Informalidade de Bolsonaro marca nova estética de poder

Estilo cerimonioso de Temer dá lugar a cenas como prancha de bodyboard em coletiva de imprensa, pão com leite condensado e bandeira colada com fita adesiva.

Fernando Krakovics / O Globo

RIO — A eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência inaugurou uma nova estética no cargo mais importante do país. A formalidade do presidente Michel Temer dá lugar a cenas como o presidente eleito fazendo o pronunciamento da vitória com uma bandeira do Brasil, ao fundo, presa na parede com “silver tape”— uma fita adesiva de cor cinza.

Na última quinta-feira, Bolsonaro convocou uma coletiva de imprensa em casa, na praia da Barra, na qual os microfones das emissoras de televisão ficaram apoiados em uma prancha de bodyboard verde e azul, improvisada sobre duas mesas de vidro. Na manhã de ontem o capitão da reserva apareceu cortando o cabelo em um salão em Bento Ribeiro, na Zona Norte do Rio. E, no dia anterior, ele havia divulgado uma foto também cortando o cabelo, de chinelo, na garagem de sua casa.

Essa informalidade já teve espaço no governo Luiz Inácio Lula da Silva. O petista foi fotografado, por exemplo, com um isopor na cabeça ao sair da praia, na Base Naval de Aratu, em Salvador, em 2010. Além da quebra de protocolo, os hábitos de Bolsonaro à mesa também
surpreenderam .Na véspera do segundo turno, o Jornal Nacional exibiu reportagem sobre a última semana de campanha do então candidato do PSL, na qual ele apareceu espremendo uma caixinha de leite condensado sobre um pão francês, sem prato.
— Aqui não tem esse negócio de açúcar, não, rapaz, gordura, dieta — disse ele, na ocasião.
Para o cientista político Antonio Lavareda, são sinais que geram identificação com a maior parte do eleitorado:
— Esse tipo de imagem o aproxima do eleitor médio brasileiro. Esses comportamentos simples, como aparecer cortando o cabelo, têm tudo a ver com a maioria da população. Somos uma sociedade pobre, de baixa renda e com gostos adequados a esse padrão de renda e escolaridade.

Ao longo da campanha, Bolsonaro apareceu várias vezes na cozinha, com a pia cheia de louça suja e apoiando o pão na mesa, também sem prato nem toalha. No discurso, saem as mesóclises empoladas de Temer e entram os já folclóricos “isso aí”, para se referir a diferentes temas, e o “tá ok?”. A plataforma de comunicação também mudou. Bolsonaro tem investido na comunicação direta com o eleitor, por meio das redes sociais.

 

Bolsonaro tem 58% dos votos válidos e mantém vantagem de 16 pontos sobre Haddad, mostra XP/Ipespe

Pesquisa reforça favoritismo de Bolsonaro para a eleição presidencial a dois dias do segundo turno; Haddad depende de virada inédita para vencer a disputa

Infomoney

Bolsonaro (PSL) mantém inalterada a vantagem que tinha há uma semana sobre o exprefeito paulistano Fernando Haddad (PT) na eleição presidencial. Segundo pesquisa XP/Ipespe realizada nos dias 23 e 24 de outubro, o militar reformado tem 58% dos votos válidos, contra 42% do petista. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o código BR-08283/2018 e tem margem máxima de erro de 2,2 pontos percentuais para cima ou para baixo. Os números são os mesmos da pesquisa divulgada pelo instituto na última sexta-feira (19), o que reforça o favoritismo do parlamentar para o próximo domingo (28), já que seu adversário teria que reduzir a distância diariamente em mais de 8 pontos percentuais para virar o jogo, movimento inédito nesta corrida presidencial. Considerando o total de votos válidos no primeiro turno da eleição, Haddad precisaria "converter" mais de 8,5 milhões de eleitores – o equivalente aos votos válidos do Rio de Janeiro no último 7 de outubro – em apenas dois dias e sem horário de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. A atual vantagem de Bolsonaro é a mesma de quando essa simulação de segundo turno começou a ser feita pela pesquisa XP/Ipespe, em meados de julho. Naquela época, Haddad era apenas um nome cotado para substituir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso após condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, na disputa e era desconhecido por 27% do eleitorado. Hoje 10% dizem não conhecê-lo sucientemente, o que, somado à falta de tempo, diculta ainda mais qualquer poder de reação. O gráco abaixo mostra a evolução do quadro de julho pra cá:

1) Cenário de segundo turno em votos válidos (desconsiderando brancos, nulos e indecisos)

O maior salto de Haddad nesta corrida eleitoral foi vericado uma semana após a conrmação de sua candidatura no lugar de Lula, em meados de setembro. Naquela situação, o ex-prefeito subiu 7,6 pontos percentuais em votos válidos no cenário de primeiro turno em um intervalo de uma semana, e foi alçado à segunda posição na disputa. Na semana seguinte, em 26 de setembro, houve outro salto de 5,2 p.p. em votos válidos. Desta vez, o petista precisa crescer em 48 horas mais do que a soma daquele período, missão ainda mais complexa quando se nota que Haddad conta com índice de rejeição 11 p.p. superior ao de seu adversário (47% a 36%) e, nos dados por segmentação, lidera somente entre os eleitores menos escolarizados, mais pobres e do Nordeste. Em outras regiões, como Sul e Centro-oeste, o ex-prefeito paulistano chega a ter menos da metade do percentual de votos de Bolsonaro. Considerando o quadro geral em votos totais, a última pesquisa XP/Ipespe mostra Bolsonaro com apoio de 51% dos eleitores, ao passo que Haddad conta com 37%. Votos em branco, nulos e eleitores indecisos somam 12%. A atual diferença é apenas 1 ponto percentual menor do que a maior já registrada no levantamento, há duas semanas. Em nenhum momento da disputa o petista liderou por diferença superior à margem de erro.

Neste momento, a contagem por votos totais também traz informações relevantes sobre a disputa eleitoral, já que mostra o contingente de eleitores que não apoiam nenhum dos candidatos e que poderiam fazer a diferença se convencidos a escolher alguém, e permite comparações com as intenções de voto em cada um. No caso de uma disputa tão polarizada, uma das estratégias possíveis ao candidato que aparece atrás nas pesquisas é tentar avançar sobre este grupo. Contudo, os resultados da pesquisa indicam que tal movimento, mesmo se exitoso, teria efeitos limitados, dada a comparação entre o atual patamar desta faixa do eleitorado e o histórico de pleitos anteriores. Ou seja, para reverter o quadro atual Haddad teria que roubar votos do próprio Bolsonaro. O gráco abaixo mostra a evolução da disputa em votos totais: 2) Cenário de segundo turno em votos totais (incluindo brancos, nulos e indecisos)

Apesar da inalteração no quadro geral, a nova pesquisa mostrou uma oscilação positiva no percentual de eleitores que dizem não votar em Bolsonaro de jeito nenhum. Em uma semana, tal grupo foi de 34% para 36% do eleitorado em uma semana. Mesmo assim, ele é 23 p.p. menor do que o percentual registrado três semanas antes. No caso de Haddad, observou-se uma queda de 52% na última pesquisa para atuais 47%. Este é o índice mais baixo do petista na série histórica, mas ainda é 11 p.p. superior ao de seu adversário. Movimentações também foram vistas no quadro por segmentação. Neste caso, chama atenção o fato de Bolsonaro ter alcançado 34% dos votos totais no Nordeste, 18 p.p. atrás de seu adversário. É a melhor pontuação do deputado na região – a única em que ele hoje perde. No Sudeste, sua vantagem é de 23 p.p. O militar reformado também aparece numericamente atrás os eleitores que não concluíram o Ensino Fundamental (45% a 41%). A diferença congura empate técnico neste recorte. Na semana passada, a vantagem de Haddad entre esses eleitores era de 11 p.p. Entre eleitores das classes D e E (com renda familiar mensal inferior a dois salários mínimos), a vantagem também é do petista, mas por diferença dentro da margem de erro: 44% a 41%. Entre os desempregados, os dois aparecem com 44% dos votos válidos. O eleitorado feminino também mostra uma disputa mais apertada, com Bolsonaro numericamente à frente por 46% a 42%, diferença dentro do limite da margem de erro da pesquisa. Nas demais faixas do eleitorado, o deputado leva vantagem. As maiores diferenças são vistas nas regiões Sul (62% a 28%) e Centro-oeste (68% a 26%); entre os homens (57% a 33%); com Ensino Médio (57% a 32%); e de classe C, com renda familiar mensal entre 2 e 5 salários mínimos (61% a 30%). Mais detalhes estão no quadro comparativo abaixo:

 

 

 

Eleição só comparada à de 1989

lulacerda.ig.com.br

Perguntado ao cientista político Antonio Lavareda o que caracteriza as eleições de 2018, ele esclarece: “São totalmente diferentes das seis anteriores. Eleições que, na ciência política, são chamadas de “eleições críticas”, que ocorrem em cenários de grave crise econômica, polarização ideológica e emergência de terceiras vias. Nesse caso, um cenário agravado ainda mais pela Lava Jato e pelo impeachment. Nelas, o sistema partidário eleitoral vigente desde 1994 foi, em larga medida, dissolvido, abrindo-se espaço para um sistema novo, mas que demandará algum tempo para ver consolidada sua própria dinâmica. A eleição presidencial deste ano só pode ser comparada à de 1989 (quando disputou Lula X Collor), que também, a seu modo, foi uma “eleição crítica”. E por que pessoas estão tão bélicas? “Está ocorrendo, juntamente, a maior recessão da história, e a eclosão dos escândalos deu lugar a uma atmosfera tomada pela raiva e pelo medo – sentimentos negativos, reforçados e amplificados pelas redes sociais.”

Bolsonaro ganhou a disputa das redes sociais

Por Monica Guglian/Valor 

Nem tempo de TV, nem carreata, nem comício. O primeiro turno da mais eletrizante campanha eleitoral desde a redemocratização foi vencido por um candidato "praticamente virtual". Vítima de uma facada no abdômen em 6 de setembro, o deputado Jair Bolsonaro (PSL) passou os restantes 30 dias que faltavam da cruzada no hospital e em casa. Mas não deixou um segundo de estar longe dos seus eleitores. "O envolvimento emocional e a fidelidade a Bolsonaro se dá nas redes sociais. Para os apoiadores não importa onde ele está ou que é dito fora delas. A verdade é o que está ali no mundo virtual", diz Fabio Malic, um dos coordenadores do Laboratórios de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic). Bolsonaro soube usar e explorar as redes sociais, dizem especialistas. Elas mantiveram, fidelizaram e ampliaram seu eleitorado, que, segundo estimativas de especialistas, pode garantir a vitória no segundo turno, independentemente do seu desempenho em entrevistas ou debates. "Não há racionalidade nesta eleição. Só amor e ódio. E foi nas redes sociais que esses sentimentos moveram os votos", diz o professor da USP Gaudêncio Torquato.

Ao fim do primeiro turno, Bolsonaro voltou às redes para comentar a sua vitória. Enquanto seus opositores davam entrevistas ao vivo para as emissoras de rádio e TV, ele surgiu em casa e fez uma transmissão pelo Facebook sentado à uma mesa improvisada em frente a dois ventiladores, cujos fios apareciam no meio da tela. Ao lado do economista Paulo Guedes – que não pronunciou uma palavra e nem se mexeu – e de uma jovem que interpretava a linguagem de sinais, ele agradeceu os votos que recebeu. Quem esperava uma mensagem de pacificação, decepcionou-se. Era uma resposta aos eleitores que ao longo do domingo espalharam fotos, vídeos e mensagens, a maioria dando como certa a vitória do capitão reformado no primeiro turno. Embaladas na onda direitista e conservadora e alimentada pela revolta contra a corrupção debitada principalmente na conta do PT, as redes sociais catalisaram e espalharam sentimentos e preferências como nunca antes tinha sido visto. Estrategistas de Marina Silva (Rede), que começou a campanha com 11% das intenções de voto, constataram que ela foi desidratada a ponto de terminar o pleito com a estatura dos nanicos, em oitavo lugar e 1% dos votos. Mensagens em grupos de WhatsApp e Facebook, segundo esses analistas, pediam sem cessar o voto útil contra Haddad e o apoio a Ciro Gomes, levando embora votos de Marina. O decano deputado Miro Teixeira (Rede-RJ) foi atropelado pelo mesmo fenômeno. Completando seu 11º mandato consecutivo, ele tentou uma vaga no Senado. Não teve nem chance diante dos mais de 4 milhões de votos para o deputado estadual Flavio Bolsonaro (PSL) e dos quase 2,4 milhões de votos para o deputado Arolde de Oliveira (PSD), que ficou em segundo lugar. A dupla deixou para trás o veterano César Maia (DEM) e Lindbergh Farias (PT). "Aqui, além do voto útil pregado pelas redes, enfrentamos a família Bolsonaro em seu território. Fora isso, os eleitores queriam renovação", diz Teixeira. Não foi diferente o que ocorreu com o ex-governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin. Com a maior coligação e um tempo recorde na propaganda eleitoral gratuita, Alckmin se preparou para alçar voo, mas não decolou. Aliados que atuaram na campanha dizem que, entre todos os candidatos, Alckmin fez o pior uso das redes. "Foi um erro nosso muito grande. Nossa campanha não percebeu a importância das redes sociais e investiu em soluções analógicas. Ignorou que essa é a comunicação", diz José Aníbal, presidente do Instituto Teotônio Vilela. As redes sociais, segundo o cientista político Antônio Lavareda, foram essenciais para que Bolsonaro mantivesse a fidelidade dos seus eleitores e a imagem anti-PT. "E é essa imensa bolha que se retroalimenta que lhe dá grandes chances de vencer a eleição", diz Lavareda. De acordo com levantamento do Datafolha divulgado na semana passada, a maioria dos eleitores brasileiros (68%) tem conta em alguma rede social – 66% especificamente no WhatsApp. Neste ano de campanha mais curta, o dinheiro foi pouco e o tempo de televisão, breve. O aplicativo de conversa substituiu os demais meios e se tornou uma das plataformas mais importantes do pleito. "Não vivo sem o WhatsApp", diz o vendedor Jurandir Oliveira, baiano radicado em São Paulo e eleitor de Bolsonaro. Entre o eleitorado do deputado, a utilização do WhatsApp é maior do que a registrada pelos seus principais adversários. Segundo o Datafolha, 81% afirmaram usar o aplicativo, contra 59% de Fernando Haddad (PT), 72% de Ciro Gomes (PDT) e 53% de Geraldo Alckmin (PSDB). "A rede social, ainda que em alguns momentos não aumente o número de eleitores dispostos a votar em X ou Y, ela, sem dúvida, se encarrega de manter fiéis os que já decidiram o voto", diz Malic, do Labic. Nas 48 horas que antecederam o dia da votação, especialistas constataram uma espécie de corrida maluca de informações. Valeu tudo. Notícias verdadeiras, invenções e um absoluto descontrole. No Brasil, entre todas as mídias sociais, o WhatsApp é a mais complicada de lidar, diz Malic. Muitos o chamam de "buraco negro" porque é praticamente impossível controlar a disseminação de informação e desinformação que passam pelo sistema, por muitos chamados simplesmente de "Zap". Enquanto em países como a Índia uma informação pode ser compartilhada por cinco grupos, no máximo, no Brasil 20 grupos podem ser usados. "Há muito tempo que alertamos para a necessidade de uma regulamentação mínima que seja. Mas sem sucesso." Com esses ingredientes é muito fácil confundir eleitores principalmente porque, segundo estudos nos EUA, é imenso o componente emocional despejado em cada voto. Dessa forma, à medida em que aumenta o número de informações e mensagens, verdadeiras ou falsas, cresce na mesma proporção a angústia e a ansiedade do desconhecido que acabam por fomentar a desinformação. "No primeiro turno, debates, entrevistas, nada disso teve peso. As estruturas tradicionais dos partidos não funcionaram", afirma o cientista político e presidente da Arko Advice, Murilo Aragão.

Eleições 2018 – Troca de guarda a direita e fim de fidelidades partidárias

Veículo: bbc.com

O primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras sinaliza a dissolução das atuais lealdades partidárias-eleitorais e mostra uma "troca de guarda" na representação da direita brasileira. E a disputa do segundo turno entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) ainda está em aberto, segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Bolsonaro teve 46% dos votos válidos e Haddad, 29% – o petista venceu em 8 dos 9 Estados do Nordeste (Ciro foi o mais votado no Ceará) e no Pará.

"De acordo com a literatura da licença política, isso é o que se chama de 'eleição crítica', onde as lealdades partidárias-eleitorais são dissolvidas. E em sistemas miltipartidários como o nosso,

frequentemente há uma substituição na representação dos campos ideológicos", disse o cientista político Antonio Lavareda.

Na prática, segundo o pesquisador, isso significa que houve uma "troca de guarda" no campo da centro-direita, com Bolsonaro ocupando o espaço deixado pelo PSDB.

"Duas coisas explicam isso: a Lava Jato, que atingiu várias lideranças do PSDB e, em segundo e importante lugar, o fato de que o PSDB aderiu ao impeachment e, depois, apoiou o governo Temer, que se tornaria bastante impopular. Foi a conjunção desses fatores que subtraiu ao PSDB a condição de continuar ocupando esse espaço."

O PT, por outro lado, se manteve a duras penas na liderança do campo de esquerda, evitando a substituição pretendida pela candidatura de Ciro Gomes.

"O PT conseguiu se manter, em grande medida, por causa do impeachment, que o reposicionou como oposição. Aí ele conseguiu enfrentar os desgastes que o governo Dilma e a Lava Jato vinham causando. Então, teve um desempenho parecido com 1994."

A atual eleição "rompeu a polarização entre PT e PSDB que já durava 20 anos", e é comparável ao que ocorreu nas eleições de 1989, as primeiras após a redemocratização, segundo a avaliação de Lavareda.

"Em 1989, o PT substituiu Leonel Brizola e o (seu) PDT como principal representante da esquerda, e Fernando Collor de Mello substituiu os partidos mais representativos da direita como PFL e PDS. No centro você teve Mário Covas substituindo a candidatura de Ulysses Guimarães. Foi uma troca de guarda completa."

PT poderia virar no segundo turno?

A possibilidade de vitória de Haddad no segundo turno existe, mas é bastante reduzida, na opinião de Lavareda. Ele relembra que nunca houve virada desse tipo em eleições presidenciais no Brasil, e que "nunca um candidato que teve 47% dos votos no primeiro turno perdeu a eleição".

"O fato de que Bolsonaro empolgou boa parte do eleitorado de maior escolaridade e renda mostra que se ele não tivesse rejeição elevada entre população de até dois salários mínimos e as mulheres, ele ganhava. O pouco que faltou para que ele ganhasse em primeiro turno lhe foi subtraído pelos mais pobres. Mas será um segundo turno disputado."

Segundo o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, tanto Haddad quanto Bolsonaro precisarão "caminhar para o centro" na tentativa de vencer. Mas a eleição ainda está em aberto.

"Essa eleição foi muito marcada por violência política e notícias falsas. Mas ela ainda não está encerrada", disse à BBC News Brasil.

Cortez também vê a "troca de guarda no campo antipetista", mas ressalta que ainda não se sabe como o novo campo da direita irá se organizar politicamente.

"Percebemos que o PSL fez bancadas com números expressivos para o partido, o que mostra que o peso do Bolsonaro se transferiu para diferentes competições. Mas veremos se Bolsonaro vai institucionalizar por via partidária esse apoio obtido nas urnas ou se vai preferir uma construção mais personalista desse antipetismo."

O candidato afirmou, durante a campanha, que não faria alianças políticas que contrariasse seus princípios e que não precisaria fazer "loteamento de cargos" caso se tornasse presidente. O cientista político, no entanto, diz que isso vai ser difícil.

"Vamos ter o teste se de fato essa retórica contra as alianças políticas via se sustentar. Se tem algo que não mudou na política foi a necessidade de gerar apoio qualificado no Congresso para aprovar as reformas constitucionais."

O PSL elegeu mais de 50 deputados federais neste domingo, segundo dados preliminares. Em 2014, apenas um representante havia sido eleito pela sigla. O PT, que havia conseguido 70 assentos na Câmara dos Deputados em 2014, terá uma bancada também superior a 50 deputados – pelas projeções, continuará sendo a maior da Casa. E o PSDB, que teve 53 deputados eleitos nas últimas eleições, teria obtido cerca de 30 assentos.