O QUE BOLSONARO E MORO GANHAM OU PERDEM COM UM EVENTUAL ‘DIVÓRCIO’

Para analistas políticos, o presidente se equilibra entre duas opções que podem lhe trazer ganhos e prejuízos

Mariana Schreiber para revista Época 24/01/2020 – 18:26 / Atualizado em 24/01/2020 – 18:51

A turbulenta relação entre o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro mais popular, Sergio Moro, que comanda a pasta da Justiça e da Segurança Pública, teve um novo momento de desgaste nesta semana com a sinalização de que o ministério poderia ser desmembrado.

Após a reação negativa em sua própria base eleitoral à ideia, que reduziria os poderes de Moro, o presidente recuou, mas sem rechaçar completamente a possibilidade de criar um ministério exclusivo para a Segurança Pública no futuro.

“A chance [de tirar a Segurança Pública do ministério de Moro] no momento é zero. Tá bom ou não? Tá bom, né? Não sei amanhã. Na política, tudo muda, mas não há essa intenção de dividir [o Ministério da Justiça]. Não há essa intenção”, disse a jornalistas nesta sexta-feira (24), ao chegar a Nova Délhi, para um vista à Índia.

Para analistas políticos, o presidente se equilibra entre duas opções que podem lhe trazer ganhos e prejuízos: manter Moro como um ministro com muito poder e visibilidade, correndo o risco de ser desbancado por ele como candidato preferido dos apoiadores do governo na eleição presidencial de 2022; ou desidratar Moro e assumir o risco de uma demissão do ministro, atraindo contra seu governo a ira dos eleitores “lavajatistas”, fiés seguidores do ex-juiz da Lava Jato.

“O que estamos vendo é uma TPE, tensão pré-eleitoral”, brinca o cientista político Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Moro constantemente nega ter pretensão de disputar a eleição presidencial e, em entrevista ao programa Roda Vida na segunda-feira, chegou a dizer que apoiar a reeleição de Bolsonaro é o “caminho natural” para os ministros do governo. Hoje, porém, é grande a desconfiança no mundo político de que a hipótese esteja descartada.

“Quando Moro aceitou abandonar a magistratura para entrar no Ministério da Justiça, ele obviamente abraçou a política. Com a popularidade que tem, é praticamente impossível para um ser humano não ser mordido pela ambição da mosca presidencial”, afirmou Lavareda.

Apesar da popularidade, Moro constantemente nega ter pretensão de disputar a eleição presidencial Foto: RAHEL PATRASSO/REUTERS
Apesar da popularidade, Moro constantemente nega ter pretensão de disputar a eleição presidencial Foto: RAHEL PATRASSO/REUTERS

Segundo o professor da UFPE, a eleição de 2018 foi, no linguajar da ciência política, uma “eleição crítica”, ou seja, um pleito que desarrumou todo o quadro partidário, gerando grande expectativa em relação à eleição seguinte.

Ele notou que a desarticulação atingiu em especial a centro-direita brasileira, enquanto o PT conseguiu “a duras penas” se manter como principal força da esquerda. Por isso, disse, é no campo eleitoral do presidente em que se abre com mais antecedência a disputa em torno das candidaturas eleitorais.

Nesse cenário disputado, em que também despontam como possíveis candidatos da direita ao Palácio do Planalto os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), o vice-presidente, Hamilton Mourão (PRTB), e o presidente do Novo, João Amoedo, o professor da UFPE considera que Moro e Bolsonaro têm mais a perder do que a ganhar se decidirem se separar.

Para Lavareda, Moro teria de apresentar “justificadas razões” para deixar o governo depois de ter abandonado a posição de juiz da Lava Jato para ser ministro. Isso, notou o professor, necessariamente o colocaria na oposição ao governo, ainda que no campo da direita.

“Moro se beneficiaria da condição de opositor do governo Bolsonaro? Eu suspeito que não, pois no campo da oposição já há outros atores muito mais bem instalados do que ele. E o Bolsonaro se beneficia provocando uma saída do Moro? Longe disso, porque o Moro é um ativo, é um asset da imagem do seu governo”, analisou.

“Como acredito na racionalidade de ambos, creio que vão continuar essa relação às vezes idílica, às vezes conflituosa. Para usar a metáfora que o presidente gosta, é um tipo de namoro de tapas e beijos”, acrescentou.

MORO QUASE FOI DEMITIDO EM AGOSTO, SEGUNDO LIVRO

Um dos momentos em que os “tapas” esquentaram ocorreu em agosto, quando Bolsonaro quase demitiu Moro, segundo relato da jornalista Thaís Oyama em seu livro recém-lançado: Tormenta — O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos.

Naquele momento, Bolsonaro teria ficado extremamente irritado com um pedido de Moro ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, para rever sua decisão de suspender centenas de investigações e processos no país iniciados a partir do compartilhamento de informações da Receita Federal e do antigo Coaf (hoje renomeado para Unidade de Inteligência Financeira).

STF decidiu em novembro sobre o Coaf, o que permitiu a reabertura da investigação sobre Queiroz Foto: SERGIO LIMA/AFP
STF decidiu em novembro sobre o Coaf, o que permitiu a reabertura da investigação sobre Queiroz Foto: SERGIO LIMA/AFP

A movimentação desagradou Bolsonaro porque a decisão de Toffoli havia atendido a um recurso de um dos seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), paralisando a investigação contra ele por suposto esquema de “rachadinha” (desvio de recursos por meio da retenção de parte dos salários de servidores) em seu antigo gabinete de deputado estadual do Rio de Janeiro.

Naquele momento, também causou desgaste na relação a ameaça de Bolsonaro de intervir na Polícia Federal e trocar o diretor-geral, Maurício Valeixo, escolhido por Moro. Segundo Thaís Oyama, o presidente recuou e decidiu recompor com o ex-juiz depois de ouvir o alerta do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional: “Se demitir o Moro, seu governo acaba”.

Após a publicação do livro, o presidente rebateu as informações e as classificou como “fake news”.

Outra fonte de desgaste entre os dois tem sido o desentendimento em torno de matérias aprovadas pelo Congresso, como a criação do juiz de garantias, que Bolsonaro não quis vetar, apesar da campanha de Moro nesse sentido.

‘MORO DEVE CONTINUAR ENGOLINDO SAPOS’

O cientista político José Álvaro Moisés, professor da Universidade de São Paulo (USP), disse ter dúvidas sobre se foi positivo para a imagem de Moro ingressar no governo Bolsonaro. Em sua avaliação, ao aceitar o ministério, “pareceu que muitas coisas que ele fez (quando era juiz da Lava Jato e condenou importantes políticos tradicionais, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) estavam ligadas à possibilidade de favorecer esse governo”.

No entanto, agora que já é ministro, Moisés acredita que Moro alimenta, sim, pretensões de concorrer à Presidência e não vai querer abrir mão de uma posição que lhe dá prestígio e visibilidade.

“Tendo aceitado o cargo de ministro da Justiça, enquanto não houver uma ruptura muito radical (como o desmembramento do ministério), ele vai tender a continuar engolindo sapos, porque o cargo é muito prestigioso. Não há a menor dúvida em relação a isso”, afirmou.

“Tirar a área de Segurança e a Polícia Federal do Ministério da Justiça seria muito mais grave do que outros momentos de discordância entre os dois. Compromete qualquer projeto que o ministro tenha de efetivamente combater a corrupção e a criminalidade”, ressaltou.

O profesor da USP acredita que Bolsonaro recuou, ao menos por enquanto, da ideia de dividir a pasta, para tentar manter o apoio dos “lavajatistas” a seu governo.

No entanto, o professor acredita que o prestígio do presidente com o grupo já está desgastado, diante do escândalo envolvendo seu filho Flávio e das noticiadas tentativas de interferir na Polícia Federal.

Um rompimento de Moro com Bolsonaro poderia fechar as portas para uma eventual indicação do ex-juiz ao Supremo Foto: ADRIANO MACHADO/REUTERS
Um rompimento de Moro com Bolsonaro poderia fechar as portas para uma eventual indicação do ex-juiz ao Supremo Foto: ADRIANO MACHADO/REUTERS

INDICAÇÃO AO STF PODE UNIR INTERESSES

Lavareda considera que Moro pode acabar parecendo “desleal” para a sociedade caso decida concorrer à Presidência contra Bolsonaro. Além do risco de parecer um “traíra” mais à frente, o prejuízo que o ex-juiz pode ter se romper agora com o presidente é fechar as portas para uma indicação a ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

Bolsonaro poderá apontar um ministro em novembro, quando o decano da Corte, Celso de Mello, completará 75 anos e será obrigado a se aposentar. O presidente sinalizou que indicará um jurista “terrivelmente evangélico” para a vaga, o que não é o caso de Moro.

No entanto, uma segunda vaga será aberta em julho de 2021, quando o ministro Marco Aurélio também se aposentará.

Se Moro aceitar uma indicação ao Supremo e seu nome for aprovado pelo Senado, ele abriria mão de uma candidatura presidencial em 2022 — não faria sentido entrar na Corte para renunciar meses depois e disputar a eleição.

“No horizonte de Moro, há várias possibilidades e uma delas é a de uma vaga no STF, mas isso vai depender das condições no momento em que a vaga for aberta e precisa ser negociado com o Senado”, notou Lavareda.

“Isso é um movimento disponível para o presidente Bolsonaro e para Sergio Moro. Num determinado momento, mais adiante, pode até ser um movimento de confluência de interesse dos dois”, ressaltou o professor da UFPE.

Informalidade de Bolsonaro marca nova estética de poder

Estilo cerimonioso de Temer dá lugar a cenas como prancha de bodyboard em coletiva de imprensa, pão com leite condensado e bandeira colada com fita adesiva.

Fernando Krakovics / O Globo

RIO — A eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência inaugurou uma nova estética no cargo mais importante do país. A formalidade do presidente Michel Temer dá lugar a cenas como o presidente eleito fazendo o pronunciamento da vitória com uma bandeira do Brasil, ao fundo, presa na parede com “silver tape”— uma fita adesiva de cor cinza.

Na última quinta-feira, Bolsonaro convocou uma coletiva de imprensa em casa, na praia da Barra, na qual os microfones das emissoras de televisão ficaram apoiados em uma prancha de bodyboard verde e azul, improvisada sobre duas mesas de vidro. Na manhã de ontem o capitão da reserva apareceu cortando o cabelo em um salão em Bento Ribeiro, na Zona Norte do Rio. E, no dia anterior, ele havia divulgado uma foto também cortando o cabelo, de chinelo, na garagem de sua casa.

Essa informalidade já teve espaço no governo Luiz Inácio Lula da Silva. O petista foi fotografado, por exemplo, com um isopor na cabeça ao sair da praia, na Base Naval de Aratu, em Salvador, em 2010. Além da quebra de protocolo, os hábitos de Bolsonaro à mesa também
surpreenderam .Na véspera do segundo turno, o Jornal Nacional exibiu reportagem sobre a última semana de campanha do então candidato do PSL, na qual ele apareceu espremendo uma caixinha de leite condensado sobre um pão francês, sem prato.
— Aqui não tem esse negócio de açúcar, não, rapaz, gordura, dieta — disse ele, na ocasião.
Para o cientista político Antonio Lavareda, são sinais que geram identificação com a maior parte do eleitorado:
— Esse tipo de imagem o aproxima do eleitor médio brasileiro. Esses comportamentos simples, como aparecer cortando o cabelo, têm tudo a ver com a maioria da população. Somos uma sociedade pobre, de baixa renda e com gostos adequados a esse padrão de renda e escolaridade.

Ao longo da campanha, Bolsonaro apareceu várias vezes na cozinha, com a pia cheia de louça suja e apoiando o pão na mesa, também sem prato nem toalha. No discurso, saem as mesóclises empoladas de Temer e entram os já folclóricos “isso aí”, para se referir a diferentes temas, e o “tá ok?”. A plataforma de comunicação também mudou. Bolsonaro tem investido na comunicação direta com o eleitor, por meio das redes sociais.

 

Bolsonaro tem 58% dos votos válidos e mantém vantagem de 16 pontos sobre Haddad, mostra XP/Ipespe

Pesquisa reforça favoritismo de Bolsonaro para a eleição presidencial a dois dias do segundo turno; Haddad depende de virada inédita para vencer a disputa

Infomoney

Bolsonaro (PSL) mantém inalterada a vantagem que tinha há uma semana sobre o exprefeito paulistano Fernando Haddad (PT) na eleição presidencial. Segundo pesquisa XP/Ipespe realizada nos dias 23 e 24 de outubro, o militar reformado tem 58% dos votos válidos, contra 42% do petista. O levantamento está registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o código BR-08283/2018 e tem margem máxima de erro de 2,2 pontos percentuais para cima ou para baixo. Os números são os mesmos da pesquisa divulgada pelo instituto na última sexta-feira (19), o que reforça o favoritismo do parlamentar para o próximo domingo (28), já que seu adversário teria que reduzir a distância diariamente em mais de 8 pontos percentuais para virar o jogo, movimento inédito nesta corrida presidencial. Considerando o total de votos válidos no primeiro turno da eleição, Haddad precisaria "converter" mais de 8,5 milhões de eleitores – o equivalente aos votos válidos do Rio de Janeiro no último 7 de outubro – em apenas dois dias e sem horário de propaganda eleitoral no rádio e na televisão. A atual vantagem de Bolsonaro é a mesma de quando essa simulação de segundo turno começou a ser feita pela pesquisa XP/Ipespe, em meados de julho. Naquela época, Haddad era apenas um nome cotado para substituir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso após condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, na disputa e era desconhecido por 27% do eleitorado. Hoje 10% dizem não conhecê-lo sucientemente, o que, somado à falta de tempo, diculta ainda mais qualquer poder de reação. O gráco abaixo mostra a evolução do quadro de julho pra cá:

1) Cenário de segundo turno em votos válidos (desconsiderando brancos, nulos e indecisos)

O maior salto de Haddad nesta corrida eleitoral foi vericado uma semana após a conrmação de sua candidatura no lugar de Lula, em meados de setembro. Naquela situação, o ex-prefeito subiu 7,6 pontos percentuais em votos válidos no cenário de primeiro turno em um intervalo de uma semana, e foi alçado à segunda posição na disputa. Na semana seguinte, em 26 de setembro, houve outro salto de 5,2 p.p. em votos válidos. Desta vez, o petista precisa crescer em 48 horas mais do que a soma daquele período, missão ainda mais complexa quando se nota que Haddad conta com índice de rejeição 11 p.p. superior ao de seu adversário (47% a 36%) e, nos dados por segmentação, lidera somente entre os eleitores menos escolarizados, mais pobres e do Nordeste. Em outras regiões, como Sul e Centro-oeste, o ex-prefeito paulistano chega a ter menos da metade do percentual de votos de Bolsonaro. Considerando o quadro geral em votos totais, a última pesquisa XP/Ipespe mostra Bolsonaro com apoio de 51% dos eleitores, ao passo que Haddad conta com 37%. Votos em branco, nulos e eleitores indecisos somam 12%. A atual diferença é apenas 1 ponto percentual menor do que a maior já registrada no levantamento, há duas semanas. Em nenhum momento da disputa o petista liderou por diferença superior à margem de erro.

Neste momento, a contagem por votos totais também traz informações relevantes sobre a disputa eleitoral, já que mostra o contingente de eleitores que não apoiam nenhum dos candidatos e que poderiam fazer a diferença se convencidos a escolher alguém, e permite comparações com as intenções de voto em cada um. No caso de uma disputa tão polarizada, uma das estratégias possíveis ao candidato que aparece atrás nas pesquisas é tentar avançar sobre este grupo. Contudo, os resultados da pesquisa indicam que tal movimento, mesmo se exitoso, teria efeitos limitados, dada a comparação entre o atual patamar desta faixa do eleitorado e o histórico de pleitos anteriores. Ou seja, para reverter o quadro atual Haddad teria que roubar votos do próprio Bolsonaro. O gráco abaixo mostra a evolução da disputa em votos totais: 2) Cenário de segundo turno em votos totais (incluindo brancos, nulos e indecisos)

Apesar da inalteração no quadro geral, a nova pesquisa mostrou uma oscilação positiva no percentual de eleitores que dizem não votar em Bolsonaro de jeito nenhum. Em uma semana, tal grupo foi de 34% para 36% do eleitorado em uma semana. Mesmo assim, ele é 23 p.p. menor do que o percentual registrado três semanas antes. No caso de Haddad, observou-se uma queda de 52% na última pesquisa para atuais 47%. Este é o índice mais baixo do petista na série histórica, mas ainda é 11 p.p. superior ao de seu adversário. Movimentações também foram vistas no quadro por segmentação. Neste caso, chama atenção o fato de Bolsonaro ter alcançado 34% dos votos totais no Nordeste, 18 p.p. atrás de seu adversário. É a melhor pontuação do deputado na região – a única em que ele hoje perde. No Sudeste, sua vantagem é de 23 p.p. O militar reformado também aparece numericamente atrás os eleitores que não concluíram o Ensino Fundamental (45% a 41%). A diferença congura empate técnico neste recorte. Na semana passada, a vantagem de Haddad entre esses eleitores era de 11 p.p. Entre eleitores das classes D e E (com renda familiar mensal inferior a dois salários mínimos), a vantagem também é do petista, mas por diferença dentro da margem de erro: 44% a 41%. Entre os desempregados, os dois aparecem com 44% dos votos válidos. O eleitorado feminino também mostra uma disputa mais apertada, com Bolsonaro numericamente à frente por 46% a 42%, diferença dentro do limite da margem de erro da pesquisa. Nas demais faixas do eleitorado, o deputado leva vantagem. As maiores diferenças são vistas nas regiões Sul (62% a 28%) e Centro-oeste (68% a 26%); entre os homens (57% a 33%); com Ensino Médio (57% a 32%); e de classe C, com renda familiar mensal entre 2 e 5 salários mínimos (61% a 30%). Mais detalhes estão no quadro comparativo abaixo:

 

 

 

Eleição só comparada à de 1989

lulacerda.ig.com.br

Perguntado ao cientista político Antonio Lavareda o que caracteriza as eleições de 2018, ele esclarece: “São totalmente diferentes das seis anteriores. Eleições que, na ciência política, são chamadas de “eleições críticas”, que ocorrem em cenários de grave crise econômica, polarização ideológica e emergência de terceiras vias. Nesse caso, um cenário agravado ainda mais pela Lava Jato e pelo impeachment. Nelas, o sistema partidário eleitoral vigente desde 1994 foi, em larga medida, dissolvido, abrindo-se espaço para um sistema novo, mas que demandará algum tempo para ver consolidada sua própria dinâmica. A eleição presidencial deste ano só pode ser comparada à de 1989 (quando disputou Lula X Collor), que também, a seu modo, foi uma “eleição crítica”. E por que pessoas estão tão bélicas? “Está ocorrendo, juntamente, a maior recessão da história, e a eclosão dos escândalos deu lugar a uma atmosfera tomada pela raiva e pelo medo – sentimentos negativos, reforçados e amplificados pelas redes sociais.”

Bolsonaro ganhou a disputa das redes sociais

Por Monica Guglian/Valor 

Nem tempo de TV, nem carreata, nem comício. O primeiro turno da mais eletrizante campanha eleitoral desde a redemocratização foi vencido por um candidato "praticamente virtual". Vítima de uma facada no abdômen em 6 de setembro, o deputado Jair Bolsonaro (PSL) passou os restantes 30 dias que faltavam da cruzada no hospital e em casa. Mas não deixou um segundo de estar longe dos seus eleitores. "O envolvimento emocional e a fidelidade a Bolsonaro se dá nas redes sociais. Para os apoiadores não importa onde ele está ou que é dito fora delas. A verdade é o que está ali no mundo virtual", diz Fabio Malic, um dos coordenadores do Laboratórios de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic). Bolsonaro soube usar e explorar as redes sociais, dizem especialistas. Elas mantiveram, fidelizaram e ampliaram seu eleitorado, que, segundo estimativas de especialistas, pode garantir a vitória no segundo turno, independentemente do seu desempenho em entrevistas ou debates. "Não há racionalidade nesta eleição. Só amor e ódio. E foi nas redes sociais que esses sentimentos moveram os votos", diz o professor da USP Gaudêncio Torquato.

Ao fim do primeiro turno, Bolsonaro voltou às redes para comentar a sua vitória. Enquanto seus opositores davam entrevistas ao vivo para as emissoras de rádio e TV, ele surgiu em casa e fez uma transmissão pelo Facebook sentado à uma mesa improvisada em frente a dois ventiladores, cujos fios apareciam no meio da tela. Ao lado do economista Paulo Guedes – que não pronunciou uma palavra e nem se mexeu – e de uma jovem que interpretava a linguagem de sinais, ele agradeceu os votos que recebeu. Quem esperava uma mensagem de pacificação, decepcionou-se. Era uma resposta aos eleitores que ao longo do domingo espalharam fotos, vídeos e mensagens, a maioria dando como certa a vitória do capitão reformado no primeiro turno. Embaladas na onda direitista e conservadora e alimentada pela revolta contra a corrupção debitada principalmente na conta do PT, as redes sociais catalisaram e espalharam sentimentos e preferências como nunca antes tinha sido visto. Estrategistas de Marina Silva (Rede), que começou a campanha com 11% das intenções de voto, constataram que ela foi desidratada a ponto de terminar o pleito com a estatura dos nanicos, em oitavo lugar e 1% dos votos. Mensagens em grupos de WhatsApp e Facebook, segundo esses analistas, pediam sem cessar o voto útil contra Haddad e o apoio a Ciro Gomes, levando embora votos de Marina. O decano deputado Miro Teixeira (Rede-RJ) foi atropelado pelo mesmo fenômeno. Completando seu 11º mandato consecutivo, ele tentou uma vaga no Senado. Não teve nem chance diante dos mais de 4 milhões de votos para o deputado estadual Flavio Bolsonaro (PSL) e dos quase 2,4 milhões de votos para o deputado Arolde de Oliveira (PSD), que ficou em segundo lugar. A dupla deixou para trás o veterano César Maia (DEM) e Lindbergh Farias (PT). "Aqui, além do voto útil pregado pelas redes, enfrentamos a família Bolsonaro em seu território. Fora isso, os eleitores queriam renovação", diz Teixeira. Não foi diferente o que ocorreu com o ex-governador de São Paulo, o tucano Geraldo Alckmin. Com a maior coligação e um tempo recorde na propaganda eleitoral gratuita, Alckmin se preparou para alçar voo, mas não decolou. Aliados que atuaram na campanha dizem que, entre todos os candidatos, Alckmin fez o pior uso das redes. "Foi um erro nosso muito grande. Nossa campanha não percebeu a importância das redes sociais e investiu em soluções analógicas. Ignorou que essa é a comunicação", diz José Aníbal, presidente do Instituto Teotônio Vilela. As redes sociais, segundo o cientista político Antônio Lavareda, foram essenciais para que Bolsonaro mantivesse a fidelidade dos seus eleitores e a imagem anti-PT. "E é essa imensa bolha que se retroalimenta que lhe dá grandes chances de vencer a eleição", diz Lavareda. De acordo com levantamento do Datafolha divulgado na semana passada, a maioria dos eleitores brasileiros (68%) tem conta em alguma rede social – 66% especificamente no WhatsApp. Neste ano de campanha mais curta, o dinheiro foi pouco e o tempo de televisão, breve. O aplicativo de conversa substituiu os demais meios e se tornou uma das plataformas mais importantes do pleito. "Não vivo sem o WhatsApp", diz o vendedor Jurandir Oliveira, baiano radicado em São Paulo e eleitor de Bolsonaro. Entre o eleitorado do deputado, a utilização do WhatsApp é maior do que a registrada pelos seus principais adversários. Segundo o Datafolha, 81% afirmaram usar o aplicativo, contra 59% de Fernando Haddad (PT), 72% de Ciro Gomes (PDT) e 53% de Geraldo Alckmin (PSDB). "A rede social, ainda que em alguns momentos não aumente o número de eleitores dispostos a votar em X ou Y, ela, sem dúvida, se encarrega de manter fiéis os que já decidiram o voto", diz Malic, do Labic. Nas 48 horas que antecederam o dia da votação, especialistas constataram uma espécie de corrida maluca de informações. Valeu tudo. Notícias verdadeiras, invenções e um absoluto descontrole. No Brasil, entre todas as mídias sociais, o WhatsApp é a mais complicada de lidar, diz Malic. Muitos o chamam de "buraco negro" porque é praticamente impossível controlar a disseminação de informação e desinformação que passam pelo sistema, por muitos chamados simplesmente de "Zap". Enquanto em países como a Índia uma informação pode ser compartilhada por cinco grupos, no máximo, no Brasil 20 grupos podem ser usados. "Há muito tempo que alertamos para a necessidade de uma regulamentação mínima que seja. Mas sem sucesso." Com esses ingredientes é muito fácil confundir eleitores principalmente porque, segundo estudos nos EUA, é imenso o componente emocional despejado em cada voto. Dessa forma, à medida em que aumenta o número de informações e mensagens, verdadeiras ou falsas, cresce na mesma proporção a angústia e a ansiedade do desconhecido que acabam por fomentar a desinformação. "No primeiro turno, debates, entrevistas, nada disso teve peso. As estruturas tradicionais dos partidos não funcionaram", afirma o cientista político e presidente da Arko Advice, Murilo Aragão.

Eleições 2018 – Troca de guarda a direita e fim de fidelidades partidárias

Veículo: bbc.com

O primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras sinaliza a dissolução das atuais lealdades partidárias-eleitorais e mostra uma "troca de guarda" na representação da direita brasileira. E a disputa do segundo turno entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) ainda está em aberto, segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Bolsonaro teve 46% dos votos válidos e Haddad, 29% – o petista venceu em 8 dos 9 Estados do Nordeste (Ciro foi o mais votado no Ceará) e no Pará.

"De acordo com a literatura da licença política, isso é o que se chama de 'eleição crítica', onde as lealdades partidárias-eleitorais são dissolvidas. E em sistemas miltipartidários como o nosso,

frequentemente há uma substituição na representação dos campos ideológicos", disse o cientista político Antonio Lavareda.

Na prática, segundo o pesquisador, isso significa que houve uma "troca de guarda" no campo da centro-direita, com Bolsonaro ocupando o espaço deixado pelo PSDB.

"Duas coisas explicam isso: a Lava Jato, que atingiu várias lideranças do PSDB e, em segundo e importante lugar, o fato de que o PSDB aderiu ao impeachment e, depois, apoiou o governo Temer, que se tornaria bastante impopular. Foi a conjunção desses fatores que subtraiu ao PSDB a condição de continuar ocupando esse espaço."

O PT, por outro lado, se manteve a duras penas na liderança do campo de esquerda, evitando a substituição pretendida pela candidatura de Ciro Gomes.

"O PT conseguiu se manter, em grande medida, por causa do impeachment, que o reposicionou como oposição. Aí ele conseguiu enfrentar os desgastes que o governo Dilma e a Lava Jato vinham causando. Então, teve um desempenho parecido com 1994."

A atual eleição "rompeu a polarização entre PT e PSDB que já durava 20 anos", e é comparável ao que ocorreu nas eleições de 1989, as primeiras após a redemocratização, segundo a avaliação de Lavareda.

"Em 1989, o PT substituiu Leonel Brizola e o (seu) PDT como principal representante da esquerda, e Fernando Collor de Mello substituiu os partidos mais representativos da direita como PFL e PDS. No centro você teve Mário Covas substituindo a candidatura de Ulysses Guimarães. Foi uma troca de guarda completa."

PT poderia virar no segundo turno?

A possibilidade de vitória de Haddad no segundo turno existe, mas é bastante reduzida, na opinião de Lavareda. Ele relembra que nunca houve virada desse tipo em eleições presidenciais no Brasil, e que "nunca um candidato que teve 47% dos votos no primeiro turno perdeu a eleição".

"O fato de que Bolsonaro empolgou boa parte do eleitorado de maior escolaridade e renda mostra que se ele não tivesse rejeição elevada entre população de até dois salários mínimos e as mulheres, ele ganhava. O pouco que faltou para que ele ganhasse em primeiro turno lhe foi subtraído pelos mais pobres. Mas será um segundo turno disputado."

Segundo o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, tanto Haddad quanto Bolsonaro precisarão "caminhar para o centro" na tentativa de vencer. Mas a eleição ainda está em aberto.

"Essa eleição foi muito marcada por violência política e notícias falsas. Mas ela ainda não está encerrada", disse à BBC News Brasil.

Cortez também vê a "troca de guarda no campo antipetista", mas ressalta que ainda não se sabe como o novo campo da direita irá se organizar politicamente.

"Percebemos que o PSL fez bancadas com números expressivos para o partido, o que mostra que o peso do Bolsonaro se transferiu para diferentes competições. Mas veremos se Bolsonaro vai institucionalizar por via partidária esse apoio obtido nas urnas ou se vai preferir uma construção mais personalista desse antipetismo."

O candidato afirmou, durante a campanha, que não faria alianças políticas que contrariasse seus princípios e que não precisaria fazer "loteamento de cargos" caso se tornasse presidente. O cientista político, no entanto, diz que isso vai ser difícil.

"Vamos ter o teste se de fato essa retórica contra as alianças políticas via se sustentar. Se tem algo que não mudou na política foi a necessidade de gerar apoio qualificado no Congresso para aprovar as reformas constitucionais."

O PSL elegeu mais de 50 deputados federais neste domingo, segundo dados preliminares. Em 2014, apenas um representante havia sido eleito pela sigla. O PT, que havia conseguido 70 assentos na Câmara dos Deputados em 2014, terá uma bancada também superior a 50 deputados – pelas projeções, continuará sendo a maior da Casa. E o PSDB, que teve 53 deputados eleitos nas últimas eleições, teria obtido cerca de 30 assentos.