Após acusações de ex-braço direito, candidatura de Lula pode virar apenas ‘estratégia de defesa’

Por Leandro Machado, Mariana Schreiber, Paula Adamo Idoeta e Renata Mendonça

Da BBC Brasil em São Paulo e em Brasília

As acusações de corrupção contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT ganharam um novo capítulo na quarta-feira com o endosso de um nome forte do partido, o ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antonio Palocci.

Em depoimento ao juiz Sergio Moro, em que foi ouvido como réu em um processo criminal da Operação Lava Jato enquanto tenta fechar um acordo de delação premiada, Palocci mencionou presentes da Odebrecht a Lula, entre eles o sítio de Atibaia, além de R$ 300 milhões da empreiteira para o partido – acusações negadas pela legenda e seu líder.

Apesar do peso de Palocci nos governos petistas, os analistas políticos divergem sobre o impacto que seu depoimento terá sobre a disputa eleitoral de 2018.

Para alguns, acusações vindas de uma figura tão importante no partido dificultam ainda mais as condições de disputa de Lula e do PT. Já outros consideram que, devido ao acúmulo já grande de denúncias contra o ex-presidente e a legenda, os efeitos de novas acusações já não são relevantes.

Em uma coisa, porém, eles concordam: enquanto o Tribunal Regional Federal da 4ª Região não decide se confirma ou não a condenação de Lula por Sérgio Moro no caso do tríplex do Guarujá – o que poderia impedi-lo de concorrer à Presidência devido à lei da Ficha Limpa-, sua candidatura deve ser mantida, até porque interessa como estratégia de defesa sua e do partido, notam os analistas.

"Um bom motivo para manter a candidatura é a defesa da vida pública do ex-presidente contra uma narrativa de que existe um longo movimento entre as elites contra ele e o PT, que começa com o impeachment da presidente Dilma, segue com um governo que estaria desenvolvendo um desmanche do estado do bem estar social construído pelo partido e se encerra com a perseguição judicial", observa Rafael Cortez, cientista político da consultoria Tendências.

"Em boa medida essa narrativa fica mais forte enquanto Lula sinaliza a condição de candidato, pois o capítulo final dessa perseguição é a proibição da candidatura do ex-presidente por meio da condenação judicial", reforça.

Lula e Palocci

Palocci foi um dos homens-fortes do governo Lula | Foto: Ag. Brasil

Para Cortez, no entanto, Lula só teria condições de ganhar se disputar o segundo turno contra Jair Bolsonaro (PSC-RJ), um candidato de rejeição ainda maior do que a do petista hoje.

O cientista político Ricardo Ismael, da PUC-RJ, tem leitura semelhante: "Acho que o PT não tem saída, porque o PT fez uma aposta em relação ao Lula. Ele vai manter a narrativa de que não há provas, é uma perseguição política e que isso acontece porque Lula melhorou a vida das pessoas. Mas é um discurso que provavelmente será insuficiente pra levá-lo à Presidência", pontua Ismael.

"A campanha presidencial serve como blindagem ao próprio presidente Lula. Se ele abandonasse agora a candidatura, o que não vai fazer, porque Lula controla o PT, isso acabaria com a defesa do Lula. Ele (PT) vai perder a eleição se mantiver o Lula, mas sem Lula provavelmente também. Tirar o Lula agora geraria mais problemas", acrescenta.

Efeitos minimizados

A análise dos cientistas políticos encontra eco na fala dos petistas. À BBC Brasil, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) minimizou o impacto do depoimento de Palocci e reforçou a candidatura de Lula.

"Não temos plano B. Não aceitaremos de maneira alguma a legitimidade de uma eleição que o Lula não participe", afirmou, repetindo um discurso recorrente dentro do partido hoje.

Para desqualificar o depoimento de Palocci, Pimenta ressaltou que ele falou na condição de réu, o que o desobriga a dizer a verdade. Além disso, disse que a alongada prisão preventiva imposta ao ex-ministro é como "uma tortura" para "forçar" uma delação.

Para Carlos Melo, cientista político e professor do Insper, esse discurso não deve ser suficiente para convencer a opinião pública e o depoimento de Palocci deve complicar as situações política e jurídica de Lula e de seu partido.

"Lula e o PT vão tentar desqualificar a fala do ex-ministro, mas a relação entre eles era muito estreita. Palocci foi ministro de Lula, coordenador da campanha da Dilma e depois chefe da Casa Civil. Palocci fazia caminhada matinal com Lula", diz.

"Como Lula vai responder na TV quando citarem esse depoimento? É difícil a resposta."

O juiz Sergio Moro

Tribunal Regional Federal da 4ª Região pode confirmar ou não condenação de Lula por Sérgio Moro | Foto: Pedro de Oliveira/ ALEP

Mais do que o conteúdo da fala de Palocci no depoimento, para os especialistas ouvidos pela BBC Brasil o que pesa mais nele é o fato de vir de uma pessoa extremamente próxima ao ex-presidente e que faz parte do "núcleo duro" do PT.

"É uma pessoa que fazia parte do estafe, do núcleo duro da campanha de 2010. Não só no primeiro governo Lula, como também no de Dilma. Ele era um dos homens fortes. Ele partilhava da intimidade do poder", aponta Ismael.

O professor da PUC-Rio lembra que o depoimento de Palocci foi gravado em vídeo e isso poderá ser usado pelos adversários na campanha presidencial. "Esse depoimento é contundente, não é coisa escrita, é vídeo. Pode ser usado até pelos adversários numa campanha. Essa questão consolida a rejeição ao Lula principalmente na classe média, torna ainda mais difícil recuperá-la. Então, o Lula se consolida como um candidato que tem uma oposição muito forte, que pode até atacá-lo pela condenação que ele já tem."

Para Carlos Melo, do Insper, não só a situação política do petista se complica, mas também a defesa de Lula no âmbito da Lava Jato. "A defesa fica mais frágil. Já era complicado com a delação de Marcelo [Odebrecht]. Acredito que Sérgio Moro levará em conta o depoimento de Palocci quando for formar sua opinião."

Acumulo de denúncias

Já o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Antonio Lavareda considera que o acúmulo de denúncias contra Lula e o PT reduz o impacto do depoimento de Palocci.

Na sua avaliação, Lula não deve conseguir sobreviver a uma condenação e disputar a eleição de 2018. Já o PT deve continuar como principal partido de esquerda, embora sem chances reais de vencer a próxima disputa presidencial, devido à memória popular sobre o desempenho ruim do governo de Dilma Rousseff.

"Não tem alteração substancial nenhuma (no cenário de 2018 com o depoimento de Palocci). É uma coisa que já está precificada na opinião pública. Já vêm desde 2005 essas notícias envolvendo ministros do PT, dirigentes do PT. Há um processo de habituação da sociedade", ressalta.

"Os eleitores que colocam Lula num patamar próximo a 30% nas pesquisas ou são eleitores beneficiários dos programas sociais que o PT desenvolveu ou são eleitores ideologicamente à esquerda. Então, esses eleitores estão sujeitos a esse efeito de 'habitualidade' e, por conta disso, as denúncias afetam menos o PT do que outros partidos", acrescenta.

O Palácio do Planalto

Para analistas, candidatura de Lula ao Planalto interessa como estratégia de defesa | Foto: Marcos Corrêa/PR

Para Rafael Cortez, da Tendências, os números altos de rejeição a Lula captados nas pesquisas mostram que o desgaste pelas denúncias de corrupção já levou à perda do eleitorado menos fiel, restando o apoio mais cativo.

"Mesmo com o desgaste gerado pelo depoimento do Palocci, Lula teria condições de ter um desempenho melhor que os demais concorrentes da esquerda, por seu histórico e carisma."

Se Lula não puder se candidatar, Cortez acredita que as denúncias reduzem seu peso como puxador de votos para outros candidatos petistas. Na sua visão, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad aparece como uma opção que poderia dar um verniz renovador ao partido, pensando não tanto no resultado da eleição de 2018, mas para reconstruir a legenda para as disputas futuras.

Já o ex-governador da Bahia Jaques Wagner, diz, poderia ser uma "opção mais emergencial", com foco em 2018, se o partido quiser priorizar a mobilização dos votos do Nordeste.

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A violência no Brasil é tema do Ponto a Ponto

O vice-presidente da Associação Paulista do Ministério Público de São Paulo, Marcio Sérgio Christino, foi o entrevistado do Ponto a Ponto deste sábado (26), na BandNewsTV. A entrevista foi mediada pela jornalista Mônica Bergamo e o sociólogo Antonio Lavareda.

Veja o programa:

 

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Combate ao crack é assunto do Ponto a Ponto

Partidos trocam ‘P’ por slogans para eleições de 2018

Por Angela Boldrini (Folha de São Paulo)

Plenário da Câmara dos Deputados em sessão da reforma política (Foto: Pedro Ladeira/ FolhaPress)

Avante, Podemos, Mude, Patriota, Progressistas, Livres. Os eleitores talvez tenham a opção de votar em candidatos desses partidos nas eleições de 2018. Não reconheceu nenhum deles?

E PT do B, PTN, DEM, PEN, PP e PSL? Os nomes são as novas denominações que esses partidos, nesta ordem, querem adotar para as próximas eleições.

Dos 35 partidos existentes hoje no Brasil, sete já anunciaram a intenção de mudar de nome. Um deles, o Podemos (ex-PTN), já conseguiu efetivar a mudança no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e se relançou em julho.

A mudança de nomes das agremiações não é fenômeno atual. O Partido Progressista, por exemplo, começou em 1966 como Arena, base de apoio aos governos militares. Em 1980, virou PDS. Em 1993, PPR. Dois anos depois, trocou para PPB. Finalmente, em 2003, virou o PP. Agora, quer se chamar Progressistas.

O caso do PP mostra as duas mudanças fundamentais que marcam essa onda de troca de nomes. Em primeiro lugar, a retirada da palavra "partido". Só o Democratas, antigo PFL, já havia feito isso, em 2007. A outra é a adoção de uma palavra em vez da sigla. A exceção é o PMDB, que quer voltar a ser MDB.

"É uma tendência mundial utilizar nomes, escolher uma palavra, que tenham ligação com a representação ideológica do partido", afirma Fernando Vieira, marqueteiro do Podemos.

Entre os partidos citados por políticos de legendas como inspiração estão o homônimo espanhol Podemos e o En Marche, do presidente francês Emmanuel Macron.

No caso do ex-PTN, Vieira nega que haja inspiração do partido espanhol, bem mais à esquerda que a sigla brasileira. "Até havia resistência a esse nome porque tinham medo dessa associação", diz.

Em 1979 tornou-se obrigatória a presença do "P" no nome das siglas. Foi quando o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), sigla de oposição durante a ditadura militar, virou o PMDB.

Com a lei dos partidos políticos, de 1995, a presença deixou de ser compulsória. Apesar disso, as legendas não fizeram movimentos para retirá-la de seus nomes.

O primeiro a fazê-lo foi o então PFL (Partido da Frente Liberal). Segundo o cientista político Antônio Lavareda, um dos idealizadores, a mudança não foi deliberada. "Não havia a intenção de tirar a palavra partido, porque os partidos não estavam tão desgastados como hoje", diz.

A retirada do "partido" do nome das agremiações se dá em um momento de deterioração da popularidade da classe política: em dezembro, 58% dos brasileiros afirmaram ao Datafolha acharem o desempenho dos congressistas ruim ou péssimo.

  Editoria de Arte/Folhapress  
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"Existe uma onda muito forte de antipolítica", afirma o deputado Silvio Costa (PT do B-PE), cujo partido quer se tornar Avante. "O fato de tirar o nome partido é para tentar reconstruir o diálogo com a sociedade", diz.

Segundo Lavareda, as mudanças de hoje também estão relacionadas à necessidade dos partidos de aumentarem o número de deputados federais para terem maior acesso ao fundo partidário e aos tempos de rádio e televisão.

"O mais importante para um partido hoje é a bancada federal", afirma ele. "Então praticamente tudo vale a pena para aumentá-la."

No caso do Democratas, por exemplo, o desejo de mudar de nome veio justamente no momento em que o partido busca atrair para si a ala governista do PSB. Vieira diz que o Podemos também viu um aumento de sua bancada depois da repaginação.

O professor de marketing político da ESPM Emmanuel Dias, porém, afirma que as mudanças não devem ter efeitos práticos em termos eleitorais. "É impossível você mudar a percepção apenas pelo nome, que é uma das etapas finais do 'rebranding' no marketing", diz ele. "É um grande erro que está sendo feito."

Do outro lado, alguns partidos rebatem. "Não é apenas uma mudança de nome, é uma refundação do partido", diz Vieira. O Podemos lançou novo estatuto em julho.

PSL e Democratas afirmam que também reverão suas bases ideológicas antes de mudar a nomenclatura. "Mas a maioria dos partidos não está entendendo, estão achando que é só fazer uns 'penduricalhos'", diz Silvio Costa.

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Confira o Canal Livre do último domingo com Antonio Lavareda

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O cientista político Antonio Lavareda vai analisar o atual cenário político do Brasil no Canal Livre, da Band, neste domingo (6), à 0h. Na pauta, a denúncia contra o presidente Michel Temer e como se configuram as eleições para o próximo ano. Além de Antonio Lavareda, o cientista político José Álvaro Moisés participa do programa dominical. A ancoragem é dos jornalistas Fernando Mitre e Fábio Pannunzio.

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Combate ao crack é assunto do Ponto a Ponto

Com o intuito de ampliar a discussão sobre o combate ao crack a jornalista Mônica Bergamo e o sociólogo Antonio Lavareda receberam no Ponto a Ponto, do último sábado (29), o advogado e consultor jurídico da Clínica Novo Mundo, Marcos Jordão. O tema do semanal será “Drogas: como enfrentar” e vai debater ações e políticas públicas voltadas para esta área. O programa é sempre exibido à 0h, na BandNewsTV e no domingo ganha reprise às 17h30.

Pesquisa realizada neste ano pelo Observatório do Crack, da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), mostrou a quantidade das principais cidades por Estado que declarou ter nível alto de problemas com crack. Em primeiro lugar, apareceu São Paulo com 193 cidades, em segundo Minas Gerais com 191 e em seguida a Bahia com 115 cidades com a problemática.

Para Marcos Jordão, a política de redução de danos deve ser sempre precedida de uma proposta de tratamento que vise à abstinência. “Oferecer caminhos de reinserção social antes de um atendimento terapêutico ou com medicamentos é bastante complicado”, explicou.

Ainda durante o programa, Lavareda analisou dados de pesquisa recente da Datafolha, que apontou que 80% das pessoas acham que a internação de um adulto usuário de crack deve acontecer mesmo que ele não queira.

Veja a entrevista na íntegra:

 

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Economista acredita na recuperação da economia

Programa Ponto a Ponto discute a crise nas Instituições brasileiras

A crise em que se encontram hoje as instituições no Brasil atinge não somente o seu funcionamento, mas também a sua legitimidade. No programa Ponto a Ponto do último sábado (22), a jornalista Mônica Bergamo e o sociólogo Antonio Lavareda conversaram com Luciana Gross, professora de Direto da FGV/SP. O semanal discutiu o tema “Instituições em Crise?” e sempre é exibido à 0h, na BandNewsTV. No domingo (23), ganha reprise às 17h30.

Para Luciana Gross, que também é coordenadora de Pesquisa e do Mestrado Acadêmico em Direito e Desenvolvimento, que é responsável pelo Índice de Confiança na Justiça (ICJBrasil), que mede a confiança da população no Judiciário, o brasileiro não consegue distinguir qual instituição de fato está em crise. “O cidadão entende que há uma crise, que algumas instituições estão com um debate mais acalorado, mas fazer exatamente a distinção entre o Supremo Tribunal Federal ou a Procuradoria Geral da República é complicado. O que acaba afetando todas as instituições estatais, ou seja, aquelas que organizam a forma de política do Brasil”, explica.

Ainda no programa, Antonio Lavareda analisa pesquisa do Datafolha, realizada em junho passado, onde mostra que 83% dos brasileiros confiam nas Forças Armadas. Em segundo lugar, no grau de confiança nas Instituições brasileiras, aparece o Poder Judiciário com 73% e em terceiro, o Ministério Público/Imprensa com 71%.

Outro ponto analisado foi a respeito da confiabilidade no Governo Federal, que a partir de 2013 começou a apresentar uma queda, logo após as manifestações. “Mas a partir de 2015 que esse cenário piorou muito e houve uma enorme queda, que até hoje não foi revertida. Verberando também nas demais instituições brasileiras”, enfatizou Gross.

Assista na íntegra:

 

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Economista acredita na recuperação da economia

Sentença de Lula foi tímida e refletiu cautela, diz cientista política

Por Rodrigo Carro, Lígia Guimarães e Rafael Rosas (Valor Econômico) – 12/07/2017

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal, em Curitiba, foi “tímida”, refletindo até uma certa cautela com relação às possíveis reações que uma sentença mais dura poderia provocar, acredita a cientista política Céli Pinto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “A condenação foi menos forte do que se imaginava”, resume a professora. Na avaliação de Céli, a sentença teve um aspecto político. “Não no sentido político-partidário, mas no sentido de pensar as consequências do ato jurídico num momento crítico da vida política do país”, ressalta a professora do programa de pós-graduação em história da UFRGS. Dentro dessa lógica, a condenação funciona como uma espécie de “balão de ensaio”.

“É difícil aquilatar qual seria a reação nacional e internacional a uma sentença pesada contra Lula. Talvez uma sentença de 20 anos com prisão imediata poderia levar a protestos nas ruas”, diz a cientista política. Céli lembra que, como aconteceu com o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, Moro poderia já ter determinado a prisão de Lula.

Na opinião do cientista político Antonio Lavareda, a condenação de Lula poderá ter efeito “dissuasório” sobre os potenciais eleitores do ex-presidente, que poderão repensar o voto diante da incerteza sobre o futuro do do político. "Vamos ver nas próximas pesquisas qual será a dimensão desse ‘prejuízo’ nas intenções de voto”, afirma o cientista, que destaca que a condenação do ex-presidente já era prevista no cenário político." Ele acredita que nenhum analista, observador imaginava que Moro absolveria o ex-presidente. "O que não se sabia eram as características da pena", diz. Lavareda afirma ainda que o processo até que seja anunciada a decisão em segunda instância é demorado. “Agora resta ver o que se dará na segunda instância, porque aí sim ele ficará inelegível e, com isso, sim, mudaria o cenário eleitoral para 2018.”

A condenação também representa mais um percalço para a esquerda brasileira, que precisará conciliar a campanha pela eleição de Lula com a articulação de possíveis “planos B” para a presidência, destaca. “O comportamento da esquerda vai ser, publicamente, defender o presidente Lula, óbvio. Agora, ao mesmo tempo, a divulgação da sentença levará parte da esquerda a começar cogitar com mais força projetos alternativos ao da candidatura de Lula”, analisa Lavareda.

O cientista político destaca entre as principais alternativas as candidaturas de nomes de dentro do PT e de fora do partido, como o de Ciro Gomes, do PDT. “A candidatura de Ciro Gomes, por exemplo, poderá ganhar gás nesse processo.” 
 

Para o professor titular da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ebape), Carlos Pereira, a condenação é um “sinal inequívoco” de que a democracia no Brasil é madura a ponto de não haver risco de quebra institucional. Além disso, representa uma oportunidade para o PT “se redefinir e se reencontrar com suas origens”. 

Segundo ele, a decisão de hoje significa o coroamento das instituições de controle no pós-Constituição de 1988. Pereira ressalta que o presidencialismo desenhado pela Constituição trazia o risco de que o presidente governasse de forma “desviante”. Para evitar essa possibilidade, a Carta, na visão de Pereira, delegou poderes amplos para o Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal.

O professor do FGV destaca que a vitimização é o único argumento que restou aos simpatizantes do ex-presidente. Pereira alega que a Lava-Jato “já deu vários exemplos de que, independentemente do partido, os políticos estão tendo que se explicar na Justiça”. Esse comportamento da Justiça, na visão de Pereira, tem levado diversos políticos investigados a tentar fragilizar a operação. O professor ressalta que, embora Lula ainda seja a alternativa mais viável para o partido nas eleições do ano que vem, uma condenação do ex-presidente em segunda instância pode ajudar o PT a encontrar uma alternativa eleitoral. “A alternância de poder é fundamental e, para isso, é necessário um partido de esquerda viável. E isso vai depender da capacidade do PT de se reinventar”, frisa.

Pereira evitou um prognóstico sobre a decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que será o responsável por julgar o presidente na segunda instância. “É bom que não haja certeza [da decisão em segunda instância]. É oportunidade para que o réu tenha chances reais de se defender e é importante ver o ex-presidente sendo julgado de forma legítima”, diz.

 

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