos, às 11h40.
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