Programa Ponto a Ponto discute a crise nas Instituições brasileiras

A crise em que se encontram hoje as instituições no Brasil atinge não somente o seu funcionamento, mas também a sua legitimidade. No programa Ponto a Ponto do último sábado (22), a jornalista Mônica Bergamo e o sociólogo Antonio Lavareda conversaram com Luciana Gross, professora de Direto da FGV/SP. O semanal discutiu o tema “Instituições em Crise?” e sempre é exibido à 0h, na BandNewsTV. No domingo (23), ganha reprise às 17h30.

Para Luciana Gross, que também é coordenadora de Pesquisa e do Mestrado Acadêmico em Direito e Desenvolvimento, que é responsável pelo Índice de Confiança na Justiça (ICJBrasil), que mede a confiança da população no Judiciário, o brasileiro não consegue distinguir qual instituição de fato está em crise. “O cidadão entende que há uma crise, que algumas instituições estão com um debate mais acalorado, mas fazer exatamente a distinção entre o Supremo Tribunal Federal ou a Procuradoria Geral da República é complicado. O que acaba afetando todas as instituições estatais, ou seja, aquelas que organizam a forma de política do Brasil”, explica.

Ainda no programa, Antonio Lavareda analisa pesquisa do Datafolha, realizada em junho passado, onde mostra que 83% dos brasileiros confiam nas Forças Armadas. Em segundo lugar, no grau de confiança nas Instituições brasileiras, aparece o Poder Judiciário com 73% e em terceiro, o Ministério Público/Imprensa com 71%.

Outro ponto analisado foi a respeito da confiabilidade no Governo Federal, que a partir de 2013 começou a apresentar uma queda, logo após as manifestações. “Mas a partir de 2015 que esse cenário piorou muito e houve uma enorme queda, que até hoje não foi revertida. Verberando também nas demais instituições brasileiras”, enfatizou Gross.

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Economista acredita na recuperação da economia

Economista acredita na recuperação da economia

"O pior já passou", é assim que afirmam muitos especialistas sobre o atual status da crise econômica brasileira. Todavia, ainda, 93% dos brasileiros acreditam que o país está indo na direção errada, enquanto apenas 7% acham que está na rumo certo (Ipsos, maio/2017). Para conversar sobre o tema "Economia: o pior já passou", o Ponto a Ponto do último sábado (15), recebeu o professor de Economia da FGV Samuel Pêssoa. O programa, com apresentação da jornalista Mônica Bergamo e do sociólogo Antonio Lavareda, vai ao ar todo sábado, à meia-noite, na BandNewsTV. 

O economista acredita que a crise econômica e a política não têm "sincronia perfeita", uma pode existir sem a outra. "A econômica está muito lentamente passando. O crescimento, este ano, deve ser de 0,2%. Diferente da política", argumentou. 

"É difícil achar adjetivo na Língua Portuguesa para caracterizar a qualidade da formulação da política econômica vigente de 2007 até 2014", segundo o economista. Segundo Samuel Pêssoa, uma forma de mudar o quadro atual é o voto. "Acredito que a campanha eleitoral do próximo ano vai ser de mais qualidade. A sociedade, os jornalistas, o cidadão comum estão mais cientes de todo o problema. Não vai ser igual a de 2014", previu.

Já Antonio Lavareda não vê com otimismo essa opinião de Pêssoa. "É bom lembrar que dificilmente a percepção da sociedade vai mudar muito radicalmente, pelo menos até o início da campanha. Uma pesquisa dizia que 73% da população achava a Reforma da Previdência um horror. Com certeza, a dimensão dessa percepção não vai mudar muito", disse Lavareda.

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Brasil sem Lula em 2018: quem ganharia e quem perderia no xadrez político

Por Gil Alessi – El País (17/07/2017)

Especialistas analisam a situação dos potenciais candidatos após a sentença de Sérgio Moro

Lula, a maior potencia eleitoral para as eleições de 2018, está a uma decisão judicial de virar pó. Caso o Tribunal Regional da 4ª Região confirme a decisão de Sérgio Moro, que condenou o ex-presidente Lula a 9 anos e meio de prisão, será o fim do sonho do petista de subir novamente – pela terceira vez – a rampa do palácio do Planalto. A condenação pela Corte faria dele ficha suja, e o tornaria inelegível. E de quebra o ex-mandatário ainda pode ser mandado para uma prisão, onde cumpriria pena em regime fechado. Atualmente ele lidera todos os cenários da última pesquisa eleitoral do Datafolha, com 30% das intenções de voto, seguido à distância por Jair Bolsonaro (PSC) e Marina Silva (Rede). Agora o mundo político começa a analisar dois cenários possíveis para as próximas eleições: um com o ex-presidente e líder petista, outro sem ele.

Eleições 2018 Lula candidato
O ex-presidente Lula, na semana passada, ao comentar a condenação pelo juiz Sergio Moro. SEBASTIÃO MOREIRA EFE

 

Sem o ex-presidente na disputa, o PT teria que articular um plano B. Os nomes do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o ex-governador da Bahia Jaques Wagner são os mais cotados para a vaga. Nenhum deles, no entanto, tem o carisma e a força política de Lula. Mesmo fora do pleito, a avaliação de especialistas é que o petista ainda é “o maior eleitor do Brasil”, e poderia emprestar sua imagem e prestígio entre os eleitores simpáticos ao PT para alavancar um de seus colegas de partido. “O fenômeno da transferência de votos é algo difícil de se verificar de antemão, mas provavelmente se Lula ficar de fora por algum impedimento jurídico, ele seria um forte cabo eleitoral”, afirma Leonardo Avritzer, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais. De qualquer forma, em um cenário sem o ex-presidente, crescem as chances da legenda abrir mão da cabeça da chapa para compor com alguma outra legenda.

“Se o julgamento dele ocorrer ainda este ano e ele se tornar inelegível, isso pode fomentar uma candidatura de aliança do PT com partidos do campo da esquerda, mais especificamente com o PDT de Ciro Gomes”, afirma o cientista político Antônio Lavareda da Universidade Federal do Pernambuco. Caso o TRF4 não tire Lula do páreo “até julho ou agosto de 2018”, o professor acredita que o ex-presidente não apenas irá disputar, como usará a campanha como “estratégia de defesa”.

Gomes, que é ex-governador do Ceará e ex-ministro, já sinalizou que não irá disputar caso Lula seja candidato. Em junho deste ano ele chegou a afirmar que uma candidatura do petista seria “um desserviço ao país”, uma vez que “justa ou injustamente, ele [Lula] divide a sociedade brasileira em ódios, passionalismos e até violência”. Isso, de acordo com o pedetista, tiraria o foco das questões econômicas e sociais que devem ser pauta na campanha. Uma estratégia possível de Gomes seria entrar na campanha contando com o cenário em que o ex-presidente seja condenado. “Ele quer se tornar herdeiro dos votos do Lula, então seria plausível o Ciro entre na disputa. No campo da esquerda e centro-esquerda ele seria a melhor opção para o eleitor petista, tendo em vista que a Marina Silva apoiou o Aécio Neves em 2014”, diz Lavareda.

Após a condenação de Lula por Moro, Gomes divulgou nota criticando a sentença por não trazer "um prova cabal e simples", mas também dispara contra o ex-presidente: "Considero Lula o grande responsável político pelo momento terrível pelo qual passa o País. Foi traído, mas a ele, e somente ele, devemos a imposição de um corrupto notório na linha de sucessão do Brasil, o senhor Michel Temer". 

O professor Lavareda não acredita que a condenação em primeira instância vá afastar os eleitores petistas do partido, agora que os críticos do ex-presidente pretendem colar em definitivo o selo de corrupto em Lula. “Grande parte dos eleitores do PT não enxergam esse estigma, e votam no Lula por motivos ideológicos. Eles tendem a ser complacentes com o ex-presidente”, afirma Lavareda. Ele aponta ainda que “o PT convive com essas acusações de corrupção desde 2005, com o mensalão, então o partido tem uma maior resiliência a este tipo de escândalo”. Mesmo imerso nas denúncias desencadeadas pelo ex-deputado Roberto Jefferson, a legenda conseguiu reeleger Lula e eleger Dilma duas vezes, o que corroboraria a tese de Lavareda.

Mas o PT não seria o único partido com problemas pela frente caso Lula fique de fora das eleições. Outros partidos teriam desafios pela frente. Com a ausência de um candidato petista competitivo “o campo tucano terá, pela primeira vez em muitos anos, que aprender a fazer uma campanha sem o elemento de polarização contra o ex-presidente Lula”, afirma Lavareda. Até o momento o candidato tucano é uma incógnita. O senador Aécio Neves, derrotado em 2014 por Dilma Rousseff, responde a processos no âmbito da Operação Lava Jato – o que pode comprometer suas chances nas urnas. Ele chegou a ser afastado do cargo pelo STF, mas foi reconduzido no início de julho. Sua irmã, Andrea, está em prisão domiciliar. Poucos analistas apostam que ele chegará a 2018 com força política suficiente para disputar. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, seria outro postulante à vaga do PSDB, mas correndo por fora aparece o prefeito paulista, João Doria.

O professor Avritzer acredita que independentemente de quem sejam os candidatos em 2018, a pauta “já está colocada”. “A campanha irá girar em torno de quem é a favor ou contra as reformas econômicas e da Previdência”, afirma. O Governo Temer e seus aliados do PSDB têm defendido esta agenda pró-mercado e liberal no Congresso, e devem continuar a fazê-lo no ano eleitoral, caso não consigam aprovar tudo neste ano.

“Por parte do PSDB e do PMDB há pressa para aprovar tudo agora para não ter que tocar nesse assunto ano que vem, tendo em vista que são reformas impopulares”, afirma Claudio Couto, professor de Ciências Políticas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Já o campo oposicionista vai querer “desgastar os partidos da base do Governo trazendo para o pleito estes ‘assuntos desagradáveis”. Couto afirma que é difícil prever a reação do mercado a uma candidatura de Lula: “Eu não vejo espaço hoje para uma esquerda mais dura, mais intervencionista, por falta de uma liderança forte”.

Dentre os candidatos do campo oposicionista, Couto aponta que Marina Silva seria a que mais agradaria o mercado. “Ela é menos avessa a interesses do mundo financeiro do que Ciro Gomes, que, pelo menos em teoria, tem um perfil mais desenvolvimentista”, afirma o professor.

O ex-presidente Lula não é o único pré-candidato bem colocado nas pesquisas que pode ficar de fora das eleições. O deputado Jair Bolsonaro (PSV-RJ), que tem a segunda maior intenção de votos de acordo com o último levantamento Datafolha, é réu no Supremo Tribunal Federal sob a acusação de incitação ao estupro. Em dezembro de 2014 ele disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que não a “estupraria” porque ela “não merecia”. Caso os ministros condenem o parlamentar, ele se tornaria inelegível. A pesquisa do DataPoder360 divulgada no sábado mostra Bolsonaro com uma tendência de alta, encostando em Lula.

 

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Sentença de Lula foi tímida e refletiu cautela

Condenação de Lula agita xadrez eleitoral para 2018

Sentença de Lula foi tímida e refletiu cautela, diz cientista política

Por Rodrigo Carro, Lígia Guimarães e Rafael Rosas (Valor Econômico) – 12/07/2017

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal, em Curitiba, foi “tímida”, refletindo até uma certa cautela com relação às possíveis reações que uma sentença mais dura poderia provocar, acredita a cientista política Céli Pinto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A condenação foi menos forte do que se imaginava”, resume a professora. Na avaliação de Céli, a sentença teve um aspecto político. “Não no sentido político-partidário, mas no sentido de pensar as consequências do ato jurídico num momento crítico da vida política do país”, ressalta a professora do programa de pós-graduação em história da UFRGS. Dentro dessa lógica, a condenação funciona como uma espécie de “balão de ensaio”.

“É difícil aquilatar qual seria a reação nacional e internacional a uma sentença pesada contra Lula. Talvez uma sentença de 20 anos com prisão imediata poderia levar a protestos nas ruas”, diz a cientista política. Céli lembra que, como aconteceu com o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, Moro poderia já ter determinado a prisão de Lula.

Na opinião do cientista político Antonio Lavareda, a condenação de Lula poderá ter efeito “dissuasório” sobre os potenciais eleitores do ex-presidente, que poderão repensar o voto diante da incerteza sobre o futuro do do político. "Vamos ver nas próximas pesquisas qual será a dimensão desse ‘prejuízo’ nas intenções de voto”, afirma o cientista, que destaca que a condenação do ex-presidente já era prevista no cenário político." Ele acredita que nenhum analista, observador imaginava que Moro absolveria o ex-presidente. "O que não se sabia eram as características da pena", diz. Lavareda afirma ainda que o processo até que seja anunciada a decisão em segunda instância é demorado. “Agora resta ver o que se dará na segunda instância, porque aí sim ele ficará inelegível e, com isso, sim, mudaria o cenário eleitoral para 2018.”

A condenação também representa mais um percalço para a esquerda brasileira, que precisará conciliar a campanha pela eleição de Lula com a articulação de possíveis “planos B” para a presidência, destaca. “O comportamento da esquerda vai ser, publicamente, defender o presidente Lula, óbvio. Agora, ao mesmo tempo, a divulgação da sentença levará parte da esquerda a começar cogitar com mais força projetos alternativos ao da candidatura de Lula”, analisa Lavareda.

O cientista político destaca entre as principais alternativas as candidaturas de nomes de dentro do PT e de fora do partido, como o de Ciro Gomes, do PDT. “A candidatura de Ciro Gomes, por exemplo, poderá ganhar gás nesse processo.” 
 

Para o professor titular da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ebape), Carlos Pereira, a condenação é um “sinal inequívoco” de que a democracia no Brasil é madura a ponto de não haver risco de quebra institucional. Além disso, representa uma oportunidade para o PT “se redefinir e se reencontrar com suas origens”. 

Segundo ele, a decisão de hoje significa o coroamento das instituições de controle no pós-Constituição de 1988. Pereira ressalta que o presidencialismo desenhado pela Constituição trazia o risco de que o presidente governasse de forma “desviante”. Para evitar essa possibilidade, a Carta, na visão de Pereira, delegou poderes amplos para o Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal.

O professor do FGV destaca que a vitimização é o único argumento que restou aos simpatizantes do ex-presidente. Pereira alega que a Lava-Jato “já deu vários exemplos de que, independentemente do partido, os políticos estão tendo que se explicar na Justiça”. Esse comportamento da Justiça, na visão de Pereira, tem levado diversos políticos investigados a tentar fragilizar a operação. O professor ressalta que, embora Lula ainda seja a alternativa mais viável para o partido nas eleições do ano que vem, uma condenação do ex-presidente em segunda instância pode ajudar o PT a encontrar uma alternativa eleitoral. “A alternância de poder é fundamental e, para isso, é necessário um partido de esquerda viável. E isso vai depender da capacidade do PT de se reinventar”, frisa.

Pereira evitou um prognóstico sobre a decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que será o responsável por julgar o presidente na segunda instância. “É bom que não haja certeza [da decisão em segunda instância]. É oportunidade para que o réu tenha chances reais de se defender e é importante ver o ex-presidente sendo julgado de forma legítima”, diz.

 

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Condenação de Lula agita xadrez eleitoral para 2018

Por Anna Virgínia Baloussier (Folha de São Paulo) – 12/07/2017

Grupo de manifestantes comemora a condenação do ex-presidente Lula em frente ao Congresso (Foto: Pedro Ladeira/FolhaPress)

Para João Doria (PSDB), foi a derrota do "maior cara de pau do Brasil". Segundo Marina Silva (Rede), uma prova de que "ninguém está acima da lei". Vaticinou Ciro Gomes (PDT): "É o grande responsável político pelo momento terrível pelo qual passa o país". Já Jair Bolsonaro (PSC) ofereceu "minha continência" ao juiz responsável pelo desfecho de quarta (12), Sergio Moro.

Ao sentenciar Lula (PT) a nove anos e seis meses de prisão (pena que só será cumprida se o ex-presidente for condenado também pela segunda instância), Moro colateralmente ajudou a agitar o xadrez eleitoral de 2018. Pesquisa Datafolha de junho apontou Lula como líder das intenções de voto (30%) no pleito do ano que vem, seguido por Bolsonaro (16%) e Marina (15%).

Neste cenário testado, o governador paulista, Geraldo Alckmin, é o candidato do PSDB e tem 8% da preferência popular. O prefeito de São Paulo é um pré-candidato menos confesso –e menos conhecido nacionalmente– do que o quarteto, mas nos bastidores tucanos sua candidatura ganha musculatura. Num quadro com ele e sem Alckmin, fica com 10% dos votos. Doria e Bolsonaro não demoraram para celebrar nas redes sociais a decisão do magistrado. "A Justiça foi feita", disse o prefeito, que no passado já prometeu levar "chocolates" a Lula em Curitiba, onde há réus da Lava Jato presos.

"Aos petistas, lulistas, dilmistas, esquerdistas que pensam que podem roubar, mentir, usurpar, enganar o povo brasileiro em qualquer tempo, por qualquer razão, fazendo o que fizeram ao Brasil, olha aí no que que deu", afirmou Doria em vídeo na Prefeitura, com o quadro "Fundação da Cidade de São Paulo", de Antonio Parreiras, no fundo. Encerra a fala com três "vivas": "à Justiça, a Moro, ao Brasil". Alckmin não se manifestara sobre o assunto até a noite de quarta.

Pelo WhatsApp, o deputado Bolsonaro compartilhou uma montagem em que aparece à moda Rambo numa praia, segurando uma arma. Lula está enterrado até a cabeça na areia. Acompanha a imagem o "selo virilidade da zoeira – Bolsonaro 2018". À Folha o deputado afirmou crer que, se Lula ficar fora do jogo, suas chances aumentam. "Eu iria para o segundo turno com mais um."

Derrotada nas duas últimas eleições, Marina lidera nos cenários do Datafolha que excluem Lula, com até 27%. Por telefone, ela aposta na quebra da polarização política que há anos orbita o país. "Os três grandes partidos que contribuíram para a democracia [PT, PSDB e PMDB] estão igualmente comprometidos, isso é muito triste." Em março, o duas vezes presidenciável Ciro Gomes (5% no Datafolha) disse não ter "a menor vontade de ser candidato se o Lula for" –e que uma candidatura do petista seria um "desserviço ao Brasil".

Em nota no dia da decisão contra Lula, contemporizou: "A condenação acontece ante uma grande revolta dos simpatizantes de Lula, uma estranhíssima e patológica euforia dos que o odeiam e ante uma grande perplexidade da maioria do povo que não consegue entender uma sentença sem uma prova cabal e simples, que todos possamos entender como base de uma pena justa".

Para o cientista político Antonio Lavareda, "a mexida mais óbvia" no xadrez de 2018 será a especulação sobre eventuais substitutos para Lula, no PT ou fora dele. "No primeiro caso, nomes como Fernando Haddad e Jacques Wagner voltam ao tabuleiro. No segundo, alimenta-se projetos de aliados que tentarão seduzir o PT para uma difícil aliança, como Ciro." Boa parte dos petistas rejeita abrir mão da cabeça da chapa, demanda do pedetista.

Há um efeito colateral "menos óbvio", diz Lavareda: se cresce a percepção de que Lula será legalmente impedido de concorrer, "o cenário forçará o reposicionamento dos candidatos ao centro e à direita que se nutrem hoje da polarização com Lula, apresentando-se como seu antônimo".

Cientista política da FGV, Lara Mesquita disse achar especular sobre 2018 agora é "absolutamente futurologia". "O país ainda vai passar por muita turbulência politica que pode influenciar o jogo eleitoral."

O Brasil voltará a sorrir

Por Bárbara Libório (com reportagem de Thais Skodowski) – Revista IstoÉ (07/07/17)

Imagem de felicidade que sempre esteve associada ao brasileiro contrasta com a apatia e desencanto do momento atual, em que o País se sente órfão de lideranças. Como essa inevitável travessia pode construir uma nação melhor

Houve um tempo, não muito distante, em que o brasileiro era conhecido pela alegria e pelo otimismo, apesar das adversidades. O Carnaval, o futebol, as belezas naturais, ainda que formassem um clichê até certo ponto irreal do País, eram motivos suficientes para manter a autoestima nacional nas alturas. A imagem de um povo feliz e irreverente, no entanto, ficou para trás. Se em 2002 84% dos brasileiros afirmavam sentir mais orgulho do que vergonha do país, hoje os ufanistas são apenas 50% da população. Uma pesquisa recente do Instituto Datafolha revela que 47%, quase a metade dos brasileiros, têm mais vergonha do que orgulho do Brasil. A escalada da corrupção, da violência e a crise política e econômica deixam a “luz no fim do túnel” cada vez mais fora do campo de visão. Pouco mais de um ano antes das eleições presidenciais de 2018, os brasileiros se sentem órfãos de lideranças — um sintoma de que ainda estamos longe de recuperar a confiança de tempos atrás. Se há uma boa notícia nesse cenário sombrio, é que ele tem tudo para ser passageiro. Seu desfecho inevitável será uma nação mais justa e menos corrupta — e certamente mais feliz, como nos velhos tempos.

A onda de descrença nos políticos avança desde 2005, com a revelação do escândalo do Mensalão, e se acentuou em 2014, com o início da operação Lava Jato. O esquema de corrupção, lavagem e desvio de dinheiro para campanhas eleitorais envolvendo a Petrobras, grandes empreiteiras e políticos pode chegar ao valor estratosférico de R$ 42 bilhões, ao mesmo tempo em que a oferta de serviços públicos, como segurança, saúde e educação, que constitucionalmente cabem ao Estado, beira o caos. Fora de controle, a violência no Brasil mata mais que a guerra na Síria. No ranking global da felicidade, divulgado pelas Nações Unidas em março, o Brasil caiu cinco posições e passou para o 22o lugar. A queda foi a segunda consecutiva: no período de 2013 a 2015, o País passou de 16o para 17o. Até o Carnaval do Rio de Janeiro, símbolo máximo da alegria nacional no exterior, esteve ameaçado: a liga das escolas de samba suspendeu os desfiles de 2018 assim que o prefeito Marcelo Crivella reduzir pela metade a verba para a entidade. Depois de muita discussão, as escolas irão para a avenida, dessa vez sem a costumeira euforia.

Os cortes nos orçamentos de municípios, estados e governo federal são resultado direto da queda na arrecadação, após mais de três anos de recessão na economia. Essa é a face da crise que mais impacta na falta de perspectiva da população brasileira.

ADEUS, BRASIL Osmair Fernandes Victor (à esq.), a esposa Cristiane e o filho Felipe embarcaram para Chicago em busca de mais qualidade de vida

Ainda que a inflação tenha dado trégua, o desemprego recorde assusta: são mais de 14 milhões de desempregados no País, muitos sem renda há meses. Até quem já construiu bons currículos profissionais e acadêmicos se viu obrigado a mudar de área ou buscar novos caminhos. A publicitária Adriana Galante, 29, trabalhou durante três anos no setor comercial de uma grande empresa de comunicação. Há um ano e meio, foi demitida. Desde então ela paga as contas como pode: faz eventos, busca trabalho em outras áreas e passou a vender acessórios femininos. “A gente sente a ansiedade de não saber como vai ser no mês seguinte, bate um desespero”, conta. O jeito, segundo ela, é se reinventar. “Quem tem veia empreendedora vai atrás disso ainda que seja informalmente. Quem tem formação em uma área busca novos nichos.”

Até o jeito de consumir do brasileiro mudou. A demanda por crédito, por exemplo, diminuiu com o medo do desemprego e da crise. O deslumbramento do auge do crescimento econômico acabou, e a mudança parece ter vindo para ficar. “Hoje o consumidor radicalizou mais a relação custo e benefício. Eles pensam melhor se de fato precisam daquele produto”, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, de pesquisas de opinião. O processo de compra também está diferente. “Estamos assistindo ao crescimento de economia compartilhada e dos produtos de segunda mão”, diz Meirelles. “Antes você usava o carro usado na entrada do carro novo, agora as pessoas fazem isso até com o celular”.

SEM EMPREGO A publicitária Adriana Galante está desempregada há um ano e meio e decidiu empreender para sobreviver à crise

Assalto e sequestro

O desencanto tem levado muita gente a tentar a vida em outro país. O número de declarações de saídas definitivas do Brasil, segundo a Receita Federal, já bateu recordes em 2017: são mais de 20,4 mil até junho, enquanto em todo o ano passado foram 20,3 mil. Osmair Fernandes Victor, 49, é um dos que optaram pela mudança. Ele embarcou rumo a Chicago, nos Estados Unidos, na segunda-feira 3, acompanhado da mulher e do filho de 13 anos. “O principal motivo é a possibilidade de uma qualidade de vida melhor”, diz. “Aqui, me sinto inseguro em deixar o meu filho sair da rua, já passei por mais de uma situação de assalto e sequestro relâmpago”. Victor, que até então era consultor empresarial, vendeu seu apartamento no Brasil e há dois anos vem planejando a mudança e a abertura de uma franquia em Chicago. “Por mais que aqui eu tenha uma situação econômica boa, eu não saio mais de casa, não consigo usufruir do dinheiro.”

“É importante criarmos um movimento unificado para acabar com os políticos profissionais” Modesto Carvalhosa, jurista brasileiro (Crédito: Ernesto Rodrigues)

Diante desse cenário, fica a sensação de que o momento da mudança é inadiável. “Não dá mais para as pessoas fingirem que está tudo bem ou que os problemas são poucos”, afirma Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor da Universidade de São Paulo. “A prisão dos empresários de ônibus no Rio de Janeiro, por exemplo, mostra que em 2013, quando as pessoas lutaram pelos R$ 0,20, brigaram contra um sistema em que muitas vezes o aumento da passagem está ligado diretamente à corrupção de empresários e políticos.” Talvez por isso, ambos — empresários e políticos — estejam tão em baixa entre os brasileiros: segundo dados do Instituto Locomotiva, 84% da população não sabe dizer o nome de alguém que possa tirar o País da crise, e 78% não sabem citar o nome de alguma empresa que esteja ao seu lado nesse momento.

“O legislativo e o executivo estão muito desvalorizados e a democracia depende desesperadamente deles”, Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor da USP (Crédito:Gustavo Epifanio / AG. ISTOE)

Boa parte da desesperança brasileira reflete o que se vê no Congresso. Na Câmara dos Deputados, dos 513 parlamentares que ocupam cadeiras, 144 devem explicações ao Supremo Tribunal Federal — 13 deles acumulam 100 inquéritos e ações penais no STF. Desde 1988, quase todos os presidentes da Câmara estiveram envolvidos em escândalos de corrupção. O atual presidente, o peemedebista Rodrigo Maia, responde a dois inquéritos por ter recebido dinheiro da Odebrecht. Os dois antecessores de Maia, Eduardo Cunha e Eduardo Henrique Alves, ambos do PMDB, estão presos, acusados de corrupção e lavagem de dinheiro. No Senado, a situação não é melhor: em maio de 2016, um terço dos senadores respondia a alguma acusação tribunal. O caso mais recente é o do tucano Aécio Neves. Aécio, que chegou a ser afastado do Senado, mas já voltou a ocupar seu cargo, foi envolvido na mesma delação (a do empresário Joesley Batista, dono do frigorífico JBS) que ameaça o presidente Michel Temer. O presidente foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por corrupção, mas também é investigado por obstrução de Justiça e formação de organização criminosa — cabe à Câmara dos Deputados aceitar ou não a denúncia do procurador Rodrigo Janot.

Para muitos, a operação Lava Jato, que já efetuou mais de 198 prisões em três anos, é a principal esperança para garantir que a corrupção sistêmica no Brasil não permaneça impune. Mas a operação parece agora estar sob ataque.

INSPIRAÇÃO Denise Curi (à esq.), Carla Mayumi e Beatriz Pedreira são idealizadoras do Jogo da Política, que aproxima jovens dos três poderes do País (Crédito: ANDRE LESSA/ISTOE.)

Um Congresso de acusados

É A REGRA Quase todosos presidentes da Câmara nos últimos vinte anos estiveram envolvidos em denúncias de corrupção (Crédito:Wilson Dias/Agência Brasil)

De cada três integrantes da Câmara dos Deputados, um é alvo de inquérito ou ações penais

Desde a nomeação do novo ministro da Justiça, Torquato Jardim, havia o medo de interferência na investigação. Em um primeiro momento, Jardim não descartou a troca de Leandro Daiello no comando da Polícia Federal. A mudança não ocorreu, mas, na quinta-feira 6, a direção da PF adotou uma medida que enfraquece a força-tarefa no Paraná: decidiu integrar os grupos de trabalho dedicados às operações Lava Jato e Carne Fraca. Isso significa que delegados que antes eram exclusivos da operação referente à Petrobras agora passarão a trabalhar em outros casos. A PF garante que o atual efetivo está adequado à demanda e será reforçado em caso de necessidade. A medida ocorre depois da transferência para outros estados de três dos principais delegados da força-tarefa: Érika Malena, Márcio Anselmo e Luciano Flores.

A corrupção não é um problema exclusivamente brasileiro. “No ranking global de transparência ficamos na 79a posição, mas em relação aos BRICS temos a mesma pontuação de China e Índia, ficamos acima da Rússia e só perdemos para a África do Sul”, afirma o cientista político Antonio Lavareda. “Nos Estados Unidos, projeções dizem que os crimes de colarinho branco significam algo entre US$ 250 bilhões e US$ 1 trilhão por ano, o que é muito dinheiro para um país que já teve uma série de iniciativas ao longo do tempo para reduzir a corrupção.”

Os especialistas concordam que a crise pode ser para o Brasil o momento de virada de página. Na política, é hora de pensar no novo. “Essa crise é benéfica para a alteração das estruturas de poder no Brasil”, afirma o jurista Modesto Carvalhosa. “Nós temos a chance de criar um movimento unido e indicar novos quadros para o preenchimento das assembleias legislativas, do Congresso, do quadro de governadores e da própria presidência com nomes inteiramente diferentes”. A França, que recentemente empossou Emmanuel Macron como presidente e reelegeu apenas 140 dos 345 deputados que tentavam um novo mandato, pode ser uma inspiração. “Devemos ser capazes de eleger gente nova e desconhecida, o que vem ao encontro de uma tendência mundial, a de acabar com o profissionalismo político.”

R$ 2.023.949,28 é o valor que cada deputado custou aos contribuintes em 2016

“Somos corruptos”

Para os brasileiros, a redenção tampouco está fora da política. Dados do Instituto Datafolha mostram que entre os jovens a percepção sobre o País é negativa: 90% dos brasileiros de 14 a 24 anos avaliam a sociedade como pouco ou nada ética. Nem mesmo amigos ou familiares se salvam: 74% e 54% os acham pouco ou nada éticos, respectivamente. “Os brasileiros reconhecem que, como sociedade e indivíduo, somos corruptos”, afirma Lavareda. “A sociedade sonega, corrompe os agentes públicos no dia a dia e tem uma absoluta compulsão por levar vantagem nas mais diversas situações, então é importante que nesse momento de crise seja feita também uma reforma de valores.”

BRIGA Com escândalos e intolerância, Congresso Nacional está desmoralizado (Crédito: Alessandro Dantas)

155 dos 513 deputados devem explicações ao Supremo Tribunal Federal

Um bom sinal de que as mudanças estão por vir é o crescente número de brasileiros que acredita e trabalha pela renovação da política brasileira. Beatriz Pedreira, 31, faz parte de dois projetos nessa direção. Em um deles, o Update Politics, ela mapeia iniciativas de inovação política na América Latina. Em uma das ações, ela e seus três sócios querem acompanhar as eleições no México e na Colômbia e trazer ao Brasil ideais edificantes. “Nós olhamos os movimentos da América Latina como inspiração”, afirma. “Queremos aproximar essas iniciativas e fazer as pessoas verem que as coisas não dão certo só porque acontecem na Dinamarca, por exemplo”. O outro projeto, o Jogo da Política, é voltado para a educação cívica. O conjunto de três jogos que simulam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário leva os jovens a vivenciarem situações cotidianas das três áreas. “As pessoas querem fazer diferente mas não sabem como chegar a isso”, diz Beatriz. “Existe o despertar, mas precisamos fazer um esforço maior para divulgar as iniciativas nesse sentido”.

Para os especialistas, o importante é não permitir que o cinismo se enraíze. Caso contrário, o País pode se deparar com dois cenários: a alienação e o afastamento cada vez maior da população das atividades políticas — o nível de abstenção nas eleições de 2014 já foi o maior desde 1998 -, ou o embarque em discursos extremistas com forte teor emocional. Ambos passam ao largo da imagem de nação feliz que o brasileiro sempre se orgulhou de ostentar. Fazer o Brasil voltar a sorrir como sempre só depende de nós, de como iremos votar e cobrar quem elegermos.

13 deputados acumulam 100 inquéritos e ações penais no STF

R$ 1 bilhão por ano é o custo da remuneração dos 513 deputados federais somados

19 dos 26 partidos políticos com assento na Câmara são alvo de 323 inquéritos e ações penais

34 senadores são acusados de crimes

‘Trump e o Mundo’ é tema do Ponto a Ponto

O Ponto a Ponto, da BandNewsTV, do último sábado (8), debateu o tema 'Trump e o Mundo', com a participação da professora de Relações Internacionais da FAAP Fernanda Magnotta. A entrevista foi conduzida pela jornalista Mônica Bergamo e pelo sociólogo e cientista político Antonio Lavareda.

O clima do encontro do G20 (19 países desenvolvidos e emergentes mais a União Europeia), em Hamburgo, na Alemanha, foi de muita tensão. "Bem-vindo ao inferno", foi com essa mensagem que milhares de manifestantes receberam o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Houve também confronto com as forças policiais no local, com pessoas presas e feridas. 

Donald Trump, antes mesmo da reunião dos países acontecer, tinha sido duramente criticado pela chanceler alemã, Ângela Merkel. "Embora nós estejamos analisando as possibilidades de cooperação para beneficiar todos, a globalização é vista pelo governo norte-americano mais como um processo sobre uma situação que não é uma de vitória-vitória, mas sobre vencedores e perdedores", disse Merkel ao jornal semanário Die Zeit, em entrevista publicada nesta quarta-feira (6).

O fato é que, em entrevista realizada pelo instituto Pew Research, entre os dias 16 de fevereiro e 8 de maio de 2017, 75% dos respondentes disseram que acham o chefe de Estado dos Estados Unidos 'arrogante'. Enquanto 65% disseram que era intolerante; 62%, perigoso; 55%, líder forte; 39%, carismático. A entrevista ouviu 41.953 pessoas de 37 países.

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Candidatos de toga ou ilusão de ótica

Por Rosângela Bittar – Valor Econômico (05/07/2017)

Eles apareceram, mais óbvios do que vinham se mostrando, já no fim do semestre, cerca de duas semanas antes do recesso judiciário. Numa festa com artistas, no Rio, exposto a homenagens dias antes e dias depois, em especial nas telas de TV com lugar cativo em auditório do julgamento da chapa Dilma Temer, no Tribunal Superior Eleitoral, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa cunhou todo o conteúdo do seu marketing em uma frase. Pressionado a declarar-se candidato a presidente, não se sabe se por querer ser ou por não ser, perguntou: “Será que o Brasil está preparado para ter um presidente negro?”

Pronto, estava ali o candidato e seu slogan, sua bandeira, com toda uma linha de propaganda a explorar, indicando o que poderia ser sua peça de resistência na campanha eleitoral. Dias depois, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em auditório assemelhado, em São Paulo, em congresso de jornalistas, também consolidou em uma frase toda a ideia que poderia propagar sua candidatura. “Enquanto houver bambu, vai ter flecha”.

O cacique, o guerreiro, o procurador que no encerramento de seu comando do Ministério Público logrou, por enquanto simbolicamente, cortar a cabeça do presidente da República, avisava que até 17 setembro a caneta está na sua mão, e seguirá a decapitação que trava com o sistema político, para deleite do eleitorado. Ato contínuo, para efeito demonstrativo, flechou um amigo do presidente Michel Temer e ex-ministro dos governos Lula, Dilma e Temer. Caça premium.

A crise política não vai acabar com a eleição de 2018. Chegou-se, finalmente, ao fim do trepidante semestre do judiciário e a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, fez um discurso renovando, tal como já fizera em outras reuniões, compromisso com o eleitorado que espera do Judiciário garantias de que um Poder moderador está velando seu sono. O STF, disse, não vai ignorar o clamor por justiça que se ouve em todos os cantos do país.

“As vozes dos que nos antecederam e que velaram pela aplicação do direito com o vigor de sua toga e o brilho de seu talento não deixam de ecoar em nossos corações”, acrescentou ao discurso de encerramento.

O juiz Sergio Moro, há mais tempo em ação, já até entrou em pesquisas de intenção de voto e poderia centralizar na sua candidatura o marketing do combate à corrupção, enquanto os procuradores de Curitiba ficariam, por precedência com o uso do slogan como propaganda, com o carimbo de vítimas de políticos que ameaçam barrar a Lava-
Jato. Isso incendeia o eleitorado em sua defesa, e já é um caminho de campanha bem traçado.

O ex-ministro Joaquim Barbosa, justificando sua falta de apetite pela candidatura, disse também que não tem dinheiro “nem ninguém atrás de mim com recursos” para fazer frente a uma campanha. Ora, se a propaganda é mesmo o mais caro e continuam proibidas as doações privadas, seria de se supor que os candidatos de toga são os que estão em melhor situação nesse quesito. Pelo menos mais adiantados.

Foi o marketing político que transformou o ex-presidente Lula de um metalúrgico em um político da estatura da carta aos brasileiros; foi o marketing que transformou Fernando Henrique Cardoso de acadêmico em político com plataforma, que respondia à economia, às finanças, às questões sociais; De Fernando Collor, ficou o discurso da caça aos marajás, o arco e flecha menos mortal do seu tempo; Dilma Rousseff foi a mais artificial dos candidatos de que se tem lembrança, construída da cabeça aos pés.

Se levarem adiante a candidatura que insinuam em suas declarações e atitudes, os integrantes da magistratura terão que ser inventados, também, e agora sem a varinha de condão, que são os marqueteiros contratados a peso de ouro pelos partidos. São eles que têm sensibilidade para descobrir o que o produto precisa oferecer em forma e fragrância para atrair o eleitorado.

Os de toga estão melhor equipados para os tempos de economia em campanha, todos eles já têm uma ideia na cabeça, embora o dinheiro não esteja mais à mão. Para os profissionais da área, porém, ainda não podem ser vistos como candidatos. Considera-
se que um ou outro, com lastro na política em algum Estado, possa viabilizar-se e apresentar sua candidatura, mas são casos isolados.

“A população é pragmática. Vai escolher alguém para tocar um projeto novo de país e ao mesmo tempo que tenha condições de produzir harmonia entre os Poderes e administrar a crise”, avalia o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda. Nenhum dos candidatos de toga fez qualquer menção a um projeto para o país. A crise política não vai acabar com a eleição de 2018, o futuro presidente da República tem que mostrar como vai enfrentá-la e ao mesmo tempo governar.

Também, uma vez candidatos, aparecerão seus deslizes. Mas têm uma vantagem: saíram na frente na construção da candidatura para uma campanha sem dinheiro rolando no marketing. Nessa questão, também, Lavareda discorda: “O nosso Ministério Público não é uma empresa de construção de candidaturas, é de demolição de candidaturas”. Para o cientista político, a última pesquisa Datafolha mostrou que há apenas dois candidatos naturais do eleitor, os que são citados espontaneamente: Lula, com 15%, resgatando a antiga posição do PT, à esquerda; e Bolsonaro, com 8%, à direita. Na sua opinião, a candidatura de centro ainda vai ser construída. “E acredito que será uma construção política, terão que ver as alianças e arrebatar o maior número de partidos para aumentar o tempo de propaganda na televisão. É lógico que esse candidato vai aparecer, como também vão aparecer, pelo meio político, candidaturas nos Estados”, vaticina.

Toda a argumentação do especialista remete os aflitos, que não veem nada surgir a exatamente um ano do início da campanha eleitoral de 2018, à política, e só a ela. “Não há candidaturas postas, isso é singular, a primeira vez na nossa história eleitoral. Mas vão aparecer, ou os graus de exigência da população vão ter que ser ponderados”. Não se vislumbra um Congresso Nacional de maioria de promotores públicos. Estamos no Brasil, e os candidatos serão brasileiros, construídos na política para integrar o sistema político. A avalanche de togados é, por enquanto, uma ilusão de ótica.

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A democracia ameaçada?

Por Gustavo Krause (Blog do Noblat – O Globo) – 02/07/2017

O grande pensador Norberto Bobbio publicou, em Torino, “alguns escritos dos últimos anos sobre as chamadas ‘transformações’ da democracia (…) Prefiro falar em transformação, e não de crise, porque ‘crise’ nos faz pensar num colapso iminente. A democracia não goza no mundo de ótima saúde, como de resto jamais gozou no passado, mas não está à beira do túmulo” (O futuro da democracia; uma defesa das regras do jogo; Ed, Paz e Terra, 1986).

No livro Sobre a Tirania, (2017, Companhia das Letras), o historiador Timothy Snyder, pesquisador profundo das atrocidades cometidas pela Alemanha Nazista, a União Soviética e, sob o impacto da eleição de Trump, alerta: “É preciso se preparar agora para a possibilidade de um colapso quanto o ocorrido nos anos 1920, 1930 e 1940”.

Na mesma linha de preocupaçāo com os riscos que correm as democracias, estão Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (Harvard), co-autores do livro “Como morrem as democracias”, a ser lançado no próximo ano.

Somente o tempo insondável do futuro dará razão a tão notáveis intérpretes da cena política. A prudência aconselha a não submeter as singularidades locais à uniformidade de “ondas” globais. Preventivamente, o ponto de partida é admitir que a democracia é uma ideia antiga, mas uma experiência recente que, segundo Huntington, sobreviveu às “ondas reversas”.

Por sua vez, Snyder registra que o avanço totalitário se dá pelo voto e obedece à lógica de que “na política, todos passaram a ser vistos como suspeitos” e, em sociedades assim, não percebemos o perigo de que “quem tem o melhor controle do palco tende a alcançar o poder”. Fatos, verdades e tolerância dialética não contam.

Transpondo para o caso brasileiro estes marcos analíticos, é fundamental atentar para a precisa constatação feita pelo cientista político Antonio Lavareda sobre o tamanho do mercado “supostamente não democrático no Brasil de hoje”. Ele toma como indicativo a pesquisa do instituto Latinobarômetro (2016), na qual, apenas, 32% dos brasileiros preferem a democracia como forma de governo, à frente da Guatemala e abaixo da média continental em que 54% dos povos preferem a democracia.

Considerando que o radicalismo à direita, interpretado por Bolsonaro, tem um potencial de cerca de 20% do eleitorado e o lulopetismo, um piso cativo em torno de 30%, cabe indagar: onde fica o centro democrático ocupado por uma esquerda contemporânea e liberais esclarecidos? Submersos na crise de representatividade e salpicados de lama?

Nada de previsão. No Brasil de hoje, o futuro foi ontem. Não custa, porém, ler as 20 vacinas ao autoritarismo, propostas por Snyder.

 Democracia abalada (Foto: Arquivo Google)

Foto: Arquivo/ Google

 

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