Bolsonaro chega a 41% dos votos válidos e vantagem sobre Haddad sobe para 16 pontos

Para liquidar disputa no primeiro turno, Bolsonaro precisaria herdar 64% de todos os chamados "votos azuis" (apoio hoje dado a Alckmin, Amoêdo, Alvaro Dias e Meirelles). No segundo turno contra Haddad, situação é de empate técnico.

SÃO PAULO – A dois dias do primeiro turno, a vantagem do líder Jair Bolsonaro (PSL) sobre o segundo colocado Fernando Haddad (PT) na corrida presidencial dobrou. Segundo pesquisa XP/Ipespe, o deputado saltou 8 pontos percentuais em uma semana e agora tem 36% das intenções de voto. Já o ex-prefeito paulistano oscilou positivamente de 21% para 22%, patamar duas vezes superior ao do terceiro colocado, Ciro Gomes (PDT), estacionado em 11% há três semanas. Votos em branco, nulos e indecisos agora somam 12% do eleitorado. O levantamento foi feito nos dias 3 e 4 de outubro e foi registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o código BR-06509/2018.

No segundo pelotão da disputa, juntamente com Ciro, aparece Geraldo Alckmin (PSDB). O tucano oscilou negativamente 1 ponto e está 3 p.p. abaixo de seu maior patamar registrado ao longo da corrida. Os ex-governadores estão em situação de empate técnico, no limite da margem de erro, de 2,2 p.p. para cima ou para baixo. Já Marina Silva (Rede) foi de 5% para 4%, menos de 1/3 do que teve em seu melhor momento na disputa. Logo atrás, aparecem o empresário João Amoêdo (Novo), com 3%; o senador Alvaro Dias (Podemos), com 2% – mesmo patamar do ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB); e o deputado Cabo Daciolo (Patriota), excluído do último debate, com 1% das intenções de voto. Outros candidatos não pontuaram.

Quando são contabilizados apenas os votos válidos (desconsiderando votos em branco, nulos e eleitores indecisos), Bolsonaro tem 41% das intenções de voto, o que indica que ainda faltariam 9% para que se configure um quadro de vitória no primeiro turno. Isso significa que até o próximo domingo (7), o parlamentar teria que herdar 64% de todos os chamados "votos azuis" (apoio hoje dado a Alckmin, Amoêdo, Alvaro Dias e Meirelles) ou 50% ta soma do campo azul com as intenções de voto de Marina Silva. Neste caso, Haddad tem apoio de 25% dos que declaram voto em algum candidato, seguido por Ciro, com 13%.

No cenário espontâneo (quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados), Bolsonaro aparece com 33% das intenções de voto, enquanto Haddad tem 16%. Ciro Gomes vem logo atrás, com 9%, seguido de Alckmin, com 4%, Amoêdo e Marina Silva, ambos com 2%. Alvaro Dias, Meirelles e Daciolo têm 1% cada. Neste caso, Bolsonaro tem 48% dos votos válidos e precisaria de 25% dos "votos azuis" ou 20% da soma deste campo com as intenções de voto de Marina Silva. A pesquisa espontânea é útil como ferramenta que mostra o grau de cristalização de apoio dos eleitores a cada candidato.

O levantamento XP/Ipespe também mostrou que, a dois dias do primeiro turno, o nível de interesse pela eleição presidencial chegou a 64% do eleitorado. Agora, 43% dos entrevistados se dizem muito interessados, enquanto 23% afirmam estar mais ou menos interessados no processo. Há um mês, a soma desses grupos representava 52% do eleitorado. A faixa de eleitores que se diz desinteressada com o processo está em 20%, o que pode indicar uma ativação tardia e decisão de voto de parcela relevante durante o sprint final ou até uma tendência de abstenção, o que na prática elevaria as chances de Bolsonaro liquidar a disputa sem necessidade de segundo turno.

Confira os cenários de primeiro turno para a corrida presidencial testados pela pesquisa:

Pesquisa espontânea: sem apresentação de nome dos candidatos aos entrevistados

Pesquisa estimulada: com a apresentação dos nomes dos candidatos aos entrevistados

 

Segundo turno

Foram testados cinco cenários de segundo turno nesta pesquisa. Em eventual disputa entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, o quadro ainda é de empate técnico, mas com o deputado numericamente à frente por 43% a 42%. Em relação ao último levantamento, o parlamentar cresceu 4 pontos percentuais, enquanto o petista oscilou 1 p.p. negativamente. O grupo dos "não voto" agora soma 15%. Em abril, Bolsonaro chegou a contar com gordura de 11 p.p., enquanto na semana passada Haddad apareceu pela primeira vez à frente, com vantagem de 4 p.p., no limite da soma das margens de erro dos candidatos.

Em eventual disputa entre Alckmin e Haddad, o quadro seria de empate técnico, no limite da margem de erro, com o tucano numericamente à frente com 40% das intenções de voto contra 36% para o petista. Votos em branco, nulos e indecisos agora somam 24%. Em nenhum momento o ex-prefeito paulistano liderou as simulações.

No caso de enfrentamento entre Alckmin e Bolsonaro, o cenário também é de empate técnico, com o tucano voltando a aparecer mais forte numericamente, com 44% das intenções de voto contra 42% para o deputado. Brancos, nulos e indecisos somam 15% do eleitorado. A diferença entre os candidatos chegou a ser de 7 pontos percentuais a favor do parlamentar na quarta semana de maio.

Se o segundo turno fosse entre Ciro e Alckmin, o cenário também seria de empate técnico, com o pedetista numericamente à frente por 36% a 33%. Brancos, nulos e indecisos somariam 31% do eleitorado. É a quarta vez que Ciro aparece numericamente à frente na disputa. Na semana passada, ele tinha 4 p.p. a mais que o ex-governador paulista. Em nenhum momento um dos candidatos teve vantagem superior ao limite da soma das respectivas margens de erro, mas na maior parte do tempo Alckmin liderou.

Caso Bolsonaro e Ciro se enfrentassem, o pedetista venceria com 44% das intenções de voto, contra 39% do parlamentar. Brancos, nulos e indecisos somariam 18%. Há cinco semanas, o ex-governador contava com vantagem de apenas 2 pontos percentuais. Ciro chegou a ficar 8 pontos à frente na semana passada. Bolsonaro esteve em vantagem numérica na maior parte do tempo, mas em quadro de empate técnico. Apenas nos dois primeiros levantamentos, realizados em maio, ele vencia com diferença superior à soma das margens de erro.

Rejeição aos candidatos

A pesquisa também perguntou aos entrevistados em quais candidatos não votariam em hipótese alguma. Marina Silva lidera o ranking da rejeição com taxa de 75%, em um salto de 7 pontos percentuais em comparação com a semana anterior. Em um mês, foi um salto de 13 p.p., a maior elevação em repúdio registrada entre os principais candidatos.

Logo atrás aparece Fernando Haddad, rejeitado por 65% do eleitorado – crescimento de 5 p.p. em relação aos percentuais registrados nas últimas duas semanas. O petista é seguido de perto por Geraldo Alckmin, que viu sua taxa subir de 61% para 64% em uma semana.

Já Bolsonaro viu sua rejeição oscilar negativamente em 1 p.p., ficando em 59%. Antes do ataque a facada sofrido em Juiz de Fora (MG) há um mês, o deputado havia alcançado seu maior nível de repúdio entre o eleitorado: 62%.

Ciro Gomes, por sua vez, é repudiado por 58% dos eleitores, contra 55% de Álvaro Dias. O senador, porém, é desconhecido por 22%, contra 5% registrados do lado do pedetista. A trajetória dos índices de rejeição dos principais nomes nas últimas sete pesquisas está na tabela abaixo:

FONTE: XP/IPESPE

 

 

Candidatos aumentam tom de ataques no rádio e na internet

Géssica Brandino Gonçalves Paulo Passos para Folha de São Paulo

Até agora, campanha à Presidência teve 34 pedidos de direitos de resposta.

Seja nos blocos do horário eleitoral, veiculados de manhã e à tarde, ou nos comerciais que entram na programação, as campanhas aumentam o tom dos ataques em propagandas no rádio. O mesmo acontece nas publicações na internet. Na comparação com a televisão, que tem o maior alcance e audiência entre o eleitorado, há mais citações aos rivais, críticas e até ironia.

Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), houve até sexta-feira (21) 34 pedidos de direito de resposta na campanha presidencial. A maior parte —o número exato não é divulgado pelo tribunal —é para peças que foram veiculadas exclusivamente no rádio.  

Com maior tempo nas propagandas, 44% do espaço, Geraldo Alckmin é quem mais cita e critica adversários. Sua campanha já teve 21 pedidos de direitos de resposta. O TSE aceitou um até agora.

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Alckmin teve que ceder 1 minuto de seu tempo de programa na terça-feira (18) para a resposta concedida pela Justiça eleitoral a Jair Bolsonaro (PSL). O direito veio após o tucano usar os primeiros programas para fazer referência ao trecho da entrevista de Bolsonaro ao Jornal Nacional em que ele diz que votou contra a PEC das Domésticas em dois turnos.

Ei, Bolsonaro: o que você tem contra pobre?”, questiona o locutor do programa fictício de Alckmin no rádio.

Na resposta, a campanha justifica o voto do deputado, critica a velha política e diz que é hora de virar o jogo elegendo “um presidente patriota e que tem Deus no coração”.

Bolsonaro votou contra a PEC dos empregados domésticos por entender que tal medida geraria desemprego, informalidade e redução de salários a uma classe de mais de sete milhões de pessoas, o que de fato ocorreu. Muitos perderam o emprego por conta da PEC”, afirma o capitão reformado, que lidera as pesquisas de intenção de voto.

A decisão não fez Alckmin baixar o tom. No rádio, aposta em jingles curtos e cita outros candidatos como Marina, Álvaro Dias e, principalmente, Fernando Haddad.  

Na internet, o tucano estreou a onda de ataques mais duros e diretos ao líder das pesquisas. A primeira vez que comparou Bolsonaro a Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela, foi em uma propaganda veiculada apenas na página oficial do PSDB no Youtube, na primeira semana da campanha. Foi também em vídeo exclusivo para a web que, pela primeira vez, acusou o candidato do PSL de agredir mulheres verbalmente.

Sem ataques ou citações nos programas de televisão, PT e PDT rompem o pacto de não agressão nas redes sociais. Vice na chapa de Ciro Gomes, Kátia Abreu provocou o petista Fernando Haddad em postagem na sua conta do Twitter, na última semana.

Numa imagem que reproduz o livro “Onde está o Wally?” está escrito “procura-se o Haddad no impeachment da Dilma”. “Tenho que rir. Não resisto. Turma é criativa”, escreve a ex-ministra de Dilma Rousseff.

Tem pessoas que criticam ataques, apontado como algo ruim. Eu encaro como algo importante para a democracia. É democrático falar sobre algo que o rival não queira falar ou expor” afirma o cientista político Antonio Lavareda. “Não é qualquer comercial crítico que consegue resultados. Tem o efeito bumerangue [quando o efeito do ataque se volta para que o fez]”, completa.

Na disputa pelo governo de São Paulo, a propaganda no rádio tem sido ainda mais bélica.

 

Voto útil está de olho no segundo turno

 

 Por João Batista Natali para o Diário do Comércio
O fatalismo Bolsonaro x Haddad pode cair com o roteiro de 2014, quando Aécio ultrapassou Marina, porque ela não conseguiria derrotar Dilma Rousseff.

O cenário eleitoral mais provável aponta para uma disputa da Presidência da República, no segundo turno, entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Mas há uma segunda alternativa no horizonte.

Ela leva em conta o voto útil antes do primeiro turno, mas já de olho no resultado do turno final. Foi o que aconteceu em 2014, quando Marina Silva (na época candidata do PSB), em segundo lugar nas pesquisas, foi esvaziada nos 12 últimos dias da campanha, por não ser naquela época capaz de derrotar, no segundo turno, a petista Dilma Rousseff.

Foi esse o fator preponderante para a ascensão de Aécio Neves (PSDB), que aparecia nas pesquisas em terceiro lugar. Os ataques que Marina sofreu na propaganda petista e tucana apenas aceleraram essa tendência.

O raciocínio foi exposto nesta segunda-feira (17/9), na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) por Antônio Lavareda, cientista político e especialista em pesquisas eleitorais.

Ele fez palestra a convite do Conselho Político e Social (Cops) e do Conselho de Economia (COE). Os dois colegiados da associação são coordenados, respectivamente, pelo ex-senador Jorge Bornhausen e pelo economista Roberto Macedo.

Os trabalhos, presididos por Bornhausen, foram abertos por Roberto Mateus Ordine, presidente em exercício da ACSP.

Lavareda, em sua exposição, foi bastante cauteloso para não afirmar em nenhum momento que esse cenário –voto útil no primeiro turno, com vistas ao resultado projetado para o segundo –seria hoje favorável a Geraldo Alckmin (PSDB).

Mas quebrou um pouco o fatalismo segundo o qual a disputa estaria hoje restrita a dois campos antagônicos, com Bolsonaro à direita e Haddad e Ciro Gomes (PDT) à esquerda.

UMA REALIDADE PREOCUPANTE

O cientista político lembrou que, em julho de 2016, todos os cenários apontavam para uma confortável vitória de Alckmin sobre o ex-presidente Lula, que se acreditava, na época, poder ser candidato.

O impeachment da petista Dilma Rousseff enfraqueceu politicamente seu padrinho e criador. Naquele ano, nas eleições municipais de outubro, o PT perdeu 60% das prefeituras detinha.

A realidade, no entanto, tornou-se agora “mais surpreendente e preocupante”, diz Lavareda.

Com o impeachment, a máquina petista foi empurrada para a oposição, de onde teria apenas a ganhar ao se opor radicalmente ao governo de Michel Temer. Foi esse o contexto dentro do qual o nome de Lula passou a crescer, num processo que hoje beneficia seu substituto como candidato presidencial.

A mudança entre os dois momentos se deve a fatores sobretudo internacionais. De um lado, a internet e as redes sociais fragmentaram as candidaturas presidenciais, favorecendo a emergência de forças bastante minoritárias, como o PSL pelo qual se apresenta hoje Jair Bolsonaro.

Na França, por exemplo, a eleição que levou em 2017 Emmanuel Macron ao poder teve, no primeiro turno, quatro candidatos com 20% dos votos. Na Argentina, em dezembro de 2015, a mesma percentagem era alcançada por três concorrentes no primeiro turno. O mesmo ocorreu na última presidencial chilena, com três candidatos com no mínimo a mesma porcentagem.

Um segundo grupo de fatores está no avanço mundial do espírito autoritário. É algo mais sutil que a votação de partidos extremistas.

É uma questão de mentalidade, captada em pesquisa internacional como a do Pew Research. Por ela, 17% disseram acreditar que a democracia representativa não é o regime mais desejável, com quase a metade dos entrevistados afirmando que não seria ruim um governo de especialistas – e não de eleitos com legitimidade política.

No Brasil, o Datafolha constata que 17% preferem a ditadura à democracia, enquanto 21% – que pensam no mesmo sentido – responderam que “tanto faz”.

Diante dessa decepção com o sistema representativo, tem-se uma crise da democracia liberal, com as redes sociais engajadas na mobilização que abalam a reputação dos partidos tradicionais.

A internet, prosseguiu Lavareda, produziu também a fragmentação das fontes de informação. Os jornais, as emissoras de rádio e de TV perderam um monopólio, num processo em que o cidadão passa a privilegiar bandeiras identitárias, com a etnia e as questões de gênero assumindo um papel cada vez mais preponderante.

OS “FATORES INTERVENENTES”

Nesse quadro, e especificando as eleições presidenciais brasileiras, torna-se secundário o antigo modelo pelo qual o sucesso eleitoral estava vinculado à economia e à avaliação do governo federal.

“Não estamos diante de uma eleição tecnicamente normal”, disse Lavareda. Seriam normais se a preferência política determinasse a decisão dos eleitores, desta vez avessos aos alinhamentos habituais.

Entre os fatores dessa pouca normalidade há, por exemplo, o peso da imagem que o Judiciário passou a ter na avaliação dos candidatos. O cientista político acredita que, se não tivesse se envolvido em operações suspeitas, Aécio Neves poderia hoje ganhar no primeiro turno.

E os eleitores se informam sobre os candidatos. Mesmo aqueles com baixa escolaridade, mas que têm um celular, relataram em agosto último (25%) que já haviam pesquisado algum candidato ou pretendiam fazê-lo (29%).

Esses novos canais explicam, por exemplo, o fato de Bolsonaro ter apenas 1,2% do tempo de rádio e TV, mas ter se distanciado na dianteira das pesquisas.

No passado, havia uma correlação muito forte entre tempo de TV e a votação no primeiro turno. Nas sete últimas campanhas presidenciais, e levando-se em conta os três candidatos que tiveram mais tempo em cada uma, apenas dois políticos – Orestes Quércia, em 1994, e Ulysses Guimarães, em 1989 – naufragaram pateticamente no primeiro turno.

Na atual campanha, disse Lavareda, caso o terreno da centro-direita não estivesse tão fragmentado, os 9% das intenções de voto de Amoêdo, Meirelles e Álvaro Dias, somados, permitiriam que Geraldo Alckmin estivesse num patamar bem mais confortável.

Com o quadro agora indefinido o cientista político acredita que Haddad poderá fazer um “arrastão final” no espólio lulista, capitalizando parte do apoio que nas últimas semanas migraram para Ciro Gomes e Marina Silva.

Por fim, Antônio Lavareda disse que o sentimento predominante do eleitorado é hoje emocional, contrariamente ao do entusiasmo que prevalecia na primeira eleição direta para presidente, em 1989.

Pesquisa da XP indica que 29% votarão movidos pela preocupação, e 11%, pelo medo.

A eles se soma um outro contingente de 27% dos eleitores que votarão com a indignação. “É a pura raiva, que gera a mobilização do eleitor que não para para refletir.”

Nesse nicho estão basicamente os eleitores de Jair Bolsonaro. É por isso “que essas eleições de 2018 estarão divididas entre aqueles que têm medo e os que sentem raiva”, concluiu o cientista político.

 

 

Com Bolsonaro ainda mais limitado, bate-cabeça se aprofunda em sua campanha

 

  e  para El País Brasil

Sem poder se comunicar de forma adequada no hospital, candidato pode ter sua força questionada. Nos bastidores, organizadores se atrapalham sobre os rumos a seguir

A cirurgia de emergência do candidato Jair Bolsonaro (PSL) na noite desta quarta-feira (12), após a detecção de uma aderência obstruindo o intestino delgado, impõe novos desafios para sua campanha ao Palácio do Planalto. A estratégia de gravar vídeos diários para as redes sociais, prevista para começar esta semana, foi adiada em função do grave estado de saúde do presidenciável, que voltou para a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Albert Einstein, onde se recupera “sem intercorrências” e com visitas restritas a familiares para reduzir o risco de infecção. Sem prognóstico de alta do candidato nem mesmo da UTI, alguns correligionários já admitem que ele não retomará a campanha ou participará de debates até o primeiro turno, no dia 7 de outubro, o que abre espaço para que políticos de seu círculo íntimo comecem a se movimentar —e entrar em atrito.

Com o candidato fora de cena, seus filhos e o candidato a vice na chapa, general Hamilton Mourão (PRTB), começaram a assumir o protagonismo da campanha, de forma aparentemente desordenada. O ato mais ousado veio do militar, cujo partido entrou com um pedido junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que possa representar Bolsonaro nos debates. A ação, entretanto, não contou com o aval da cúpula do PSL, que não foi consultada antes de o general ter se voluntariado para ocupar o púlpito destinado ao capitão da reserva. Na terça-feira Mourão foi além, e afirmou que "este troço já deu o que tinha que dar", referindo-se à facada levada pelo companheiro de chapa, e disse ainda que era preciso acabar com a "vitimização" do capitão. As declarações foram consideradas insensíveis por partidários de Bolsonaro.

O presidente do PSL paulista, Major Olímpio, tratou de colocar panos quentes no assunto, e negou que haja mal-estar entre o vice e os líderes do PSL após o pedido feito ao TSE. “Nós não demos muita importância a esse tipo de coisa. A intenção foi 100% positiva, pra quem conhece o general Mourão”, afirmou nesta quinta-feira ao visitar Bolsonaro no hospital Albert Einstein. Segundo Olímpio, é positivo ter o candidato a vice nos debates para falar das propostas do militar reformado e defendê-lo de possíveis "ataques" dos demais presidenciáveis. “Agora isso não depende de nós. Depende do TSE”.

Segundo Olímpio, o PSL está tentando unir as agendas dos líderes partidários com a dos filhos de Bolsonaro e do general Mourão para tentar passar uma imagem de coesão dentro da chapa, que lidera as intenções de voto até o momento. Nos próximos dias estão marcados atos de campanha em Assis, Marília, Ourinhos, Santa Cruz do Rio Pardo, Bauru e Itupeva, no interior do Estado de São Paulo. “Quanto mais eu puder ter o general Mourão em São Paulo, mais isso fortalece o Jair Bolsonaro”, afirma, fazendo a ressalva de que o general “tem um perfil diferente, não é homem de estar nas massas”. Para Olímpio, os 33 milhões de eleitores paulistas podem ajudar a definir a eleição "no primeiro turno". Para o partido isso seria importante, tendo em vista que até o momento nas simulações de segundo turno da mais recente pesquisa, o Datafolha, o máximo que o capitão obtém é um empate com o petista Fernando Haddad (PT).

Apesar do esforço de Olímpio para amarrar um agenda conjunta, o general parece ter outros planos. "Já estou no Paraná desde terça-feira, e nos próximo dias irei até o Rio de Janeiro e Manaus", afirmou Mourão em conversa por telefone com o EL PAÍS. "O Brasil é enorme, temos que nos mover", disse. O candidato a vice negou que tenha agido de forma desleal com o partido de Bolsonaro ao propor sua participação nos debates: "Eu apenas estou fazendo minha parte como segundo na campanha. Não posso substituí-lo, ele é insubstituível. Apenas o que posso fazer é aumentar a minha circulação pelo país para difundir nossas ideias".

Outra peça importante no xadrez da campanha bolsonarista é o candidato ao Senado Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidenciável, um dos coordenadores da ponta fluminense da campanha. Ele também nega qualquer mal-estar entre seu partido e Mourão. "O general é um cara 100% fechado com a gente, confiamos plenamente nele, e ele mostra que está disposto a ajudar onde for necessário", afirma. No entanto, Flávio diz que a participação do vice ou de qualquer um dos filhos do capitão em eventos ou agendas da chapa depende da decisão do candidato à presidência. "A participação dele depende da anuência do Jair, é dele a decisão final. Se ele entender que o Mourão tem que ir [aos debates], ele é super qualificado, não será uma peça decorativa", explica. "Somos todos soldados do capitão, a palavra final é sempre dele". Seja como for, Bolsonaro foi aconselhado pela equipe do Einstein a falar o menos possível para evitar qualquer complicação extra na recuperação. "Quando ele estiver em condições de tomar decisões, irá tomá-las", disse Flávio.

Do leito do hospital, o próprio Bolsonaro usou o Twitter para tentar conter os rumores de bate-cabeça. "Muita coisa vem sendo falada na tentativa de nos dividir e consequentemente nos enfraquecer. Não caiam nessa! Desde o início sabíamos que a caminhada não seria fácil, por isso formamos um time sólido e preparado para a missão de mudar o Brasil! Não há divisão!", escreveu.

"Forte como um cavalo"

Hospitalizado há sete dias, desde que levou uma facada no abdômen durante ato em Juiz de Fora (MG), Bolsonaro não deve voltar tão cedo para a campanha. E as perspectivas de retorno são ainda piores desde esta quarta-feira. O professor de cirurgia intestinal do Hospital das Clínicas, Carlos Sobrado, explica que uma complicação tida pelo capitão da reserva é comum neste tipo de trauma, mas é grave. “Nessas condições, o pós-operatório é complicado. O candidato tem mais de 60 anos, já passou por duas cirurgias em pouco tempo e está há uma semana sem se alimentar. Com certeza vai passar outra semana em jejum para depois retomar a dieta de forma muito gradativa”, analisa. Segundo ele, se o presidenciável evoluir positivamente, deverá receber alta em dez ou doze dias. “Acredito que no dia 7 [de outubro, quando acontece o primeiro turno] ele já estará em casa, mas não vai voltar a fazer campanha. Talvez para um segundo turno, se ele passar, ele tenha condições de participar de alguma atividade, mas com muito cuidado e restrição”, afirma.

O contraste entre o capitão da reserva que construiu sua carreira política alicerçada em um discurso conservador —e viril— e o candidato acamado com saúde fragilizada desempenha um duplo papel na campanha. "O drama pessoal humaniza o Bolsonaro, sempre há lugar no imaginário coletivo para os heróis feridos, que enfrentam situações adversas", explica o cientista político Antônio Lavareda, da Universidade Federal do Pernambuco. "Mas suponha que isso se estenda até o segundo turno, que ele continue fora da campanha caso avance para a reta final do pleito: aí é impossível prever o efeito que a ausência e fragilidade da saúde de Bolsonaro terão na cabeça das pessoas", diz. Para o professor, até o momento o fato de que o candidato não poderá ir a debates e sabatinas é positivo para ele, que não terá que se expor. "Mas enquanto ele fica no hospital outros personagens de seu círculo próximo ganham protagonismo, e eventualmente entram em conflito. Isso tudo deixa a opinião publica desconcertada, sem saber exatamente qual o estado de saúde do capitão", afirma, lembrando também o "trauma coletivo" que foi a morte do então presidente Tancredo Neves em 1985, que foi eleito, mas morreu antes de ser empossado, dando lugar a seu vice, José Sarney.

Flávio Bolsonaro afirma mesmo que o pai esteja em situação delicada no momento, sua imagem não será prejudicada. "Se ele não fosse forte já estava morto. É incrível como ele se recupera muito rápido de todas as cirurgias, operação após operação", diz. O vereador Carlos Bolsonaro, irmão mais novo de Flávio, também endossa o discurso familiar de que o capitão é "forte como um cavalo". No Twitter ele escreveu que apesar da "noite delicada (…) o velho é forte como um cavalo, não é à toa que seu apelido de Exército é 'cavalão!". Resta saber quanto vigor pode ter Bolsonaro para liderar uma corrida eleitoral da cama do hospital.

Se esperava que rejeição a Bolsonaro caísse após facada, diz Lavareda

O cientista político analisou os números da pesquisa Datafolha onde o candidato Jair Bolsonaro aparece com 24% das intenções de voto. Quatro candidatos estão empatados em segundo lugar, no limite da margem de erro

Apesar de Jair Bolsonaro ter crescido dois pontos e chagado a 24% na última pesquisa de intenções de voto, divulgada pelo Datafolha na noite dessa segunda-feira (10), a rejeição a ele impressiona. Entre os pesquisados, 43% rejeitam o candidato, mesmo após ele ter sido atacado com uma facada na última quinta-feira (6). De acordo com o cientista político Antônio Lavareda, se esperava que a rejeição a ele caísse. "Isso mostra que a rejeição a Bolsonaro está consolidada entre as mulheres e os leitores mais pobres", diz. "Eu esperava que ele crescesse uns 3 pontos percentuais e queda na rejeição, mas a rejeição a ele se mostrou surpreendente", completa.

O cientista político ainda analisou o discurso de Marina Silva e a dificuldade de crescimento da candidata nestas eleições. "Há duas forças que tracionam e começam a subtrair o eleitorado da ex-senadora:  o voto de classe, quando vai perdendo voto para Haddad, e o voto evangélico, onde ele disputa eleitorado com Bolsonaro, basicamente", diz. Ouça a entrevista completa:

A pesquisa, com margem de erro de 2%, apresenta quatro candidatos empatados em segundo lugar, no limite da margem de erro. Para o cientista político, o brasileiro dá muito valor à margem de erro, coisa que não acontece nos Estados Unidos, por exemplo. Lavareda afirma ainda que os crescimentos ou queda de cada candidato precisam ser avaliados em relação ao momento político e comparando instituto por instituto, candidato com candidato.

Pesquisa

O candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) atingiu 24% das intenções de voto em pesquisa divulgada hoje (10) pelo Instituto Datafolha. Ciro Gomes (PDT) teve 13% das preferências; Marina Silva (Rede), 11%; Geraldo Alckmin (PSDB), 11% e Fernando Haddad (PT), 9%.

De acordo com a pesquisa, Ciro tem 13%, Marina, 11%; Alckmin, 10%; e Haddad, 9%. Eles estão tecnicamente empatados, conforme margem de erro de dois pontos percentuais que pode oscilar para baixo ou para cima. A margem de pesquisa divulgada pelo Datafolha é de 95%.

Álvaro Dias (Pode) foi indicado por 3% dos eleitores entrevistados, o mesmo percentual de João Amoêdo (Novo) e de Henrique Meirelles (PMDB). Guilherme Boulos (PSOL), Vera Lúcia (PSTU) e Cabo Daciolo (Patri) pontuaram com 1%. João Goulart Filho (PPL) e José Maria Eymael (DC) não pontuaram. Os brancos e nulos somaram 15% e não responderam ou não quiseram responder 7%. 

Essa foi a primeira pesquisa do Datafolha após o ataque a faca contra Jair Bolsonaro, ocorrido na última quinta-feira (6), em Juiz de Fora (MG). É o primeiro levantamento que exclui o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba (PR) desde abril. Não foram divulgados resultados de intenção espontânea de voto.

Na comparação com a pesquisa de opinião realizada pelo Datafolha em 20 e 21 de agosto, Bolsonaro cresceu 2 pontos percentuais (p.p); Ciro, 3 p.p; Alckmin, 1 p.p. e Haddad 5 p.p. Marina Silva caiu 5 p.p. As oscilações de Bolsonaro e Alckmin estão dentro da margem de erro.

Entre os dois levantamentos, caiu em 7 p.p o número de eleitores que pretendem votar em branco ou nulo. Subiu em 1 p.p o número de entrevistarados que não quiseram ou não souberam responder.

A pesquisa atual ouviu nesta segunda-feira 2.804 pessoas em 197 municípios. O levantamento foi encomendado pela TV Globo e o jornal Folha de S.Paulo e registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número BR 02376/2018.

Rejeição

O candidato Jair Bolsonaro tem a maior taxa de rejeição, 43%. Marina Silva tem 29%; Geraldo Alckmin, 24%; Fernando Haddad, 22%; e Ciro, 20%.

Os demais resultados são: Cabo Daciolo, 19%; Vera Lúcia, 19%; Eymael, 18%; Guilherme Boulos, 17%; Henrique Meirelles, 17%; João Goulart Filho, 15%; João Amôedo, 15%; e Alvaro Dias, 14%. 

Cinco por cento dos eleitores entrevistados admitem que não votam em nenhum dos candidatos e dois por cento dizem que não votariam em ninguém. Seis por cento declararam não saber.

2º Turno

O Datafolha fez simulações de 2º turno entre os candidatos.  Nos cenários em que Jair Bolsonaro aparece disputando com outro candidato, Bolsonaro perde em todas as simulações: 39% para Haddad e 38% para Bolsonaro (20% branco e 3% nulo), 43% para Marina e 37% para Bolsonaro (18% branco e 2% nulo), 43% para Alckmin e 34% para Bolsonaro (20% branco e 3% nulo), 45% para Ciro e 35% para Bolsonaro (17% branco e 3% nulo).

O Datafolha ainda testou cenários de 2º turno sem o candidato do PSL. Ciro (39%) venceria Alckmin (35%), tendo 23% branco e 3% nulo; Marina (38%) superaria Alckmin (37%) tendo 23% branco e 2% nulo; Ciro (41%) ganharia de Marina (35%) tendo 22% branco e 2% nulo; Marina (38%) superaria Alckmin (37%); assim como venceria disputa com Haddad, 42% contra 31% (25% branco e 3% nulo). Geraldo Alckmin (42%) venceria disputa com Fernando Haddad (29%), tendo 25% branco e 3% nulo.

 

Ouça a entrevista em: http://radiojornal.ne10.uol.com.br/noticia/2018/09/11/se-esperava-que-rejeicao-a-bolsonaro-caisse-apos-facada-diz-lavareda-60731

 

Tristeza embala o voto do brasileiro nas eleições 2018


LUCIANA LIMA

Pesquisas e medições nas redes identificam o inédito mau humor dos eleitores. Após o atentado contra Bolsonaro, raiva cresce

 

Voto consciente, racional. Embora a prudência ordene uma decisão pensada à luz da razão, as reações emocionais estão especialmente presentes no voto, não só do brasileiro, mas nas democracias mais consolidadas do mundo. As campanhas sabem disso e, como podem, estimulam e se defendem dos sentimentos que influenciam a definição do voto.

Em especial nestas eleições, a tristeza é um dos sentimentos mais identificados pelas pesquisas qualitativas e nos comentários das redes sociais sobre os candidatos à Presidência da República. Esse é um fato inédito em pleitos desde a redemocratização. Campanhas anteriores, mesmo as que ocorreram em clima de crise econômica, contaram com o entusiasmo do eleitor, que votou com uma boa dose de esperança em seus candidatos.

“Apesar de o brasileiro manter a esperança e a confiança, ele está triste e com medo”, analisou o doutor em comunicação social Sérgio Denicoli, diretor da AP/Exata, empresa especializada em análise de dados nas redes sociais e que, desde maio deste ano, tem acompanhado a evolução dos sentimentos presentes em postagens no Twitter sobre os presidenciáveis.

A empresa acompanhou uma amostra de 58.812 tweets geolocalizados, publicados a partir de 145 cidades, de todos os estados do Brasil. São oito sentimentos básicos monitorados nas performances das hashtags: raiva, previsibilidade, desgosto, medo, alegria, tristeza, surpresa e confiança. O mesmo método foi utilizado nas duas últimas eleições norte-americanas, seguindo a teoria de Robert Plutchik. O estudo baseou a elaboração do algoritmo de medição de emoções nas redes.

Atentado contra Bolsonaro
O termômetro das emoções nas redes sociais reagiu de forma imediata na última quinta-feira (6/9), nas duas horas que sucederam o ataque ao candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL). Ele cumpria agenda de campanha na cidade mineira de Juiz de Fora e foi esfaqueado.

Esse foi um raro momento em que o sentimento de raiva superou o sentimento de tristeza, o qual também subiu de forma bastante contundente. Além disso, o medo aumentou bastante em poucas horas.

Confira a evolução das emoções detectadas no gráfico abaixo. O atentado acontece no momento em que o gráfico marca -2:

A confiança – que nas últimas semanas tem sido o sentimento mais predominante já que quem fala sobre o candidato nas redes é, em geral, apoiador de determinado nome – caiu drasticamente, sendo superada pela raiva. “Houve um claro sentimento de revolta”, identificou Denicoli.

Presidenciáveis
Ao longo dos últimos quatro meses, no entanto, as emoções mais presentes nas postagens que falam dos presidenciáveis foram mapeadas. O grosso dessas publicações é de apoiadores. Isso explica, na visão de Denicoli, o alto índice de confiança, identificado pelo levantamento, nos presidenciáveis citados nos posts.

Excluindo o fator confiança, já que os posts são feitos por apoiadores, os sentimentos presentes são bastante negativos. É necessário observar que os sentimentos não se referem aos candidatos citados, mas a qualquer fato ou pessoa.

 

Voto consciente, racional. Embora a prudência ordene uma decisão pensada à luz da razão, as reações emocionais estão especialmente presentes no voto, não só do brasileiro, mas nas democracias mais consolidadas do mundo. As campanhas sabem disso e, como podem, estimulam e se defendem dos sentimentos que influenciam a definição do voto.

Em especial nestas eleições, a tristeza é um dos sentimentos mais identificados pelas pesquisas qualitativas e nos comentários das redes sociais sobre os candidatos à Presidência da República. Esse é um fato inédito em pleitos desde a redemocratização. Campanhas anteriores, mesmo as que ocorreram em clima de crise econômica, contaram com o entusiasmo do eleitor, que votou com uma boa dose de esperança em seus candidatos.

 

“Apesar de o brasileiro manter a esperança e a confiança, ele está triste e com medo”, analisou o doutor em comunicação social Sérgio Denicoli, diretor da AP/Exata, empresa especializada em análise de dados nas redes sociais e que, desde maio deste ano, tem acompanhado a evolução dos sentimentos presentes em postagens no Twitter sobre os presidenciáveis.

A empresa acompanhou uma amostra de 58.812 tweets geolocalizados, publicados a partir de 145 cidades, de todos os estados do Brasil. São oito sentimentos básicos monitorados nas performances das hashtags: raiva, previsibilidade, desgosto, medo, alegria, tristeza, surpresa e confiança. O mesmo método foi utilizado nas duas últimas eleições norte-americanas, seguindo a teoria de Robert Plutchik. O estudo baseou a elaboração do algoritmo de medição de emoções nas redes.

Atentado contra Bolsonaro
O termômetro das emoções nas redes sociais reagiu de forma imediata na última quinta-feira (6/9), nas duas horas que sucederam o ataque ao candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL). Ele cumpria agenda de campanha na cidade mineira de Juiz de Fora e foi esfaqueado.

Esse foi um raro momento em que o sentimento de raiva superou o sentimento de tristeza, o qual também subiu de forma bastante contundente. Além disso, o medo aumentou bastante em poucas horas.

Confira a evolução das emoções detectadas no gráfico abaixo. O atentado acontece no momento em que o gráfico marca -2:

Fonte: AP/Exata

 

A confiança – que nas últimas semanas tem sido o sentimento mais predominante já que quem fala sobre o candidato nas redes é, em geral, apoiador de determinado nome – caiu drasticamente, sendo superada pela raiva. “Houve um claro sentimento de revolta”, identificou Denicoli.

Presidenciáveis
Ao longo dos últimos quatro meses, no entanto, as emoções mais presentes nas postagens que falam dos presidenciáveis foram mapeadas. O grosso dessas publicações é de apoiadores. Isso explica, na visão de Denicoli, o alto índice de confiança, identificado pelo levantamento, nos presidenciáveis citados nos posts.

Excluindo o fator confiança, já que os posts são feitos por apoiadores, os sentimentos presentes são bastante negativos. É necessário observar que os sentimentos não se referem aos candidatos citados, mas a qualquer fato ou pessoa.

Nas postagens feitas por apoiadores do presidenciável pelo Podemos, Alvaro Dias, o sentimento predominante é raiva (15,02%). Já em relação a Ciro Gomes, candidato do PDT, a tristeza alcançou 13,63%.

Nos posts referentes ao candidato a vice na chapa petista, Fernando Haddad, o sentimento majoritário é raiva (14,39%) e tristeza (14,31%). No caso do tucano Geraldo Alckmin, a raiva teve o maior índice nas publicações (16,28%).

As postagens que citam o candidato do PSol, Guilherme Boulos, são motivados principalmente por tristeza (16,32%). Já em relação a Henrique Meirelles, o sentimento maior é medo (12,01%).

As interações citando o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, são motivadas principalmente por tristeza (14,99%) e raiva (14,80%). João Amoedo, do partido Novo, suscitou postagens com predominância de tristeza (13,37%) e Marina Silva motivou posts preferencialmente pautados pelo medo (15,52%).

Já as publicações que citam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teve sua candidatura negada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada, foram permeadas principalmente pelo medo (16,50%).

Julgamento
Até o atentado a Bolsonaro, outro fator bastante observado foi a questão da previsibilidade. Ou seja, ninguém verdadeiramente se surpreendeu com o fato político relacionado com a campanha, apesar de seu caráter inusitado, com um ex-presidente preso, lutando para disputar as eleições.

Na sexta-feira (31/8), durante o julgamento do TSE que barrou o registro de candidatura de Lula, confiança, tristeza, medo e raiva foram predominantes na rede social. Esses sentimentos estiveram bastante presentes nas postagens associadas às hashtags que mais se destacaram sobre o assunto. São elas: #Lula, #PauNoCudaOnu, #LulaInelegível, #LulaLivre, #LulaNasUrnasTSE, #LulaPresidente e #SemLulaECiro.

Enquanto o sentimento de raiva mobilizou nas redes os adeptos da comunidade formada em torno dos termos #LulaLivre, #LulaNasUrnasTSE e #LulaPresidente, a tristeza esteve bastante presente, por motivos opostos nos posts que utilizaram as hashtags #PauNoCuDaONU e #LulaInelegível. Uma lamentou a intervenção do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) no processo. A outra, o fato de Lula não poder ser candidato seguindo a recomendação expedida pelo órgão internacional.

Já o sentimento de surpresa foi o menos presente no estudo. Os internautas já esperavam o impedimento de Lula. Mesmo entre os defensores do ex-presidente que utilizaram a hashtag #LulaLivre, surpresa esteve presente em apenas 7% dos tweets.

“Arame farpado”
Para o cientista político Antônio Lavareda, especialista em comportamento eleitoral e marketing político, as emoções passaram a ser expressas nas redes sociais de forma bastante explícita, fazendo com que esse ambiente virtual assumisse um papel de “rede de arame farpado”.

“As pessoas deveriam investir em entender o porquê de se comportarem de determinada forma. Saber como reagem a determinado estímulo é fácil. Difícil é entender os motivos”, observou. Lavareda afasta o mito da escolha racional nas eleições. “Isso já foi afastado pela economia e também não funciona para a política”, atestou.

Para o cientista político, o sentimento de tristeza está presente de forma bastante particular nestas eleições. Em estudo realizado em junho pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) para a XP Investimentos, ele identificou dois grupos de sentimentos presentes entre os eleitores.

O primeiro contingente, o maior grupo identificado, é motivado por sentimentos chamados aversivos ou negativos. O método desenvolvido pelo Ipespe inclui nesse grupo emoções como preocupação, indignação ou raiva, e medo. “No segundo grupo, bem menor, estão os esperançosos”, observou Lavareda. Fazem parte do segundo sentimentos positivos a esperança, o orgulho, a alegria e o entusiasmo.

“Se acrescentarmos a tristeza ao primeiro grupo, podemos observar que ele abrange 83% dos entrevistados. Já os sentimentos mais positivos passam a somar 14%”, destacou.

Crises sobrepostas
Segundo Lavareda, esse estado emocional vigente deve-se, principalmente, às sobreposições de crises nos últimos anos. “Estas eleições ocorrem sob um signo de emoções eminentemente negativas. Isso é uma coisa inédita no Brasil.”

Estamos em um período de sucessivas crises, de ordem econômica, fiscal e ética. Tivemos ainda uma crise de instituições, o confronto entre os Poderes do Estado, entre o Judiciário e o Congresso, entre o Congresso e o Executivo, entre o Executivo e o Judiciário. Tivemos o episódio do impeachment. Ou seja, temos todo glossário de crises se sobrepondo nos últimos anos e gerando tristeza, indignação e muita raiva"

Antônio Lavareda, cientista político especializado em marketing digital

O cenário atual, no entanto, é bem diferente do que se desenhou em 1989, quando o país atravessava crise econômica severa e de representação política, mas estava prestes a realizar a primeira eleição após a redemocratização.

“Se observarmos a eleição de 1989, havia um cenário de crise econômica e de representação. No entanto, havia um entusiasmo. Os partidos não fizeram coligações para o primeiro turno. Praticamente todos as legendas lançaram nomes para a disputa ao Palácio do Planalto. Foi um ano de grande alegria, apesar das crises”, enfatizou Lavareda.

Em junho, o estudo ouviu 1,2 mil  eleitores. Na amostragem, 83% dos pesquisados declararam ter emoções negativas; enquanto apenas 14% estariam imbuídos de sentimentos positivos. Outros 3% não quiseram ou não souberam responder.

No grupo de sentimentos negativos, os entrevistados responderam da seguinte forma: preocupação (33%), indignação ou raiva (27%), tristeza (12%) e medo (11%). Já entre as emoções positivas houve a esperança (12%), orgulho (1%) e alegria (1%). Entusiasmo não atingiu 1% das menções.

Emoção nos slogans de campanha
A análise das emoções é instrumento bastante utilizado pelas campanhas na definição de suas estratégias. Não é de forma gratuita que, em 1989, a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva elegeu como slogan a frase “Sem Medo de Ser Feliz”. O mote começou a mudar a imagem do operário, que metia medo na classe alta e média por seu passado sindicalista. Foi o início de uma construção que culminou com a chegada de Lula ao poder, em 2003.

Em 2002, o “Lulinha Paz e Amor” conseguiu encarnar a felicidade pretendida pelo eleitorado brasileiro no início da década de 2000, com um tom muito menos agressivo do que a sua imagem comunicava na década de 1980.

Neste ano, as candidaturas apostam em sentimentos negativos. Para Lavareda, o voto no candidato Bolsonaro é bastante motivado pelo sentimento de raiva e indignação. A indignação é ainda bastante explorada por Alvaro Dias.

A campanha de Lula também insiste na indignação diante de um ex-presidente vitimado, enquanto os candidatos Marina Silva e Ciro Gomes apostam em emoções como preocupação e ansiedade.

“É claro que nenhum dos candidatos desperta ou provoca somente um tipo de emoção. Os sentimentos afloram como na gente. Ora estamos indignados, ora preocupados”, ressalvou Lavareda. O pesquisador é defensor do “modelo de inteligência afetiva”, explicitado em seu livro Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais, o qual ele usa como referência campanhas vitoriosas, como a de Barack Obama, nos Estados Unidos, as de Lula, em 2002 e 2006, e de Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998.

 

 

 

 

“Datafolha deve mostrar crescimento de Bolsonaro, mas longe de vitória no 1º turno”, afirma Mônica Bergamo

A pesquisa do Instituto Datafolha vai revelar logo mais o impacto do ataque ao candidato à Presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro. De acordo com a nossa colunista Mônica Bergamo, a expectativa é muito grande entre os analistas das campanhas dos presidenciáveis.

Segundo o nosso colunista Antônio Lavareda, que analisa as pesquisas aqui para a Band e que costuma acertar 10 em cada 10 previsões, a expectativa é que o levantamento deve mostrar, no mínimo, a consolidação dos votos em Bolsonaro.

O candidato tinha 22% de intenção de votos e é previsível o crescimento de até quatro pontos porcentuais. A previsão é reforçada por sondagens que começaram a circular pela manhã, porém, o crescimento está longe de dar a vitória ao candidato no primeiro turno.

Conforme Mônica Bergamo, o maior medo dos outros candidatos é que o noticiário espontâneo focado em Bolsonaro sufoque os demais presidenciáveis. Outro dilema é como seguir fazendo críticas ao candidato do PSL após o ataque.