A abstenção e o voto de bloqueio alimentam a ideia de que Emmanuel Macron teria pouca representatividade para governar. Discursos que abalam os alicerces da democracia representativa, quando a prioridade deveria ser repensá-la.
Desde a vitória de Emmanuel Macron no domingo, 24 de abril, uma música insidiosa vem se espalhando, visando questionar a legitimidade de sua eleição. São invocados dois tipos de argumentos: o Presidente da República teria pouca representação para reivindicar a realização do seu projeto de governo devido ao elevado índice de abstenção (28%) e dos votos em branco e nulos (6,2%). Além disso, os 58,4% coletados em seu nome não resultariam de um voto fiel, mas resultariam de um voto de bloqueio contra a extrema direita.
Em 1969, ninguém questionou a legitimidade de Georges Pompidou, eleito Presidente da República no contexto de abstenção recorde (31,15%). Em 2002, ninguém contestou a de Jacques Chirac que obteve 82,21% dos votos contra Jean-Marie Le Pen. Existiam dúvidas sobre a natureza da política que o líder de direita deveria realizar no quadro da poderosa frente republicana que acabava de se formar, mas sua capacidade de ser presidente era plenamente reconhecida.
O julgamento de ilegitimidade não é novo. François Hollande foi vítima disso durante sua eleição em 2012, quando a prefeita (UMP) de Aix-en-Provence, Maryse Joissains-Masini, o chamou de “perigo para a República”, acusando a mídia de ter “linchado” seu adversário, Nicolas Sarkozy. Desde 2017, porém, o protesto se intensificou e atingiu os mais altos níveis da República. Em março, o presidente do Senado, Gérard Larcher, exasperado por Emmanuel Macron ter demorado a entrar na campanha, sentiu que isso levantava “a questão da legitimidade do vencedor”. Vindo do terceiro personagem do Estado, o ataque chocou.
Decomposição política
Desta vez, o protesto é reacendido pela esquerda radical, que busca mobilizar suas tropas para as eleições legislativas de junho. Ao afirmar-se primeiro-ministro “eleito” e ao retratar Emmanuel Macron como o Presidente da República “o pior eleito da Quinta República” , Jean-Luc Mélenchon continua a sua tentativa de detonar as instituições e o seu desafio a um adversário ao qual negado por cinco anos o direito de realizar sua política. “Não há base social na França para a política de Macron. Ele tem um problema de legitimidade política que resulta das condições do segundo turno”, ele lançou no dia seguinte à eleição presidencial de 2017. Marine Le Pen, por sua vez, se comportou na noite de domingo como se a vitória lhe tivesse sido roubada, questionando “duas semanas de métodos injustos e chocantes”.
O processo em curso de decomposição e recomposição política explica em parte a ascensão desse radicalismo. A direita não suporta ser marginalizada no cenário político nacional, e os extremistas exploram ao máximo os protestos que crescem no país, inclusive contra as instituições. Mas o jogo deles, que consiste em reivindicar cargos eletivos enquanto desafia as regras, é particularmente perverso. Em 2017, Jean-Luc Mélenchon foi eleito deputado por Bouches-du-Rhône com apenas 20% dos eleitores registrados. Em 2021, Valérie Pécresse só foi reconduzida como presidente da região de Ile-de-France com 14,8% dos inscritos. Todos aqueles que gostam de abalar a legitimidade do voto e, portanto, até mesmo os fundamentos da democracia representativa, melhor pensar em como fazer com que os eleitores se interessem novamente. Caso contrário, eles serão varridos como os outros.
EDITORIAL DO LE MONDE – Publicado na edição deste sábado (23/4)
Uma vitória de Marine Le Pen no segundo turno abriria uma guinada irremediável na França para um modelo marcado pelo clanismo, isolamento e violência, sem dar respostas às crises climáticas, sociais e geopolíticas, alerta o diretor do “Le Monde”. Jerônimo Fenoglio.
Nesses momentos finais da campanha presidencial, o maior erro seria se distrair com as últimas pesquisas do pré-segundo turno e as primeiras manobras eleitorais depois. Entre os dois, há uma votação, domingo 24 de abril, e isso determinará tanto quem vai liderar a França nos próximos cinco anos, o quadro republicano dos debates que vamos travar dentro da nossa democracia, o rosto que vai querer apresentar ao mundo ao nosso redor. Esta votação determinará também as formas de responder à guerra que assola o nosso continente, às crises geopolíticas e sociais que se avolumam, à catástrofe climática que se desenha. A magnitude dessas questões proíbe qualquer forma de relativização das próximas eleições.
No domingo, haverá apenas uma maneira de ajudar a impedir que a candidata de extrema-direita Marine Le Pen chegue ao poder: é votar em seu oponente, Emmanuel Macron, sejam quais forem os erros que cometeu em seu primeiro mandato. quaisquer que sejam as queixas que alguém possa ter contra sua política, qualquer que seja sua responsabilidade pela presença do Rally Nacional (RN) nesta segunda rodada. Nem o voto em branco nem a abstenção servirão para preservar nosso país do irremediável.
Para descrever o que poderia acontecer se Marine Le Pen se tornasse Presidente da República, a comparação com a Hungria de sua inspiração, o primeiro-ministro Viktor Orban, tem sido frequentemente usada. De fato, a erosão da liberdade de imprensa, o rebaixamento do estado de direito, o enfraquecimento das instituições estariam na ordem do dia. Mas o paralelo com um país de 10 milhões de habitantes, quaisquer que sejam suas qualidades, é muito insuficiente para descrever a explosão global que constituiria a inclinação de nossa nação para o lado do iliberalismo. A França, potência nuclear com assento no Conselho de Segurança da ONU, pilar da construção europeia, não é bem a Hungria.
Complacência
Para medir os riscos incorridos, devemos olhar um pouco mais a leste do continente, para a Rússia de Vladimir Putin, à qual a senhora Le Pen se vinculou por sua admiração proclamada em muitas ocasiões e por um empréstimo bancário. Devemos considerar o triplo impasse em que o déspota confinou seu país. A nossa estaria sujeita à mesma clandestinidade de uma camarilha centrada em seus próprios interesses, que sempre procedeu por expurgos para manter o controle de sua pequena empresa política familiar. Estaria fadada ao mesmo isolamento internacional que a reaproximação com governos populistas, sugerida pela Sra. Le Pen não compensaria por muito tempo. Basta notar a rapidez com que a Polônia acaba de se afastar da Hungria, após a agressão da Ucrânia, para se convencer de que esses conglomerados de egoísmo nacional nunca permanecem coerentes. Finalmente, nosso país estaria exposto aos mesmos fermentos de ódio e violência contra setores inteiros de sua população.
Obviamente, não se trata, aqui, de deixar crer que todos os eleitores de Marine Le Pen estão conscientes dos perigos dissimulados por trás da postura protecionista do candidato. Mas esse não pode ser o caso de opositores de longa data da extrema direita, experientes pela história e pela natureza imutável do RN. É por isso que, ao contrário de muitos líderes de esquerda que formularam instruções inequívocas, Jean-Luc Mélenchon errou muito ao declarar recentemente que era “bastante secundário” saber quem, o Sr. Macron ou Le Pen, estaria à frente de um executivo no qual deseja se impor como primeiro-ministro. De um candidato que havia excluído a votação do RN na noite de sua eliminação no primeiro turno, essa banalização não é bem-vinda. Ainda que o número de votos que recaiu sobre ele ultrapasse em muito o núcleo histórico dos “rebeldes”, essa erosão do reflexo republicano, que equivale a descarregar nos outros a responsabilidade de evitar o pior, também é preocupante quanto arriscada.
No entanto, a esquerda está longe de ter o monopólio dessa relutância. À direita, muitos eleitos também deixaram claro que passariam com prazer este segundo turno, e todos os esclarecimentos necessários, para melhor se posicionarem na próxima batalha, as eleições legislativas. Este cálculo, voltado para o futuro, é tanto mais culposo quanto prolonga a irresponsabilidade da frente, estes longos meses em que a extrema direita, a de Eric Zemmour em primeiro lugar, não deixou de beneficiar de todas estas atenções que contribuíram para colocando Marine Le Pen na situação sem precedentes em que se encontra às vésperas deste segundo turno. Essa complacência passou dos canais de televisão para os grandes jornais, e às vezes até da pena de intelectuais cujas ambiguidades apontamos com razão.
Continua ainda hoje na forma de um desafio ao termo “extrema direita” aplicado a uma candidata cujo programa, no entanto, demonstra que ela não mudou os fundamentos de seu partido. Instalou-se assim um espantoso mundo invertido, onde Marine Le Pen pode pretender, contra toda a probabilidade, ser a candidata da “concórdia” e da “fraternidade nacional” , aquela que pode “restituir a França” … Onde o trabalho de investigação e aprofundamento, o resgate da história, a perspectiva de comparações internacionais, qualificado como “preguiça intelectual”, recebem menos consideração do que comentários em loop na superfície das coisas. Nesse mundo invertido, alguns intelectuais já não fazem o papel de batedores de debate ou pioneiros de ideias há muito tempo, contentam-se em carregar o que apresentam como a voz de um povo que não conhecem.
Brutalidade
Para a direita clássica, a sanção para essa complacência no discurso extremista tem sido severa. Resultou no desaparecimento quase completo de um eleitorado que se dividiu, no primeiro turno, entre os votos de Macron, Zemmour e Le Pen. Incapaz de defender sua visão de sociedade, o lado político que pensava finalmente ter vencido a batalha de ideias viu-se reduzido, no segundo turno, a ver os dois finalistas cortejarem os eleitores de Mélenchon.
“Quem ganha as eleições presidenciais é quem impõe a sua pergunta, para a qual tem a resposta” , declarou este inverno, o candidato da Reconquista!. Obviamente, Eric Zemmour não tinha a pergunta certa, assim como Marine Le Pen não tinha a resposta certa. Seções inteiras do programa da candidata tentam resolver as questões sociais que ela apresenta como sua nova preocupação por meio da receita imutável de seu partido: a exclusão das populações imigrantes.
Para dar apenas um exemplo, no domínio da habitação, o candidato pretende resolver a carência de prestação social rescindindo o arrendamento de mais de 500.000 famílias de inquilinos estrangeiros, legalmente presentes em França. Uma de duas coisas: ou esta medida é inaplicável, e Marine Le Pen não resolverá nenhum dos problemas que afirma ter em consideração, habitação social não mais do que qualquer outra. Ou é implementado com uma brutalidade incompatível com os valores elementares da República. Esse apartheid de fato aumentaria a violação das instituições e o caos na economia e na sociedade.Diante da possibilidade de atos tão vergonhosos, é importante que todos os democratas estabeleçam uma hierarquia clara dos perigos que ameaçam nosso país e que se mobilizem para que a candidatura de Marine Le Pen seja rejeitada com a maior lacuna possível. Esse é o único cálculo que conta às vésperas deste segundo turno para, pelo menos, evitar que a extrema direita derrote o país.
1. INTENÇÃO DE VOTO ESPONTÂNEA MOSTRA O AVANÇO DA POLARIZAÇÃO. ENTRE OS QUE JÁ MENCIONAM CANDIDATOS NESSA QUESTÃO, LULA CHEGA A 38% E BOLSONARO A 28%. A soma dos outros nomes citados é de apenas 8% (Ciro, 4%; Moro, 1%; Doria, 1%; Tebet, 1%; Janones, 1%). Ou seja, os 2 líderes, juntos, concentram quase 90% do total de citações. Lula cresceu 2 pontos e Bolsonaro 1, em relação a uma quinzena atrás. Moro vai saindo do radar do eleitor e os demais se mantiveram com os mesmos números.
2. SAÍDA DE MORO E TROPEÇOS DA “3ª VIA” DEVOLVEM A BOLSONARO ELEITORES ANTIPETISTAS QUE BUSCAVAM ALTERNATIVA. Na pergunta estimulada, o Presidente, que ganhou 4 pontos logo após a saída de Moro do Podemos, cresce mais 1 e marca 31%. No campo oposto, Lula, depois de estacionado há 2 meses também avança 1 ponto e atinge 45%. Vêm a seguir: Ciro, com 8%, oscilando 1 ponto para baixo; Doria, mantendo seus 3%; Simone Tebet, que continua com 2%; Janones sobe 1 ponto e vai a 2%. Felipe D’Ávila, Vera e Eymael não pontuaram nessa rodada. Enquanto a briga no interior do PSDB assume contorno autofágico, ameaçando jogar fora o diferencial de ter sido o único partido a realizar uma “primária”, os diretórios regionais do União Brasil e do MDB hesitam a se alinharem com candidatos(as) com percentuais demasiadamente modestos. E, assim, por ora, vai restando Ciro Gomes como única possibilidade de uma eventual triangulação do formato da disputa. Porém, ele esbarra à esquerda no voto consolidado de Lula, reforçado pela elevada expectativa de sucesso do petista (58% acreditam que Lula será vitorioso, 31% apontam Bolsonaro e só 2% apostam em Ciro).
3. OS MOVIMENTOS DO PRIMEIRO SÃO REPETIDOS NOS CENÁRIOS DO SEGUNDO TURNO. LULA E BOLSONARO OSCILAM POSITIVAMENTE. Lula foi de 53% a 54%, e Bolsonaro de 33% a 34%. No caso do atual Presidente, é a primeira vez que alcança esse patamar nas pesquisas do IPESPE este ano. É um sinal do progresso no esforço da campanha de reconectar-se com seus eleitores da disputa passada, e que agora se vê beneficiado pela ausência de desafiantes expressivos no seu campo ideológico. Vale lembrar que esses 34% no segundo turno – sobre o total do eleitorado – correspondem exatamente ao percentual que Bolsonaro obteve no primeiro turno de 2018.
4. O PLACAR DA REJEIÇÃO EXPLICA AS DIFERENÇAS NO SEGUNDO TURNO. Aqui, Bolsonaro, estável, segue à frente. Não votariam nele atualmente 61%; seguido por Doria, cuja rejeição voltou a cair dois pontos, para 55%; Ciro, com 44%, oscilou um ponto acima; Lula, 42%, perdeu um ponto; Janones permaneceu em 36%; Tebet recua um, para 34%; e Felipe D’Ávila manteve os 34% da rodada anterior. A diferença de rejeição Bolsonaro-Lula, de 19 pontos, é praticamente a mesma do cenário de segundo turno entre os dois.
5. PERCEPÇÃO DE QUE A ECONOMIA ESTÁ “NO RUMO CERTO” SOBE DOIS PONTOS E VAI A 31%. OPINIÃO DE QUE ESTÁ “NO RUMO ERRADO” CAI UM, PARA 62%. Nessa dimensão (economia) o sentimento que em geral conta mais -no Brasil ou em outros países- é relativo à inflação. A soma dos que dizem que nos últimos meses os preços “aumentaram” ou “aumentaram muito” é de 95%, ou seja, a quase totalidade da amostra, mas recuou bastante a expectativa de aumento nos próximos meses. Em março, quando do super aumento dos combustíveis, 79% manifestaram seu pessimismo. Número que caiu dessa feita para 63%, o mesmo registrado em fevereiro.
6. REDUÇÃO DO NÚMERO DE CASOS, ANÚNCIO DO “FIM” DA PANDEMIA E CARNAVAL FORA DE ÉPOCA FAZEM DESPENCAR O MEDO DA COVID. EM UM MÊS, SOBE DE 48% PARA 59% O CONTINGENTE DOS QUE DIZEM NÃO ESTAR “COM MEDO DO CORONAVÍRUS”. Os que ainda estão “com muito medo” são 11% (há um mês, 15%). E aqueles que referem estar “com um pouco de medo” saíram de 36% para 29%. Na esteira disso tudo, e ajudada pela distância em relação ao noticiário da CPI, melhora a avaliação do desempenho específico do Governo nesse front. O “Ótimo/Bom” sobe de 28% para 30%; e o “Ruim/Péssimo” recua de 54% para 51%.
7. APROVAÇÃO GERAL DO PRESIDENTE OSCILA POSITIVAMENTE UM PONTO, PARA 34%. A AVALIAÇÃO POSITIVA (O/B) CRESCE DOIS, CHEGANDO A 30%. A desaprovação faz movimento simétrico e recua de 63% para 62%. O mesmo ocorre com a avaliação negativa (R/P) que declina de 54% para 52%. Como provável efeito da polarização precoce da disputa, acentua-se a aproximação entre avaliação de governo e intenções de voto. Essas duas variáveis vão se “misturando”. A primeira deixando de ser, como até então, um fator “causal”, explicativo da segunda. E para muitos eleitores entrevistados ocorrendo até o inverso, por conta do “viés de consistência” diante de um questionário que se inicia pelas perguntas eleitorais. Isso costuma ocorrer na fase final das campanhas. Não tão cedo como nessa eleição. O percentual dos que classificam o Governo como “Ótimo ou Bom” (30%) fica um ponto abaixo da intenção de voto estimulada de Bolsonaro no primeiro turno. E o número dos que declaram “Aprovar” seu desempenho geral (34%) é idêntico ao das suas intenções de voto no segundo turno. Ou seja, temos um Governo e seu candidato firmemente ancorados em cerca de um terço do eleitorado. O que é suficiente como barreira de entrada quase intransponível para alguém da “terceira via” ingressar em campo, mas ainda pouco para virar o jogo contra o desafiante que lidera a partida.
Um experimento ambicioso de ciências sociais levanta alarmes para democracias com meios de comunicação partidários populares
Foto: Pexels
E se as pessoas fossem alimentadas apenas com uma dieta de propaganda ou mídia ideologicamente tendenciosa? Como podemos esperar que elas tomem decisões racionais com equilíbrio? Isso levanta algumas questões: como funciona a democracia em ambientes com fontes midiáticas partidárias? O que aconteceria, por exemplo, se as pessoas que assistiam à Fox News assistissem à CNN?
Broockman e Kalla conduziram um experimento de campo aleatório que recrutou mais de 700 americanos que assistiam regularmente à Fox News e depois pagavam 40% deles para assistir até 7 horas de CNN por semana e investigaram os efeitos do tratamento. Eles fizeram isso primeiro perguntando aos participantes uma série de perguntas – sobre política, mídia, eventos recentes, fazendo a todos um novo conjunto de perguntas sobre os mesmos tópicos.
Como resultado de incentivar esses espectadores da Fox News a assistir à CNN, Broockman e Kalla observaram “aprendizado substancial” entre o grupo de tratamento. Eles se tornaram mais factuais em sua percepção dos eventos atuais e seu conhecimento sobre as posições dos candidatos presidenciais de 2020 quando comparados ao grupo que continuou assistindo à Fox News; eles se tornaram mais conscientes dos eventos que a CNN cobriu durante o período e a Fox não (Covid-19 em vez dos protestos raciais de 2020) e até se tornaram um pouco mais negativos em suas avaliações de Donald Trump e dos eleitos republicanos.
Os autores observaram os maiores efeitos nas percepções dos participantes sobre os eventos. Eles se tornaram menos propensos a acreditar que os democratas estavam tentando roubar a eleição com cédulas fraudulentas por correio (um declínio de desvio padrão de 0,24), por exemplo, e menos propensos a pensar que Biden queria eliminar todo o financiamento para departamentos de polícia (0,17). Veja aqui para mais:
Este estudo é importante por vários motivos. Por um lado, é o primeiro grande estudo a analisar os efeitos no mundo real da mudança nas formas de informação dos eleitores na moderna era polarizada. Experimentos de campo dessa profundidade e escala também não são uma tarefa fácil. Eles exigem muito tempo e recursos, criatividade e imaginação acadêmica. Broockman e Kalla fizeram algo genuinamente impressionante em termos de ciências sociais.
O estudo também revela muito sobre os impactos que a mídia partidária pode ter na democracia e como eles fazem isso. Sabemos há algum tempo, por exemplo, que os telespectadores da Fox News tendem a votar nos republicanos em taxas mais altas do que nos democratas, mas só temos teorias sobre como isso acontece. Este artigo sugere que Fox realiza isso principalmente por meio de definição de agenda e enquadramento da mídia. Ao cobrir questões que são melhores para os políticos alinhados à direita e ao apresentar seletivamente informações que são lisonjeiras para os ideólogos republicanos, eles sugam o apoio à direita.
Também é uma coisa a atenção a um único meio de comunicação afetar unilateralmente a consciência e as crenças em assuntos liberais. Outra coisa é mostrar que assistir à Fox News está correlacionado com a crença em falsas alegações e desinformação, como fazem Broockman e Kalla. O estudo descobriu que expor os espectadores da Fox News à CNN poderia melhorar marginalmente seu envolvimento com a realidade baseada em fatos sobre política geral e coisas como a Covid-19. Isso é reconfortante, embora a magnitude dos efeitos tenha sido decepcionantemente pequena.
Então, onde isso nos deixa?
Uma maneira de sintetizar esses pontos é perguntar como a mídia partidária afeta a forma como as pessoas responsabilizam os políticos. Se, digamos, os políticos republicanos estão agindo contra os interesses dos eleitores republicanos ao longo de linhas econômicas (ao tentar cortar serviços médicos e cortar o crédito de imposto infantil, por exemplo), mas os espectadores só são apresentados a programação sobre assuntos e eventos que afirmam sua visões de mundo sobre ideologia e política social (como imigração ou violência nas cidades), eles não serão capazes de responsabilizar os políticos por quaisquer impactos econômicos em suas vidas. Eles também podem atingir seus objetivos ocultando seletivamente informações: por exemplo, sobre o papel que os políticos republicanos desempenharam em (não) abordar a Covid-19 ou permitir a insurreição de 6 de janeiro de 2020.
Os autores não são necessariamente otimistas. Por um lado, seu estudo mostra como restringir a audiência da mídia partidária pode corrigir níveis agregados de crença em conspirações populares e equívocos sobre política e eventos. Mas, por outro lado, é improvável que as pessoas façam essa mudança por conta própria. “Visto deste ponto de vista”, concluem Broockman e Kalla, “a mídia partidária não é simplesmente um desafio para o partido oposto – pode representar um desafio para a democracia”. Essa é a natureza do pensamento de grupo partidário.
Foto: Andrés Manuel López Obrador – Agência de Noticias ANDES – Wikipédia
Eleição de recall tem o potencial de derrubar o governo no México, mas muitos acreditam que isso não passe de uma ferramenta de marketing presidencial
(Notícia publicada no The New York Times em 8/04) Por Natalie Kitroeff – Passeando pela capital do México hoje em dia, seria fácil supor que o presidente do país corre o risco iminente de perder o emprego. As ruas da cidade estão repletas de placas, panfletos e outdoors pedindo aos mexicanos que votem sobre a remoção do presidente Andrés Manuel López Obrador do cargo em uma eleição de recall para este próximo domingo.
Só que não é a oposição que manda as pessoas correrem para as urnas. São os leais ao presidente. “Apoie o presidente López Obrador”, diz um panfleto. “Se você não participar, os corruptos vão tirar as bolsas, a assistência e as pensões que recebemos hoje.”
Durante a maior parte de um século, os presidentes mexicanos cumpriram mandatos de seis anos sem falhar, tenham ou não sido eleitos com justiça – ou passaram a ser desprezados por grande parte da população. A eleição revogatória (ou recall), proposta pelo Sr. López Obrador e a primeira desse tipo no México e tem o potencial de derrubar o sistema político do país, dando aos cidadãos um novo e poderoso caminho para responsabilizar seus líderes.
No domingo (10/4), os eleitores serão solicitados a decidir se López Obrador “deve ter seu mandato cassado por perda de confiança” ou “continuar na presidência da República até o término de seu mandato”. Para se tornar obrigatório, 40% do eleitorado deve participar.
O único problema é que o maior entusiasta no voto – e a pessoa mais interessada em testar a popularidade bem estabelecida do presidente – foi o próprio presidente. Os líderes da oposição disseram a seus seguidores para boicotar o exercício, e os analistas acreditam que a participação pode ser muito baixa para que os resultados sejam contabilizados.
Assim, embora López Obrador tenha chamado o recall de “um exercício de democracia da mais alta ordem”, muitos temem que possa ser algo muito menos significativo: uma ferramenta de marketing destinada principalmente a reforçar a pretensão do presidente ao poder.
“Isso deveria ser um mecanismo de controle cívico do poder, mas se tornou um instrumento de propaganda política”, disse Carlos Bravo Regidor, analista político e crítico do governo. O partido governista, disse Bravo Regidor, “quer que esta seja uma demonstração de força, força e capacidade de levar as pessoas às ruas e tornar explícito seu apoio a López Obrador”.
Em uma segunda-feira amena na Cidade do México, voluntários do acampamento do presidente se espalharam por um bairro residencial armados com panfletos e sorrisos largos, anunciando alegremente as seções eleitorais próximas e dizendo a quem quisesse ouvir para votar no recall.
Allan Pozos, um dos líderes do grupo, disse esperar que o exercício “estabeleça um precedente” para que futuros líderes possam ser expulsos, se necessário. Desta vez, porém, ele só quer que o presidente saiba que ele é amado. “É para mostrar a Andrés Manuel que ele tem o forte apoio do povo”, disse Pozos. “Andrés muitas vezes se sente sozinho, porque tem que ir contra todo um sistema e não tem apoio.”
Tal demonstração de apoio não poderia vir em melhor hora para o presidente, que passou da metade de seu mandato enquanto lutava para cumprir as principais promessas de campanha que o levaram ao cargo com uma vitória esmagadora em 2018. Ele prometeu uma “transformação” do país que reduziria a pobreza, impulsionaria a economia e combateria a violência endêmica em suas raízes. Mas após uma pandemia e uma recessão global, as taxas de pobreza permanecem teimosamente altas, o crescimento econômico é anêmico e os homicídios ainda estão próximos de níveis recordes.
No entanto, López Obrador continua muito popular, com mais da metade dos mexicanos aprovando seu desempenho, mostram as pesquisas. Seu governo procurou melhorar a situação dos pobres, aumentando o salário mínimo quatro vezes e aumentando os gastos com a previdência.
López Obrador também ganhou pontos com gestos simbólicos, como transformar a mansão presidencial em museu aberto ao público e voar comercialmente, mesmo em visita aos Estados Unidos.
Seu grande favor junto aos eleitores também é uma homenagem, concordam apoiadores e críticos, à sua implacável transmissão de uma narrativa oficial na qual ele se apresenta como um guerreiro solitário do povo, enfrentando um establishment corrupto. “Os resultados ficaram abaixo das expectativas do próprio governo”, disse Jorge Zepeda Patterson, um proeminente colunista mexicano que apoiou o presidente, referindo-se às conquistas de López Obrador durante seu mandato.
“A polarização é muito lucrativa politicamente, especialmente se você não tiver resultados”, disse Zepeda Patterson, acrescentando que “pelo menos você pode construir a narrativa contra a qual está lutando”.
O principal risco do recall para o presidente é a possibilidade de que grandes áreas do país simplesmente ignorem o exercício por completo, especialmente porque ocorre no Domingo de Ramos. Por lei, para que o voto se torne obrigatório, pelo menos 37 milhões de mexicanos precisam participar dele – significativamente mais do que o número de pessoas que votaram no presidente nas eleições de 2018 que o levaram ao cargo com grande maioria. Mas López Obrador já identificou um bode expiatório em caso de baixa participação: o fiscal eleitoral do país.
Há meses, ele vem atacando o Instituto Nacional Eleitoral pelo que vê como uma falha em dedicar recursos suficientes à publicidade e administração do voto revogatório. “Eles deveriam ter promovido o referendo desde o início, não agir de forma desonesta, calar, não promover a votação para que as pessoas não soubessem, colocar as urnas o mais longe possível”, disse o presidente em recente entrevista coletiva. , referindo-se ao instituto eleitoral. “Eles estão abertamente contra nós, contra mim.”
O instituto pediu mais dinheiro ao governo federal para fiscalizar o concurso, sem sucesso. Com apenas cerca de metade do orçamento que disse precisar, o órgão de vigilância instalou cerca de um terço das assembleias de voto que faria em uma eleição normal.
Lorenzo Córdova, líder do instituto eleitoral, conhecido pela sigla em espanhol INE, diz que está sendo preparado para fracassar.
“Não é só o presidente”, disse Córdova, “há uma campanha orquestrada, sistemática e bem desenhada para desacreditar o INE”. capturar.”
A Suprema Corte do país disse que os partidos políticos não podem anunciar o recall e, no entanto, o rosto de López Obrador apareceu em placas em todo o país. Córdova diz que o instituto eleitoral não determinou quem está pagando por todos os anúncios, mas disse que há pelo menos o dobro deles em estados onde o partido do presidente concorrerá nas eleições para governador em junho.
“Isso faz você suspeitar que há intencionalidade política”, por trás da campanha de marketing, disse Córdova.
Há, é claro, benefícios estratégicos que podem advir de pedir ao país que avalie se gosta ou não do presidente neste momento específico. O Sr. López Obrador fundou seu partido político e tem um interesse óbvio em fazer todo o possível para garantir sua vitória nas eleições gerais para substituí-lo em 2024.
Os padrões de votação no recall dirão ao presidente onde estão as fraquezas de seu lado – e quais dos potenciais candidatos a presidente podem levar as pessoas às urnas.
“É uma espécie de experimento, um ensaio”, disse Blanca Heredia, professora do CIDE, uma instituição de pesquisa da Cidade do México. “Olhando para 2024, ele pode medir a capacidade de seus operadores para mobilizar o voto.”
Aconteça o que acontecer no domingo, para muitos no México, é difícil ver como o primeiro recall presidencial do país prejudicará seriamente esse presidente.“Andrés Manuel tem essa coisa de que mesmo quando ele perde, ele ganha”, disse a Sra. Heredia. “Ele sempre tem um jeito de transformar uma derrota em um triunfo.”
Investigadores examinam potencial lavagem de dinheiro e fraude fiscal por consultorias que trabalham para o governo de Emmanuel Macron
Emmanuel Macron – Imagem: Pixabay
A Procuradoria Nacional de Finanças da França (PNF) abriu nesta quarta-feira (6/4) uma investigação sobre empresas de consultoria que trabalharam para o governo francês, por suspeita de lavagem de dinheiro e fraude fiscal.
O PNF, responsável por fiscalizar crimes econômicos e financeiros graves, disse em comunicado oficial que abriu a investigação após denúncias em um relatório do Senado francês sobre a influência de consultorias, que revelou que a gigante de consultoria McKinsey usou um esquema de otimização fiscal enquanto trabalhava para o governo do presidente Emmanuel Macron.
A notícia provocou indignação nacional, gerou a hashtag viral “#McKinseyGate” e forçou Macron e vários ministros a responder a perguntas sobre a controvérsia, poucos dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais do país.
Os senadores também apresentaram uma queixa ao Ministério Público por perjúrio, pois acusam a McKinsey de mentir sobre sua situação tributária durante as audiências parlamentares.
Apesar de fechar acordos lucrativos com o governo francês ao longo dos anos, a McKinsey “não paga impostos corporativos na França há pelo menos 10 anos”, disse a senadora Éliane Assassi, que lidera o grupo comunista. “Um dos diretores [da McKinsey] disse sob juramento… que a McKinsey pagava impostos na França, então verificamos [solicitando dados] do Ministério das Finanças. A descoberta é clara.” A McKinsey negou a acusação.
As despesas de consultoria dos ministérios mais que dobraram desde o início do mandato de Macron como presidente, com um forte aumento em 2021 (alta de 45% em relação ao ano anterior) devido à pandemia, segundo o relatório da comissão de inquérito, composta de um grupo de senadores e liderados pela oposição.
Embora a McKinsey não seja a única empresa de consultoria que trabalha para o governo francês e responda por apenas 1% de seus gastos com consultoria, a empresa americana se tornou um símbolo para os oponentes de Macron, pois esteve envolvida em muitas reformas importantes, como a campanha de vacinação contra o coronavírus da França e muitos de seus consultores estiveram envolvidos na campanha de Macron em 2017.
Em resposta na quarta-feira, um porta-voz do governo francês disse durante uma coletiva de imprensa: “Desde o início, pedimos que toda a verdade seja dita sobre as práticas desta empresa de consultoria… Esta empresa de consultoria pagará o que deve pagar”.
Numa tentativa anterior de defender Macron, o ministro do Orçamento, Olivier Dusopt , disse na semana passada que os serviços do seu ministério “iniciaram uma auditoria da situação fiscal da McKinsey no final de 2021” e que o debate sobre o uso de consultorias se tornou objeto de “exploração política” e “manipulação bruta”.
Em sua defesa, a McKinsey primeiro alegou ter pago “422 milhões de euros em impostos e contribuições previdenciárias”, confundindo imposto de renda corporativo com contribuições previdenciárias pagas sobre os salários de seus funcionários.
Uma semana depois, a McKinsey disse que uma de suas subsidiárias realmente pagou seu imposto corporativo por seis anos, mas não forneceu à mídia francesa as respostas sobre o nome da empresa, o valor ou o período mencionado – impossibilitando a verificação das reivindicações de forma independente.
LULA, BOLSONARO E FHC SÃO APONTADOS COMO OS MELHORES PRESIDENTES DA NOVA REPÚBLICA. NA ELEIÇÃO, COM A SAÍDA DE MORO, BOLSONARO PULA PARA 30%.
1. LULA (46%), BOLSONARO (22%) E FERNANDO HENRIQUE (15%) FORAM CONSIDERADOS “O MELHOR PRESIDENTE ATÉ O MOMENTO”. Vieram depois Itamar Franco (4%), Michel Temer (3%) e José Sarney (2%).No fim da fila, os dois que sofreram impeachment: Dilma Rousseff (1%) e Fernando Collor, com zero. Vários fatores interferem na memória coletiva. E a passagem do tempo é um deles. Como exemplo, o governo Sarney não foi presenciado por quase metade do eleitorado atual. Mas não deixa de ser interessante notar que os ex-presidentes, ligados aos partidos que hoje buscam um candidato viável na autodenominada “terceira via“, reunidos somam muito mais admiração (24%) que a soma das intenções de voto dos respectivos pré-candidatos. No outro lado da moeda, Jair Bolsonaro, com 40%, encabeça o ranking dos que foram classificados como o “Pior Presidente”, seguido por Dilma Rousseff (21%), Lula (14%), Collor (11%), Michel Temer (4%), FHC e Sarney, ambos com 2%, e Itamar Franco, com 1%.
2. DIMINUI A PERCEPÇÃO DO NOTICIÁRIO NEGATIVO (DE 54% PARA 51%) E AUMENTAM A APROVAÇÃO AO GOVERNO (DE 31% PARA 33%) E SUA AVALIAÇÃO POSITIVA (“O/B” VAI DE 26% PARA 29%). Os que percebem as notícias como “mais favoráveis “ oscilaram positivamente dois pontos e são agora 13%.A desaprovação ao Governo recuou dois pontos, chegando a 63%. Ainda que o “Ruim/Péssimo” (54%) não se tenha mexido, no geral é a melhor avaliação obtida pelo Governo desde o início do ano em sete rodadas da pesquisa.
3. MELHORA A PERCEPÇÃO DE QUE A ECONOMIA CAMINHA NO “RUMO CERTO” (27% PARA 29%) ENQUANTO OS MESMOS 63% DA RODADA ANTERIOR CONTINUAM APONTANDO QUE VAI NO “RUMO ERRADO”. O noticiário sobre o “vai e vem” dos novos dirigentes da Petrobras não parece ter agravado os já elevados temores da população quanto à condução econômica. E, de outro lado,o anúncio das seguidas quedas do dólar pode estar despertando algum otimismo.
4. SAÍDA DE MORO FOI O MAIOR PRESENTE, ATÉ O MOMENTO, À PRÉ- CAMPANHADE BOLSONARO. Há muito não se via nas intenções de voto do primeiro turno um movimento tão vigoroso em intervalo tão curto. O Presidente cresceu dois pontos na questão espontânea, chegando a 27%; e nada menos que quatro pontos na estimulada atingindo, pela primeira vez desde 2019, os 30%. Quanto aos demais, Lula continua liderando a lista com os mesmos percentuais de 15 dia atrás – 36% de espontânea e 44% na lista . A seguir vem Ciro Gomes, outro beneficiário visível da retirada do ex-juiz: ganha dois pontos e se aproxima dos dois dígitos, com 9%, além de ficar isolado voltando à terceira posição. Doria (3%) e Simone (2%) parecem ter herdado cada qual um ponto de Moro. Janones continuou com 1%. As menções a Felipe D´Ávila, Eymael e Vera não pontuam 1%.
5. NO SEGUNDO TURNO BOLSONARO (33%) CRESCEU DOIS PONTOS CONTRA LULA QUE OSCILOU PARA BAIXO UM (53%). A DISTÂNCIA QUE ERA DE 25 PONTOS EM JANEIRO DIMINUIU PARA 20. Nos demais cenários há poucas alterações. A única mudança de posições é quando se enfrentam Bolsonaro e Doria. O primeiro, que na quinzena passada perdia por 40% X 37%, dessa feita inverteu e lidera na margem por 39% X 38%.
6. COMO É SABIDO, OS CENÁRIOS DE SEGUNDO TURNO ESTÃO ASSOCIADOS EM BOA MEDIDA ÀS RESPECTIVAS TAXAS DE REJEIÇÃO. NESSE QUESITO, BOLSONARO CONTINUA VINDO À FRENTE, EMBORA TENHA RECUPERADO DOIS PONTOS. OS QUE “NÃO VOTAM NELE DE JEITO NENHUM” ERAM 63% (E SÃO AGORA 61%). Doria vem a seguir. Tinha 58%, e agora 57%; Lula oscilou um ponto a mais, indo a 43%; Ciro reduziu a rejeição dois pontos, marcando também 43%; Janones manteve a rejeição de 36%; Tebet também não alterou a sua, 35%; Felipe D’Ávila diminuiu dois pontos, para 34%.
7. INFLUÊNCIA POSITIVA DO APOIO DE MORO A UM CANDIDATO É DE 15%. A NEGATIVA, DE 27%. Em situações assim, os candidatos costumam pesar os efeitos desse apoio e fazer muitas contas antes de buscá-lo. Mas à chamada terceira via de centro-direita, cujos postulantes têm percentuais muito discretos, esses 15% podem se afigurar como a promessa de um caminhão potencial de votos. Na verdade, de pouco valerá a qualquer um deles conseguir o apoio de Moro se não assumir para valer na campanha as bandeiras da Lava Jato simbolizadas por ele.
O blog francês Ah! les sondages (ah! As Pesquisas) faz um acompanhamento de perto de tudo que acontece no humor do eleitor francês às vésperas da eleição que acontece no dia 10/4 – próximo domingo.
Segundo a análise, quase todos os institutos observam uma queda nas intenções de voto para Emmanuel Macron, juntamente com um aumento no apoio a Marine LePen e Jean-Luc Mélenchon.
O gráfico a seguir ilustra bem essa tendência. Os pontos representam as estimativas feitas pelos vários institutos, as linhas a tendência das intenções de voto traçadas pela regressão local, usando os mesmos parâmetros da semana passada. Houve uma queda de pelo menos dois pontos no apoio a Emmanuel Macron desde meados de março, juntamente com um aumento de cerca de um ponto e meio para Marine LePen e Jean-Luc Mélenchon. Isso não é suficiente para este último ultrapassar Marine LePen e passar no segundo turno, no entanto, já que está quase cinco pontos atrás.
Gráfico 1
Cabe uma observação, informa o Ah! Les Sondages, existem algumas diferenças entre os institutos na estimativa de apoio a Emmanuel Macron na última semana. Essas estimativas variam de 26% para Ipsos a 34% para Kantar. O segundo instituto também tende a estimar o suporte para LePen mais alto e o suporte para Macron mais baixo, em média, desde 1º de janeiro. Quanto à Ipsos, realiza uma pesquisa de “rastreamento” onde as estimativas produzidas a cada dia são compostas pela média dos três dias anteriores. No banco de dados do blog estatístico, foram inseridos os dados a cada quatro dias para não duplicar as informações.
Falta uma semana de enquetes. Assim, acompanhemos ainda esta semana se essas diferenças se mantêm e, em caso afirmativo, quem estará certo no dia da eleição.
O Segundo Turno
As tendências do primeiro turno são refletidas nas intenções de voto no segundo turno. Haveria agora cerca de 7-8 pontos de diferença entre o apoio a Emmanuel Macron e Marine LePen no segundo turno. Observe, no entanto, que essas estimativas são baseadas em questões hipotéticas – consideradas não confiáveis - e no fato de que uma proporção significativa de apoiadores dos outros candidatos diz que não votará no segundo turno ou que votará em Branco. Essas intenções provavelmente mudarão se a diferença de apoio entre os dois candidatos se tornar mais estreita. E haverá uma campanha entre as duas rodadas.
Gráfico 2
Quanto às diferenças de acordo com a fonte dos dados, desaparecem no que diz respeito à estimativa dos apoios em Mélenchon mas mantêm-se para os apoios em LePen e Zemmour, a empresa Cluster 17 estimando os apoios em LePen inferiores e os em Zemmour superiores.
Assista ao programa WW, na CNN Brasil deste domingo, 3 de abril de 2022, apresentado por William Waack. O tema deste programa é “Os fatores que podem definir a eleição presidencial de 2022”. Minha participação avaliou algumas das variáveis presentes no cenário atual do processo de pré-campanha eleitoral.
WW com William Waack exibido pela CNN Brasil neste domingo – 3/3/2022
Estudo sobre influência dos pleitos municipais na eleição federal aponta vantagem ideológica da direita neste ano. *Artigo publicado na Ilustríssima da Folha de S. Paulo (domingo, 3 de abril de 2022)
Antonio Lavareda – É doutor em ciência política e professor colaborador da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)
Vinícius Silva Alves – É doutor em ciência política e editor-adjunto da revista Teoria & Pesquisa
[RESUMO] Análise histórico-comparativa mostra que eleições de prefeitos e vereadores captam tendências ideológicas que se verificam nas disputas estaduais e nacionais dois anos depois. Resultados de 2020 apontam a necessidade de candidatos da esquerda e do centro atraírem o voto da direita para que tenham chance contra Bolsonaro.
Embora as eleições municipais despertem grande atenção da mídia e mobilizem regularmente fatias expressivas do eleitorado, a literatura da ciência política frequentemente considera esses pleitos como de segunda ordem, ofuscados, subordinados ou mesmo desconectados das demais competições.
Contribuiriam para essa suposta desarticulação as características de nosso sistema político, fragmentado em inúmeras legendas irregularmente distribuídas no extenso território nacional, além de baixas taxas de identificação partidária e um calendário eleitoral que separa temporalmente as disputas por cargos eletivos locais daquelas estaduais e nacionais.
Investigando a conexão entre as três esferas, propomos um novo enquadramento analítico para o tema no primeiro capítulo do livro “Eleições Municipais na Pandemia”, organizado por Antonio Lavareda e Helcimara Telles, a ser publicado neste semestre pela Editora FGV. Por meio dele, é possível observar padrões de articulação entre as competições que ocorrem nos diferentes níveis da federação, uma vez agregados os partidos em campos ideológicos (esquerda, centro e direita), conforme a classificação predominante entre os especialistas.
Revisitando o percurso sociopolítico desde a transição democrática em 1985 até o pleito mais recente, identificamos que as disputas pelos cargos de vereador e prefeito têm funcionado como “barômetros ideológicos” das eleições gerais posteriores, sinalizando antecipadamente as chances dos diferentes campos.
Entre seus principais resultados, a investigação assinala que o desempenho dos grupos ideológicos na corrida por assentos nas Câmaras Municipais viabiliza a projeção de resultados nas disputas proporcionais seguintes (Assembleias Legislativas e Câmara dos Deputados) e serve também como parâmetro para as estratégias de coordenação dos principais atores nas competições majoritárias subsequentes.
Examinando a votação dos agregados ideológicos em todas as eleições da Nova República até o momento, identificamos ciclos com dinâmicas internas diferenciadas, delimitados por eleições críticas (1989, 2002 e 2018) e por uma eleição restauradora (1994).
Definimos como críticas, de acordo com a literatura da ciência política, aquelas competições presidenciais realizadas em meio a crises socioeconômicas e/ou políticas de grande monta, que apresentam, no caso de sistemas pluripartidários, elevados índices de fragmentação eleitoral, resultando na dissolução dos alinhamentos preexistentes.
Já as eleições restauradoras ou contra desviantes são aquelas que, sequenciando uma disputa crítica, resgatam as balizas do ordenamento anterior.
A pesquisa revelou que os realinhamentos, que imprimiram novos contornos competitivos ao sistema, foram precedidos por alterações sensíveis no desempenho dos partidos de diferentes espectros nos pleitos locais imediatamente anteriores.
Por meio de um exame comparado e com o auxílio de testes estatísticos, constatamos que as eleições municipais de 1988, 1992, 2000 e 2016 sinalizaram a iminência de ciclos eleitorais favoráveis aos campos ideológicos que chegaram à Presidência —direita em 1989, centro em 1994, esquerda em 2002 e direita em 2018—, com reflexos também sobre os demais cargos em disputa nas eleições gerais.
Por meio de uma abordagem sociológica e histórico-comparativa, esclarecemos que os processos de realinhamento, ocorridos nas eleições presidenciais apontadas, operaram sob a lógica de uma causalidade complexa, que envolveu diferentes fatores explicativos. Para tanto, percorremos sinopticamente as conjunturas críticas em que estão inseridos, mapeando os principais eventos políticos que contribuíram para a emergência e o desdobrar de cada ciclo.
Orientada pela perspectiva de que as eleições locais exprimiriam avaliações latentes sobre as ideologias em disputa, a pesquisa expõe o papel das competições municipais como testes da receptividade do eleitorado a candidaturas de diferentes matizes políticos, reverberando sobre as competições estaduais e nacionais posteriores. De que maneira isso ocorre?
Sendo pleitos intermediários, realizados no meio dos mandatos estaduais e nacionais, eles atualizam o nível de apoio a legendas de diferentes espectros. Além disso, a grande proximidade entre eleitores e candidatos nas municipalidades favorece o compartilhamento de valores e atitudes políticas, aferindo-se a partir deles o peso dos humores locais sobre o destino das próximas eleições gerais.
Assim, seus resultados indicam que as disputas municipais, especialmente para vereador, operaram como barômetros capazes de sinalizar eleições críticas, as quais delimitaram ciclos eleitorais promissores a diferentes espectros ideológicos, conforme veremos a seguir.
Na etapa fundacional da Nova República, o PMDB (hoje MDB), então única legenda de centro, que havia liderado a resistência aos governos militares e assumira a primeira Presidência civil após 21 anos de ditadura, obteve uma grande vantagem nas duas primeiras eleições do novo regime.
Em 1985, o partido conquistou 63,2% das 201 prefeituras disputadas, incluindo 20 das 25 capitais (o estado de Tocantins foi criado em 1988). No ano seguinte, embalado pelo congelamento de preços do Plano Cruzado, conseguiu eleger seus candidatos a governador em 22 de 23 estados em que concorreu.
No entanto, a crise de representação que sobreveio com o Plano Cruzado 2 atingiu em cheio a legenda, levando o país a uma eleição crítica em 1989, na primeira disputa presidencial pós-ditadura, que premiaria um outsider da direita, Fernando Collor. Um ano antes, em 1988, os partidos de direita já haviam alcançado um desempenho expressivo nas disputas municipais.
Mais tarde, logo após o afastamento de Collor, em 1992, as eleições municipais assinalariam o desgaste do seu campo, abrindo espaço, dois anos depois, com o sucesso do Plano Real, para uma eleição restauradora, que devolveria a Presidência ao centro, agora sob domínio tucano (1994-2002).
A esquerda, evoluindo paulatinamente desde as eleições municipais de 1988, alcançaria um êxito sem precedentes na Nova República com as competições locais de 2000. Naquele ano, antecipando o realinhamento que deu início ao longo ciclo eleitoral petista (2002-2016), a esquerda praticamente empatou com o centro nas disputas pelas prefeituras e o superou em relação à proporção nacional de votos recebidos para vereador —28,5% contra 24,7%.
Fonte: TSEFonte: TSE
Do outro lado do espectro, pouco percebida porque ocorria no interior do ciclo da esquerda, iniciava-se nas disputas municipais de 2012 a trajetória ascensional da direita, que inverteria o declínio desencadeado a partir de 1992, com a queda de Collor.
O processo fica mais nítido quando observamos o crescimento do seu desempenho nacional nos pleitos para vereador —de 41,9% dos votos, em 2008, para 45,1% em 2012. Nas eleições locais seguintes, realizadas poucos meses após o impeachment da presidente petista, a direita deu um novo salto.
Entre 2012 e 2016, o campo amplificou significativamente sua votação nacional para prefeito (de 29,8% a 37,7%) e vereador (de 45,1% a 52,6%), projetando o realinhamento do sistema na eleição crítica de 2018.
A pesquisa revela, portanto, como o desempenho dos campos ideológicos nas competições locais encontra-se articulado às votações nas eleições proporcionais para Assembleias Legislativas e Câmara dos Deputados, nas eleições majoritárias estaduais (governador e senador) e nas disputas presidenciais.
Chama atenção, ainda, para os distintos desdobramentos dos movimentos promovidos por cada ciclo no plano subnacional, evidenciando diferenças marcantes entre eles. Enfatiza-se, por exemplo, a maior congruência observada entre a votação dos campos nas eleições municipais e gerais durante o novo ciclo da direita.
Vale notar que o fenômeno teve lugar antes ainda da proibição das coligações nas eleições proporcionais, evidenciado pela expressiva articulação entre a proporção estadual de votos recebidos por cada campo nas eleições para vereador em 2016 e seu desempenho em 2018.
A despeito das relações personalistas e das idiossincrasias das disputas nesse plano, o trabalho evidencia que as eleições municipais são capazes de oferecer um entendimento sistêmico a respeito da política brasileira, captando, no seu agregado, a tendência ideológica das competições seguintes.
A partir do desempenho da esquerda, do centro e da direita em 2020, o barômetro local alimenta algumas conjecturas sobre a competição presidencial deste ano.
O que as últimas disputas municipais foram capazes de sinalizar? Os efeitos da pandemia e o refluxo da Lava Jato parecem ter redefinido as balizas do eleitorado, reconectando-o às legendas tradicionais. Com a valorização da experiência dos competidores, predominou a reeleição dos prefeitos (63%). Onde havia propaganda eleitoral pela TV, os vitoriosos contaram com forte presença nessa plataforma, ofuscando o papel das redes sociais.
Ampliou-se, em 2020, o contingente de votos da direita, chegando a 59,2% nos pleitos para vereadores e a 54,3% nas competições por prefeituras. No entanto, ocorreu uma mudança importante no interior desse campo: uma nítida recuperação dos partidos tradicionais que haviam sido atropelados pela ascensão de outsiders em 2016 e 2018.
Para os adversários de Bolsonaro, o barômetro local oferece uma clara percepção. Mais do que em qualquer momento anterior, esquerda e centro, em declínio desde o pleito de 2016, dependerão do eleitorado da direita para serem vitoriosos neste ano. A quantidade de votos que conseguirem subtrair à órbita bolsonarista selará o destino da eleição.
A regularidade observada na série de oito competições presidenciais na Nova República, de 1989 a 2018, pesa contra esquerda e centro na disputa de 2022. Nunca o espectro ideológico que chegou ao Planalto nesse período deixou de crescer nas eleições municipais imediatamente anteriores.
Ainda que PT e PSOL tenham sido os únicos da esquerda que conseguiram interromper em 2020 a queda na votação de prefeitos e vereadores, os números petistas permanecem muito distantes dos de 2012, quando a esquerda atingiu seu melhor desempenho em pleitos locais desde o fim da ditadura. Ainda assim, como já se desenhava naquela disputa a guinada da direita, Dilma Rousseff foi reeleita por margem apertada na corrida presidencial de 2014.
A necessidade de uma efetiva coordenação transversal entre lideranças de diferentes espectros não é um fato novo. Candidatos de direita chegaram à Presidência duas vezes praticamente sozinhos (1989 e 2018), mas o fizeram em eleições críticas.
Por sua vez, o centro só teve êxito quando competiu associado à direita (em 1994 e 1998), assim como foi necessária uma aliança esquerda-direita para Lula e o PT chegarem ao poder, em 2002.
Ademais, além da vitória nas urnas, e não menos importante, restará sempre a questão da governabilidade. E, no Congresso que se vislumbra com base na eleição de 2020, a bancada da direita dificilmente terá peso muito menor do que hoje.
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