Eleição entra julho com incerteza alta

Por Liliana Lavoratti  (Jornal DCI – 03/07/2018)

Partidos intensificam negociações para definir candidatos e coligações a partir de 20 deste mês

Fernando Haddad, provável candidato do PT, deve ser favorecido pela ajuda do lulismo

Fernando Haddad, provável candidato do PT, deve ser favorecido pela ajuda do lulismo (Foto: Estadão Conteúdo)

A corrida presidencial entra em julho – pouco mais de três meses da votação nas urnas – com elevado grau de imprevisibilidade, alta pulverização de candidatos – cinco nomes mais competitivos – indefinição em torno das coligações que vão determinar estrutura partidária e tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. O prazo para as legendas definirem seus candidatos e alianças, no entanto, começa a ficar mais curto. A legislação eleitoral vigente prevê que de 20 deste mês a cinco de agosto, os partidos devem realizar suas convenções e decidir os nomes das chapas com as quais vão concorrer, bem como por quem serão apoiados.

Jogo para valer em 16 de agosto

Na fase seguinte, de 6 a 15 de agosto, os partidos registrarão as chapas que disputarão os votos no primeiro turno, em 7 de outubro, e 28 de outubro, segundo turno, se houver. “O jogo começará para valer a partir de 16 de agosto, com a campanha eleitoral. Até lá, deve haver poucas oscilações nas pesquisas de intenção de voto”, afirmam analistas da consultoria Arko Advice. Segundo o cientista político Antonio Lavareda, as pesquisas poderão ser levadas a sério depois de uma semana, mais ou menos, do início da propaganda eleitoral, que terá a largada em 31 de agosto.

Força dos palanques e tempo na TV

Os nomes mais competitivos são os do ex-presidente Lula (PT), de Jair Bolsonaro (PSL), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (REDE), Geraldo Alckmin (PSDB). Na confirmação da impossibilidade de Lula concorrer, o que é bem provável, o quinto colocado seria Fernando Haddad, cogitado para substituir o ex-presidente na candidatura do PT. “Como nas eleições deste ano não haverá financiamento empresarial de campanha, a estrutura partidária, os palanques estaduais, o tempo de TV e o controle da máquina administrativa terão um peso maior que o habitual”, prevê a Arko.

Maior potencial de crescimento

Ou seja, quem dispuser desses recursos sairá na frente para alcançar uma boa posição no pleito que já mostrou ser o mais disputado desde 1989. É o caso de Ciro, Alckmin e Haddad, que segundo a Arko, têm bom espaço de crescimento. “Além do avanço do PDT nas últimas eleições municipais, Ciro tem boa base eleitoral no segundo maior colégio eleitoral do Nordeste, o Ceará”, comentam os analistas políticos. No entanto, relativizam os analistas da consultoria baseada em Brasília, os detentores dessas armas não necessariamente serão os vencedores.

Haddad pode sonhar com segundo turno

O potencial de Alckmin (com cerca de 10%) está na estrutura do PSDB em todo o País, e ter sido governador duas vezes em São Paulo, maior colégio eleitoral do País. Haddad (em torno de 2%) conta com a força do lulismo. “O apoio de Lula levaria 30% do eleitorado a votar ‘com certeza’ no candidato apoiado pelo ex-presidente. Isto é, há espaço para Haddad sonhar com o segundo turno”, avalia a Arko. Bolsonaro e Marina, que lideram em cenário sem Lula, estão no caminho inverso: carecem de estrutura partidária, de palanques e de tempo de propaganda gratuita.

Hub para a Indústria 4.0

Marcos Jorge de Lima, ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, e Daniel Feffer, presidente da Câmara de Comércio Internacional (ICC Brasil), lançam amanhã (4), o Hub i4.0, uma plataforma dedicada a conteúdos e tecnologias disponíveis para auxiliar as empresas brasileiras em suas jornadas rumo à Indústria 4.0. A cerimônia acontece na sede da ICC Brasil, em São Paulo, e terá a participação de representantes da Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT), além de CEOs e diretores das empresas-membro da Aliança Brasil 4.0, um compromisso público lançado neste ano pela democratização dessas tecnologias no país.

Nas pistas de Interlagos

Super Racing Club, homologado pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), realiza a segunda edição em Interlagos, na capital paulista, de 6 a 8 deste mês. Participam do evento sócios do clube, que pagam uma mensalidade para acelerar diferentes carros de corrida profissionais, em várias pistas do autódromo. Nesta edição, também serão abertas vagas para convidados conhecerem a rotina e sonharem em ser piloto de corrida por um dia, sentindo as emoções de fazer o "S" do Senna, entre outras estripulias em alta velocidade. Na sexta (6), haverá transmissão do jogo Brasil, a primeira vez que acontece a sinergia entre a Copa e um evento de pilotagem em Interlagos, no lounge VIP, que conta com estrutura com telão.

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O repórter Marcos Mortari, do Portal InfoMoney, traz dados de pesquisa realizada entre 25 e 27 de junho de 2018 pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas, encomendada pela XP Investimentos. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (29). 

Confira a matéria exclusiva no site da Infomoney:

https://www.infomoney.com.br/mercados/politica/noticia/7497610/apoiam-prisao-domiciliar-lula-marina-silva-lidera-como-plano-dos

 

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Sentimentos do eleitor ‘moldam’ pré-candidatos e discurso pode absorver ‘raiva’

Por  Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo (24/06/2018)

Nem sempre as declarações enviesadas, a impaciência com o contraditório e o tom excessivamente bélico devem ser atribuídos a um descontrole ocasional ou a um mero traço de personalidade. Quando um pré-candidato à Presidência da República deixa transparecer sua raiva em público isso também pode ser pura estratégia.


A explicação para o comportamento tenso e até prematuramente agressivo de alguns postulantes ao Planalto pode estar na percepção do (mau) humor do eleitor. Um levantamento do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), realizado em março, ouviu 1.200 eleitores sobre os sentimentos em relação às eleições de outubro. Nesta amostragem, 83% dos pesquisados declararam ter emoções negativas; enquanto apenas 14% estariam imbuídos de sentimentos positivos. Os outros 3% não quiseram ou não souberam responder. Os sentimentos negativos estão divididos em “preocupação” (33%), “indignação ou raiva” (27%); “tristeza” (12%) e “medo” (11%). Entre os sentimentos positivos, aparecem: “esperança” (12%), “orgulho” (1%) e “alegria” (1%). A opção “entusiasmo” não atingiu 1% das menções.


O cientista político e coordenador da pesquisa do Ipespe, Antonio Lavareda, afirmou que “o voto não é apenas uma opção racional” e que “o modelo de inteligência afetiva é um dado importante para as campanhas”. O problema, segundo ele, é a forma como os pré-candidatos estão trabalhando com a negatividade do eleitor. “É um erro dos candidatos incorporarem a raiva ou o medo do eleitor. O que eles precisam fazer é administrar e equalizar esses sentimentos e, principalmente, oferecer respostas para essa indignação do eleitor”, disse. A tentação de encarnar a raiva aumenta quando um dos pré- candidatos mais bem colocados nas pesquisas é o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ) – que traz em seu discurso elementos do “contra tudo o que está aí” e um tom mais contundente. “Mas é um erro um candidato que não tem um perfil agressivo tentar passar essa imagem. O candidato não age com naturalidade, vai contra sua própria natureza, e o eleitor percebe que aquilo é teatro.”


Cientistas políticos e profissionais do marketing ouvidos pela reportagem afirmaram que pré-candidatos como Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede) não ganhariam pontos com explosões de raiva e indignação – porque essas reações não seriam da natureza deles. Já Ciro Gomes (PDT) e o próprio Bolsonaro já possuem esse tipo de reação em seus respectivos “vocabulários” – e não causam estranhamento ao agir assim.

O marqueteiro do presidente Michel Temer, Elsinho Mouco, admite que “os sentimentos prevalecentes na população são os mais negativos”. “Sem administrar o medo do eleitor, sem resgatar a esperança nessas pessoas, não há como ter sucesso na eleição”, disse. Mouco completou dizendo que “o voto é retrospectivo”. Segundo ele, “as pessoas imaginam sua vida no futuro por aquilo que aconteceu no passado”. “Resgatar o estado de espírito da sociedade é o desafio.” Efeito ‘meu nome é Enéas’ ressurge, afirma especialista “Meu nome é Enéas!” foi a frase que traduziu os sentimentos de preocupação, indignação e raiva nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998. Segundo o especialista em marketing político Carlos Manhanelli, o mote de Enéas Carneiro (1938-2007) teria sido o catalisador das emoções negativas durante pleitos passados. “Era algo tão forte que as pessoas começaram a adotar no seu cotidiano, quando diziam alguma coisa mais dura e completavam afirmando ‘meu nome é Enéas’”, lembrou. “Era quase um desabafo, um anseio.”

Para Manhanelli, o efeito “meu nome é Enéas” aparece nessas eleições em diversas formas e candidaturas. “O ambiente político está contaminado por essa indignação, mas ela, sozinha, não ganha eleição. O que vai fazer diferença são os projetos, os programas de governo. Esses elementos ainda não apareceram nessa campanha. Por enquanto, está tudo na base das alfinetadas entre os pré-candidatos”, disse.

Para o consultor e estrategista político Felipe Soutello, o vencedor da próxima corrida presidencial será aquele que conseguir “transpassar” esses sentimentos negativos. Na opinião dele, esses sentimentos ainda são oriundos das jornadas de junho de 2013. “Desde aquele período, a bússola da política ficou desorientada. As pessoas estão enxergando que o sistema está carcomido por dentro. Então, não é exagero nenhum dizer que todo mundo está um pouco perdido.”

Por conta do ambiente conturbado, Soutello acredita que o eleitor pode buscar um antídoto para esse estado de ânimo em opções mais tradicionais. “A gente ainda está tateando o terreno eleitoral deste ano, mas penso que o eleitor vai buscar alguém que venha de uma composição política mais tradicional e tenha um discurso mais tradicional de centro.”

O vazio. A frustração com a política está na origem da indignação, da raiva e do medo captados pelo levantamento do Ipespe. Essa é a opinião do psicanalista Jorge Broide. “O perigo disso é o eleitor procurar exatamente aquele candidato que prometa ‘tapar o vazio que estamos sentindo’. Não tem que ser assim.” Para Broide, o destempero de alguns candidatos durante o período pré-eleitoral está na confusão que existe entre “autoridade” e “autoritarismo”. “A autoridade é algo bom. Alguém que é uma autoridade em algo é alguém com muito conhecimento e capacidade. Já o autoritário é um tirano, alguém que não respeita o outro.”

O psicólogo Nelson Destro Fragoso disse que é preciso saber ouvir e respeitar o sentimento da sociedade nessa eleição. “O sentimento é de ‘basta’. O candidato que se associar a isso vai ter chances de vencer as eleições de outubro.”

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Militares tentam as urnas

Por Mônica Gigliano – Valor Econômico (22/06/2018)

Trinta e três anos depois de o último presidente-general, João Baptista Figueiredo (1919-1999), sair do Palácio do Planalto pela porta dos fundos pedindo que o esquecessem e se recusando a passar a faixa a José Sarney, seu sucessor civil, os militares ganharam nova influência e passaram a navegar por uma onda de popularidade. Uma pesquisa de opinião encomendada pelo Exército Brasileiro e apresentada ao Alto Comando, em abril, captou o fenômeno: 80,6% dos entrevistados disseram confiar na instituição e consideraram os integrantes das Forças Armadas os cidadãos mais capacitados para combater a corrupção e a violência, duas das maiores mazelas nacionais. É nesse ambiente que surgem mais de 80 pré-candidaturas de militares na reserva, que se organizam para disputar as eleições majoritárias e proporcionais em outubro, contra menos de 50 candidaturas em 2014. Outra diferença neste ano está na graduação, mais alta. São generais, majores, capitães, entre outros, que pretendem entrar para a vida na política. "A conjuntura abriu espaço para esses militares. Qual vai ser a ocupação desse espaço, ainda é muito cedo para saber. Mas é evidente que, neste momento, a sociedade os vê como uma tábua de salvação", afirma o sociólogo Antonio Lavareda.


A última pesquisa Datafolha sinaliza, ainda que com números bem diferentes, uma convergência para o levantamento feito para o Exército. As Forças Armadas são a instituição em que a população deposita mais confiança, embora o índice tenha apresentado uma queda de cinco pontos percentuais entre as duas últimas sondagens do instituto. Em abril era de 43% e, agora, está em 37%. Em contrapartida, os índices mais altos de desaprovação e desconfiança continuam com os partidos políticos (68%), o Congresso (67%) e a Presidência (64%). O presidente Michel Temer (MDB) ostenta 82% de desaprovação popular e atinge o patamar mais baixo para um chefe da nação, desde a redemocratização.

"A influência dos militares diminuiu consideravelmente no período democrático e ela está sendo recuperada agora", diz o historiador Sergio Murillo Pinto, autor de "Exército e Política no Brasil – Origem e Transformação das Intervenções Militares (1831-1937)", da Editora FGV.

Pesquisadores e acadêmicos ligados à defesa dos direitos humanos e a setores sociais mais progressistas veem com ressalvas o pensamento conservador de boa parte desses postulantes. "Não vejo com simpatia essas candidaturas. Os problemas do Brasil são de natureza civil e creio que a formação militar, que se baseia na hierarquia, na rigidez moral, dificulta a ação dessas pessoas", diz Sérgio Adorno, coordenador científico do Núcleo de Estudos da Violência da USP. "A história do regime militar durante os anos de ditadura não é de boa memória."


O cenário tem mexido no xadrez das campanhas. O general João Camilo Pires de Campos, ex-comandante militar do Sudeste, por exemplo, entrou para o programa presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB) para fazer a parte de Segurança Pública. Ele se soma ao coronel da reserva da PM de São Paulo José Vicente da Silva, que foi secretário Nacional de Segurança Pública no governo de Fernando Henrique Cardoso. Analistas de opinião viram nos convites do tucano uma tentativa de agradar ao eleitorado que apoia a candidatura do deputado federal e ex-militar Jair Bolsonaro (PSL). Enquanto Alckmin patina nos 7%, Bolsonaro mantém a liderança da corrida presidencial, com 19% das preferências, nos cenários em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está ausente.


"Bolsonaro pode ter começado a crescer com o apoio dos militares. Ele abriu um caminho que está sendo trilhado por companheiros militares. Mas, hoje, sua base transcende, e muito, a corporação", diz o deputado Onix Lorenzoni (DEM-RS), que atua como um dos coordenadores da campanha do pré-candidato. O cientista político José Álvaro Moisés, professor da USP, vê nas candidaturas de Bolsonaro e de outros militares os reflexos de um governo federal que está se "esfarinhando". "Bolsonaro é um político que um dia foi capitão do Exército. Aproveita-se dessa situação toda, mas é um político conservador, reacionário e autoritário, cujos defeitos são maiores que suas qualidades. Está fora do seu tempo. Não é um político do século XXI", afirma.


Para Lorenzoni, Bolsonaro é um político com "raras qualidades" e, até agora, o "único em condições de fazer frente ao PT e essa tirania do politicamente correto". No entanto, sua trajetória militar associada à conjuntura desfavorável aos políticos tradicionais são vistas como polo de atração para candidaturas com as mesmas raízes. Entre os postulantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, mais de 50 devem concorrer pelo mesmo partido dele, o PSL.


As demais legendas que têm sido procuradas são PSDB, PSC, PR, PEN, PRP, PRTB, Novo, Patriotas, DEM, PHS, PROS, PTB e PSD. Até o momento, apenas o Acre não tem representante no grupo. "O crescimento da preferência por Bolsonaro foi decisivo para que eu resolvesse me candidatar novamente", diz Sergio Roberto Peternelli, general da reserva que vai disputar uma vaga de deputado federal pelo PSL. "Não vejo nenhum mal nas candidaturas de militares. Pelo contrário, e talvez eu seja criticado por isso, mas acho que essas candidaturas são tranquilizadoras. São um sinal de incorporação à vida democrática. O que é preciso deixar sempre claro é que não
são candidatos das Forças Armadas", observa Moisés.

Desde que as candidaturas de militares começaram a ganhar espaço, Peternelli, de 63 anos, casado e morador de São Paulo, tornou-se uma espécie de organizador informal do grupo. É ele quem contabiliza a chegada dos novos pré-candidatos, faz contatos e estimula a adesão a bandeiras comuns, como a defesa da propriedade privada, as reformas constitucionais e o combate à corrupção. Para senador, Peternelli vai apoiar o deputado Major Olímpio (PSL-SP) e aguardará por uma decisão do partido sobre a candidatura a governador do Estado.

Sem recursos para financiar as campanhas, o general da reserva tem estimulado o uso de "crowdfunding" e de doações privadas. "O momento favorece nossas candidaturas. A população acredita em nossa formação e na correção de nosso caráter", afirma Peternelli.


Mais do que acreditar na capacidade dos militares, Marieta de Moraes Ferreira, doutora pela Universidade Federal Fluminense (UFF), observa que momentos específicos da história reúnem as condições que favorecem essa categoria de postulantes. "As candidaturas de militares no Brasil têm sempre muita relação com crises, com a desorganização da sociedade civil, dos partidos e até das instituições", diz Marieta, que também é diretora-executiva da Editora FGV.


É quase um consenso entre historiadores e cientistas sociais que a atual instabilidade político-econômica do país é um terreno fértil para o crescimento da influência militar. "Eles são uma instituição cujos integrantes são vistos como pessoas abnegadas e voltadas para o bem da pátria. Ninguém lembraria de chamar os militares para o jogo político se tudo estivesse bem. Mas nada está bem", afirma Lavareda. "O problema é que esse militar, quando se torna candidato, se iguala aos outros. Ninguém sabe o que pode acontecer nessa trajetória em que ele corre o risco de terminar com a farda desbotada."

Há menos de um mês, durante um almoço de militares da reserva em Porto Alegre, o general Hamilton Mourão, que já chefiou o Comando Militar Sul (CMS), disse: "Não vejo que a solução para o país seja aquela intervenção militar clássica de afastar todos do poder, e a partir daí as Forças Armadas tomarem conta do país. O país não tem que ser tutelado pelas Forças Armadas. O que as Forças Armadas têm que fazer é impedir
que ocorra o caos". Mourão se filiou ao PRTB e pode ser o vice na chapa de Bolsonaro. Ele ficou conhecido nacionalmente por suas duras e ameaçadoras declarações a favor da intervenção das Forças Armadas. No entanto, tem buscado abrandar suas declarações. Às vésperas de tomar posse como presidente do Clube Militar, dedica boa parte de sua agenda a divulgar as candidaturas de militares.


"Faço isso porque sei que são pessoas com valores e princípios. É gente que conhece os problemas brasileiros e vai estar lá representando uma parcela significativa da população em condição de participar desse processo de reforma e refundação do nosso país, que é mais do que necessário", diz. Além de o Brasil passar por um período já relativamente longo de instabilidade política e social, agravada por episódios pontuais como a greve dos caminhoneiros que parou o país, Lavareda argumenta que a fragilidade de Temer estimula o uso e a visibilidade das Forças Armadas. "É natural que Temer se ampare neles. Não que ele goste, mas não tem outra saída", diz ele.

Entre 2010 e 2017, a medida que permite as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) foi acionada 29 vezes. Desse total, segundo o Exército Brasileiro, dez ocorreram no governo Temer. A GLO é usada nos casos em que há o esgotamento das forças tradicionais de segurança pública, em graves situações de perturbação da ordem. Reguladas pela Constituição em seu artigo 142, pela Lei Complementar 97, de 1999, e pelo Decreto 3897, de 2001, as operações de GLO concedem provisoriamente aos militares a faculdade de atuar com poder de polícia até o restabelecimento da normalidade.


Temer teve de escolher entre tentar votar a reforma da Previdência – já com chances reduzidas de ser aprovada – e conter a situação da segurança no Rio de Janeiro. Optou pela segurança e decretou intervenção no Estado governado por Luiz Fernando Pezão (MDB), criando um poder paralelo entregue ao interventor, general de Exército Walter Souza Braga Netto.

"É muito provável que a visibilidade dos militares nessas operações de segurança, de combate ao crime organizado, sejam os grandes apelos dessas candidaturas", afirma o ministro da Defesa, general do Exército na reserva Joaquim Silva e Luna, o primeiro militar a assumir o comando da pasta desde 1999, quando ela foi criada no governo de Fernando Henrique Cardoso.


Divulgado há poucos dias, o "Atlas da Violência de 2018", produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dá uma dimensão do tamanho desse apelo. Em 2016, os 62.517 assassinatos cometidos no país, pela primeira vez na história, superaram a casa dos 60 mil em um ano. "A população tem o direito de querer que resolvam esse e os demais problemas. Mas é só mostrar o resultado dessas intervenções que fica claro que o crime organizado não se desmonta com tanques", diz Paulo Sérgio Pinheiro, ministro de Direitos Humanos no governo Fernando Henrique.

Em sua opinião, uma parte da responsabilidade pelo pensamento de que militares podem resolver os complexos problemas brasileiros é do governo federal. "As concessões que Temer vem fazendo ao Poder Militar significam um extraordinário retrocesso", diz Pinheiro, que se refere à lei que tirou da Justiça Civil e passou para a Militar a responsabilidade de julgar homicídios cometidos por membros das Forças Armadas nas operações de GLO. "Inverteu a ordem e criou a submissão aos militares".


"A incompetência, a conivência e a irresponsabilidade dos órgãos de segurança nos levaram a esta situação", afirma o general de Exército da reserva Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, candidato pelo PSDB ao governo estadual. De acordo com dados do Sistema Nacional de Segurança (SNC), o Ceará registrou 5.134 assassinatos, em 2017, e se tornou a 7a região metropolitana mais violenta do mundo, segundo o ranking da ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal. "Vamos tirar o oxigênio do crime, que é a droga", diz o general.


Sua candidatura nasceu pelas mãos do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), ex- presidente do partido, e por uma indicação de outro tucano, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, que o conheceu quando ele foi o comandante militar da Amazônia. "Convivi com ambos. Mas confesso que fiquei surpreso, em um primeiro momento, com a ideia. Depois, conversei com minha família, eles concordaram e eu aceitei. Acho que, de certa maneira, devo isso ao meu Estado e ao país que custeou minha formação", diz.


A transição entre a vida militar e a política não tem sido fácil. Em pouco mais de um mês de pré-campanha, afirma que se sente pouco à vontade e não vê muita utilidade nas caminhadas e eventos similares. "Não é do meu temperamento e, em alguns momentos, me sinto até meio ridículo", afirma.


Em sua opinião, essas caminhadas não seriam necessárias se a política fosse levada mais a sério no Brasil. "Isso é artificial. Você sai por aí, apertando a mão, prometendo mundos e fundos e depois desaparece. Não gosto disso", afirma. Mesmo não gostando, ele tem visitado e andando pelas ruas das cidades no Estado e sabe que não será fácil derrotar a coligação com mais de 20 partidos que ampara seu adversário Camilo Santana (PT), que tem o apoio de Cid Gomes e do irmão, Ciro, pré-candidato à Presidência da República pelo PDT.


No Distrito Federal, o general de divisão da reserva Paulo Chagas anunciou sua candidatura ao governo pelo PRP. No Rio Grande do Norte, o general Eliéser Girão Monteiro, ainda decide entre o governo ou uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PRP. Desde que a eleição indireta de Tancredo Neves (1910-1985) pelo Colégio Eleitoral encerrou o ciclo de generais-presidentes que comandaram o país com o golpe militar de 1964, não se via um fenômeno igual no Brasil. E não foram apenas as circunstâncias desse momento ou mesmo a corrupção na política que abriram esse espaço aos militares. A própria evolução das Forças Armadas permitiu essas candidaturas. "Hoje os militares têm consenso de que não há via pelo autoritarismo para resolver os problemas do Brasil. Com exceções, como em
todos os grupos, ninguém cogita ou quer assumir o poder", diz um oficial com assento no Alto Comando das Forças Armadas.


Além de afirmarem que não há espaço para o autoritarismo, muitos desses oficiais da ativa ponderam que, neste momento, sequer haveria um candidato. Isso porque, apesar da popularidade e da simpatia pública, a candidatura de Bolsonaro está longe de ser uma unanimidade. O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, segundo pessoas próximas, tem aceitado a candidatura, ainda que sem grande
entusiasmo, porque não há outros nomes para substituí-lo.

Mesmo assim, Villas Bôas, ativo usuário das mídias sociais – pelas quais costuma transmitir sua opinião -, não pretende deixar a corporação alheia à disputa eleitoral. Anunciou que enviará documento com sugestões para a segurança pública e convidou todos os candidatos que quiserem a discutir suas ideias com os oficiais. A participação de militares na política brasileira é tão antiga quanto a República, proclamada em 1889 pelo marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), quando ele assumiu a chefia do governo provisório. Driblando a primeira constituição republicana que estabelecia eleição direta, Deodoro foi escolhido pelo Congresso

Nacional, tendo como vice Floriano Peixoto (1839-1895), também militar, e que viria a substituir o presidente em 1891. O exemplo clássico foi em 1945, quando, após o golpe militar que depôs o então presidente Getúlio Vargas (1882-1954), dois dos quatro candidatos que disputaram a eleição presidencial eram militares – o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN) e o general Eurico Dutra (PSD), que venceu o pleito. "Os militares nunca deixaram de estar presentes na vida política nacional, seja pelo voto, seja pela ditadura, como em 64. O período mais longo que o Brasil vive sem a influência dos militares é o da redemocratização, que começou em 1985 e segue até hoje", afirma Marieta.


A diferença entre o passado e o presente está no fato de que, segundo os pesquisadores, não há lideranças militares como já houve antigamente. Isso se deve à última ditadura militar. Os comandantes do regime militar, assim como podaram os direitos dos civis, também trataram de garantir sua permanência evitando o risco de um contragolpe.


Foi o marechal Castelo Branco (1900-1967), o primeiro presidente da ditadura, quem providenciou uma reforma nas Forças Armadas, criando a chamada expulsória: a
partir dos 70 anos, os militares passam à reserva automaticamente, nenhum oficial pode ser general por mais de 12 anos, e anualmente um quarto desses quadros devem
ser renovados.

"A atividade militar no Brasil se confunde com a própria nacionalidade. Talvez esteja chamando atenção o envolvimento de militares na política partidária. Mas Forças Armadas são parte da política. O Exército é um dos instrumentos da política, sem ser partidário", diz Muniz Costa. Em sua opinião, a população vê nos militares, neste momento, um reflexo dela mesma: cidadãos que pagam impostos e pouco ou nada recebem em troca.

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Por Mariana Schreiber – BBC Brasil (22/06/18)


A menos de quatro meses da disputa presidencial, um terço do eleitorado brasileiro não tem candidato. A atual rejeição aos nomes que tentam consolidar sua candidatura, porém, não é uniforme: a indefinição do voto feminino hoje é muito superior a do masculino, indicando que a escolha delas terá um peso importante para definir o quadro eleitoral daqui para frente.

As mulheres representam 52% do eleitorado brasileiro, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). E a incerteza delas se intensifica ainda mais com a saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) da disputa, cenário hoje mais provável devido à sua condenação em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Segundo a última pesquisa do Instituto Datafolha, se a eleição presidencial tivesse ocorrido no início de junho com outro petista na disputa (Fernando Haddad ou Jaques Wagner), 41% das eleitoras brasileiras não teriam escolhido qualquer candidato. Essa é a soma das que responderam que não sabiam ainda em quem votar ou que votariam em branco ou nulo. Já no caso dos homens, esse percentual cai para 25%.


Quatro anos atrás, em junho de 2014, quando Dilma Rousseff (PT) concorria à reeleição contra Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), a indefinição entre os homens era parecida (24%), mas entre as mulheres menor do que agora (34%). Cruzamentos das respostas de intenção voto disponibilizados pelo Datafolha a pedido da BBC News Brasil mostram que o percentual de indecisão das eleitoras é ainda maior entre as de menor renda (45% das que ganham até dois salário mínimos) e supera metade do eleitorado feminino no Nordeste (52% das moradoras daquele região estão sem candidato).

Em meio a essa indefinição, o deputado Jair Bolsonaro (PSL) desponta como líder nas pesquisas com até 19% de intenção de voto, apoiado principalmente pelo eleitorado masculino, seguido dos outros pré-candidatos Marina Silva (Rede, com até 15%), Ciro Gomes (PDT, até 11%) e Geraldo Alckmin (PSDB, máximo de 7%). Se considerado apenas o eleitorado feminino, a líder é Marina, com 17%, contra 12% de Bolsonaro, aponta o Datafolha –entre os homens, a situação se inverte, com os dois recebendo 12% e 26%, respectivamente. Quando analisada a renda, a ex- senadora é líder apenas entre as pessoas com até dois salários mínimos, enquanto o deputado aparece na ponta em todas as outras faixas. O mesmo acontece regionalmente: ela está à frente no Nordeste, e ele, em todas as outras regiões.

Diante do alto número de indecisas, o candidato que conseguir atrair o eleitorado feminino de menor renda, em boa parte órfão de Lula, terá mais chances de passar ao segundo turno, afirma Rafael Cortez, cientista político da consultoria Tendências. "A definição do cenário deve vir mais da redução dos indecisos do que da mudança de quem já escolheu um candidato. Nesse sentido, a mulher da baixa renda do Nordeste
é o primeiro eleitor que pode mudar a cara da campanha", avalia Cortez.

"Difícil saber como o eleitorado feminino vai se comportar, mas sem dúvida elas vão ser importantes para definir (a eleição) porque os votos brancos e nulos vão ser disputados a tapa", acredita também a cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, que estuda o eleitor de Bolsonaro ao lado da antropóloga Lúcia Scalco.

POR QUE MUITAS DELAS NÃO TÊM CANDIDATO?


O cientista político Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ressalta que programas sociais importantes criados no governo Lula são focados nas mulheres chefes de família – elas que em geral recebem o benefício do Bolsa Família ou ficam com a escritura do imóvel no Minha Casa, Minha Vida.

Na sua opinião, isso ajuda a explicar porque muitas gostariam de votar nele e ficam indecisas com sua retirada da disputa. "Quanto a Bolsonaro, posturas francamente misóginas do candidato colidem com a aspiração das mulheres de reconhecimento e, ainda mais, de empoderamento. Vai ser difícil para ele diminuir o gap (buraco) de gênero revelado nas suas intenções de voto", opina ele.

Mas embora o índice de mulheres sem candidato recue para 26% no cenário do Datafolha em que Lula é apresentado na disputa, a taxa continua superior à dos homens (15%). Para analistas ouvidas pela BBC News Brasil, a indefinição maior das eleitoras nos diversos cenários se explica pela exclusão das mulheres da política. Hoje elas somam apenas um décimo dos parlamentares no Congresso Nacional, e são só duas dos 27 governadores do país –Cida Boghetti (PP), no Paraná, e Suely Campos (PP), em Roraima.


Pinheiro-Machado, que pesquisa há um década a relação dos jovens com a política, conta que, ao fazer entrevistas no último ano em escolas de periferia no Paraná, tem observado um desinteresse das garotas em discutir os candidatos, enquanto os rapazes costumam mostrar um conhecimento sobre Lula e uma simpatia por Bolsonaro –atraídos por sua imagem de masculinidade, associada a temas como a defesa da posse de armas.


"É bastante natural que as mulheres tenham um ressentimento porque a política brasileira é muito patriarcal. O brasileiro médio não se vê representado pelas estruturas de poder político, e a mulher muito menos ainda", concorda a cientista política Esther Solano, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Para Malu Gatto, professora de política latino-americana na Universidade College London, na Inglaterra, o contexto político conturbado do país hoje ajuda a explicar porque a indefinição neste ano é ainda maior do que na eleição passada. Como as candidaturas ainda não estão fechadas e os presidenciáveis ainda não estão em campanha, o eleitorado não tem informação suficiente para definir o voto, observa.

Além disso, é evidente uma alta da desconfiança na política após sucessivos escândalos de corrupção e uma troca de governo –a entrada de Michel Temer (PMDB) no lugar de Dilma– que não devolveu o otimismo aos brasileiros. A pesquisa do Datafolha mostra que o aumento de eleitoras sem candidato agora em comparação com junho de 2014 se deve ao forte crescimento das que pensam em votar nulo ou branco (de 18% para 33%). As que respondem não saber em quem votar, por sua vez, votar caiu no período (de 16% para 8%).

"Estudos da psicologia comportamental mostram que mulheres tendem a tomar menos riscos. Então essa falta de informação sobre os candidatos, combinada a um contexto de grande desconfiança na classe política, pode estar levando as mulheres a estarem menos dispostas a declarar voto a um candidato especifico tão cedo", ressalta Gatto.

CLAREZA NAS PROPOSTAS


A BBC News Brasil conversou com três mulheres nordestinas sobre sua indecisão para o pleito presidencial –todas afirmaram que ainda esperam o quadro de candidatos se definir melhor para pesquisar sobre eles e decidir seu voto. Além da indefinição, outro fator que une as três é uma rejeição a Bolsonaro. Os números do Datafolha mostram que o deputado tem apenas 4% de intenção de voto entre as nordestinas, enquanto entre os homens da região o índice chega a 19%.

"Tenho um grupo de WhatsApp com parte da família apenas para discussão de política. São quatro mulheres e cerca de quinze homens, a maioria deles vota no Bolsonaro", diz Priscila de Araújo Barbosa, 34 anos, assistente administrativa no Recife.


Antiga eleitora do Lula, ela diz, por outro lado, que também não teria intenção de votar nele dessa vez porque acredita ser momento de renovação. Para definir seu voto, está em busca de honestidade sobre a realidade do país e clareza nas propostas. "O principal é ser extremamente honesto, que diga: 'a situação real da economia é essa, da política é essa, vamos trabalhar em cima disso'. Acho que acaba sendo uma utopia", afirma, desanimada, mas ressaltando que não quer "desperdiçar o direito ao voto" optando pelo branco ou nulo.

Já Elaine Cristina Gurgel, de 39 anos, professora e gestora de uma escola municipal em Janduís, no oeste do Rio Grande do Norte, faz parte da maioria de nordestinas que gostaria de votar em Lula – o petista aparece com 52% de intenção de voto entre as mulheres da região.


Ela acredita que a condenação do ex-presidente é fruto de perseguição política e atribui a ele a melhoria nas condições de vida dos mais pobres. Ainda assim, decepcionada com Dilma, Gurgel diz que não sabe se votará de novo em um candidato apoiado por Lula e cogita anular seu voto pela primeira vez. "A Dilma não atingiu as expectativas que esperávamos. Eu tenho medo que aconteça a mesma coisa ou até pior com esse nome que ele venha a apresentar. Poderei votar mas vou ter que fazer uma análise", afirmou.


Mas não são apenas as eleitoras mais fiéis ao PT que estão indecisas. A baiana Juliana Muniz Gonçalves, de 26 anos, que atualmente trabalha como vendedora de brigadeiros em Irecê, no interior do estado, foi favorável ao impeachment de Dilma. “Agora, porém, diz que prefere anular o voto a dá-lo a algum candidato apoiado pelo presidente Temer. Ela rechaça Bolsonaro, que classifica de "homofóbico" – algo que o pré-candidato nega ser.”

Dos principais nomes que hoje se apresentam para a disputa, ela diz que Ciro e Marina são nomes que está disposta a avaliar. Na última eleição, ela queria votar em Eduardo Campos (PSB), que acabou morto em um acidente de avião. Sem essa opção, não lembra qual número escolheu na urna. Desconfiada dos políticos em geral, ela reconhece ter pouca "consciência política". "Esse ano eu não consigo ver um candidato, até porque não foram lançados mesmo os candidatos a presidente. E eu tento fugir de qualquer discussão política no Facebook, ou qualquer outra coisa", disse.

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Por Mônica Bergamo – Folha de São Paulo

O cientista político Antonio Lavareda e o ex-ministro Antônio Delfim Netto debaterão sobre economia e política com 300 diretores jurídicos e financeiros de empresas brasileiras. O evento será na terça-feira (19) no hotel Maksoud Plaza e marca o lançamento da edição 2018 do anuário Análise Executivos Jurídicos e Financeiros.

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Para cientista político, mais importante que o jogo de adivinhação em torno da candidatura do PT, as atenções deveriam se voltar ao poder de transferência de votos de Lula ao possível herdeiro

É plausível imaginar que a possível candidatura que venha a substituir o ex-presidente Lula na disputa presidencial pelo PT mantenha patamar de apenas 3% das intenções de voto ao longo do pleito. A leitura é do sociólogo e cientista político Antonio Lavareda, presidente do conselho científico do Ipespe, que acredita que o cenário que deverá se sobrepor no início do período de campanha será o de um empate quádruplo na segunda posição, com o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) largando na pole position. O especialista acredita que, mais importante que o jogo de adivinhação em torno do nome do candidato petista (se Fernando Haddad, Jaques Wagner ou qualquer outra opção) à medida em que Lula caminha para ser barrado pela Lei da Ficha Limpa, as atenções deveriam se voltar ao poder de transferência de votos do ex-presidente a seu possível herdeiro.

Foi o que começou a testar, desde a semana passada, o Ipespe em pesquisas encomendadas pela XP Investimentos. Segundo o levantamento, o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad pode saltar do patamar de 3% das intenções de voto para 11% somente com a informação de que ele seria o candidato apoiado por Lula (veja o gráfico abaixo). Com isso, o petista ficaria em condição de empate técnico com Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB).

Corrida presidencial. Com apoio explícito de Lula a Haddad

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"Uma vez definida a candidatura de Fernando Haddad ou de qualquer outro [nome pelo PT], é esse cenário que deve se impor nos primeiros dias da campanha de TV e rádio: com a liderança de Bolsonaro ainda e um empate quadruplo no segundo lugar", observou Lavareda em entrevista ao InfoMoney (assista a íntegra pelo vídeo ao final desta matéria).

"Outras pesquisas já haviam apontado que Fernando Haddad e Jaques Wagner têm praticamente apoio equivalente. O diferencial é o apoio de Lula. Então, fomos direto ao ponto: 'Fernando Haddad, com apoio de Lula'. E, como se viu, desarruma um pouco o quadro de intenções de voto estabelecido em cenários que não adicionam essa informação. São cenários que terminam produzindo fotografias totalmente destituídas de plausibilidade. Fazer apenas uma fotografia do momento sem esse ajuste termina desinformando a sociedade", pontuou.

Para o cientista político, à medida que o candidato do petista for apresentado e o partido começar a trabalhar na transferência de capital político de Lula, o nome escolhido poderá superar os 11% atribuídos a Haddad no cenário destacado. Tudo depende da competência da campanha, da imagem construída pelo herdeiro político, além da condição de o ex-presidente fazer campanha mesmo preso há dois meses no âmbito da Lava Jato.

Quem observa as movimentações e discursos de dirigentes e lideranças do PT pode ter a impressão de que Lula terá sua foto nas urnas em outubro. Como muitos têm sustentado, se depender do partido, não haverá alternativa: a sigla irá às últimas consequências com o nome escolhido para representá-lo na corrida presidencial. Por trás da retórica, há uma estratégia política. Já que nenhum nome do partido hoje se aproxima do desempenho de Lula nas pesquisas, pode fazer sentido assumir o risco e manter a candidatura do ex-presidente até as últimas consequências.

Por outro lado, Lavareda acredita que o partido corre riscos ao protelar a indicação de um substituto para Lula. Isso porque eleitores tradicionalmente ligados ao PT poderiam começar a buscar alternativas e se entusiasmar com outros candidatos, o que poderia dificultar a retomada de apoio.

O sociólogo chamou atenção para a eleva rejeição ao governo do presidente Michel Temer como outro fator a potencializar o desempenho de Lula nas pesquisas eleitorais, o que também pode trazer dificuldades para candidaturas da centro-direita, como se observa atualmente.

"Uma das dificuldades naturalmente colocadas para os candidatos do que se chama de centro hoje é exatamente o posicionamento em relação ao governo Temer. Praticamente todas essas forças políticas se posicionaram favoráveis ao afastamento da ex-presidente Dilma", lembrou. "Naturalmente, quando há governos mal avaliados, isso beneficia inexoravelmente candidaturas de oposição".

"Antes do impeachment de Dilma, Lula perdia, nas projeções de intenções de voto em todos os institutos de pesquisa, para vários candidatos disso que se convencionou chamar centro-direita. É óbvio que essa retomada do ímpeto e da força eleitoral do ex-presidente está bastante associada à sorte do governo Temer. À medida que aumentou a insatisfação, ele, que é o principal ícone, líder, da oposição ao governo, se beneficia", explicou.

Quando questionado sobre a possibilidade de um segundo turno polarizado, Lavareda apontou dois possíveis cenários: um alinhado com a tradição de disputa entre PT e PSDB dos últimos seis pleitos presidenciais; outro mais parecido com 1989, quando a multiplicidade de candidaturas viáveis trouxe um ambiente de profunda incerteza ao quadro.

"O Datafolha fez um cenário com 19 candidaturas. Quando você olha toda essa fragmentação e agrega os candidatos deste campo do centro até a direita, excluindo Bolsonaro, eles reuniram a mesma pontuação que Bolsonaro apresentou nesta situação liderada pelo ex-presidente Lula. É a melhor evidência para entendermos o quanto essa fragmentação afeta e poderá vir a afetar a sorte do representante deste campo que podemos chamar de centro ou centro-direita", diagnosticou.

Veja o vídeo:

 

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Diretora do Centro de Estudos da Metrópole e professora de Ciência Política da USP, Marta Arretche, é a convidada do Ponto a Ponto, que traz o tema "Brasil, injusto e desigual". A entrevista foi ao ar no último sábado (9), na BandNewsTV. A Antonio Lavareda e Mônica Bergamo, apresentadores da atração, Marta Arretche conta que o aumento da taxa de violência está diretamente ligado à extrema pobreza. "No País, o mundo do crime organizado, que tem altas taxas de violência, oferece oportunidades mais rentáveis e rápidas do que o mundo do trabalho. Combate o desemprego com mais eficácia."

Assista na íntegra:

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Déficit educacional deixa eleitor brasileiro mais vulnerável às fake news

Bianka Vieira (Folha de São Paulo) – 30/05/2018

A força da internet não será o fator decisivo para as eleições de 2018, mas um diferencial num pleito indefinido onde candidatos disputarão ponto a ponto. No âmbito das fake news, o déficit educacional brasileiro se revela como o principal entrave para evitá-las. 

A avaliação é de Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco e presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), e de Manoel Fernandes, diretor da Bites, empresa que atua em prevenção e estratégia no ambiente digital.

Os especialistas participaram de debate da série Diálogos nesta segunda-feira (28) no Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), realizado pela instituição em parceria com a Folha. A mediação foi de Uirá Machado, editor da Ilustríssima.

Para Lavareda, o combate às fake news no Brasil esbarra na estrutura educacional da população.

Segundo estatística do eleitorado divulgada em abril deste ano pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 4,4% dos eleitores se declaram analfabetos e 25,9% possuem o ensino fundamental incompleto.

“A capacidade de discernimento para conseguir perceber os detalhes, incoerências e contradições de uma notícia falsa é pequena”, afirmou Lavareda.

 

Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco e presidente do conselho científico do Ipespe, e Manoel Fernandes, diretor da Bites, em debate da série Diálogos, promovida pela Folha em parceria com o Cebrap

Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco e presidente do conselho científico do Ipespe, e Manoel Fernandes, diretor da Bites, em debate da série Diálogos, promovida pela Folha em parceria com o Cebrap PODER/Folhapress

Fernandes citou estudo feito por sua empresa entre as classes A e B, nas quais 60% já tinham ouvido falar em fake news, e C e D, nas quais a lógica se inverteu e a maioria das pessoas desconhecia o termo. “Esse é o dado mais problemático. É gente com celular na mão recebendo informações e distribuindo”, disse Fernandes ao mencionar que existem, no país, mais de 200 milhões de aparelhos smartphones. 

Os debatedores também convergiram ao afirmarem que a internet é apenas uma parte do problema num cenário onde a maior parte da população tem a televisão como principal meio de informação. Para Lavareda, isso faz com que a agenda do Brasil seja pautada pela TV.

“[Para os brasileiros] Corrupção é um problema dez vezes maior que distribuição de renda e desigualdade. Isso não tem nada a ver com internet ou com fake news, isso tem a ver com televisão”, comentou Antonio Lavareda ao analisar levantamento do último Datafolha. 

Na pesquisa, a corrupção liderava como principal problema do país representando 21% das respostas, enquanto distribuição de renda e desigualdade foram ranqueadas com 2%. “O Brasil tem problemas sérios que são do século 21, mas os enfrenta acumulando problemas do século 20”, finalizou o sociólogo.

QUESTÃO DE ALGORITMO 

Para o jornalista e sócio da Bites, não há, entre os governantes brasileiros, o hábito de utilizar dados na formulação de estratégias. Além disso, falta compreensão da classe política em relação ao potencial do digital.

Como exemplo, citou levantamento de sua empresa que aponta o nome do ex-governador Geraldo Alckmin citado em 22 mil buscas no Google, ao passo que a expressão “Jair Bolsonaro” foi pesquisada 450 mil vezes. Segundo Fernandes, o Nordeste é uma das áreas que demonstram menor interesse pela candidatura do presidenciável tucano.

“Há um padrão de comportamento que a gente persegue para entender o que está acontecendo. Na hora em que o Alckmin montar uma estratégia no Nordeste com mais assertividade, veremos como esse número vai impactar o Google”, disse.

Fernandes destaca que a radicalização é uma consequência dos algoritmos. “A polarização é natural do algoritmo, porque ele agrupa as pessoas de acordo com o que elas querem.”

Para Lavareda, as redes sociais contribuem positivamente para a democracia. No entanto, ressalva que são nelas que políticos radicais encontram um caldo de cultura para suas ideias e angariam adeptos. “O eleitor pode votar por entusiasmo ou por rejeição, ou seja, por raiva. E a internet dá injeções na veia de entusiasmo e de raiva.” 

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